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Livro relata abandono de portugueses presos pelo MPLAMuitos portugueses raptados e presos pela MPLA em 1975 foram abandonados por Portugal, que sabia destas operações, sustenta o livro "Ficheiros Secretos da Descolonização de Angola" da jornalista Leonor Figueiredo a lançar na sexta-feira.
"Angola foi abandonada com muitos portugueses, que ficaram numa situação incrível. Muitos meses antes da independência, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) já governava à sua vontade, raptava e prendia portugueses pelos seus próprios motivos políticos", declarou Leonor Figueiredo.
A independência de Angola ocorreu em 11 de Novembro de 1975.
"Descobri que as vítimas da descolonização em Angola têm nomes e perfazem um número e, mesmo assim, só dei conta da ponta do iceberg", disse a autora.
Leonor Figueiredo, 52 anos, encontrou uma relação oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal com 263 portugueses desaparecidos e outras dezenas de pessoas presas em Angola e anexou a lista ao seu livro.
'Ficheiros Secretos da Descolonização de Angola', publicado pela Alêtheia Editores, traz depoimentos de pessoas raptadas e presas pelo MPLA em prisões clandestinas e relatos de familiares de portugueses desaparecidos no período pré e pós-independência do país africano.
Segundo a autora, "estes portugueses ficaram presos dois ou três anos sem acusação", acrescentando que as autoridades, os militares e os vários governos portugueses estavam ao corrente mas nada denunciavam à comunidade internacional.
"Isso é uma das coisas que me choca. Quem não denuncia, está com...", referiu a jornalista.
Leonor Figueiredo pesquisou os arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Militar, da Assembleia da República e do Centro 25 de Abril da Universidade de Coimbra, buscando informação sobre o seu pai, João Cândido Figueiredo, desaparecido em Angola em 1975.
"Até agora, os livros têm sido escritos por políticos e militares no terreno neste período. A minha preocupação foi ouvir o cidadão anónimo que estava lá. Há um outro olhar, que não é o das cúpulas", acrescentou a autora.
Leonor Figueiredo comentou que o poder político e as Forças Armadas portuguesas fizeram tudo para que o poder em Angola ficasse com o MPLA, após a descolonização.
"Neste jogo, os portugueses afectados por esta opção política foram completamente desprezados", referiu ainda a escritora, que nasceu e viveu em Angola até 1975.
Muitas das pessoas presas naquele período "não querem falar, para silenciar alguma dor que tenham de reviver e, por outro lado, muitas foram ameaçadas", afirmou a autora.
Leonor Figueiredo declarou que as conversas com estas pessoas ajudaram-na a fazer o luto do pai, "porque é muito complicado quando não se tem um corpo para se fazer a despedida".
"Fiquei aliviada de um peso, quando temos ao lado um outro que passou por sofrimentos semelhantes, gera-se uma empatia que vem limpar a dor que temos ainda em algum cantinho da nossa alma", finalizou.
Lusa
Fonte:
http://www.dnoticias.pt/default.aspx?file_id=dn01013204050809