A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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domingo, 21 de março de 2010

Presença de Yvonne Jean

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por Bruno Borges

“A mulher que escreve sente demais tais transes e presságios! Como se bicicletas e crianças e ilhas não bastassem;
como se carpideiras e faladeiras e legumes não bastassem nunca.
Ela julga que pode alertar estrelas.
Uma escritora é essencialmente uma espiã”.
(Anne Sexton, A magia negra)

A luta pelos direitos da mulher no Brasil, especialmente em Brasília, não pode deixar passar em branco a presença da eminente jornalista belga Yvonne Jean. É urgente lembrar de Yvonne Jean. Lembrá-la como pioneira, como exímia jornalista da coluna “O ensino dia a dia”, entre tantas outras. Mas é preciso, também, lembrá-la como curadora, como professora universitária da Universidade que, após o Golpe Militar, referir-se-ia como sendo a “ex-UnB”. Intelectual de várias faces, Yvonne Jean desenvolveu inúmeras atividades em Brasília e no Brasil, atividades que tentaremos reavivar.
É fundamental lembrar de sua luta pela mulher, pela mulher escritora, pela Arte e pela vida cultural em Brasília. Por essas e outras ainda vale a pena comemorar a história dessa cidade, das suas mulheres, em uma época em que apodrecem na vergonha nacional as festividades do cinqüentenário da capital.
Algumas pesquisas indicam que Jean foi gestora de uma das primeiras galerias de Arte de Brasília, fundada no início da década de 1960 . É de se cogitar a modernidade das obras que agenciara àquela altura. Boa parte dos artistas que integram a atual coleção da Caixa Econômica Federal — coleção composta na época da Constituinte de 1988 — foram difundidos e vendidos por Yvonne Jean no final da década de 1950 e início de 1960. Em inúmeras cartas a intelectuais e artistas brasileiros da época, a também tradutora e intérprete denunciava que: na nova capital, as pessoas que tinham dinheiro não entendiam de Arte ou, quando entendiam, não tinham dinheiro para investir. As coisas não mudaram muito 50 anos depois.
É de Yvonne Jean, por exemplo, a brilhante e inédita iniciativa de reunir em algo semelhante a uma cooperativa, o máximo da produção de artesãs. Produção não apenas da recém criada capital, como também ao seu redor, proporcionando encontros, em Brasília, de artistas locais e regionais. Foi uma das primeiras a propor e praticar o deslocamento da produção artística do eixo Rio-São Paulo, cumprindo a meta de se voltar para dentro do Brasil. Olhar para dentro e dar, ao menos um pouco, as costas ao litoral monopolista da época. Yvonne Jean foi também uma das primeiras, se não a primeira, a dar visibilidade a Goiás Velho, Pirenópolis, entre outras regiões do Cerrado que até então nunca haviam sido seriamente vistas como “patrimônio”. Ainda hoje o Cerrado é bioma pormenorizado pela Constituição Federal.
É de se estudar que as próprias noções de patrimônio material e imaterial mereçam ter em Yvonne Jean, em suas propostas, nas coisas que realizou, uma referência imprescindível, referência hoje fundamental para a História dos Museus e da Arte no Brasil. Para tais pesquisas, abundam manuscritos inéditos, por ela deixados e doados por seu filho João Luis ao Arquivo Público do Distrito Federal.
Com relação à cultura popular, podemos encontrar no Fundo Yvonne Jean diversos cursos sobre o assunto, pois este era tema do seu maior interesse, assunto ao qual se dedicou diariamente. Cultura popular: eis uma discussão frequente em suas reportagens, artigos e ensaios. Vale destacar a atenção que deu, há meio século, a manifestações como o boi-de-mamão catarinense, o bumba-meu-boi do Maranhão, bem como seus inúmeros apontamentos sobre tecelagens manuais, renda de bilros e outras artes tradicionais.
Autora de quatro livros de literatura infantil, Jean estabeleceu relações com figuras muito importantes da cena cultural, tanto nacional quanto internacional. Esteve próxima a diplomatas e poetas, tanto os consagrados pelas elites, quanto os populares, ditos “menores”. Foi a primeira a valorizar, junto a Agostinho da Silva (homem pelo qual tinha profunda admiração, tendo sido responsável pelas principais e primeiras documentações a respeito do nascimento do Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, o CBEP) Teodoro Freire como pioneiro bastião da cultura maranhense na nova capital. Após cerimônias de matança do boi, quando muitas vezes se organizava uma parelha para fazer-se um tambor de crioula, Yvonne Jean e Agostinho, entre tantos outros coreiros, repitiam a inesquecível toada:

“eu vou levantar bandeira
eu vou levantar bandeira
da cultura maranhense
na capital brasileira.”

Isso há 50 anos. Dispensa comentários o seu célebre artigo intitulado “A Capoeira Angola de Mestre Pastinha na Ladeira do Pelourinho”.
Trata-se de uma guerreira que aportou no Brasil ainda na década de 1940, mulher que, em diversos jornais impressos e revistas, bem como nos programas de rádio que realizou, defendeu e afirmou a identidade feminina nas suas mais plurais maneiras de ser. Porque o Ser só pode ser no plural . Belga de nascimento e, talvez por isso, extremamente cosmopolita no espírito — assim como Brasília — Jean analisou de maneira singular e pioneira o Código Civil Brasileiro em uma época em que a mulher casada era algo análogo a loucos, selvagens, e crianças .
Na mídia impressa, entre 1940 e 1970, Jean assinou colunas em inúmeros jornais como, por exemplo, “Você quer escolher uma profissão?” e “Mulher e a profissão” , “Presença da Mulher” , “Mulher e a política” . A jornalista protagonizou a luta por diversas causas da mulher, sendo digna de nota a série de reportagens que fez em defesa de tratamentos dignos nas prisões femininas . Cabe lembrar que Clarice Lispector também escrevia e militava pelas mulheres em jornais comuns aos que Jean escrevia.
Como afirma Alves Oliveira , Yvonne Jean “(...) ao ocupar o espaço público o fazia da forma mais temida e indesejada possível: sendo uma mulher comunista, intelectual, escritora, jornalista, promotora cultural, professora. Conseguiu reunir em si todos os perseguidos pela ditadura militar.”
Demitida da Universidade de Brasília e detida em 1964, Yvonne Jean foi presa duas vezes durante a década de 1970 devido às suas relações com o comunismo. Faleceu no início da década de 1980 por causa de complicações, entre outros fatores, motivadas por uma artrite violenta.
Fica aqui a nossa homenagem a esta refinada mulher: guerreira, erudita, simples, rica e militante. Inesquecível e crucial para a cena artística e intelectual do Brasil e de sua filha — Brasília — que completa, agora, meio século de vida.
É chegada a hora de resgatar o mel da terra!

Publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/03/presenca-de-yvonne-jean.html

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

PEDRO TEIXEIRA: Os índios chamavam-lhe o Homem Branco Bom e Amigo

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No dia 12 de Dezembro festejou-se o fim da expedição de Pedro Teixeira, o explorador português que subiu e explorou o rio Amazonas em 1639. Consta que era alto e robusto. "Curiuá-Catu", o Homem Branco Bom e Amigo, como lhe chamavam os Índios, foi homenageado em 10.12.09 no Senado brasileiro, com a presença de João Carlos Moura, Presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, de onde ele era natural, para que ninguém esqueça o que fez por Portugal e pelo Brasil. Nasceu em Cantanhede (Coimbra, Portugal) e faleceu em Belém do Pará, no Brasil, em cuja Catedral está sepultado.

Em Portugal, só há, na Ajuda, em Lisboa, uma estrada com o seu nome e em Cantanhede, onde nasceu, uma estátua. No Brasil, onde morreu a 6 de Junho de 1641, o seu rosto foi estampado nas notas de cinco cruzeiros e o Papa João Paulo II, em 1980, fez uma viagem entre Belém do Pará e Manaus num navio de guerra que tinha o seu nome. No final da sua vida foi nomeado capitão-mor do Grão Pará. Está sepultado na catedral de Belém.

"Curiuá-Catu", o Homem Branco Bom e Amigo, fez-se acompanhar dos seus amigos índios, numa expedição que partiu de Gurupá, a 28 de Outubro de 1637, com 2.000 mil pessoas (70 portugueses e o resto índios). Subiram os rios Amazonas e Negro e chegaram à cidade de Quito, actual capital do Equador, voltando a Belém do Pará 26 meses depois da partida (a 12 de Dezembro de 1639). O rio Amazonas passava, assim, a pertencer na sua totalidade a Portugal (então sob o domínio da Coroa espanhola). Um feito extraordinário para a época.

"Pedro Teixeira é um herói esquecido que precisa de ser recuperado", disse Aloizio Mercadante, o senador brasileiro que está a lançar um movimento para "resgatar a memória, reconhecer e valorizar a imensa contribuição" que este português de Cantanhede, teve na História do Brasil. A sessão de homenagem que se realizou no Senado Federal, em Brasília, para comemorar os 370 anos da expedição deste o "desbravador" português, partiu de uma proposta sua. Para o senador a contribuição daquele a quem chamam o conquistador da Amazónia, no processo de constituição e afirmação da soberania territorial, foi decisiva e deve ser celebrada por portugueses e brasileiros.

"A Pedro Teixeira se deve quase metade do nosso território actual. Mais de 62 por cento da Amazónia está em território brasileiro por causa dele", explicou, lembrando que a região, além de património da humanidade, tem a maior concentração de água doce do planeta e é a mais importante floresta tropical.

Agora que o Brasil "deixou de ser um problema na agenda internacional e passou a ser parte da solução", é possível que o país olhe para a sua história com "orgulho e auto-estima". E à medida que isso acontecer, acrescenta Mercadante, o Brasil terá obrigatoriamente de reconhecer a imensa contribuição de Portugal.

Pedro Teixeira era um militar que participou na fundação da cidade de Belém, a capital do estado do Pará, e que depois se destacou em várias missões militares, combatendo holandeses, ingleses e franceses.

Quando dois padres e quatro soldados espanhóis chegaram perdidos a Belém, com a novidade de que o rio Amazonas era navegável, o governador do estado do Grão-Pará e Maranhão pediu a Pedro Teixeira para organizar a expedição até Quito (na época parte do vice-reinado do Peru).

No regresso, com testemunhas espanholas, Teixeira regista a posse das terras para o reino de Portugal. "Como naquela época Portugal estava subordinado à Coroa espanhola, o livro que relata essa epopeia, em 1641 [Novo Descobrimento do Grande Rio Amazonas e a Viagem de Pedro Teixeira Águas Arribas, de Frei Cristobal d"Acuña] acaba sendo queimado e isso não foi valorizado nem pela historiografia portuguesa nem brasileira", explica o senador, que quer chamar a atenção para este "vulto histórico" que parece estar condenado ao esquecimento.

O seu nome não consta do Livro dos Heróis da Pátria (ou Livro de Aço) que está no Panteão da Liberdade e da Democracia Tancredo Neves, em Brasília, e nem sequer figura na lista de candidatos. Mercadante preparou um projecto de lei para que o nome de Pedro Teixeira seja inscrito neste Livro de Aço. Propõe também que a história da expedição do navegador português passe a fazer parte dos currículos escolares no Brasil. E em Portugal de que se está à espera?

A expedição de Pedro Teixeira era composta por 70 canoas (45 de grandes dimensões, com vinte remadores cada). Acompanhavam o explorador 70 soldados portugueses e 1200 índios, muitos deles "flecheiros" (arqueiros), que levaram as suas mulheres e filhos.

Teixeira (cuja data de nascimento se situa entre 1570 e 1585) era de ascendência nobre e foi para o Brasil em 1607, conta a autora do livro “A Expedição de Pedro Teixeira - A Sua Importância para Portugal e o Futuro da Amazónia” (ed. Ésquilo), a brasileira Anete Costa Ferreira, investigadora de ciências sociais e história luso-amazónica, esteve na sessão de homenagem em Brasília.

O navegador falava o tupi - língua com origem no povo tupinambá - e essa era uma das razões pelas quais era tão acarinhado pelos índios. "Sempre fez amizade com os índios, o que lhe valeu de muito", explicou aquela.

A descrição desta expedição chega até nós através de um documento que está na Biblioteca da Ajuda (Relazion del General Pedro Teixeira de el rio de las Amazonas para el Senhor Príncipe, 1639). "É o diário de bordo que Pedro Teixeira fez durante a viagem. Esse é o grande documento que o celebrizou e é um levantamento geral da fauna, da flora, do minério, dos costumes... Entra tudo o que ele foi vendo no seu trajecto", explica a investigadora. Incluindo os canibais.

Nessa grande expedição, Pedro Teixeira fixou uma série de territórios até então desconhecidos, como as ilhas das Areias ou Santa Luzia. Na viagem de regresso a Belém do Pará descobre o rio Negro (onde mais tarde se ergueu a cidade de Manaus) e o rio Madeira, um grande afluente do Amazonas.

Um dos feitos mais importantes da expedição é a fundação do povoado de Franciscana, oficializada a 16 de Agosto de 1639. Obedecendo às ordem do governador, Pedro Teixeira toma posse desse território, mas diz que o faz para a Coroa portuguesa (e não para a espanhola). Com a nova povoação, o navegador quis homenagear todos os missionários franciscanos.

Amazónia sem amazonas
No documento que se encontra na Biblioteca da Ajuda, Teixeira conta ainda que, tanto na ida como na volta da expedição do rio Amazonas, não viu as amazonas, mas, apesar de nunca se ter cruzado com elas, relata que lhe chegaram muitas notícias delas. Diz mesmo que estariam "a seis jornadas" do sítio em que se encontravam e que teriam 300 aldeias ou mais, com "quinhentos ou oitocentos casais" cada: "Aqui acabam-se as flechas furadas perigosas e, ainda que as haja por todo o rio, não matam como as do Sul", escreveu.

A documentação sobre este conquistador do Brasil é esparsa. "Em Portugal pouca coisa há", diz Anete Costa Ferreira, lembrando que o historiador Jaime Cortesão (também de Cantanhede) apresentou no IV Congresso de História Nacional no Brasil, em 1949, O significado da expedição de Pedro Teixeira à luz de novos documentos. Em 2002 foi realizado o documentário Curiua-Catu: A Grande Expedição de Pedro Teixeira 1637-1639, realizado por Carlos Barreto.

A “PT - Portugal Telecom” associou-se à homenagem no Senado Brasileiro, lançando o Prémio Pedro Teixeira para estudantes portugueses e brasileiros, dos 12 aos 18 anos. Os três melhores trabalhos sobre a vida e o impacto dos feitos de Teixeira na história de Portugal e do Brasil irão ter como prémio uma viagem cultural ao Brasil (se forem portugueses) ou a Portugal (se forem brasileiros). Será ainda lançado um site em português e inglês dedicado a perpetuar a memória deste grande explorador português.

Segundo consta, os Índios de Belém do Pará ainda hoje recordam e veneram Pedro Teixeira.

Quem pretender mais informação sobre “Curiá-Catu”, pode obtê-las através do seguinte link:
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/amazonia/pedro-teixeira.php.

Jorge da Paz Rodrigues

15-12-2009

sábado, 10 de outubro de 2009

" O coração de D. Pedro I, do Brasil, IV de Portugal "



O coração de D. Pedro encontra-se depositado na Igreja da Lapa numa urna cujas chaves estão oficialmente guardadas no Gabinete do Presidente da Câmara Municipal do Porto.
A urna onde se encontra o coração do monarca guerreiro, foi feita à imagem e semelhança da urna original, que também se encontra em exposição na Lapa, e que o transportou de barco desde Lisboa até ao Porto em 1835.

O coração é inspeccionado cada 10 anos, tendo a visita deste ano sido registada em vídeo onde se pode ver, perfeitamente, o coração.
Além do vídeo uma resenha histórica, em

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domingo, 4 de outubro de 2009

Às margens da História?

Eu estava a olhar as gaivotas pairando sobre os mastros dos navios... Vi as águas resplandecentes da Guanabara... Era cálida a luz do sol... Olhei firme o horizonte com a ânsia de voltar ao passado da mesma forma que podemos voltar a algum lugar... Mas, o tempo é uma sensação que passa e não volta, apenas fica na memória. E, talvez, a memória seja o melhor lugar para se preservar o tempo.
Seria inesquecível se eu pudesse voltar no tempo e encontrar-me com personagens históricos, conversar com eles e (quem sabe?) participar dos fatos marcantes de nossa História. Isso seria fisicamente impossível, porém, aventurei-me nas páginas da História para reencontrar o marujo negro João Cândido Felisberto. Marujo negro brasileiro forjado guerreiro sob as varas de marmelo da disciplina rígida da Marinha de Guerra do Brasil. Hipócrita Marinha que de marinheiro se olvidou, presa que estava a mentalidades alicerçadas em antigos modelos políticos, econômicos e culturais de séculos de abusos à humanidade do homem. Nas páginas dessa História brasileira, arcaica e preconceituosa, assinalam-se as lonjuras das disparidades sociais e oxalá não mais estejam nos mares de nossa futuridade.
As páginas da História nacional deixaram às margens a Revolta da Chibata e a estória de seu líder João Cândido no anonimato. Contudo, descobri em uma das prateleiras dos fatos históricos, um livro de cor escura com a imagem de dois marinheiros na capa, cujo título era João Cândido do Brasil e a Revolta da Chibata, de César Vieira. Ao folheá-lo, percebi que ali se alinhavava o motim dos marujos que reivindicavam melhores condições de trabalho e o fim dos castigos corporais, tecido em uma linguagem teatral. Logo nas primeiras páginas o livro afirmava que “(...) É inaceitável que o simples estudo dos acontecimentos dessa rebelião na Armada Brasileira seja, quase cem anos depois, motivo de proibição, censura, discriminação, preconceito e ódio.” Cada vez mais entretida, li admirada que “Os negros marujos de 1910 cortaram amarras, levantaram âncoras, içaram bandeiras e com seu exemplo tentaram nos passar bússolas... mas, infelizmente, continuamos sem rumo, à deriva.”
Lia atentamente e, de repente, as páginas começaram a aparecer em branco. Algo estranho estava acontecendo. Fechei o livro surpresa. Abri-o novamente. De súbito, tive a impressão de estar dentro de uma concha do mar, ouvindo o marulhar das ondas indo e vindo. As ondas espumavam, batiam nas pedras... O vento forte a zunir e a trazer a Mensagem salgada do mar, “a Magia que evoca/ O Longe e faz d’ele história./ E por isso a sua glória/ É justa auréola dada/ Por uma luz emprestada.”
Eu cedida ao mar de outrora. Fecharam-me os olhos. Sozinha em ilha indescoberta, meu corpo ficou leve como uma pena no ar. Inexplicavelmente, havia areia quente em mim. Ofuscada pela luminosidade do dia, vi-me deitada em uma praia. Assustada, levantei-me, olhei em volta... Lá estava o mar. O mesmo mar que permeou e delineou eventos fundamentais que constituíram a nação portuguesa ou como bem disse o Pessoa: “Deus ao mar o perigo e o abysmo deu” [mas] “nelle é que espelhou o céu.”. Mais ainda o Mar “É a Magia que evoca/ O Longe e faz d’elle história./ E por isso a sua glória/ É justa auréola dada/ Por uma luz emprestada.”
Viajei ao passado, lá exatamente onde João Cândido protagonizou, junto de muitos companheiros, a Revolta dos Marinheiros. Pude ver ao longe, em um navio, um homem amarrado pelas mãos e pés sendo açoitado nas costas enrubescidas de sangue, gritando, agonizando de dor enquanto toda a tripulação assistia ao repugnante espetáculo. A surra foi tão grande que o homem desmaiou e suas “costas assemelhavam-se a uma tainha lanhada para ser salgada”. Era Marcelino Rodrigues Menezes, que depois de levar 250 chibatadas, foi desamarrado, enrolado em um lençol e carregado para o porão. Provavelmente, jogaram iodo nas imensas feridas do homem e o deixaram debater-se convulsivamente no chão. Era o estopim da insurreição.
De novo senti como se estivesse com o ouvido encostado a uma concha. Percorri o tempo. Era noite, o céu estrelado. Estava a bordo do encouraçado Minas Gerais, o navio de Guerra mais moderno do mundo naquela época a tremular nas águas da Guanabara. Barulhos faziam-se ouvir, havia gritos e sinais de combate no convés. Escondi-me. Pude ver, então, João Cândido que encorajava os companheiros à luta.
João Cândido, um afrodescendente, filho de escravos, era um homem de lábios e sobrancelhas grossos, orelhas pequenas, bigode, cabelo curto e encarapinhado, corpo robusto. Aos treze anos tornou-se aprendiz de marinheiro e com pouco mais de vinte anos já era instrutor de aprendizes de marinheiro. Desde criança evidenciava ter um espírito de contestação; espírito este que aflorou ainda mais porque, durante uma viagem que fizera à Inglaterra para buscar navios mais modernos encomendados pelo Governo brasileiro, inteirou-se de uma realidade social na qual os marujos ingleses, mais organizados e politizados do que os brasileiros, conquistaram condições dignas de trabalho.
Depois de contemplar, admirada, o comportamento de João Cândido, detive-me na movimentação dos demais marinheiros. Cada um deles assumiu seu posto e os oficiais já estavam presos em seus camarotes. Cada canhão ficou guarnecido por cinco marujos, com ordem de atirar para matar contra todo aquele que tentasse impedir o levante. Houve algumas mortes. Entretanto, os marinheiros haviam vencido.
De súbito, senti o marulhar das ondas carregando-me tempo a fora. Vi-me em um local escuro, fétido, úmido. Era a masmorra da Ilha das Cobras... Ouvi vozes e passos. Andei um pouco, escondi-me em um vão da parede e coloquei-me a espiar. Vários marinheiros amontoavam-se pelo chão dentro de um cubículo, alimentando-se apenas de migalhas de pão e pouca água. Um barril de madeira servia para depositar os excrementos. Às vezes, os guardas jogavam água com cal a pretexto de desinfetar o ambiente. Identifiquei João Cândido escorado na parede pichada, tentando tranqüilizar os camaradas, alguns deles tão inchados que pareciam sapos; outros, de tanta sede, bebiam a própria urina. Vi estarrecida o corpo de um homem já putrefato a um canto. A todo movimento, nuvens de cal dissipavam-se e adentravam os pulmões dos brasileiros que ali estavam. Tudo isso já eram mostras da violação dos Direitos Humanos.
Aqueles homens apenas pediam o fim dos maus-tratos e da má alimentação na Marinha Brasileira e que depois da rebelião foram anistiados, mas tal direito, também, lhes foi insensivelmente violado. Naquele instante, lembrei-me de uma frase do filósofo Chopenhauer que diz que “o primeiro objetivo do indivíduo é sua própria conservação” e, quando ele sente que tal direito está sendo violado, ele age a fim de manter-se preservado. Foi isso que os marinheiros da Revolta da Chibata fizeram: reivindicavam suas necessidades vitais e, por isso, foram obrigados, de forma desumana, a iniciar uma busca desesperada por sobrevivência, jogados naquela masmorra pútrida. Lágrimas escorreram dos meus olhos e senti uma indignação tremenda pulsar dentro de mim, porém, outra vez, o som do mar carregou-me dali.
Agora eu estava na Praça XV onde ocorriam as descargas dos pesqueiros. Vi um homem com cerca de oitenta anos vendendo peixes. Era João Cândido. Fui até ele e disse-lhe que era um herói popular. Ele olhou-me e com um sorriso humilde, tocou-me levemente o ombro. Disse-me que apenas lutou pelo direito natural à vida. Infelizmente, não é todo ser humano que tem essa estima pela vida. Muitos ainda valorizam mais os bens materiais em detrimento de uma condição mais decente de vida. Mesmo assim, nada pode impedir que consolidemos e zelemos por nossa integridade física e moral, por nossa seguridade pessoal, por nossa liberdade, assim como fez Zumbi dos Palmares na época da escravidão.
Comecei a sentir meu corpo flutuar e, de novo, naveguei pelo tempo... Avistei um mar sereno. A brisa acariciava meus pensamentos. Eu estava no cais da Baía de Guanabara e o Almirante Negro, ao meu lado, segurava firme minha mão direita. Parados, fitávamos a linha na qual o céu parece juntar-se com o mar. Suspeitei que João Cândido pensasse assim: “Um dia o mundo inteiro saberá respeitar os Direitos Humanos. Tentei contribuir lutando em prol deles, resta agora cada um tomar consciência da importância dessa luta. Espero que a efetivação concreta dos Direitos Humanos não continue sendo uma utopia em nossa sociedade.”
Logo não ouvi mais o marulhar das ondas, mas sim a melodia de um samba que fazia palpitar meu coração e ritmar a memória. Uníssonas cantavam que “Há muito tempo nas águas da Guanabara/ O dragão do mar reapareceu/ Na figura de um bravo feiticeiro/ A quem a história não esqueceu/ Conhecido como navegante negro/ Tinha a dignidade de um mestre-sala (...)”. João Cândido foi tocado em versos... Versos censurados pela hipocrisia da Ditadura Militar que a partir de 1964 calou nossas canções e durante os vinte longos anos que fez ruflar os tambores da opressão, como a República Velha, atentou contra os Direitos Humanos.
O tempo passou... Mas o Almirante Negro, transformado em O mestre-sala dos mares, foi enredo de escola de samba, arrastando foliões à avenida para caírem na farra da “Glória às mulatas, aos piratas, às sereias/ Glória à farofa, à cachaça, às baleias”... Enfim, à “Glória a todas as lutas inglórias”... À dignidade inerente a toda pessoa humana e à igualdade entre todos os seres humanos. Como em um desfile carnavalesco no qual o mestre-sala vem à frente do cortejo defendendo o estandarte da escola de samba, João Cândido veio à frente da Revolta da Chibata para defender um estandarte maior: o dos Direitos Humanos. E semelhante ao Rei dos Palmares, é um Zumbi dos tempos modernos.
Ainda embaraçada pelo devaneio, despertei das páginas da História aquele Mestre-Sala dos Mares por tanto tempo adormecido pela Oficialidade de nosso país e até mesmo chamado por Gilberto Amado de “o negro que violentou a história do Brasil”. Decerto, o movimento que João Cândido liderou extinguiu os castigos corporais na Marinha Brasileira, entretanto, ele foi forçosa e desmerecidamente posto à margem de nossa História, vivendo pobre, esquecido, humilhado, apenas tendo “por monumento as pedras pisadas do cais”
Como não é possível encobrir para sempre as veracidades históricas que o tempo guarda porque ele mesmo se encarrega de imortalizar pessoas do feitio de João Cândido, percebo que é imprescindível conhecer nosso passado, perscrutá-lo para entender melhor e bem mais a nossa sociedade atual e poder ter a disponibilidade de tornar nosso futuro o mais decente e digno possível a todo homem indistintamente, pois, como disse Henry Ford, “dias prósperos não nascem por acaso; nascem de muita fadiga e muita persistência”.
Assim, devemos trazer para as páginas de nossa contemporaneidade o estandarte erguido pelo Almirante Negro: o estandarte dos Direitos Humanos. O estandarte da plenitude do homem em toda a sua Humanidade que sobre água brava ou serena seja futura-Idade do Espírito Santo. Afinal, o Quinto Império é a República Democrática e não é utópica. Faz-se tópica, porque é realizável e depende de cada um de nós fazê-la valer.