A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Hoje, no Brasil...


Universidade Federal de São João del Rei
17.10.11, às 19:30
Dirk-Michael Hennrich "A noção do Brasil em Agostinho da Silva e Vilém Flusser"

terça-feira, 4 de maio de 2010

Colóquio Internacional "Do diabólico ao simbólico: a filosofia de Vilém Flusser" - Hoje



Colóquio Internacional "Do Diabólico ao Simbólico: A Filosofia de Vilém Flusser"
Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Organização: Paulo Borges / Dirk Hennrich; Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

Terça-Feira, 4 de Maio

11:00 – 11:30 Rui Lopo. - A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE VILÉM FLUSSER
11:30 - 12:00 Dirk-Michael Hennrich. - A “COISA”, EM VILÉM FLUSSER E EUDORO DE SOUZA
12:00 - 12:30 Rodrigo Cunha - O DESIGN SEGUNDO VILÉM FLUSSER.
12:30 - 13:00 Rainer Guldin. - ACHERONTA MOVEBO: DO MEFISTOTÉLICO NA OBRA DE VILÉM FLUSSER
13:00 - 13:30 – Debate e Intervalo para almoço

15:00 – 15:30 – Jacinto Godinho. - O ESPECTADOR DE FLUSSER
15:30 – 16:00 - Paulo Borges. - O DIABÓLICO EM VILÉM FLUSSER
16:00 – 16:30 António Braz Teixeira. - O SAGRADO E A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA EM VILÉM FLUSSER
16:30 – 17:00 - Debate

17:00 – 17:15 – Intervalo

17:15 – 17:45 - Apresentação da revista Cultura ENTRE Culturas, com um inédito de Vilém Flusser. Encerramento.

18:30 Louis Bec – ARTAXONOMIQUE ET HYPOZOOLOGIE (na Livraria do Instituto Franco-Português)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Começa Hoje: Colóquio Internacional "Do diabólico ao simbólico: a filosofia de Vilém Flusser" - 3 e 4 de Maio



Colóquio Internacional "Do Diabólico ao Simbólico: A Filosofia de Vilém Flusser"
Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Organização: Paulo Borges / Dirk Hennrich; Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

Segunda-Feira, 3 de Maio

14:30 ABERTURA

15:00 - 15:30 Gustavo Bernardo Krause. - “MEU BEM, VOCÊ NÃO ENTENDEU NADA.” A DÚVIDA DE VILÉM FLUSSER.
15:30 – 16:00 Joaquim Domingues. - O MUNDO NOVO DA LÍNGUA - HOMENAGEM A VILÉM FLUSSER
16: 00 – 16:30 Jorge Leandro Rosa. - A RELAÇÃO COM O INARTICULÁVEL. LINGUAGEM, COMUNICAÇÃO E ONTOLOGIA EM VILÉM FLUSSER.
16:30 – 17:00 – Debate
17:00 – 17: 15 - Intervalo

17:15 – 17:45 José Bragança de Miranda. - A NOÇÃO DE APARATO EM VILÉM FLUSSER
17:45 – 18:15 Jorge Rivera. - SUPERFÍCIES, LINHAS, NÓS: AS OPERAÇÕES DA IMAGINAÇÃO E O PENSAMENTO DE VILÉM FLUSSER.
18:15 – 18:45 Louis Bec. - LE VAMPYROTEUTHIS INFERNALIS: UNE PREUVE D’AMITIÉ (PROJECTION, IMAGES ET VIDÉOS)
18:45 – 19:15 – Debate e encerramento.

Terça-Feira, 4 de Maio

Abertura

11:00 – 11:30 Rui Lopo. - A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE VILÉM FLUSSER
11:30 - 12:00 Dirk-Michael Hennrich. - A “COISA”, EM VILÉM FLUSSER E EUDORO DE SOUZA
12:00 - 12:30 Rodrigo Cunha - O DESIGN SEGUNDO VILÉM FLUSSER.
12:30 - 13:00 Rainer Guldin. - ACHERONTA MOVEBO: DO MEFISTOTÉLICO NA OBRA DE VILÉM FLUSSER
13:00 - 13:30 – Debate e Intervalo para almoço

15:00 – 15:30 – Jacinto Godinho. - O ESPECTADOR DE FLUSSER
15:30 – 16:00 - Paulo Borges. - O DIABÓLICO EM VILÉM FLUSSER
16:00 – 16:30 António Braz Teixeira. - O SAGRADO E A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA EM VILÉM FLUSSER
16:30 – 17:00 - Debate

17:00 – 17:15 – Intervalo

17:15 – 17:45 - Apresentação da revista Cultura ENTRE Culturas, com um inédito de Vilém Flusser. Encerramento.

18:30 Louis Bec – ARTAXONOMIQUE ET HYPOZOOLOGIE (na Livraria do Instituto Franco-Português)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Colóquio Internacional "Do diabólico ao simbólico: a filosofia de Vilém Flusser" - 3 e 4 de Maio

Colóquio Internacional "Do Diabólico ao Simbólico: A Filosofia de Vilém Flusser"
Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Organização: Paulo Borges / Dirk Hennrich; Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Segunda-Feira, 3 de Maio
14:30 ABERTURA
15:00 - 15:30 Gustavo Bernardo Krause. - “MEU BEM, VOCÊ NÃO ENTENDEU NADA.” A DÚVIDA DE VILÉM FLUSSER.
15:30 – 16:00 Joaquim Domingues. - O MUNDO NOVO DA LÍNGUA - HOMENAGEM A VILÉM FLUSSER
16: 00 – 16:30 Jorge Leandro Rosa. - A RELAÇÃO COM O INARTICULÁVEL. LINGUAGEM, COMUNICAÇÃO E ONTOLOGIA EM VILÉM FLUSSER.
16:30 – 17:00 – Debate
17:00 – 17: 15 - Intervalo
17:15 – 17:45 José Bragança de Miranda. - A NOÇÃO DE APARATO EM VILÉM FLUSSER
17:45 – 18:15 Jorge Rivera. - SUPERFÍCIES, LINHAS, NÓS: AS OPERAÇÕES DA IMAGINAÇÃO E O PENSAMENTO DE VILÉM FLUSSER.
18:15 – 18:45 Louis Bec. - LE VAMPYROTEUTHIS INFERNALIS: UNE PREUVE D’AMITIÉ (PROJECTION, IMAGES ET VIDÉOS)
18:45 – 19:15 – Debate e encerramento.
Terça-Feira, 4 de Maio
Abertura
11:00 – 11:30 Rui Lopo. - A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE VILÉM FLUSSER
11:30 - 12:00 Dirk-Michael Hennrich. - A “COISA”, EM VILÉM FLUSSER E EUDORO DE SOUZA
12:00 - 12:30 Rodrigo Cunha - O DESIGN SEGUNDO VILÉM FLUSSER.
12:30 - 13:00 Rainer Guldin. - ACHERONTA MOVEBO: DO MEFISTOTÉLICO NA OBRA DE VILÉM FLUSSER
13:00 - 13:30 – Debate e Intervalo para almoço
15:00 – 15:30 – Jacinto Godinho. - O ESPECTADOR DE FLUSSER
15:30 – 16:00 - Paulo Borges. - O DIABÓLICO EM VILÉM FLUSSER
16:00 – 16:30 António Braz Teixeira. - O SAGRADO E A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA EM VILÉM FLUSSER
16:30 – 17:00 - Debate
17:00 – 17:15 – Intervalo
17:15 – 17:45 - Apresentação da revista Cultura ENTRE Culturas, com um inédito de Vilém Flusser. Encerramento.
18:30 Louis Bec – ARTAXONOMIQUE ET HYPOZOOLOGIE (na Livraria do Instituto Franco-Português)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Do patriotismo como hábito de preferir o habitual ao estranho




"Sob análise estética verificamos que o habitual é vivenciado como "bonito". esta é a base do patriotismo: a pátria é mais bonita que qualquer outra situação, precisamente porque a sua estrutura fundante passa despercebida. Toda a irrupção que destrua o hábito, toda a "novidade radical", é vivenciada como "feia", horrível. Esta é a base da xenofobia: o estranho é horrível e deve resistir-se a ele"

- Vilém Flusser, in "Da migração dos povos", inédito publicado em Cultura ENTRE Culturas, nº1.

Colóquio Internacional "Do Diabólico ao Simbólico: a filosofia de Vilém Flusser", Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 3 e 4 de Maio.

Um singular pensador checo, que escreveu algumas das suas obras maiores em português do Brasil. Consultem o programa e excertos no blog. A revista Cultura ENTRE Culturas publica um inédito seu e vai ser de novo apresentada no final do Colóquio, no dia 4, pelas 17.30.

vilem-flusser.blogspot.com

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Colóquio Internacional "Do diabólico ao simbólico: a filosofia de Vilém Flusser"

Colóquio Internacional
Do Diabólico ao Simbólico:
A Filosofia de Vilém Flusser


Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


Segunda-Feira, 3 de Maio

14:30 ABERTURA

15:00 - 15:30 Gustavo Bernardo Krause. - “MEU BEM, VOCÊ NÃO ENTENDEU NADA.” A DUVIDA DE VILÉM FLUSSER.

15:30 – 16:00 Joaquim Domingues. - O MUNDO NOVO DA LÍNGUA - HOMENAGEM A VILÉM FLUSSER,

16: 00 – 16:30 Jorge Leandro Rosa. - A RELAÇÃO COM O INARTICULÁVEL. LINGUAGEM, COMUNICAÇÃO E ONTOLOGIA EM VILÉM FLUSSER.

16:30 – 17:00 – Debate

17:00 – 17: 15 - Intervalo

17:15 – 17:45 José Bragança de Miranda. - A NOÇÃO DE APARATO EM VILÉM FLUSSER

17:45 – 18:15 Jorge Rivera. - SUPERFÍCIES, LINHAS, NÓS: AS OPERAÇÕES DA IMAGINAÇÃO E O PENSAMENTO DE VILÉM FLUSSER.

18:15 – 18:45 Louis Bec. - LE VAMPYROTEUTHIS INFERNALIS: UNE PREUVE D’AMITIÉ (PROJECTION, IMAGES ET VIDÉOS)

18:45 – 19:15 – Debate e encerramento.


Terça-Feira, 4 de Maio

11:00 – 11:30 Rui Lopo. - A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE VILÉM FLUSSER

11:30 - 12:00 Dirk-Michael Hennrich. - A “COISA”, EM VILÉM FLUSSER E EUDORO DE SOUZA

12:00 - 12:30 Rainer Guldin. - ACHERONTA MOVEBO: DO MEFISTOTÉLICO NA OBRA DE VILÉM FLUSSER

12:30-13:00 – Debate e Intervalo para almoço

15:00 – 15:30 – Jacinto Godinho. - O ESPECTADOR DE FLUSSER

15:30 – 16:00 - Paulo Borges. - O DIABÓLICO EM VILÉM FLUSSER

16:00 – 16:30 António Braz Teixeira. - O SAGRADO E A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA EM VILÉM FLUSSER

16:30 – 17:00 - Debate

17:00 – 17:15 – Intervalo

17:15 – 17:45 - Apresentação da revista Cultura ENTRE Culturas, com um inédito de Vilém Flusser. Encerramento.

18:30 Louis Bec – ARTAXONOMIQUE ET HYPOZOOLOGIE (na Livraria do Instituto Franco-Português)

terça-feira, 13 de abril de 2010

O diabólico em Vilém Flusser (início da comunicação no Colóquio Internacional de 3-4 de Maio, Anf. IV, Fac. Letras da Univ. Lisboa

O diabólico em Vilém Flusser

Vilém Flusser é um pensador do diabólico e um pensador diabólico. Enquanto pensador do diabólico, Flusser pensa aquilo que a tradução grega da Bíblia designou como diabolé, o “espírito que semeia a divisão”, de diaballein, lançar de lado, de través [1]. No pensar original de Flusser, o diabo é a própria temporalidade, também histórica, sendo “«influência diabólica» tudo aquilo que tende para a preservação do mundo no tempo”. Pelo contrário, “influência divina” é “tudo que tende para a superação do tempo”. O divino é o que age no “mundo fenomenal” para o “dissolver”, “salvar” e intemporalizar, convertendo-o em “puro Ser”, ao passo que o diabólico é o que o procura manter na sua fenomenalização temporal. Dependendo do ponto de vista, será o divino criador e o diabólico aniquilador ou o divino destruidor e o diabólico conservador [2].

Num heterodoxo mito das origens, que recorda o drama da cisão cosmogónica em Teixeira de Pascoaes e Sampaio Bruno, Flusser concebe a criação de “céus e terra” como o divino arrancar de “um pedaço do “ser em si”, do “puro ser”, para mergulhá-lo na correnteza do tempo”, a qual o altera e fenomenaliza, arrastando-o consigo em “modificações sucessivas”, que são a sua própria irrealização. Esta temporalização é o próprio “diabo” e a sua “queda” é o “progressivo afastar-se do mundo das suas origens”. Nessa medida, o “diabo” é a “criação principal do criador”, a sua “obra-prima”. “Idêntico ao tempo” e inspirador do “espaço”, é ele que configura a experiência do mundo e, nessa medida, identifica-se com o próprio mundo. Sendo aquilo que, na criação, “torna sensível o mundo”, o princípio diabólico é, todavia, “mera parte” dessa criação”, em conflito com o princípio divino [3]. Definido, “no seu aspecto externo”, como “o fluxo do tempo, graças ao qual os fenómenos nos aparecem”, revela-se “o caráter ilusório, enganador, o caráter «maia»”, tradicionalmente atribuído ao diabo [4]. A leitura flusseriana do mito bíblico das origens incorpora assim a noção indiana de maya, configurando o diabo como uma prestidigitação ou i-lusão transcendental que emerge do divino e se lhe opõe, em mais uma flagrante convergência com uma das intuições axiais de Teixeira de Pascoaes. É essa i-lusão que cria os céus para criar a terra, a terra para criar a vida, a vida para criar a humanidade e a humanidade para criar o espírito humano, ou seja, o “espírito que conhece o Bem e o Mal” e assim se institui como “o campo do pecado”. O objectivo ideal da evolução criadora é a produção do “espírito humano perfeitamente diabólico”, mediante o abrasivo dos “pecados capitais” [5].

Considera assim Flusser que “o diabo é-nos muito mais próximo que o Senhor” e que segui-lo é “muito mais cómodo e simples do que perseguir os obscuros caminhos divinos”. “Toda a sinfonia da civilização”, toda a “luta prometéica” da humanidade contra os limites divinos, toda a “evolução como história do progresso” são a própria “história do diabo”, são a sua “obra majestosa” – cujos “exemplos mais nobres” são “ciência, arte e filosofia” - ou, noutro ponto de vista, a “ilusão” por ele criada [6].

O protagonismo diabólico tem portanto origens mais fundas que a mera história dos homens, enraizando-se por um lado na “evolução da vida” – que coliga “o protoplasma quase inerte”, a “formiga devoradora e a humanidade especulante” – e surgindo, por outro, como a “força motriz” da maioria das acções e desejos humanos [7]. Com efeito, o filósofo, num dos lances mais originais e polémicos da obra, recorre à doutrina eclesiástica dos “sete pecados capitais”, mantendo mas reinterpretando a sua nomenclatura tradicional, para designar as potências diabólicas que movem a vida e a humanidade nos diferentes domínios da sua actividade e da sua evolução. Constituindo-se A História do Diabo como uma filosofia do pecado e dos pecados, convém recordar o significado original desta palavra assaz incómoda para a consciência ocidental.

O peccatum latino, do verbo peccare, dar um passo em falso, traduz o grego amartia, que significa “falhar um alvo ou um objectivo”, o qual, por sua vez, traduz o hebreu pâcha, que expressa “o facto de se revoltar” [8]. O engano, o desvio e o fracasso, presentes nas expressões grega e latina, convergem com o sentido de uma projecção oblíqua e dia-bólica, de diaballein, que se desvia e transvia de um rumo certeiro, directo ao objectivo. Se o objectivo é a realização plena de si, por integração na plenitude divina, compreende-se que Jean-Yves Leloup interprete a amartia, a partir de Evagro Pôntico, como o estado em que se está “ao lado de si mesmo”, patente nos vários pecados capitais, entendidos como “sintomas de uma doença do espírito ou doença do ser” [9].

Flusser renova e amplia a tradição das paixões da alma, dando-lhe uma dimensão cosmogónica e cosmológica. Os pecados descrevem uma patologia bio-antropológica, como “sete aspectos de uma mesma atitude” [10].

[1] Cf. Odon Vallet, Petit lexique des mots essentiels, Paris, Albin Michel, 2007, p.61.
[2] Cf. Vilém Flusser, A História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.21 e 23 24 [manteremos a grafia do português do Brasil, língua em que Flusser escreveu a obra].
[3] Cf. Ibid., pp.33-34.
[4] Cf. Ibid., p.34.
[5] Cf. Ibid., p.45.
[6] Cf. Ibid., pp.22-24.
[7] Cf. Ibid., p.25.
[8] Cf. Odon Vallet, Petit lexique des mots essentiels, Paris, Albin Michel, 2007, pp.178-179.
[9] Cf. Jean-Yves Leloup, Écrits sur l’Hésychasme. Une tradition contemplative oubliée, Paris, Albin Michel, 1999, p.53. Simone Weil esclarece que “O pecado não é uma distância. É uma má orientação do olhar” – L’amour de Dieu et le malheur (1942), in Oeuvres, edição estabelecida sob a direcção de Florence de Lussy, Paris, Gallimard, 1999, p.697.
[10] Cf. Vilém Flusser, A História do Diabo, p.26.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

"Toda palavra é uma espada flamejante do diabo"




"A língua é o inimigo visceral da fé, e tudo o que por ela for tocado ficará imune à intervenção do divino. Toda palavra é uma espada flamejante do diabo, e a língua como um todo é um único protesto contra as limitações do intelecto, um grito de articulação contra o inefável, um brado de guerra contra a divindade, uma expressão da inveja do intelecto humano dirigida contra Deus.

[...]

Somos indivíduos, somos intelectos individuais, porque consistimos de palavras (expressões da inveja diabólica contra Deus) consolidadas pela gramática (expressão da avareza diabólica que tenta preservar a realidade por ele criada). A mente humana, essa suprema ilusão de realidade, é a obra mais perfeita do diabo, e é neste sentido que a nossa insistência avarenta na manutenção da nossa individualidade é o triunfo supremo do diabo. O nosso empenho em prol da língua (que é o empenho em prol do nosso intelecto), e nosso empenho em prol da propagação do enriquecimento da língua (que é o empenho em prol da imortalidade do nosso intelecto), é o ponto culminante da carreira gloriosa do diabo. A superação da língua, que seria o abandono do intelecto, implica a perda da nossa individualidade, e, do ponto de vista oposto ao diabo, a salvação da nossa alma"

- Vilém Flusser, A História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.149-150.

Colóquio Internacional: "Vilém Flusser: do diabólico ao simbólico", Anf. IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 3 e 4 de Maio.

Publicado em: vilem-flusser.blogspot.com

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"O diabo é idêntico à língua" ou o pensamento nómada de Vilém Flusser




"A língua materna forma todos os nossos pensamentos e fornece todos os nossos conceitos. É ela a responsável pela nossa cosmovisão e pelo valorizar que sobre ela fundamentamos. Em outras palavras: a língua materna é a fonte do nosso senso da realidade. Com efeito: amor pela língua materna é sinónimo do senso da realidade. Mas de que realidade se trata? De uma realidade relativa. A pluralidade das línguas o prova. Toda língua produz e ordena uma realidade diferente. Se abandonamos o terreno da nossa língua materna, se começamos a traduzir, o nosso senso da realidade começa a diluir-se. [...] O diabo é idêntico à língua. A língua é aquele tecido de maia que se estabelece como véu na superfície da intemporalidade. A realidade ou as realidades que a língua cria é justamente aquilo que temos chamado, até agora, de "mundo sensível". Passaremos, doravante, a chamá-lo de "mundo articulável". E rectificaremos, igualmente, a nossa definição operante do diabo. Temos dito que ele é o tempo. Agora podemos precisar melhor esse termo "tempo". "Tempo" é o aspecto discursivo da língua. E definiremos o diabo como "língua". O amor pela língua materna é a sublimação mais alta da luxúria, porque é a luxúria elevada até ao nível da realidade do diabo"

- Vilém Flusser, História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.91-92.

Realizar-se-á um Colóquio Internacional sobre Vilém Flusser, em 3 e 4 de Maio, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, organizado por Paulo Borges e Dirk Hennrich. Flusser é um originalíssimo pensador checo que escreveu algumas das suas obras maiores em português do Brasil. O presente trecho está vertido em português de Portugal, não castrado pelo acordo ortográfico.

A nova revista ENTRE publicará um estimulante inédito deste pensador genial.

Publicado em:
arevistaentre.blogspot.com