A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

POBRES DOS NOSSOS RICOS

A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos.
Mas ricos sem riqueza.
Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. ou que pensa que tem.
Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos "ricos".
Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros.
É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
Necessitavam de forças policiais à altura.
Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia.
Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade.
Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem (...)

MIA COUTO

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Texto que nos chegou...

.
LÓBIS MINAM A DEMOCRACIA
Deputados Vítimas das Máquina Instaladas


António Justo

A influência dos grupos de pressão (Lóbis) está cada vez mais presente nas antecâmaras do poder (ministros e políticos). Só nas salas de visitas da Comissão Europeia em Bruxelas, segundo imprensa alemã, são avaliados em cerca de 15 a 20 mil lóbistas (lóbis) profissionais e em Berlim cerca de 5.000. Interesses organizados procuram influenciar as decisões políticas e económicas.

A pressão dos representantes de interesses de agremiações é de tal ordem na feitura das leis e na concessão de encargos que, por vezes, põe em questão a legitimação política. Ao contrário dos lóbis americanos, os lóbis portugueses e doutros estados europeus ainda não se encontram regulamentados. Naturalmente que o Estado não pode ignorar a importância dos lóbis. O que a sociedade não pode é comportar-se como se eles não existissem. As suas comunicações são muito importantes para governos e deputados. São porém informações de interesses organizados muitas vezes contrários ao bem-comum.

A decisão livre e objectiva de deputados torna-se cada vez mais difícil e é muitas vezes dificultada pelos próprios governos. Também estes organizam os seus grémios e comissões de peritos à margem da generalidade dos deputados. Organizam, por tudo e por nada, comissões de “peritos” matando assim com uma só cajadada dois coelhos: influência dos resultados e dar pão ao padeiro do partido. Os deputados vêem-se obrigados a aprovar, por vezes sem verdadeiro conhecimento de causa, o que as comissões de “peritos” lhe apresentam para legitimar.

A política torna-se cada vez mais tecnocrata numa sociedade reduzida a máquina de peças cada vez mais prescindíveis ou desfuncionalizadas. Em nome dos peritos, a máquina do partido e dos poderes de pressão afirmam-se perante os deputados. Estes, indefesos, com demasiada música nos ouvidos e sem tempo para trabalho específico, tornam-se dependentes e decidem sobre questões de que não deveriam assumir responsabilidade. Para mal da democracia, os deputados ainda têm de obedecer à razão do partido e às suas determinações. Doutro modo é difamado como sujador do próprio ninho.

Naturalmente que hoje não é fácil governar…Políticos sérios confessam que estão dependentes da informação dos lóbistas de interesses organizados e dos peritos que para eles trabalham nos ministérios.

Na Alemanha há um banco de dados crítico que publica casos de lóbis sob a direcção www.keine-lobbyisten-in-ministerien.de. É uma tentativa de defesa duma sociedade civil.

Não haveria nada a objectar contra as posições dos lobiistas se estas fossem públicas e englobadas no processo da discussão pública. Naturalmente que em todas as formas de governo só caça quem tem armas. Isto pode ser triste mas é a pura realidade. Os caçadores apostam na caça que descansa!...

O problema é que mesmo a caça mais atenta não conta com os cães dos caçadores!

Ulrich Müller, chefe da LobbyControl na Alemanha constata: “só a liga Indústria Química Europeia (CEFIC) tem mais colaboradores em Bruxelas do que todas as organizações do ambiente juntas”.

O trabalho dos lóbis deve ser tornado público e transparente se não queremos uma democracia minada. Uma democracia participativa pressupõe que todas as associações de interesses sejam ouvidas e não apenas as mais poderosas, que à socapa se impõem. Ulrich Müller e a sua associação exigem o registo obrigatório decretado “no qual se registem todos os lobiistas, independentemente de trabalharem para associações, empresas, agências, fábricas de pensamento ou chancelarias de advogados”.

Os lóbis podem ser de muito interesse para a sociedade desde que seja regularizado.O legislativo terá de actuar para que a influência de grupos de interesse se torne transparente e as decisões de poder público não sejam determinadas por interesses privados.

Naturalmente que os grupos de pressão se sentem legitimados perante um sistema de democracia que parece só conhecer o partido em desfavor da vontade cívica. Só um cidadão consciente possibilitará e poderá tornar-se garante duma sociedade mais democrática.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Clara Ferreira Alves, artigo demolidor

O MUNDO DE SÓCRATES. Falam assim Pacheco Pereira, António Barreto, Mário Crespo, Medina Carreira, e bastantes mais com credibilidade no que resta deste País.

Para que não nos envergonhemos perante os nossos filhos e netos, temos de fazer muito para virar esta situação (por Clara Ferreira Alves)

Para quem ainda não leu, é desejável que o faça e mais desejável seria se servisse para que algum de nós, incluindo quem escreveu, tivesse a coragem de começar a "partir a loiça" toda.

Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo,
> dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos
> (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público
> acrítico, burro e embrutecido.
>
> Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril
> distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica - aos
> seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de
> gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a
> "prostituir-se" na sua dignidade profissional, a troco de participar nos
> roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais
> honesta que estes bandalhos.
>
> Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO
> PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos
> políticos e pelo poder judicial. Agora continua a ser o VERDADEIRO PODER mas
> senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os
> ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai
> continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura)
> desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação
> das Novas Oportunidades.
>
> Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio
> dos mafiosos.
>
> A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.
>
> Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito
> maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com
> isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do
> encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e
> pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros. Por
> uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final,
> assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo
> do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.
>
> Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada
> acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo
> e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.
>
> Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi
> crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa
> Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o
> que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes
> houve.
>
> Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de
> enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a
> verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma
> coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes
> são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.
>
> E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado
> de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores
> e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de
> notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a
> saber com toda a naturalidade.
>
> Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao
> primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da
> Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa e Benfica, da
> corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a
> Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas
> tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem
> acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados,
> muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente
> punidos?
>
> Vale e Azevedo pagou por todos?
>
> Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor
> Beleza com o vírus da sida?
>
> Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num
> parque aquático?
>
> Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes
> imputados ao padre Frederico?
>
> Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre
> Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
>
> Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi
> roubada do Instituto de Medicina Legal?
>
> Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e
> enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.
>
> No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém
> acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?
>
> As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da
> criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia
> espalha rumores e indícios que não têm substância.
>
> E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças
> desaparecida antes delas, quem as procurou?
>
> E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns
> menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu?
>
> Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.
>
> E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela
> reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários,
> políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?
>
> E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do
> grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?
>
> O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por
> causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.
>
> E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado
> doentes por negligência? Exerce medicina?
>
> E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho
> branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda,
> coxa e marreca.
>
> Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são
> arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.
>
> Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.
>
> Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as
> redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de
> crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre
> meninas ficaram sempre na sombra.
>
> Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças , de
> protecções e lavagens , de corporações e famílias , de eminências e
> reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.
>
> Este é o maior fracasso da democracia portuguesa
>
> Clara Ferreira Alves - "Expresso"

sexta-feira, 3 de julho de 2009

-"A jovem que calou o Mundo durante 5 minutos"

A minha amiga Ute Pferdehirt, de Bonn,na Alemanha, enviou-me o vídeo que se segue com pedido de divulgação.

Oiçam ou leiam atentamente e meditem !...





Publicado no blogue "Rosa-dos-Ventos"http://rosadosventos1.blogspot.com

sábado, 27 de junho de 2009

Onde tudo é possível...

É isto (this is it...):

«Esta é a mensagem que o pessoal docente da Escola Secundária de Pacific Palisades (Califórnia) aprovou unanimemente que deveria ser gravada no atendedor de chamadas da escola. Foi o resultado de a escola ter implementado medidas que exigiam aos alunos e aos pais que fossem responsáveis pelas faltas dos estudantes e pelas faltas de trabalho de casa. A escola e os professores estão a ser processados por pais que querem que as notas que levam ao chumbo dos seus filhos sejam alteradas para notas que os passem - ainda que esses miúdos tenham faltado 15 a 30 vezes num semestre e não tendo realizado trabalhos escolares suficientes para poderem ter uma nota positiva.
AQUI VAI A MENSAGEM GRAVADA:
Olá! Foi direccionado para o atendedor automático da escola. De forma a podermos ajudá-lo a falar com a pessoa certa, por favor ouça todas as opções antes de fazer a sua selecção:
- Para mentir sobre a justificação das faltas do seu filho, pressione a tecla 1
- Para inventar uma desculpa sobre porque é que o seu filho não fez oseu trabalho, tecla 2
- Para se queixar sobre o que nós fazemos, tecla 3
- Para insultar os professores, tecla 4
- Para saber por que razão não recebeu determinada informação que já estava referida no boletim informativo ou em diversos documentos que lhe enviámos, tecla 5
- Se quiser que lhe criemos a sua criança, tecla 6
- Se quiser agarrar, tocar, esbofetear ou agredir alguém, tecla 7
- Para pedir um professor novo, pela terceira vez este ano, tecla 8
- Para se queixar dos transportes escolares, tecla 9
- Para se queixar dos almoços fornecidos pela escola, tecla 0
- Se já compreendeu que este é o mundo real e que a sua criança deve ser responsabilizada e responsável pelo seu comportamento, pelo seu trabalho na aula, pelos seus tpcs, e que a culpa da falta de esforço do seu filho não é culpa do professor, desligue e tenha um bom dia!»

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ramalho Ortigão in As Farpas (1871)

Vede o que estamos sendo! Vede os homens que deitámos! Vede o país que fizemos e a sociedade que constituímos!

Principiamos por desconhecer a nossa missão na humanidade. A família enfraquece por toda a parte. O hospício dos expostos em Lisboa contava no primeiro dia do corrente mês de Outubro 15099 crianças repudiadas por seus pais. A roda dos expostos joga com outra roda na administração do país – a roda da lotaria. A lotaria sustenta a Misericórdia. O jogo protege a prostituição. A tavolagem adopta o bordel. E a mancebia abjecta da batota e do prostíbulo abençoada pelo Estado e acarinhada pelo país.

E nós vivemos nisto, nesta repulsiva podridão, complacentes, descuidados, felizes, dando a todo o mundo moral o espectáculo da maior degradação e da maior baixeza em que poder cair uma sociedade.

Na ciência, na literatura e na arte estamos estacados, imitando servilmente as obras de nossos pais, atestando a ignorância mais flagrante, esterilizados nas nossas faculdades inventivas, narcotizados pelo tabaco de que abusamos como nenhum outro país da Europa, sem uma ideia elevada, sem um pensamento generoso, sem uma voz, sem um grito, sem um gesto que penetre, esclareça e vibre este velho mundo devasso e tonto.

Na política a nossa história actual é a abdicação por inépcia de todos os foros e de todas as franquias de liberdade conquistadas pela geração que nos precedeu. Vede a representação nacional. 0 nosso parlamento tem muitos defeitos, mas todos eles procedem de um vício capital, irremediável, sem cura – a incapacidade intelectual para compreender o maquinismo do mundo moderno, perceber a lei das novas evoluções sociais, e debater com perfeito conhecimento do sistema da universalidade moral que nos governa os altos interesses do tempo a que pertencemos. Com menos eloquência, com menos ardor, com menos fé que em 1836 os actuais deputados da nação vivem ainda a equilibrar as velhas dúvidas pulverulentas e desengonçadas do estabelecimento do sistema parlamentar. No entanto no resto do mundo os acontecimentos científicos, sociais e políticos precipitam-se vertiginosamente , criando transformações que os antigos tempos não viam senão de uma gestação de séculos. Dentro de poucos anos a Itália unifica-se; a coroa de Roma cai da fronte do Papa; os Bourbons são expulsos da Espanha; os Bonapartes fogem da França; constitui-se o império alemão; a América emancipa os seus escravos; a Europa perfura o Monte Cenis e abre o canal de Suez; em Paris estala a revolução social que no primeiro dos seus relâmpagos abre um abismo de sangue; a classe operária agita-se por toda a parte, e o murmúrio, profundo como o do Oceano, que ela está fazendo na sombra, abala a confiança que tinha em si a propriedade e o capital, e obriga as classes médias, em cujo poder jaziam desde a revolução francesa os destinos da civilização, a lembrarem-se de que a realeza, o clero e a aristocracia tiveram sobre o mundo antigo, assim como a burguesia sobre o mundo moderno, o seu tempo de domínio; que uma lei histórica lhes arrancou o poder num momento, e que a hora do presente regime pode soar amanhã, assim como sucessivamente soou, irrevogável e fatal, a de cada um dos domínios que têm senhoreado a humanidade. Isto pondera-se, medita-se, discute-se em todos os parlamentos. Em Portugal sana-se a questão apagando as luzes e fechando à chave a sala das conferências democráticas. Têm os políticos portugueses alguma leve notícia do que se está passando no mundo? Ignoramo-lo. Os partidos avançados o que querem? Novas liberdades em uma Carta reformada e a máxima descentralização nos diferentes ramos da administração pública. Ora enquanto à liberdade está-se provando em cada dia que nem da que possuímos temos aprendido a usar. Enquanto à descentralização a civilização portuguesa pararia no dia em que a votassem. Quereis uma prova? Há distritos em que o número das escolas tem duplicado nos últimos anos; pois bem: o número dos alunos é igual ao do tempo em que as escolas eram de metade!

A verdade é que a civilização, bem como a liberdade, se não decreta. Só há um único meio de a alcançar: é merecê-la.

Há muito tempo que os governos portugueses, todos bem intencionados e honestos, longe de resistências, não encontram senão dedicações no espírito público; e não obstante vão caindo todos sucessiva e rapidamente. Sabeis por que caem? Caem simplesmente pela ignorância. E câmaras e câmaras sucessivas, tiradas de todas as condições e de todas as hierarquias sociais, não dão de si um grupo de homens com a capacidade intelectual precisa para firmar o poder.
Possam os nossos filhos reclamar a felicidade a que seus pais não têm direito, apresentando-se ao futuro com merecimentos que nós não podemos invocar! Suspensão de veemências e de ironias! Trata-se da infância. Não nos dirigimos aos políticos. Conversamos honrada e sinceramente contigo, leitor amigo, e contigo, leitora honesta; descansamos por uns momentos no chão as nossas armas para vos estendermos a mão.

Pesa sobre vós uma responsabilidade tremenda. No estado em que se acha a sociedade portuguesa a família é um duplo refúgio – do coração e do espírito.

A família é dos pouquíssimos meios pelos quais ainda é lícito em Portugal a um homem honrado influir para o bem no destino do seu século.

Querido leitor! o modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares teu filho. Consagra-te a ele. A educação pública é uma burla atrozmente vergonhosa. Não lhe entregues a criança que o destino te confiou. Educa-o tu. Se não souberes mais, procura pelo menos torná-lo forte, ensina-lhe a ler e a escrever, dá-lhe um ofício e fá-lo um homem de bem; ele de si mesmo se fará um sábio, se tiver de o ser. A ignorância tem isso de bom: que se desfaz aprendendo. A falsa instrução tem esta perfídia: não dá o ensino e inibe de o tomar.

Ramalho Ortigão, in As Farpas, Tomo VIII, 1871

sábado, 13 de junho de 2009

Fradique Mendes, a pele... o casaco, a palavra...

«Lisboa, Abril.

A E. STURMM, ALFAIATE

Meu bom Sturmm. – A sua sobrecasaca é perfeitamente insensata. Ali a tenho,
arejando à janela, nas costas de uma cadeira; e assenta tão bem nessas costas de pau,
como assentaria nas do comandante das Guardas Municipais, nas do Patriarca, nas de
um piloto da barra ou nas de um filósofo, se o houvesse nestes remos. Quero, pois,
severamente dizer que ela não possui individualidade.
Se V., bom Sturmm, fosse apenas um algibebe, embrulhando a multidão em pano
Sedan para lhe tapar a nudez – eu não faria à sua obra esta crítica tão alta e exigente.
Mas V. é alemão, e de Conisberga, cidade metafísica. A sua tesoura tem parentesco com
a pena de Emanuel Kant, e legitimamente me surpreende que V. não a use com a mesma
sagacidade psicológica.
Não ignora V., decerto, que ao lado da filosofia da história e de outras filosofias,
há ainda mais uma, importante e vasta, que se chama a filosofia do vestuário; e menos
ignora, decerto, que aí se aprende, entre tanta coisa profunda, esta, de superior
profundidade: que o casaco está para o homem como a palavra está para a ideia.
Ora, para que serve a palavra, Sturmm? Para tornar a ideia perceptível e
transmissível nas relações humanas – como o casaco serve para tornar o homem
apresentável e viável através das ocupações sociais. Mas é a palavra empregada sempre
em rigorosa concordância de valor com a ideia? Não, meu Sturmm.
Quando a ideia é chata ou trivial, alteia-se, revestindo-a de palavras gordas e
aparatosas – como todas as que se usam em política.
Quando a ideia é grosseira ou bestial, embeleza-se e poetiza-se, recobrindo-a de
palavras macias, afagantes, canoras – como todas as que se usam em amor.
Por outro lado, escolhem-se palavras de uma retumbância especial para reforçar a
veemência da ideia – como nos rasgos à Mirabeau – ou rebuscam-se as que pela
estranheza plástica ajuntam uma sensação física à emoção intelectual – como nos versos
de Baudelaire.
Temos pois que a palavra opera sobre a ideia, ou disfarçando-a ou acentuando-a.
Vai-me V. seguindo, perspicaz Sturmm?
Tudo isto se aplica exactamente às conexões do casaco com o homem.
Para que talham os alfaiates ingleses certas sobrecasacas longas, rectas, rígidas,
com um debrum de austeridade e ressudando virtude por todas as costuras? Para
esconder a velhacaria de quem as veste. Você encontra em Londres essas sobrecasacas,
nos meetings religiosos, nas sociedades promotoras da moralização dos pequenos
patagónios e nos romances de Dickens. E para que talham eles esses fraques audazes,
bem acolchoados de ombros, quebrados e cavados de cinta, dando relevo aos quadris –
sede da força amorosa? Para acentuar os corpos robustos e voluptuosos a que se colam.
Você vê desses fraques aos Lovelaces, aos caçadores de dotes e a toda a legião dos entretenus.
Disfarçando-o ou acentuando-o, o casaco deve ser a expressão visível do carácter ou do tipo que, cada um, pretende representar entre os seus concidadãos.
Quem lhe encomenda pois um casaco, digno Sturmm, encomenda-lhe na realidade
um prospecto. E nem precisa o alfaiate que aprofundou a sua arte, de receber a
confissão do freguês. As ligeiras recomendações que escapam, inquietas e tímidas, na
hora atribulada da «prova», bastam para que ele compreenda o uso social a que o cliente
destina a sua farpela... Assim, se um cavalheiro de luvas pretas, com uma luneta de ouro
entalada entre dois botões do colete, que move os passos com lentidão e reflexão, e, ao
entrar, pousou sobre a mesa um número do Jornal do Economista, lhe diz, num tom de
mansa reprovação, ao provar o casaco: «Está curto e justo de cinta» – V. deve logo
deduzir que ele deseja aquelas abas bem fornidas, flutuantes, que demonstram
abundância de princípios, circunspecção, amor sólido da ordem e conhecimento miúdo
das pautas da Alfândega... Vai-me V. penetrando, bom Sturmm?
Ora, que lhe murmurei eu, em mau alemão, ao provar a sobrecasaca infausta? Esta
fugidia indicação: «Que cinja bem!» Isto bastava para V. entender que eu desejava,
através dessa veste, mostrar-me a Lisboa, onde a ia usar, sinceramente como sou –
reservado, cingido comigo mesmo, frio, céptico e inacessível aos pedidos de meias
libras... E, no entanto, que me manda V., Sturmm, num embrulho de papel pardo? V.
manda-me a sobrecasaca que talha para toda a gente em Portugal, desgraçadamente: a
sobrecasaca do conselheiro!
Digo «desgraçadamente» – porque vestindo-nos todos pelo mesmo molde, V.
leva-nos todos a ter o mesmo sentir e a ter o mesmo pensar. Nada influencia mais
profundamente o sentir do homem, do que a fatiota que o cobre. O mais ríspido profeta,
se enverga uma casaca e ata ao pescoço um laço branco, tende logo a sentir os encantos
dos decotes e da valsa; e o mais extraviado mundano, dentro de uma robe de chambre,
sente apetites de serão doméstico e de carinhos ao fogão.
Maior ainda se afirma a influência do vestuário sobre o pensar. Não é possível
conceber um sistema filosófico com os pés entalados em escarpins de baile, e um
jaquetão de veludo preto forrado a cetim azul leva inevitavelmente a ideias
conservadoras.
Você, pondo no dorso de toda a sociedade essa casaca de conselheiro, lisa,
insípida, rotineira, pesabunda – está simplesmente criando um país de conselheiros!
Dentro dessa confecção banalizadora e achatante, o poeta perde a fantasia, o dândi
perde a vivacidade, o militar perde a coragem, o jornalista perde a veia, o crítico perde a
sagacidade, o padre perde a fé – e, perdendo cada um o relevo e a saliência própria, fica
tudo reduzido a esse cepo moral que se chama o conselheiro! A sua tesoura está assim
mesquinhamente aparando a originalidade do país! Você corta, em cada casaco, a
mortalha de um temperamento. E se Camões ainda vivesse – e V. o vestisse – tínhamos
em lugar dos Sonetos, artigos do Comércio do Porto.»

(Cartas Inéditas de Fradique Mendes)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

É para esta vergonha civilizacional que caminhámos e nela patinaremos -

- uma inconsciência consciente, onde as falta de respeito e egoísmo acontecem sobre seres que nem sequer nados ainda são.

«Aumento substancial do número de bebés prematuros

«Entre 2001 e 2007, o número de bebés prematuros em Portugal Continental aumentou mais de 59%, questão associada a diversos factores segundo indicou a responsável pela organização do primeiro congresso sobre bebés prematuros, Sandra Antunes. O número de partos prematuros aumentou 59,3% em oito anos, devido a factores de diversa ordem. A organizadora do evento que decorre esta sexta-feira em Lisboa sublinha, no entanto, que muitos foram os avanços da ciência que hoje permitem que estes bebés que tenham maior esperança de vida bem como um crescimento normal.
Alguns dos factores apontados por Sandra Antunes para explicar o aumento do número de bebés prematuros prendem-se com o facto de existirem cada vez mais mães hipertensas, «partos após os 35 anos, deslocamento da placenta».
Para além destes factores, a organizadora do primeiro congresso sobre bebés prematuros refere ainda o estilo de vida actual como agente que exerce uma forte influência no parto prematuro, avança a TSF».
Possível diálogo pós-moderno:
"- Um filho dá muito trabalho... deixamos de ter vida própria...
- Mas não é um filho o prolongamento de nós, um dos pouco sentidos para a nossa existência?
- Não sei, dá muito trabalho...
- Se me dissesses que é por causa do estado do mundo e, acima de tudo, devido ao futuro nublado que adivinhamos, ainda aceitaria, mas tudo bem, tu lá sabes...
- ..."

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Paradoxos

1. Reflexos das conjunturas vividas ou resultado de antagónicos ou diferentes pontos de vista, as ideias que defendemos muitas vezes são reféns das posições que essa mesma razão implica.
Praticamente ninguém aceita ou gosta de ser confrontado com as incoerências próprias. Poder-se-á dizer que tal é humano. Tão comummente humano que é quase compreensível.
O trabalho executado pela presidência portuguesa na União Europeia teve resultados e não foram quaisquer proveitos. As negociações realizadas, que conduziram à assinatura do Tratado de Lisboa, não foram simples e o bom termo das mesmas só nos enchem de orgulho. Pelo menos a alguns de nós. Afinal, como diz o adágio popular, não se pode agradar a gregos e troianos.
Claro que os bons resultados cedo deixam de ser notícia. O que agora anda na boca do mundo é a problemática quanto à realização de um referendo, através do qual a população se pode manifestar. Por um lado, e até um certo ponto, é admissível que aqueles que defendem posições diferentes do Governo utilizem os mesmos meios para se fazerem ouvir. Não é o marketing para todos? Por outro, é inquestionável que a ratificação parlamentar, que os titulares de cargos públicos manifestamente preferem, reacende a questão da distância entre eleitores e eleitos e até que limite estes verdadeiramente representam aqueles.
2. Devido à interligação global, como deverá ser o mundo dividido? Em zonas geopolíticas ou em zonas geoeconomicas?
A organização política do mundo actual, particularmente a da civilização ocidental, é determinada pelo Estado nascido da Revolução Industrial. Ora, o Estado, tal como o conhecemos, há muito que está em crise e declínio. Já não consegue provir os fins para que foi criado, devido a duas situações que caracterizam as democracias ocidentais: primeiro, assim que um candidato é eleito, o seu próprio bem-estar passa a ser a sua primeira prioridade. Em segundo lugar, os grupos de pressão ou lobbies, pela sua acção na defesa dos seus interesses, provocam desvios na condução das políticas sociais governamentais fazendo que com estas percam a perspectiva do bem-estar de toda a sociedade. Consequentemente, o poder do Estado foi depauperado com o aparecimento de agentes sociais que, se por um lado, ao assumirem responsabilidades que lhe pertencem, o ajudam, pelo outro, ao roubar-lhe autoridade, o enfraquecem.
Por causa da revolução tecnológica que vivemos, que está a ter o duplo efeito de provocar o colapso das indústrias e do modo de vida, ao mesmo tempo que os substitui por outros completamente novos, o mundo está a mudar e a actual estrutura do Estado apenas subsiste devido à resistência do poder político. Considerando os elementos, social, económico e político do Estado, é precisamente este última que mais resiste e ignora esta mudança, continuando a agir como se o mundo fosse o mesmo. A resistência à mudança é um instinto humano, mas pior do que resistir à mudança é não aceitá-la e, consequentemente, não se preparar para ela, porque a mudança é inevitável. Por isso, o poder político não poderá continuar a ter este tipo postura sob risco de não se adaptar à evolução tecnológica e civilizacional, o que terá efeitos negativos no todo da sociedade.

3. A amplitude de mudança que se nota no dia-a-dia vê-se em situações tão simples como esta. Antes dos avanços tecnológicos que nos proporcionaram, entre outros, os telemóveis, quando se ligava para alguém a primeira pergunta que colocávamos era: Quem fala? Hoje, a pergunta é: Onde estás?
Mas esta mobilidade não deixa de ser aparente, uma vez que a tecnologia também nos deu a virtualidade. Viajar sem nos movermos é outras das possibilidades modernas. Infelizmente, no que respeita às relações sociais, a virtualidade, que para alguns é um verdadeiro santuário existencial, pois aí podem criar vidas que são completamente opostas às reais, provoca a perda de contacto com o semelhante e da vida em sociedade. Logo, e não menos absurdamente, o globo poderá vir a ser composto por mundos individuais dentro das conexões da globalização.
Será que o indivíduo acabará por também se distanciar do seu próprio mundo?

sábado, 21 de junho de 2008

Outra Bolada, do Belo

Existem três fenómenos em volta da "bola" que, aparentemente, correm em sentidos contrários; são esses os principais eixos, julgo eu, que mais contribuem para a formação das perspectivas daquilo que é, hoje em dia, um jogo de duplo tabuleiro, a nível desportivo e a nível negocial, ambos intrincadamente fundidos, e ainda ambos cumprindo o seu radical pendor de identidade, de risco, de impresibilidade e de expectativa, que veiculam as emoções, e das quais não escapam as próprias extremadas atitudes face ao fenómeno: por um lado, a diabolização do futebol e de seus intervenientes, acrescida sempre dos respectivos diminuidores juízos de valor sobre quem o aprecia; por outro lado, o endeusamento dos neogladiadores, heróis em calções e de botas espinhudas, a leviana e cega identificação idólatra de símbolos com significações bastante pueris e a paixão e a fé que quase sobrehumanamente são dirigidas a bandeiras que a tão pouco conduzem.
É assim, balizados por estas duas antagónicas atitudes (muito redutoramente aqui apontadas), que se cruzam e fintam os três fenómenos que no início referi, são eles: a intelectualidade vs futebol (o vice-versa é jogado mais na linha da indiferença), a intelectualização do futebol ( inclui os chamados filósofos da bola, treinadores de bancada e os sacerdotes das pregações de análise ritualística do fenómeno desportivo - todos estes, das duas uma, ou nunca levaram umas bolas a brincar, o que poderá revelar sintomas de uma preocupante infância, ou então estão ainda ressentidos por terem sido sempre os últimos a serem escolhidos para a equipa do bairro ou da escola, isto no melhor dos casos, quando não havia jogadores a mais) e, last but not least, a futebolização do intelecto (quem de vez em quando presta atenção ao desenrolar da política nacional e aos discursos que vão sendo postos em campo, já conhece um bom exemplo, mas, quem disso anda também alheado, tem aqui, no estilo deste texto também um exemplo, embora não tão bom).
Mas, o resultado real, e é de realidade e não de alienação que aqui se trata, as três estratégias - ou estilos nos casos mais espontâneos - giram em volta do mesmo esférico, apenas diferindo na posição que tomam na área. Ou seja, se, por via de um exercício de imaginação, conseguíssemos, neste momento, supor que um superior castigo nos retirasse esse esquivo brinquedo, julgo que, aquilo a que iríamos assistir, não seria a ocupação desse vazio por um qualquer espontâneo boom de apaixonado interesse por outras espécies de bens culturais e sociais; esse lugar seria mais rapidamente substituído, talvez, por um disco, sticks e patins, do que por poesia, filosofia e movimentos sociais, isto porque essas "funções", destes diferentes tipos de manifestação cultural, são distintas, não transferíveis, nem substituíveis, para outras de natureza diferente; podem ser complementares ou seguir em caminhos paralelos, mas umas não anulam as outras, pois, como diz o provérbio xintoísta, "todos os homens têm coração, cada coração tem a sua própria inclinação", e o ânimo não suporta passar fome.
E assim presto homenagem a um dos craques da poesia portuguesa, que na equipa da Faculdade de Letras jogou a defesa-central, onde ganhou fama como "sarrafeiro", ao mesmo tempo que, no papel, preparava alguns dos mais sensíveis e inspirados lances de poesia do século XX, assim como, por entre traduções de Saint-Exupéry, Garcia Lorca, Marc Ferro, H.I. Marrou, Blaise Cendrars e Montaigne, era capaz de perder grande parte do seu santo tempo em leituras de jornais desportivos. Aqui fica.

Portinari, "Futebol", 1935
"Quer-nos parecer que começa a ser tempo de o intelectual ou o artista irem perguntando a si próprios por que motivo o público que lhes falta esgota lotações dos estádios, num país dubdesenvolvido do Ocidente ou numa república popular, pelo maduro prazer de assistir, durante noventa minutos, às aparentemente loucas correrias de um punhado de homens atrás de uma caprichosa bola de couro."
Ruy Belo, Futebol e jornais desportivos têm muito público...Porquê?, in A Bola, 6-Jan-1972
"(...) - Acha que a poesia não pode, ou melhor, não deve ser ambígua, difícil, mas sim clara, fácil?
- A poesia é por natureza difícil. Como o futebol. Desculpe a alusão. Mas não é descabida. POrque é que eu leio muitos jornais desportivos? Porque os nossos maiores jornalistas são Alfredo Farinha, Carlos Pinhão, Aurélio Márcio - (...)"
Ruy Belo, in A Senda da Poesia


PORTUGAL FUTURO
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
e lhe chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raíz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
Ruy Belo, Palavra(s) de Lugar, in Homem de Palavra(s)