A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

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Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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quinta-feira, 19 de junho de 2008

RENASCIMENTO LUSITANO – EXEMPLO (POESIA)



LUSITÂNIA

O lobo chama. A geada cai. A Lua é negra.
Qual sentinela, o dólmen do cume aguarda
A primeira estrela. Que desperte o seu hóspede.
Que por uma noite mais a sua alma dance
Na planura em fogo como o torso de ferro
Na batalha! Outros deuses nasçam.
Todo o lugar é um lugar de crucificação.
A opressão de Impérios escolhe a morte,
Antes é o destino que a executa – o céu é livre.
Invictos os poderios do mundo e de Roma
Não silenciam a alma da pedra!





RUNA

Fogos no céu vestem de luz o elmo antigo
Que a torrente revelou. A terra é a urna,
A grande pedra em que a vida escreve.
Não morreste em vão, nem és sem nome,
Nobre guerreiro que o Inverno acorda.
Os ossos vencidos verão uma vez mais o dia,
O braço segura ainda a trágula, as vírias.*
A montada caiu a teu lado – a glória não.
Mesmo que a lama e a runa fechem.



Lord of Erewhon


* Trágula: dardo muito aguçado com ponta em forma de anzol; uma das armas mais frequentes entre os guerreiros Lusitanos; eram exímios quer em arremessá-la quer em lutar com ela corpo-a-corpo. Víria: bracelete usada pelos Lusitanos; quanto maior fosse o seu número, maior seria o valor do guerreiro na batalha; «Viriato», muito provavelmente, nem será um nome próprio, mas apenas o designativo de um guerreiro muito valoroso, «um chefe»; apraz-me acreditar que assim é… e que só os mortos conhecem o seu nome!

LHAÇO



Respira fundo. Lentamente, começa a vestir-se como quem se traja para o campo de batalha. Sente no sangue a herança dos antepassados e, quando, de lá de fora, lhe chegam aos ouvidos os sons dos bombos e das caixas, a serem afinados, e os gemidos das gaitas de foles que se preparam, a pele eriça-se-lhe num arrepio de antecipação. Cuidadosamente, desdobra e veste a imaculada camisa de linho. Enfia os três alvos saiotes com rendas, um de cada vez, cumprindo o ritual que viu desde criança aos homens que mais respeitava na aldeia. Com todo o cuidado, prende à cintura os coloridos lenços de seda, autênticas preciosidades seculares que lhe deixou o Avô, de quem herdou também a alcunha e a paixão. Calça as meias tricotadas pela Avó, sente como a lã lhe pica a pele, mantendo-o alerta. Gosta disso. Seguem-se as grossas botas de bezerro, que aperta com mão firme. É com cerimónia que enverga o colete enfeitado e coloca ao pescoço o lenço colorido. Por fim, o chapéu, decorado com flores e fitas de cor, cada uma com o seu simbolismo. Hoje sorri ao ver reflectida no espelho a cor amarela das fitas, a mais importante, a que representa o Rei, segundo a tradição da aldeia. Usar o amarelo é honraria que se reserva apenas aos que merecem, e ele, pela dedicação que sempre mostrou e pela bravura e intensidade com que se entrega, irá usá-lo e comandar os outros até um dia passar o testemunho. Pega nos bastões de rijo carvalho e nas castanholas negras, que ajusta e aperta entre os dedos. O guerreiro está pronto. Junta-se aos restantes. Com a cabeça, dá o sinal. Avançam.



Soa a gaita de foles: a ronca como base, com o seu som da entranha da terra, a melodia soprada e sentida pelo tocador. Nos minutos que se seguem, irá recriar-se a luta mítica do Bem contra o Mal, do Homem contra algo maior do que ele próprio. Poderá ver-se bater paus, saltar, rodopiar, atacar e defender, avançar e recuar em complexas coreografias. Em cada lhaço existirá entre-ajuda e bravura. O uníssono do final será exultação e exaltação, um verdadeiro baile triunfal. Quem assiste será invadido por um ruído forte, marcado, imponente, intimidatório, de afirmação de poder e demarcação de território: um ruído do princípio dos tempos. Irão sentir-se, inevitavelmente, as mais profundas raízes ibéricas. Respirar-se-á alma lusa.



[as danças de pauliteiros são dançadas] "atirando-se incessantemente pancadas rítmicas à cabeça, ao peito, às pernas, pela frente, pela rectaguarda, à direita, à esquerda, pancadas que o adversário desvia ou apara nos seus paus com perícia suma, saltando, para ferir o adversário, por cima da cabeça dos que o cercam, parando repentinamente em fila para dançar ao som das castanholas, que tocam, e recomeçando com a mesma brevidade o ataque, saltando ao ar ou em avanço, como para transpor obstáculo."

Abade de Baçal*



Fotos retiradas daqui e daqui.

* Chaves, L. (1942). “Danças, bailados e mímicas guerreiras”, in Ethnos, Vol II, Lisboa, Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia, p.21