A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

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Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

UMA TARDE NA LUSITÂNIA, II


Mulher da Água, Henrique Pousão, 1883


As paredes brancas das casas campestres, com as suas saias amarelo sol e os chapéus de telhas, terra e sangue são corpos habitados por criaturas alheias às leis do mundo.
Este espectáculo de verde, amarelo campestre, mãos velhas, fluxos e refluxos de auto-estradas, caminhos percorridos, sangue coagulado de sentir e calos transpirados em lágrimas, imprimem na minha pele a dialéctica do Homem de Barro, o desconforto de se ir sendo, na simplicidade das horas calejadas.
Ao fim do dia, quando o sol morre para o cálice da geada, gargalhadas infantis rebentam do ventre destas casas meninas, cujos olhos quadrangulares, dançam labaredas impermeáveis à humidade de histórias milenares, que vão sobrevivendo pelo quente, doce toque da palavra destilada.
Com um maternal sopro, que é um beijo ensolarado na intempestiva impertinência do breu, de nuvens que são mundos inimagináveis pelas imaginações de quem não sonha, vêm os sonhos com a agitada calmaria do campestre anoitecer.
Adormecem os meninos de galhos entrançados nos cabelos, mãos sujas de terra e terraços por preencher eternamente.
Do outro lado do trigo, a emergência urbana e política de acompanhamento supersónico, as vestes deliberadas de um desejo mórbido de conquista da liberdade multifacetada, da livre liberdade espontânea por trás da persona entusiástica, de um outro caminho para a pureza – num embalo futurista demasiado acelerado em comparação com a aceleração do último modelo cerebral lançado no mercado humano – ainda guarda em si as crianças das bicicletas pelas ruas afuniladas, dos prédios altos enfeitados de lençóis e peúgas.
Estas mesmas crianças correm já com o vento do Norte, num grito que é um explodir de incontáveis repressões, recalcadas no medo de séculos de calçada esmagada em passos apressados.
Amanhã poderão ser guerreiros intemporais, os das infâncias urbanas, prédios altos, juntar-se-ão aos meninos de galhos no cabelo e mãos sujas de terra, mútuos, irmãos, marionetas dançantes no mesmo compasso de vida e morte, vítimas do nojo humano, com o peito transbordante de amor pela terra de onde emergiram, pelos vales que embalaram as correrias utópicas das infâncias eternas, ou pela silenciosa paisagem citadina de estrelas artesanais, com um inquietante desejo de paz, que não cala no cano de uma espingarda, nem na trovoada de mil canhões, nem no horror de um quadro escarlate de corpos carbonizados, porque o que importa é conquistar o palpitante cântico das árvores, do vento, o cheiro da terra molhada, a interminável Lusitânia com os seus incontáveis cheiros e sabores – pórticos de Pedra e Sal –, o eléctrico que passa sempre à mesma hora, as eternas meninas a saltar à corda e os rapazes que lhes levantam as saias, entre o riso quente das gentes.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

UMA TARDE NA LUSITÂNIA, I

Modern Sleep 9, Gottfried Helnwein, 2004


Os campos engravidados de músicos primaveris, orquestram com o vento uma sinfonia universal. Brotam os trigos torrados por imitação crepuscular, dançando livres gargalhadas no concomitante desmaio das folhas, árvores. Os pássaros chilreiam como é costume num entardecer do campo. Cheira a serradura, a estrume e a cavalos, a terra seca gritante de oliveiras envelhecidas de histórias. Está um calor suportável apenas pela ventania descoordenada, e o tempo passa vagaroso.
De quando em vez, na caminhada, avistam-se pinceladas escarlates: as papoilas, meninas que espreitam entre o torrado do trigo, fazem-me lembrar invariavelmente gotas, sangue, de mártires que o chão lusitano quis acolher no seu ventre. Gosto de passar as mãos pelo trigo, de abocanhar o vento como fazem os cães. Fecho os olhos e sinto-o arrepiar-me a roupa que me veste o esqueleto: empurra-me, abraça-me, dança à minha volta, sussurra-me ao ouvido, ou passa por mim a correr.
Solto gargalhadas.
As minhas pernas alvas afundam-se no mar térreo, e o trigo faz-me cócegas, chega-me agora ao umbigo. Estou próxima do pulsar inebriante e debruço-me sobre a terra: nascem os bichos. As minhas botas ficam forradas de formigas que rapidamente se precipitam a subir-me pelas pernas nuas. Enquanto as tento sacudir, esvoaçam duas abelhas à volta da minha cabeça: estaco. O cabelo apanhado numa trança não as pode afastar. Se me mexer, atacam-me.
(silêncio)
Está tanto calor, as formigas continuam a subir-me pelas pernas e já quase alcançam os justos calções de ganga preta. Consigo trazem bichinhos outros que me infligem microscópicos rasgões na pele.
Pequenas víboras nascem do chão e entrelaçam-se nos meus tornozelos.
Mordo o lábio inferior.
Não posso continuar em frente, nem voltar para trás, não me posso mexer. O vento dança à minha volta, indiferente a este impasse, perguntando-me apenas porque não brinco com ele. O zumbido das abelhas começa a invadir-me a calma. Sem mexer a cabeça, vou sacudindo formigas e os bichinhos outros com as mãos cheias de picadas.
Um corvo pousa no cabo de electricidade por cima de mim e grasna cordialmente.
A cabeça é um ovo em cima de um funil por onde escorre uma ribeira escarlate.
O líquido, de cheiro humano, acerta-me no crânio com a força de uma pequena pedra lançada com perspicácia, atravessa-me a testa num ziguezague de efervescência diabólica, num desenho, nervo óptico, trauteando uma familiar música de infância.
Um leão surge por trás de uma oliveira e dirige-se a mim.
Consigo ouvir tambores e cânticos, uma águia a marcar o descompasso, o tempo da inevitabilidade, a explosão da Criança Eterna em nós, de dedos sem carne, sem véu: é uma águia que voa em direcção à floresta distante.
Abro os olhos.
Estou debruçada em posição fetal e na minha mão direita encerro veementemente um pedaço de terra. Nada mais há do que os esperáveis campos grávidos de músicos primaveris, que orquestram com o vento uma sinfonia universal.
O calor, a cabeça.
O vento ri-se.
Uma língua de ouro desce do horizonte e pinta a paisagem de cobre por instantes.
Está tanto frio, as horas casam-se, calam-se, lacram-se, anulam-se.
Os campos são agora prata, salpicados por papoilas: as suas pétalas, pestanas, guardam as portas do Inferno.