A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ricardo Rangel (1924-2009)



O fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel, 85 anos, morreu no dia 11 deste mês, em Maputo, enquanto dormia, disse uma fonte familiar. Ricardo Rangel é uma referência da fotografia em Moçambique, através da qual denunciou a ditadura colonial, participando em dezenas de exposições em diversos países, incluindo o Museu Guggenhheim, em Nova York. Foi condecorado com o grau de Oficial das Artes e Letras pelo governo francês. Começou a trabalhar na área da fotografia aos 17 anos num laboratório, passou pelo jornal bilingue “Lourenço Marques Guardian” e depois entrou para o jornal “Notícias da Tarde”, onde foi o primeiro foto-jornalista não branco. Na década de 60 foi editor do jornal “A Tribuna” e trabalhou posteriormente em outros órgãos de comunicação, como o “Diário de Moçambique” ou “Voz Africana”, sendo co-fundador no início da década seguinte da revista “Tempo”, a primeira a usar cor em Moçambique. Já depois da independência foi editor de fotografia no jornal “Notícias” e depois do semanário “Domingo”, estando na origem, em 1981, da Associação Moçambicana de Fotografia. A partir de 1984 criou e dirigiu o primeiro Centro de Formação de Fotografia.


Fonte: Lusa/SOL

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O dancing-bar "Vasco da Gama"




No tempo em que as noites adormeciam ao embalo de “era uma vez…” e puxava para os olhos a manta protectora dos medos nocturnos, o bulício nocturno da avenida de Angola entrava pela varanda fronteira à sala que à noite era quarto, da longa recta de alcatrão que se metamorfoseava quando os candeeiros se acendiam e as formigas humanas se travestiam no exótico da vida nocturna, em que homens solitários se refugiam em bandos de seus iguais na busca da anestesia alcoólica e do sexo barato que o som alto das juke-boxes promete.

Quase fronteiro ao meu está o prédio onde é rei da noite local o ‘Dancing-Bar Vasco da Gama’, catedral da luxúria e dos desejos lascivos com bolsos menos afortunados. Uma prostituição de classe intermédia, sem ser a naif que se visita nas barracas do caniço profundo nem a espampanante dos bares próximos ao porto, lá na zona baixa da cidade, Rua Araújo e adjacentes; algo a meio caminho entre a modesta capulana que se abre num só gesto, para alimentar a criança que também aninha, e as mini-mini saias de lantejoulas e meias de nylon, também o modesto lenço na cabeça em oposição à cabeleira postiça, rígida de laca e despenteada em vãs ilusões.


Cresci conhecendo-as, mirando ao longe a sua ostentação corporal, e não fui muito tempo indiferente à sua oferta. Nas noites em que adormecia ouvindo o seu linguarejar que subia a rua onde os táxis se sucediam, as suas gargalhadas, às vezes os seus gritos e impropérios, na privacidade dos sonhos íntimos adivinhava em mim cresceres, maturações corporais, e nas carícias onanistas que a mim concedia eram elas as ninfas que oniricamente as guiavam.

A fauna militar em folga era a clientela de eleição do bar, mais o pequeno assalariado da cidade de cimento, mais todos os malandros e proto-malandros do bairro e arredores. Por tudo isto, pelo caldeirão inevitavelmente explosivo que junta putedo e tropa, embriaguês de frustrações e vidas falhadas, a autoridade policial era visita regular do ‘Vasco da Gama’. Se os jeep’s da polícia civil só lá acorriam quando chamados a por cobro a desmandos, mais frequentes em fins-de-semana, os da polícia militar paravam sempre por lá na sua ronda, com os tropas de capacete branco bebendo nos olhares de receio os ‘desenfiados’ que procuravam. Noutras vezes acorriam chamados pela polícia civil por causa de brigas que envolviam militares, assim como a polícia aérea e a naval, embora estas fossem raras de ver nos subúrbios da cidade pois os seus soldados eram elite ao lado do vulgo ‘feijão-verde’, e saciavam necessidades de evasão em locais mais perfumados que este ‘dancing-bar’ de 3ª classe, onde as incansáveis juke-boxes eram substituídas por veros conjuntos musicais, e a idade das moças ofertantes não pesava tanto nos atributos físicos que vendiam, como nas, que em regra, ganhavam os dias nas noites do ‘Vasco da Gama’. Naturalmente estava proibido de lá entrar, ou sequer de me abeirar, quando os serões de verão autorizavam gostosas horas em brincadeiras no passeio em frente ao meu prédio.

Entre nós, putos do prédio que nos juntávamos em conversas secretas num qualquer muro enseroado tentando adivinhar o crescer, o ‘Vasco da Gama’ e o seu acesso era visto como se de passaporte para a desejada vida adulta se tratasse. O nocturno, o verdadeiro. Porque, à luz do dia, todos nós, em grupo ou a solo, já lá tínhamos penetrado olhos curiosos a pretexto duma chuinga ou duma laranjada. Tentando descobrir no bucólico vazio das mesas a magia da sua animação nocturna, no olhar a uma ou outra prostituta em espera de trabalho fora de horas, tentávamos adivinhar segredos que a vida ainda não desmistificara. Passaram anos e noites húmidas antes de ousar nele penetrar na sua hora própria, palácio de desejos e tentações revelado em toda a sua cor e ruído, alegria. Timidamente, claro. Mais ousadamente à segunda, claro, como se de veterano desses folguedos se tratasse. Depois mudei de bairro e não tenho memória de lá ter regressado, ganhara outras asas e independências que iam mais longe que o furtivo atravessar duma rua. Mas passava lá em frente muitas vezes, mais de dia que de noite, e havia sempre um olhar cúmplice que trocava com a sua fachada, com os seus velhos dizeres a néon.

Quando a Frente de Libertação de Moçambique entrou na capital moçambicana após o acordo de Lusaka de 1974, careceu dum local para sua sede e foi o edifício do velhinho ‘dancing-bar Vasco da Gama’ que foi escolhido. Foi simbólica a mensagem que pretendeu transmitir, e eu percebi-a. Mas, quando lá passava e os olhos brilhavam ao fitá-lo, não o faziam só à bandeira das utopias que lá esvoaçava, ainda prometedora; era também ao néon definitivamente apagado e às memórias que ele me induzia, ao tempo do “era uma vez”, vezes tantas que marcaram o meu crescer e ensinaram-me que há mistério e beleza numa puta que sorri e gargalha, seja envolta em gasta capulana ou despida em lantejoulas.



(fotos do jornalista moçambicano Ricardo Rangel, ambas obtidas no blogue do meu blogo-amigo 'jpt': o "ma-schamba".)

terça-feira, 29 de julho de 2008

Machamba



A enxada ergue-se e cai,
ritmadamente

Uma para o imposto…
outra para o mulungo…
e mais esta, também…
Uma para mim…
tantas para não sei quem…

As AK's ergueram-se e soaram,
ritmadamente


"José Alberto Sitoe", m/heterónimo em memória dos tempos em que morei na Mafalala.


Foto de Ricardo Rangel "gamada" aqui, e sei que os titulares do blogue não se importarão.