Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Egas Moniz
Caros Amigos,
Faz hoje 60 anos que o Prémio Nobel de Medicina e Fisiologia foi atribuido ao professor António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz.
Por isso reedito hoje no meu blogue um texto publicado em Janeiro deste ano e que se refere a uma das últimas intervenções públicas do Nobel da Medicina de 1949, sobre um sermão do padre António Vieira.
António de Abreu Freire
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2008 - Pe. António Vieira 400 Anos
http://antonioabreufreire.bloguepessoal.com
terça-feira, 24 de junho de 2008
Um serão em Bronhais
– Caçador será ele... – rosnava o abade de Labrujões, fazendo sumir na enorme manápula o franzino cálice de Porto velho - Daqui até às Portelas não há perdiz que não tenha farejado! E ria pesadamente, estremecendo toda a lavrada prataria da tia Inacinha.
A boa senhora, temendo o iminente despencar da sala e das almas, relanceou os olhos à parede que ancorava os restos do sumido esplendor dos morgados de Bronhais (a salva grande, Casimirinho, brasonada com as armas do teu bisavô Afonso: Barbosas dos bons, dos do Egas Moniz!) e arregalou os olhos ao irmão, apontando-lhe a garrafa venerável e a luzida calva do abade, miudamente gotejada do hercúleo esforço da ceia; mas já o tio Júlio, que se pelava pelas picardias do padrinho, estendia o braço a servir mais os convidados, rasando de néctar o copo do bom sacerdote.
– O senhor dr. Fonseca é dos espíritos mais esclarecidos do distrito – arriscou surdamente o Juiz, cuidando aproveitar o instante em que o abade de Labrujões esgolfinhava o seu porto com inquietantes ruídos asmáticos – e para o comprovar basta o magnífico estudo que vem publicando no Sentinela do Tâmega: "Linhas fundamentais da política de fomento apícola no Entre-Douro-e-Minho, dos visigodos ao insigne Marquês de Pombal".
O Abade ganhara em Coimbra invencível asco a letrados e homens de leis, e saltou como se as abelhas visigóticas o tivessem pessoalmente arpoado.
– Esclarecido, hã? - trovejou com voz já pastosa – pois quem ia esclarecendo esse bolchevista era o varapau do José Murtosa, quando o topou a catrapiscar-lhe a irmã pelas grades do mosteiro de S. Lázaro...
– Pois a Aninhas Murtosa faz um ano na Pascoela que professou, acudiu a tia Inacinha, desejosa de desviar a conversa. E a quem irão as casas da Gandarela?
– Histórias, ó meu Padrinho - sobrepôs o tio Júlio, ansioso por bufar o lume. Então a moça... pode lá ser?
O Abade ajeitou-se no cadeirão, e compôs galhardamente a batina coçada.
– Pois o magnífico dr. Fonseca – e olhou provocatoriamente o Juiz – além do Tâmega fazia Sentinela diária pelos olhos da Aninhas Murtosa...
– Pois essas conversas não são para aqui – cortou finalmente a tia Inacinha – ora francamente, senhor Abade: diante do Casimirinho!
E suspirou interiormente pelo sobrinho do boticário, que, trinta anos antes, moço pálido e de bigodinho à francesa, lhe chegara a entregar pela Josefa modista, num bilhetinho azul perfumado a alfazema, um escrito que começava assim:
Por outro virginal ósculo de Inácia,
enfrentava o mundo todo, com audácia
Mas depois morreu-lhe o tio, e estabeleceu-se.