A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Gibraltar e Olivença, vidas paralelas

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No ano 1704, as tropas inglesas (aliança austríaca) que participam na guerra civil espanhola -conhecida como de "sucesión" ocupam Gibraltar, (foram 15 anos de guerra civil e redução do PIB espanhol e capacidade produtiva num 25%) a guerra continuou depois do tratado de Utrech sem forças exteriores até fins do1715).

Portugal envolvera-se também nesta guerra com tropas e dinheiros em apoio do Bourbon aspirante (filipe de Anjou, apoiado pelo seu avó Luis XIV). Com pacto segredo, se ganhar o Bourbon, ia ter em compensação: O território que se corresponde ao triângulo que na zona do Tejo se introduz em Portugal (zona toda de cultura lusófona na altura) e outras zonas de fronteira historicamente vinculadas a Portugal -lugares de língua portuguesa) e ademais alguns lugares fronteiriços na Galiza.

Ganhada a guerra pelo Bourbon, num estilo muito espanhol de cumprir pactos, quando sabe que nom estam em condiçoes de lhos fazer cumprir, disse: disso...nada.

Em 1713 assina-se o tratado de Utrecht, e espanha cede entre outras cousas Gibraltar a perpetuidade a Inglaterra. Os moradores de Gibraltar som conhecidos pelo apelativo de (lhanitos- nome com o que continuam, e que é comum com os do Puerto de Santa Maria).

Inglaterra, respeita em Gibraltar os títulos e méritos espanhois.
Garante o culto católico nas igrejas e em espanhol.... etc. etc.
e em mais de 300 anos de ocupação não há nenhum decreto, norma, ordem ou portaria, que proíba o uso da língua espanhola, ou proibição ao seu ensino e cultivo, ou que lhe coloque alguma limitação. Isso todavia com longos períodos de isolamento respeito do resto peninsular, imposto pelos espanhois, o que deu lugar a repovoação com imigrantes extra-peninsulares.

Hoje em Gibraltar todo o mundo fala inglês, mas praticamente todo o mundo lhanito fala em andaluz (variante dialectal espanhola muito distinta da norma padrão castelhana), quando o primeiro ministro da Roca fala para qualquer meio espanhol ou tv, fai-no numa língua que para os espanhóis é indistinguível da dos moradores do Puerto de Santa Maria. (Eu tive de colegas a uns de Gibraltar em Londres, e era simpático ver como usavam o espanhol da Andaluzia e o inglês indistintamente entre eles, nas cousas menos formais sempre em espanhol).

Olivença é ocupada na logo chamada guerra das Laranjas em 1801; em 1803 assina-se um tratado sob forte coação onde Portugal cede Olivença, mais na convenção de Viena -novo tratado- da-se o fim legal da ocupação.
Segundo o modelo espanhol e a sua seriedade, esse tratado segue sem se cumprir.

- A 20 de Fevereiro de 1805, foi decidido suprimir toda e qualquer escola portuguesa de Olivença, bem como o ensino do Português. (Olivença quando da sua ocupaçom, era a vila mais populosa da actual estremadura espanhola superando por ex. a vizinha Badajoz)

- A 14 de Agosto de 1805, as actas da Câmara Municipal passaram a ser escritas obrigatoriamente em Castelhano, o que fez uma vítima: Vicente Vieira Valério. Este, negando-se a escrever na Língua de Cervantes, teve de ceder o lugar a outro. E acabou por morrer à mingua de recursos, personificando um drama cujo desenvolvimento foi frequente para muitos oliventinos.

- As Escolas privadas continuaram a ministrar ensino em Português, até que são fechadas a 19 de Maio de 1813, com o propósito (oficial) "de evitar qualquer sentimento patriótico lusitano".

-Mas, porque eram muitos os oliventinos que queriam que os seus filhos fossem educados na língua materna, continuaram a existir professores particulares para o fazer. O "Ayuntamiento" não hesitou, e proibiram-se "as aulas particulares, sob pena de multa de 20 Ducados", em 1820.

- Em 1840, trinta e nove anos após a ocupação espanhola (recorde-se: efectuada em 1801), o Português foi proibido em Olivença, inclusivamente nas Igrejas, proibidos os padres de usarem o português.

- A partir de 1853 estabelecerom-se coimas para quem fosse apanhado na rua falando português.

Política racista e de despreço aos falantes de português, minorização, segregação. Chegarem as gentes a sentir a palavra português como despreço e insulto.

Ninguém aguarde que o presidente da Càmara de Olivença ou de Talega, se vai poder exprimir para os meios portugueses na língua de Camões, nem quer nem sabe.

eis um bom exemplo para berrarmos "Viva o iberismo" ou ilusismo

Alexandre Banhos

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Foi você que pediu uma união ibérica?




Deu algum brado a publicação de uma sondagem esta semana, realizada pela Universidade de Salamanca, segundo a qual um terço dos espanhóis e 40% dos portugueses defendem a criação de uma federação ibérica de Estados.

Há sondagens que só nos fazem sorrir, tal o seu despropósito: como uma outra que nos “garantia” que o Bush era mais popular do que o Obama…

Sei que há muitos portugueses completamente descrentes do futuro de Portugal. Grande parte deles pagaria até para ter nascido num qualquer outro país...

Compreendo até que quem reduz a Pátria ao País e este ao Estado não se importasse grandemente de viver no Estado Espanhol. Pelo menos, teria mais regalias sociais…

Agora, 40%? No lo creio

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Partidos recusam a questão de eventual federação ibérica

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Um terço dos espanhóis e 40% dos portugueses defendem a criação de uma federação ibérica de Estados, conclui um estudo realizado pela Universidade de Salamanca. A hipótese é, no entanto, recusada pelos partidos políticos que duvidam mesmo da credibilidade do estudo que se baseia em 876 perguntas telefónicas realizadas entre Abril e Maio.

João Teixeira Lopes, do Bloco de Esquerda, reconhece que "do ponto de vista cultural e geográfico não existe descontinuidade com Espanha" adiantando que a separação dos países se "fez por vontade política". Considera que a questão da federação "não se coloca hoje em dia" e adianta como explicação dos resultados "o facto de as pessoas estarem descontentes com a actual situação e existir uma imagem positiva de Espanha na opinião pública portuguesa".

Já o eurodeputado socialista Capoulas Santos frisa que "não acredita nos resultados do estudo", adiantando não se perceber em que "sentido se fala numa federação". Lembra que Portugal tem 900 anos de história enquanto a Espanha, tal como a conhecemos, tem apenas cerca de 450 anos. Para Capoulas Santos, o "máximo de entendimento entre Portugal e Espanha deve ser obtido dentro da UE".

Também Telmo Correia, do CDS, não dá grande credibilidade ao estudo adiantado que "caso a pergunta fosse expressamente sobre a questão da nacionalidade os resultados seriam seguramente muito diferentes". O deputado frisa que a questão da federação política não faz qualquer sentido", e que não se entende em que moldes foram colocadas as questões".

Albano Nunes, do PCP, refere que "a questão das relações entre Portugal e Espanha e, em particular, das relações entre os povos da Península Ibérica é questão demasiado importante e carregada de história para ser objecto de considerações apressadas, sobretudo quando estão em causa questões tão sérias e delicadas como a do federalismo ibérico".

Fonte: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1320798

quarta-feira, 29 de julho de 2009

El 40% de los portugueses apoya una unión política con España

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La unión política entre España y Portugal es una idea que divide a los portugueses y causa indiferencia en España. El 39,9% de los ciudadanos del país vecino es partidario de integrarse con España en una federación, mientras que la mayoría de los españoles expresan su desinterés cuando se les plantea la propuesta, según una encuesta de la Universidad de Salamanca que fue presentada este martes en la sede de la Secretaría General Iberoamericana en Madrid. El 30,3% de los españoles apoyaría la creación de una unión ibérica.

Fonte: http://www.elpais.com/articulo/internacional/portugueses/apoya/union/politica/Espana/elpepuint/20090728elpepuint_12/Tes

Também noticiado no "Público".

domingo, 17 de agosto de 2008

Três Perguntas e Respostas sobre o Iberismo


Nesta época de globalização galopante e aparentemente imparável, em que as fronteiras nacionais são cada vez mais permeáveis a influências culturais e económicas, fará ainda sentido temer a integração de Portugal em Espanha? Haverá ainda razão para defender uma posição “nacionalista” num mundo e numa Europa em que todos os nacionalismos se diluem cada vez mais numa eurocracia cada vez mais distante e mecanizada? Numa Europa que se quer cada vez mais “Europa das Regiões” devemos temer a integração de Portugal nas “Espanhas” sediadas em Madrid ou uma versão actualizada do “Império de Castela”?

Não existe uma resposta única a este conjunto tríplice de perguntas. E de facto, existe uma resposta dentro da mente de cada um de nós. E esta resposta vai mudando de matiz, consoante o tempo vai percorrendo o seu caminho, as mentalidades se vão lentamente mudando e a própria pressão do ambiente vai variando. Mas nesta mudança constante, existem indícios que o presente já nos deixa entrever e que nos podem esclarecer quanto ao apuramento de algumas respostas a estas três questões:

Fará Ainda Sentido Temer a Integração de Portugal em Espanha?

O mundo de hoje é radicalmente diferente daquele em que viveram os nossos antepassados. Não quer isto dizer que devemos, ou podemos, fazer tábua rasa de tudo aquilo que a História nos ensinou, e o facto de muitas civilizações não terem aprendido com o passado, haveria de as precipitar precocemente na bruma da História. São as civilizações com menos capacidade memorizante, aquelas que menos perduram e aquelas cujo domínio global é mais frágil. Se Roma haveria de ceder aos bárbaros fá-lo-ía não porque as suas hostes eram menos numerosas ou aguerridas do que as legiões romanas, mas porque estas – perdido o seu sentido anímico e dispersas por um Império mais extenso do seria suportável e sustentadas por um edifício financeiro depauperado – se haviam esquecido das virtudes bucólicas e simples dos velhos romanos recordados por Catão. A História e a memória da História servem assim de fio de Ariadne que levam de geração em geração um Passado que congrega e conflui as gentes para um sentimento de Cultura única e diversa da de outras gentes. Nestes tempos em que as paragens mais distantes do mundo estão apenas à distância de um clique de rato de computador, e em que a aculturação anglo-saxónica é cada vez mais imperativa por via do predomínio das televisões sobre a distribuição de Cultura e Conhecimento em quase todos os lares começam a surgir dúvidas sobre a capacidade de – a prazo – continuarem a sobreviver Culturas distintas, autónomas o bastantes para serem reconhecidas enquanto tal. Portugal, um anão estabelecido à beira de um gigante, a Espanha, tem que saber resistir na sua diferença não só contra estas energias centrípedas da Globalização anglo-saxónica, mas também contra o dinamismo económico e a grandeza geográfica e demográfica de uma Espanha que nunca como hoje esteve tão próxima de Portugal. Dado o carácter descentralizado da monarquia espanhola, estar-se-ão a criar condições para que esta força atractiva seja forte o bastante para levar Portugal a uma crescente subalternização e, enfim, a uma aglutinação até se tornar numa Região de Espanha, com características idênticas às da Euskaria, da Galiza ou da Catalunha? Não vemos sinal de tal. Ainda que economicamente a presença de balcões de bancos e de lojas de retalho espanholas seja evidente nas grandes avenidas das maiores cidades portuguesas, na verdade a presença espanhola em Portugal é relativamente menos importante, por forte que possa ser, do que a força da influência de Espanha nas mentalidades e cultura portuguesa.

Haverá ainda razão para defender uma posição “nacionalista” num mundo e numa Europa em que todos os nacionalismos se diluem cada vez mais numa eurocracia cada vez mais distante e mecanizada?

Esta Europa caminha rapidamente para a plena concretização do mundo sonhado pelos líderes das grandes multinacionais e gisado pelo Grupo de Bilderberg.

Numa Europa que se quer cada vez mais “Europa das Regiões” devemos temer a integração de Portugal nas “Espanhas” sediadas em Madrid ou uma versão actualizada do “Império de Castela”?

Conclusão: Portugal, Espanha e o Brasil

Findo que foi o Ciclo do Mar, com o regresso de Luanda e de Lourenço Marques das últimas caravelas, Portugal regressou ao mesmo mundo do Velho do Restelo que defendia as crianças e as mulheres abandonadas pelos seus maridos que partiam. Trocou-se, enfim, o apelo do Mar pelo chamamento da Terra. E nessa Terra, temos Espanha. Sempre muito mais “continental” que o atlantista Portugal e expressão última do apelo da Terra. De facto, esta anti-tese esquizofrénica Terra-Mar não é ignorada pelos próprios contemporâneos do período aúreo dos Descobrimentos.

Portugal e o Brasil estão unidos por muitas semelhanças e destinos comuns. Portugal cumpriu aquele imenso feito que Agostinho da Silva não se cansava de sublinhar que era o de ter sido capaz de resistir ao ímpeto centralista de Castela e de se ter mantido independente numa Espanha que sacrificava uma após outra todas as independências a favor de um centro “imperialista” mais ou menos aglutinador, consoante as épocas e períodos históricos. O Brasil, por sua parte, cumpria outro milagre, idêntico e paralelo ao de Portugal: o de se manter uno e coeso, resistindo à pressão de se dissolver numa constelação de vários países de língua portuguesa e de, simultaneamente saber resistir à mesma aglutinação que Espanha tentou lançar sobre Portugal ao resistir à pressão de alguns dos seus vizinhos sul americanos mais belicistas. Milagres e feitos opostos, ambos nascidos de fonte portuguesa, mas diametralmente opostos: um afirmando a diferença pela espantosa União (o Brasil), o outro afirmando a mesma diferença pela espantosa resiliência numa Península aglutinada em torno de Castela (Portugal).

O Brasil foi também o refúgio de muitos daqueles que viam o seu Portugal esmorecer e reduzir-se a uma dócil periferia e a um canal de transmissão para as doutrinas centralistas e materialistas produzidas nos e para os povos germânicos e que em Portugal haveriam de redundar no “Capitalismo de Estado” de Dom Manuel e nos múltiplos e sucessivamente mais intenso Pogroms anti-semitas. Hoje, que os fluxos migratórios de Portugal para o Brasil estancaram, que África já não é o último refúgio e a última Utopia a refundar algures num planalto elevado, Portugal está forçado a confrontar-se com a inevitabilidade geográfica da presença numa Península onde a “Espanha” mais do que assumir como seu o nome “Hispânia” se assume como o pólo económico que atraí todas as autonomias “espanholas” ao qual é impossível fugir. Agora, mais do que nunca o problema do “Iberismo” é especialmente actual e é por esta razão que o tema depois de uma relativamente longa hibernação tornou a ser agudamente actual.

O problema do Iberismo não é novo em Portugal. Mas só agora, em pleno século XXI o problema é especialmente agudo, e, sobretudo, incontornável. Porque hoje e não antes? Certamente que as liberalizações mercantis da Globalização e a Organização Mundial de Comércio (OMC) são parte importante da questão, assim como a crescente mutação da Comunidade Económica Europeia (CEE) numa Federação não-referendada com sede em Bruxelas. Mas acreditamos que o principal factor reside no súbito “regresso à Europa” ocorrido em 1975, após a Descolonização. Depois do abandono do Marrocos com o abandono da maioria das praças marroquinas com Dom João III, depois do “Desastre do Oriente” com a retirada dos portugueses das praças da Índia no século XVII, depois da independência do Brasil no século XIX e da retirada precipitada do “Ultramar português” em 1975, Portugal reduzido enfim à sua original condição europeia era finalmente forçado a reconhecer que tinha uma fronteira terrestre extensa e exposta a uma das maiores entidades estatais europeias: a Espanha. Se hoje o debate em torno do “Iberismo” ocorre com inusitada energia, tal deve-se sobretudo à evaporação de todas os ramos e extensões de Portugal pelo mundo, um processo lento, mas sistemático que nos deixou, por fim, frente a frente com o vizinho ibérico e finalmente sujeitos a termos que o encarar de frente e a colocar a nós próprios a questão da viabilidade da nossa existência enquanto país soberano e independente.

Os anos vindouros serão os anos do Terceiro Mundo. A China começa a bater os Estados Unidos na produção industrial. A Índia já se transformou numa das maiores potencias mundiais no âmbito das tecnologias de informação e o Brasil é já actualmente a grande agro-potencia do mundo. A Velha Europa e a América do Norte, sua extensão – como bem indicava Agostinho – caminham lenta mas inexorávelmente para o Ocaso e Portugal, se quiser tomar alguma parte no destino futuro das coisas deve reencontrar no Atlântico a sua História do Futuro, no regresso às suas origens, exiladas em Seiscentos no Brasil e aqui frutificadas nos Trópicos. Portugal, se quiser continuar a ser Portugal e manter algum tipo de identidade numa Europa decadente que cedo ou tarde acabará num processo autofágico e destrutivo terá que saber tornar Portugal brasileiro, ou o Brasil português, pouco importa a matiz ou vertente da equação.

O Iberismo, entendido na sua forma “saramaguiana”, enquanto união política entre Portugal e Espanha, pela transformação ou downgrade de Portugal numa região autónoma de Espanha, tem contudo uma grande dificuldade a ultrapassar. Tão grande como a diversidade geográfica do seu território, desde o húmido Minho, até ao mediterrânico Algarve, passando pelo seco Alentejo. Foi esta riqueza que dotou os portugueses da sua rara capacidade para sobreviverem nos climas mais diversos e adversos e que forjou aquela raça tropical que se haveria de tornar – depois de recebidos novos influxos de colonos europeus e de escravos africanos no brasileiro de hoje. É esta diversidade geográfica – rara na Europa – que contrasta com a continentalidade espanhola. É esta inclinação atlântica daquele herdeiro da “Ibéria Húmida” de Estrabão por oposição à “Ibéria Seca” que contrasta com esse aspecto continental de Espanha e são precisamente estas diferenças que fornecem hoje uma das maiores barreiras a qualquer tipo de integração ibérica que possa vir a ser imposta ou tentada a partir de Espanha sobre Portugal.

Este contraste dicotómico entre a Terra e o Mar, representado aqui pelo “Porto” do Graal (> Portugraal > Portugal) do escudo afonsino, recordado com mágoa sentida até em pleno período aúreo dos Descobrimentos quando Sá de Miranda lamenta o abandono da terra em troca dos “pardaus” que abundavam em certas casas de Cabeceiras de Basto é a mesma que resultou da decisão tomada por Dom Fernando primeiro, quando depois de aclamado como rei em Tui, recua e acaba por se reconciliar com o Pedro de Trastámara e, mais tarde, por Dom Afonso V, quando depois de batido na batalha de Toro e a causa da princesa Dona Joana. Por duas vezes os monarcas portugueses abandonaram a Galiza revoltada contra Castela à sua sorte. Esta quebra da confiança entre a perspectiva marítima e a terrestre de Portugal e um certo remorso de um lado, e um ressentimento subterrâneos dos dois lados da raia nortenha estiveram na raíz do sentimento de incompletitude de Portugal e dos portugueses, que se sentem “menores” ou “incompletos”, porque sentem de forma indefinidade e não-verbal a falta da metade do andrógino platónico, separado na época da gestação da nacionalidade, com a separação das duas partes de Portugaliza: Portugal, o aspecto marítimo e atlântico e a Galiza, aspecto terrestre e continental. Sem a terrestre Galiza faltava o esteio para sustentar o edifício que se enchia com as riquezas do Oriente e do Brasil, sem a Galiza, não se investiam nas terras e nas gentes e se bastava a dita em fátuas e inúteis vilanias e faustos. Sem a Galiza perdia-se Portugal. E sem Portugal, perdia-se a Galiza no seio do império de Castelo e num destino cinzento no meio de mais uma região entre várias de uma “Espanha” cada vez mais sujeita a Madrid e a Castela.

domingo, 20 de julho de 2008

Três Perguntas e Três Respostas sobre o Iberismo


(A Península Ibérica in http://enciclopedia.us.es)

Nesta época de globalização galopante e aparentemente imparável, em que as fronteiras nacionais são cada vez mais permeáveis a influências culturais e económicas, fará ainda sentido temer a integração de Portugal em Espanha? Haverá ainda razão para defender uma posição “nacionalista” num mundo e numa Europa em que todos os nacionalismos se diluem cada vez mais numa eurocracia cada vez mais distante e mecanizada? Numa Europa que se quer cada vez mais “Europa das Regiões” devemos temer a integração de Portugal nas “Espanhas” sediadas em Madrid ou uma versão actualizada do “Império de Castela”?

Não existe uma resposta única a este conjunto tríplice de perguntas. E de facto, existe uma resposta dentro da mente de cada um de nós. E esta resposta vai mudando de matiz, consoante o tempo vai percorrendo o seu caminho, as mentalidades se vão lentamente mudando e a própria pressão do ambiente vai variando. Mas nesta mudança constante, existem indícios que o presente já nos deixa entrever e que nos podem esclarecer quanto ao apuramento de algumas respostas a estas três questões:

1.Fará Ainda Sentido Temer a Integração de Portugal em Espanha?

O mundo de hoje é radicalmente diferente daquele em que viveram os nossos antepassados. Não quer isto dizer que devemos, ou podemos, fazer tábua rasa de tudo aquilo que a História nos ensinou, e o facto de muitas civilizações não terem aprendido com o passado, haveria de as precipitar precocemente na bruma da História. São as civilizações com menos capacidade memorizante, aquelas que menos perduram e aquelas cujo domínio global é mais frágil. Se Roma haveria de ceder aos bárbaros fá-lo-ía não porque as suas hostes eram menos numerosas ou aguerridas do que as legiões romanas, mas porque estas – perdido o seu sentido anímico e dispersas por um Império mais extenso do seria suportável e sustentadas por um edifício financeiro depauperado – se haviam esquecido das virtudes bucólicas e simples dos velhos romanos recordados por Catão. A História e a memória da História servem assim de fio de Ariadne que levam de geração em geração um Passado que congrega e conflui as gentes para um sentimento de Cultura única e diversa da de outras gentes. Nestes tempos em que as paragens mais distantes do mundo estão apenas à distância de um clique de rato de computador, e em que a aculturação anglo-saxónica é cada vez mais imperativa por via do predomínio das televisões sobre a distribuição de Cultura e Conhecimento em quase todos os lares começam a surgir dúvidas sobre a capacidade de – a prazo – continuarem a sobreviver Culturas distintas, autónomas o bastantes para serem reconhecidas enquanto tal. Portugal, um anão estabelecido à beira de um gigante, a Espanha, tem que saber resistir na sua diferença não só contra estas energias centrípedas da Globalização anglo-saxónica, mas também contra o dinamismo económico e a grandeza geográfica e demográfica de uma Espanha que nunca como hoje esteve tão próxima de Portugal. Dado o carácter descentralizado da monarquia espanhola, estar-se-ão a criar condições para que esta força atractiva seja forte o bastante para levar Portugal a uma crescente subalternização e, enfim, a uma aglutinação até se tornar numa Região de Espanha, com características idênticas às da Euskaria, da Galiza ou da Catalunha? Não vemos sinal de tal. Ainda que economicamente a presença de balcões de bancos e de lojas de retalho espanholas seja evidente nas grandes avenidas das maiores cidades portuguesas, na verdade a presença espanhola em Portugal é relativamente menos importante, por forte que possa ser, do que a força da influência de Espanha nas mentalidades e cultura portuguesa.

2.Haverá ainda razão para defender uma posição “nacionalista” num mundo e numa Europa em que todos os nacionalismos se diluem cada vez mais numa eurocracia cada vez mais distante e mecanizada?

Esta Europa caminha rapidamente para a plena concretização do mundo sonhado pelos líderes das grandes multinacionais e gisado pelo Grupo de Bilderberg.

3.Numa Europa que se quer cada vez mais “Europa das Regiões” devemos temer a integração de Portugal nas “Espanhas” sediadas em Madrid ou uma versão actualizada do “Império de Castela”?


Conclusão: Portugal, Espanha e o Brasil

Findo que foi o Ciclo do Mar, com o regresso de Luanda e de Lourenço Marques das últimas caravelas, Portugal regressou ao mesmo mundo do Velho do Restelo que defendia as crianças e as mulheres abandonadas pelos seus maridos que partiam. Trocou-se, enfim, o apelo do Mar pelo chamamento da Terra. E nessa Terra, temos Espanha. Sempre muito mais “continental” que o atlantista Portugal e expressão última do apelo da Terra. De facto, esta anti-tese esquizofrénica Terra-Mar não é ignorada pelos próprios contemporâneos do período aúreo dos Descobrimentos.

Portugal e o Brasil estão unidos por muitas semelhanças e destinos comuns. Portugal cumpriu aquele imenso feito que Agostinho da Silva não se cansava de sublinhar que era o de ter sido capaz de resistir ao ímpeto centralista de Castela e de se ter mantido independente numa Espanha que sacrificava uma após outra todas as independências a favor de um centro “imperialista” mais ou menos aglutinador, consoante as épocas e períodos históricos. O Brasil, por sua parte, cumpria outro milagre, idêntico e paralelo ao de Portugal: o de se manter uno e coeso, resistindo à pressão de se dissolver numa constelação de vários países de língua portuguesa e de, simultaneamente saber resistir à mesma aglutinação que Espanha tentou lançar sobre Portugal ao resistir à pressão de alguns dos seus vizinhos sul americanos mais belicistas. Milagres e feitos opostos, ambos nascidos de fonte portuguesa, mas diametralmente opostos: um afirmando a diferença pela espantosa União (o Brasil), o outro afirmando a mesma diferença pela espantosa resiliência numa Península aglutinada em torno de Castela (Portugal).

O Brasil foi também o refúgio de muitos daqueles que viam o seu Portugal esmorecer e reduzir-se a uma dócil periferia e a um canal de transmissão para as doutrinas centralistas e materialistas produzidas nos e para os povos germânicos e que em Portugal haveriam de redundar no “Capitalismo de Estado” de Dom Manuel e nos múltiplos e sucessivamente mais intenso Pogroms anti-semitas. Hoje, que os fluxos migratórios de Portugal para o Brasil estancaram, que África já não é o último refúgio e a última Utopia a refundar algures num planalto elevado, Portugal está forçado a confrontar-se com a inevitabilidade geográfica da presença numa Península onde a “Espanha” mais do que assumir como seu o nome “Hispânia” se assume como o pólo económico que atraí todas as autonomias “espanholas” ao qual é impossível fugir. Agora, mais do que nunca o problema do “Iberismo” é especialmente actual e é por esta razão que o tema depois de uma relativamente longa hibernação tornou a ser agudamente actual.

O problema do Iberismo não é novo em Portugal. Mas só agora, em pleno século XXI o problema é especialmente agudo, e, sobretudo, incontornável. Porque hoje e não antes? Certamente que as liberalizações mercantis da Globalização e a Organização Mundial de Comércio (OMC) são parte importante da questão, assim como a crescente mutação da Comunidade Económica Europeia (CEE) numa Federação não-referendada com sede em Bruxelas. Mas acreditamos que o principal factor reside no súbito “regresso à Europa” ocorrido em 1975, após a Descolonização. Depois do abandono do Marrocos com o abandono da maioria das praças marroquinas com Dom João III, depois do “Desastre do Oriente” com a retirada dos portugueses das praças da Índia no século XVII, depois da independência do Brasil no século XIX e da retirada precipitada do “Ultramar português” em 1975, Portugal reduzido enfim à sua original condição europeia era finalmente forçado a reconhecer que tinha uma fronteira terrestre extensa e exposta a uma das maiores entidades estatais europeias: a Espanha. Se hoje o debate em torno do “Iberismo” ocorre com inusitada energia, tal deve-se sobretudo à evaporação de todas os ramos e extensões de Portugal pelo mundo, um processo lento, mas sistemático que nos deixou, por fim, frente a frente com o vizinho ibérico e finalmente sujeitos a termos que o encarar de frente e a colocar a nós próprios a questão da viabilidade da nossa existência enquanto país soberano e independente.

Os anos vindouros serão os anos do Terceiro Mundo. A China começa a bater os Estados Unidos na produção industrial. A Índia já se transformou numa das maiores potencias mundiais no âmbito das tecnologias de informação e o Brasil é já actualmente a grande agro-potencia do mundo. A Velha Europa e a América do Norte, sua extensão – como bem indicava Agostinho – caminham lenta mas inexorávelmente para o Ocaso e Portugal, se quiser tomar alguma parte no destino futuro das coisas deve reencontrar no Atlântico a sua História do Futuro, no regresso às suas origens, exiladas em Seiscentos no Brasil e aqui frutificadas nos Trópicos. Portugal, se quiser continuar a ser Portugal e manter algum tipo de identidade numa Europa decadente que cedo ou tarde acabará num processo autofágico e destrutivo terá que saber tornar Portugal brasileiro, ou o Brasil português, pouco importa a matiz ou vertente da equação.

O Iberismo, entendido na sua forma “saramaguiana”, enquanto união política entre Portugal e Espanha, pela transformação ou downgrade de Portugal numa região autónoma de Espanha, tem contudo uma grande dificuldade a ultrapassar. Tão grande como a diversidade geográfica do seu território, desde o húmido Minho, até ao mediterrânico Algarve, passando pelo seco Alentejo. Foi esta riqueza que dotou os portugueses da sua rara capacidade para sobreviverem nos climas mais diversos e adversos e que forjou aquela raça tropical que se haveria de tornar – depois de recebidos novos influxos de colonos europeus e de escravos africanos no brasileiro de hoje. É esta diversidade geográfica – rara na Europa – que contrasta com a continentalidade espanhola. É esta inclinação atlântica daquele herdeiro da “Ibéria Húmida” de Estrabão por oposição à “Ibéria Seca” que contrasta com esse aspecto continental de Espanha e são precisamente estas diferenças que fornecem hoje uma das maiores barreiras a qualquer tipo de integração ibérica que possa vir a ser imposta ou tentada a partir de Espanha sobre Portugal.

Este contraste dicotómico entre a Terra e o Mar, representado aqui pelo “Porto” do Graal (> Portugraal > Portugal) do escudo afonsino, recordado com mágoa sentida até em pleno período aúreo dos Descobrimentos quando Sá de Miranda lamenta o abandono da terra em troca dos “pardaus” que abundavam em certas casas de Cabeceiras de Basto é a mesma que resultou da decisão tomada por Dom Fernando primeiro, quando depois de aclamado como rei em Tui, recua e acaba por se reconciliar com o Pedro de Trastámara e, mais tarde, por Dom Afonso V, quando depois de batido na batalha de Toro e a causa da princesa Dona Joana. Por duas vezes os monarcas portugueses abandonaram a Galiza revoltada contra Castela à sua sorte. Esta quebra da confiança entre a perspectiva marítima e a terrestre de Portugal e um certo remorso de um lado, e um ressentimento subterrâneos dos dois lados da raia nortenha estiveram na raíz do sentimento de incompletitude de Portugal e dos portugueses, que se sentem “menores” ou “incompletos”, porque sentem de forma indefinidade e não-verbal a falta da metade do andrógino platónico, separado na época da gestação da nacionalidade, com a separação das duas partes de Portugaliza: Portugal, o aspecto marítimo e atlântico e a Galiza, aspecto terrestre e continental. Sem a terrestre Galiza faltava o esteio para sustentar o edifício que se enchia com as riquezas do Oriente e do Brasil, sem a Galiza, não se investiam nas terras e nas gentes e se bastava a dita em fátuas e inúteis vilanias e faustos. Sem a Galiza perdia-se Portugal. E sem Portugal, perdia-se a Galiza no seio do império de Castelo e num destino cinzento no meio de mais uma região entre várias de uma “Espanha” cada vez mais sujeita a Madrid e a Castela.