Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Sociedade sem classes, reino de Deus, anarquia, Quinto Império
- Agostinho da Silva, Pensamento em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p.355.
domingo, 13 de dezembro de 2009
"[...] a verdade / Que morreu D. Sebastião"
O Quinto Império
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.
Eras por eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
O poema “Quinto Império” permite aprofundar a interpretação do poema anterior. Começando pelas duas últimas estrofes, elas anunciam claramente um desenlace do sentido da passagem do tempo terreno e histórico como uma transição da “noite” para o “dia”, da treva para a luz, do negativo para o positivo (“atro” significa negro, tenebroso, lúgubre, aziago), ou melhor, como um pleno desentranhamento do “dia claro” que na funesta e “erma noite” já se enraíza e brota. Este processo é também uma passagem dos “quatro / tempos” de um estado onírico para um despertar, esse mesmo “dia claro” que acontecerá no “teatro” da “terra”. Os quatro tempos ou quatro sonhos passageiros e fugazes do “ser que sonhou” (um Deus sonhador ou o próprio homem?) são claramente os quatro impérios, os quatro momentos-figuras histórico-civilizacionais, que se destinam a ser superados pelo Quinto Império, na versão pessoana da interpretação pelo profeta Daniel do sonho de Nabucodonosor (Daniel, 2, 31-45) que se converteu num recorrente mito teológico-histórico-político ocidental, entre nós exaustivamente interpretado pelo Padre António Vieira. Esses quatro impérios, que configuram para Pessoa a génese histórico-cultural do último deles, a Europa, são pois estados oníricos, conotados com um regime obscuro de consciência, em que o “dia claro” não emergiu ainda plenamente da “erma noite” em que se enraíza e secretamente desponta. São por natureza fugazes e inconsistentes, tendo o destino de tudo o que é temporal: a evanescência e a dissolução, desaparecer sem deixar traços.
O que fica afinal, após os quatro tempos da noite e do sonho, senão o “dia claro” que já neles secretamente se desenvolvia? E o que é esse “dia claro” senão o Quinto Império, que desde Daniel é visionado e profetizado como universal e perene?. Mas o que é o Quinto Império para Fernando Pessoa? Veremos que tem vários sentidos, claramente apontados nos vários textos em prosa que lhe dedicou. Neste poema, contudo, sem contradizer esses outros sentidos e constituindo porventura a chave maior para a sua compreensão, o Quinto Império é sugerido como a “verdade / Que morreu D. Sebastião”. Importa pois saber o que seja esta “verdade”, que, apesar de não ser definida, não deixa de ser por sua vez sugerida como o tema das três primeiras estrofes do poema. Que existam as condições para se compreender do que se trata é aliás o que fica pressuposto na exortação e desafio final a que surja quem venha “viver” essa “verdade / Que morreu D. Sebastião”.
O poema começa por lamentar dois aspectos da comum condição humana. “Triste” é “quem vive em casa”, fechado na sua reclusão doméstica e “contente” com essa forma exígua de exercício das possibilidades humanas, sem que algo mais, “sonho” ou “golpe d' asa” (cf. Mário de Sá-Carneiro), o leve a transcender essa condição domesticada, tornando até mais viva a experiência disso que se abandona (“mais rubra a brasa da lareira a abandonar”), subtil indicação de que só vivemos plenamente aquilo de que nos libertamos. Triste é também “quem é feliz”, contente agora com a mera duração da vida a que adere vegetativamente, inconsciente de tomar por vida a própria morte, o estar já sepulto nessa mesma e extrema limitação das possibilidades humanas. Esta falsa felicidade, extremamente condicionada e vulnerável, resulta de nada haver no indivíduo que internamente o leve além da “lição da raiz”, que se pode interpretar como o (falso) saber comum dispensado pela família, pela escola e pelo meio social aos humanos, ou, mais fundo, como esse inquestionado e irreflectido enraizamento vegetal na mera duração da vida biológica, sancionado pelas convenções dominantes na família, na escola e na sociedade.
Após a lamentação das duas primeiras estrofes, onde, em termos terapêuticos, se faz o diagnóstico e a etiologia do estado mórbido em que se encontra o homem comum, a terceira estrofe indica o remédio, a via a seguir para que tal estado se supere, o que deixa implícita a possibilidade da saúde. Essa via passa por assumir o descontentamento, o inconformismo com a situação imediatamente vivida, como exercício de humanidade. É isso que permite que se cumpra o apelo final: domar “as forças cegas” pela “visão” que há na alma, porventura a mesma visão espiritual a que alude o título Mensagem: Mens ag(itat) (mol)em, a visão de que o pensamento/a inteligência/a mente impele/põe em movimento a massa(matéria)/multidão, o animado e o inanimado. A via a seguir para ressuscitar uma humanidade sepultada na vida vegetativa e convencional consiste, primeiro, em despertar o seu descontentamento com esse modo despotenciado e alienado de existência e, a seguir, inverter a situação, fazendo com que não sejam as forças inconscientes, ou tornadas inconscientes, dos instintos e pulsões de sobrevivência infra-humana, bem como dos hábitos mentais colectivos (familiares, escolares, sociais) que os reproduzem, a dominar a “alma”, a consciência, mas antes esta a subjugá-los, consciencializando-os, libertando-se deles e eventualmente orientando a energia neles investida para fins superiores. Isso é possível, note-se, “pela visão que a alma tem”, como se nisso se aludisse a algo, o poder da consciência, desde já presente na alma, ou seja, na vida interna do homem, porventura apenas inoperante na medida em que esteja encoberto pelos automatismos da “vida” vegetativa e convencional.
Todavia, a estrofe carece ainda de ser lida em função do que nela se acrescenta e da sua função de charneira que, no centro da composição, estabelece a ligação entre as estrofes anteriores e posteriores. No seu início refere-se o fluxo contínuo das “eras” que umas às outras se sucedem e destituem, desvanecendo-se na mesma passagem voraz do tempo. A impermanência das “eras”, enquanto períodos temporais, é claramente, na estrofe seguinte, a dos “quatro / Tempos do ser que sonhou”, destinados a passar cedendo o lugar ao “dia claro” que desde o início nessa mesma fugacidade temporal se enraíza, germina e cresce, até que surja plenamente no “teatro” da “terra”. Estes quatro “tempos” ou “eras” oníricas, em que se troca o real por uma ficção inconsciente de o ser, e que são os quatro impérios – Grécia, Roma, Cristandade, Europa – destinados a desvanecer-se e ser superados pelo Quinto, são pois os marcos da história do mundo em que predominam as “forças cegas” que tornam a vida vegetativa, convencional e defunta e que devem ser domadas “pela visão que a alma tem”. Esta manifesta-se assim idêntica ao “dia claro”, ao despertar dos quatro tempos do sonho, ao implícito Quinto Império e à enigmática “verdade / Que morreu D. Sebastião”. Resta saber o que é esta verdade, que fica desde já suposta como algo que transcende a impermanência universal que rege o tempo cósmico e a história político-civilizacional dos homens. É legítimo entretanto supor que ela também se relaciona com essa visão ampla que se diz na palavra Europa e que, pelo seu rosto-Portugal, fita/deseja esfíngica e fatalmente a sua morte e transcensão na alteridade do Ocidente/Oceano, esse “futuro do passado” (cf. o poema inicial da Mensagem) que já vimos ser irredutível a qualquer determinação temporal e histórico-geográfica. A “verdade / Que morreu D. Sebastião”, o Quinto Império, está demasiado comprometido com o despertar da ficção onírica e com a transcensão do movimento histórico para poder ser objectivado em qualquer coordenada espácio-temporal. Não o entender é ficar tristemente refém do tempo de ilusão que é o dos quatro impérios, o tempo da vida sepulta na funesta “noite” da consciência dominada pelas “forças cegas” que regem a visão comum, apegada ao seu enraizamento no irreal.
(texto em formulação e a continuar)
serpenteemplumada.blogspot.com
domingo, 4 de outubro de 2009
Às margens da História?
Seria inesquecível se eu pudesse voltar no tempo e encontrar-me com personagens históricos, conversar com eles e (quem sabe?) participar dos fatos marcantes de nossa História. Isso seria fisicamente impossível, porém, aventurei-me nas páginas da História para reencontrar o marujo negro João Cândido Felisberto. Marujo negro brasileiro forjado guerreiro sob as varas de marmelo da disciplina rígida da Marinha de Guerra do Brasil. Hipócrita Marinha que de marinheiro se olvidou, presa que estava a mentalidades alicerçadas em antigos modelos políticos, econômicos e culturais de séculos de abusos à humanidade do homem. Nas páginas dessa História brasileira, arcaica e preconceituosa, assinalam-se as lonjuras das disparidades sociais e oxalá não mais estejam nos mares de nossa futuridade.
As páginas da História nacional deixaram às margens a Revolta da Chibata e a estória de seu líder João Cândido no anonimato. Contudo, descobri em uma das prateleiras dos fatos históricos, um livro de cor escura com a imagem de dois marinheiros na capa, cujo título era João Cândido do Brasil e a Revolta da Chibata, de César Vieira. Ao folheá-lo, percebi que ali se alinhavava o motim dos marujos que reivindicavam melhores condições de trabalho e o fim dos castigos corporais, tecido em uma linguagem teatral. Logo nas primeiras páginas o livro afirmava que “(...) É inaceitável que o simples estudo dos acontecimentos dessa rebelião na Armada Brasileira seja, quase cem anos depois, motivo de proibição, censura, discriminação, preconceito e ódio.” Cada vez mais entretida, li admirada que “Os negros marujos de 1910 cortaram amarras, levantaram âncoras, içaram bandeiras e com seu exemplo tentaram nos passar bússolas... mas, infelizmente, continuamos sem rumo, à deriva.”
Lia atentamente e, de repente, as páginas começaram a aparecer em branco. Algo estranho estava acontecendo. Fechei o livro surpresa. Abri-o novamente. De súbito, tive a impressão de estar dentro de uma concha do mar, ouvindo o marulhar das ondas indo e vindo. As ondas espumavam, batiam nas pedras... O vento forte a zunir e a trazer a Mensagem salgada do mar, “a Magia que evoca/ O Longe e faz d’ele história./ E por isso a sua glória/ É justa auréola dada/ Por uma luz emprestada.”
Eu cedida ao mar de outrora. Fecharam-me os olhos. Sozinha em ilha indescoberta, meu corpo ficou leve como uma pena no ar. Inexplicavelmente, havia areia quente em mim. Ofuscada pela luminosidade do dia, vi-me deitada em uma praia. Assustada, levantei-me, olhei em volta... Lá estava o mar. O mesmo mar que permeou e delineou eventos fundamentais que constituíram a nação portuguesa ou como bem disse o Pessoa: “Deus ao mar o perigo e o abysmo deu” [mas] “nelle é que espelhou o céu.”. Mais ainda o Mar “É a Magia que evoca/ O Longe e faz d’elle história./ E por isso a sua glória/ É justa auréola dada/ Por uma luz emprestada.”
Viajei ao passado, lá exatamente onde João Cândido protagonizou, junto de muitos companheiros, a Revolta dos Marinheiros. Pude ver ao longe, em um navio, um homem amarrado pelas mãos e pés sendo açoitado nas costas enrubescidas de sangue, gritando, agonizando de dor enquanto toda a tripulação assistia ao repugnante espetáculo. A surra foi tão grande que o homem desmaiou e suas “costas assemelhavam-se a uma tainha lanhada para ser salgada”. Era Marcelino Rodrigues Menezes, que depois de levar 250 chibatadas, foi desamarrado, enrolado em um lençol e carregado para o porão. Provavelmente, jogaram iodo nas imensas feridas do homem e o deixaram debater-se convulsivamente no chão. Era o estopim da insurreição.
De novo senti como se estivesse com o ouvido encostado a uma concha. Percorri o tempo. Era noite, o céu estrelado. Estava a bordo do encouraçado Minas Gerais, o navio de Guerra mais moderno do mundo naquela época a tremular nas águas da Guanabara. Barulhos faziam-se ouvir, havia gritos e sinais de combate no convés. Escondi-me. Pude ver, então, João Cândido que encorajava os companheiros à luta.
João Cândido, um afrodescendente, filho de escravos, era um homem de lábios e sobrancelhas grossos, orelhas pequenas, bigode, cabelo curto e encarapinhado, corpo robusto. Aos treze anos tornou-se aprendiz de marinheiro e com pouco mais de vinte anos já era instrutor de aprendizes de marinheiro. Desde criança evidenciava ter um espírito de contestação; espírito este que aflorou ainda mais porque, durante uma viagem que fizera à Inglaterra para buscar navios mais modernos encomendados pelo Governo brasileiro, inteirou-se de uma realidade social na qual os marujos ingleses, mais organizados e politizados do que os brasileiros, conquistaram condições dignas de trabalho.
Depois de contemplar, admirada, o comportamento de João Cândido, detive-me na movimentação dos demais marinheiros. Cada um deles assumiu seu posto e os oficiais já estavam presos em seus camarotes. Cada canhão ficou guarnecido por cinco marujos, com ordem de atirar para matar contra todo aquele que tentasse impedir o levante. Houve algumas mortes. Entretanto, os marinheiros haviam vencido.
De súbito, senti o marulhar das ondas carregando-me tempo a fora. Vi-me em um local escuro, fétido, úmido. Era a masmorra da Ilha das Cobras... Ouvi vozes e passos. Andei um pouco, escondi-me em um vão da parede e coloquei-me a espiar. Vários marinheiros amontoavam-se pelo chão dentro de um cubículo, alimentando-se apenas de migalhas de pão e pouca água. Um barril de madeira servia para depositar os excrementos. Às vezes, os guardas jogavam água com cal a pretexto de desinfetar o ambiente. Identifiquei João Cândido escorado na parede pichada, tentando tranqüilizar os camaradas, alguns deles tão inchados que pareciam sapos; outros, de tanta sede, bebiam a própria urina. Vi estarrecida o corpo de um homem já putrefato a um canto. A todo movimento, nuvens de cal dissipavam-se e adentravam os pulmões dos brasileiros que ali estavam. Tudo isso já eram mostras da violação dos Direitos Humanos.
Aqueles homens apenas pediam o fim dos maus-tratos e da má alimentação na Marinha Brasileira e que depois da rebelião foram anistiados, mas tal direito, também, lhes foi insensivelmente violado. Naquele instante, lembrei-me de uma frase do filósofo Chopenhauer que diz que “o primeiro objetivo do indivíduo é sua própria conservação” e, quando ele sente que tal direito está sendo violado, ele age a fim de manter-se preservado. Foi isso que os marinheiros da Revolta da Chibata fizeram: reivindicavam suas necessidades vitais e, por isso, foram obrigados, de forma desumana, a iniciar uma busca desesperada por sobrevivência, jogados naquela masmorra pútrida. Lágrimas escorreram dos meus olhos e senti uma indignação tremenda pulsar dentro de mim, porém, outra vez, o som do mar carregou-me dali.
Agora eu estava na Praça XV onde ocorriam as descargas dos pesqueiros. Vi um homem com cerca de oitenta anos vendendo peixes. Era João Cândido. Fui até ele e disse-lhe que era um herói popular. Ele olhou-me e com um sorriso humilde, tocou-me levemente o ombro. Disse-me que apenas lutou pelo direito natural à vida. Infelizmente, não é todo ser humano que tem essa estima pela vida. Muitos ainda valorizam mais os bens materiais em detrimento de uma condição mais decente de vida. Mesmo assim, nada pode impedir que consolidemos e zelemos por nossa integridade física e moral, por nossa seguridade pessoal, por nossa liberdade, assim como fez Zumbi dos Palmares na época da escravidão.
Comecei a sentir meu corpo flutuar e, de novo, naveguei pelo tempo... Avistei um mar sereno. A brisa acariciava meus pensamentos. Eu estava no cais da Baía de Guanabara e o Almirante Negro, ao meu lado, segurava firme minha mão direita. Parados, fitávamos a linha na qual o céu parece juntar-se com o mar. Suspeitei que João Cândido pensasse assim: “Um dia o mundo inteiro saberá respeitar os Direitos Humanos. Tentei contribuir lutando em prol deles, resta agora cada um tomar consciência da importância dessa luta. Espero que a efetivação concreta dos Direitos Humanos não continue sendo uma utopia em nossa sociedade.”
Logo não ouvi mais o marulhar das ondas, mas sim a melodia de um samba que fazia palpitar meu coração e ritmar a memória. Uníssonas cantavam que “Há muito tempo nas águas da Guanabara/ O dragão do mar reapareceu/ Na figura de um bravo feiticeiro/ A quem a história não esqueceu/ Conhecido como navegante negro/ Tinha a dignidade de um mestre-sala (...)”. João Cândido foi tocado em versos... Versos censurados pela hipocrisia da Ditadura Militar que a partir de 1964 calou nossas canções e durante os vinte longos anos que fez ruflar os tambores da opressão, como a República Velha, atentou contra os Direitos Humanos.
O tempo passou... Mas o Almirante Negro, transformado em O mestre-sala dos mares, foi enredo de escola de samba, arrastando foliões à avenida para caírem na farra da “Glória às mulatas, aos piratas, às sereias/ Glória à farofa, à cachaça, às baleias”... Enfim, à “Glória a todas as lutas inglórias”... À dignidade inerente a toda pessoa humana e à igualdade entre todos os seres humanos. Como em um desfile carnavalesco no qual o mestre-sala vem à frente do cortejo defendendo o estandarte da escola de samba, João Cândido veio à frente da Revolta da Chibata para defender um estandarte maior: o dos Direitos Humanos. E semelhante ao Rei dos Palmares, é um Zumbi dos tempos modernos.
Ainda embaraçada pelo devaneio, despertei das páginas da História aquele Mestre-Sala dos Mares por tanto tempo adormecido pela Oficialidade de nosso país e até mesmo chamado por Gilberto Amado de “o negro que violentou a história do Brasil”. Decerto, o movimento que João Cândido liderou extinguiu os castigos corporais na Marinha Brasileira, entretanto, ele foi forçosa e desmerecidamente posto à margem de nossa História, vivendo pobre, esquecido, humilhado, apenas tendo “por monumento as pedras pisadas do cais”
Como não é possível encobrir para sempre as veracidades históricas que o tempo guarda porque ele mesmo se encarrega de imortalizar pessoas do feitio de João Cândido, percebo que é imprescindível conhecer nosso passado, perscrutá-lo para entender melhor e bem mais a nossa sociedade atual e poder ter a disponibilidade de tornar nosso futuro o mais decente e digno possível a todo homem indistintamente, pois, como disse Henry Ford, “dias prósperos não nascem por acaso; nascem de muita fadiga e muita persistência”.
Assim, devemos trazer para as páginas de nossa contemporaneidade o estandarte erguido pelo Almirante Negro: o estandarte dos Direitos Humanos. O estandarte da plenitude do homem em toda a sua Humanidade que sobre água brava ou serena seja futura-Idade do Espírito Santo. Afinal, o Quinto Império é a República Democrática e não é utópica. Faz-se tópica, porque é realizável e depende de cada um de nós fazê-la valer.
sábado, 4 de julho de 2009
Quinto Império 2
É um imperialismo de gramáticos? O imperialismo dos gramáticos dura mais e vai mais fundo que o dos generais. É um imperialismo de poetas? Seja. A frase não é ridícula senão para quem defende o antigo imperialismo ridículo. O imperialismo de poetas dura e domina; o dos políticos passa e esquece, se o não lembrar o poeta que os cante. Dizemos Cromwell fez , Milton diz. E nos termos longínquos em que não houver já Inglaterra (porque a Inglaterra não tem a propriedade de ser eterna), não será Cromwell lembrado senão porque Milton a ele se refere num soneto. Com o fim da Inglaterra terá fim o que se pode supor a obra de Cromwell, ou aquela em que colaborou. Mas a poesia de Milton só terá fim quando o tiver o homem sobre a terra, ou a civilização inteira, e, mesmo então, quem sabe se terá fim.
Fernando Pessoa, Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional, Ática, Lisboa: 1979, p. 90.