EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).

- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).

- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.

- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).

- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.

Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 24

Capa da NOVA ÁGUIA 24

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24

As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.

Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).

Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!

Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.


A Direcção da NOVA ÁGUIA


Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.

NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE

Editorial…5
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274

Lançamento da NOVA ÁGUIA 24

Lançamento da NOVA ÁGUIA 24
18 de Outubro, no Palácio da Independência (na foto: Abel Lacerda Botelho, Renato Epifânio e António Braz Teixeira). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:

https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A ortografia: acordo ou desacordo?

O corpo da alma ou a grafia da ideia

O "acordo ortográfico" pressupõe a ideia de que até aqui tem havido um desacordo; sem desacordo prévio ou pressuposto não se sentiria necessidade de um acordo.
A pergunta que surge, espontânea, é esta: quem sente esse desacordo? Se fizéssemos esta pergunta aos vários interessados, falantes da língua portuguesa, isto é, aos vários leitores, talvez pudéssemos verificar que não há desacordo. Eu, como português, não gostaria de ler o Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, em versão "acordo ortográfico"; estou certo que nenhum brasileiro desejaria também ler Gil Vicente nesta nova versão.

Cada povo foi talhando lentamente a língua que recebeu, o génio da sua pátria foi moldando a língua, por tal modo que ela se pudesse ir tornando um veículo apropriado ao seu modo particular de pensar. Cada povo olha o mundo de um modo particular, seu, único; a língua, casada intimamente com a alma, com o pensamento, com a emoção, com o sentimento, encontra formas de expressão que são também únicas. A beleza de cada povo está também no modo como o génio da língua vai realizando esta obra lentamente, no cadinho da alma.
Interferir nesta obra do génio ou do anjo de cada povo é grave, muito grave. É uma intervenção condenada ao artificialismo, à imposição, é, em suma, um corpete.
O acordo ortográfico não é sinal de tolerância; pelo contrário, é precisamente porque não se tolera a diferença, porque não se é capaz de reconhecer a beleza da diferença, que se procura uniformizar. É um pouco como se procurássemos reduzir a beleza das flores à imagem de uma só flor.

Quando Fernando Pessoa escreveu a Mensagem, adoptou uma grafia deliberadamente arcaica, trata-se de um gesto poético que procura levar os portugueses a respirar um pouco da frescura primordial (ver o prefácio de Pedro Sinde à edição da Mensagem na Porto Editora; nesta edição procurou-se restituir fielmente a grafia à forma como o Poeta a pensou). O mesmo Pessoa defendia que cada escritor devia ter a liberdade de escrever na grafia mais adequada ao seu pensamento. Pascoaes, opondo-se às mudanças ortográficas propostas na sua época, mostra como a grafia exprime esteticamente o conteúdo do conceito; o exemplo mais famoso é o da palavra lágrima, que ele propõe se continuasse a escrever lagryma, porque o y é a própria expressão estética da lágrima.
A grafia é o corpo da alma que é a palavra pensada, por essa razão deve haver, aí sim, um acordo, entre corpo e alma, ou corre-se o perigo de criar um corpo mutilado, incapaz de exprimir a ideia.
O génio da língua de cada povo tem levado séculos a moldar a língua à sua expressão própria; vamos nós destruí-la de uma só vez? Quem se pode arrogar conhecer a vontade do génio da língua, para saber as mudanças a introduzir? Poderemos estar a criar nas palavras o que Mary Shelley criou no romance: um Frankenstein? Um aglomerado de letras? Um monstro?

Um princípio fundador da convivência é o do reconhecimento do outro como o diferente. A maravilhosa diversidade das almas plasma-se nos povos, conferindo a cada um deles um tónus próprio que vem enriquecer o mundo; cada um refracta a luz que o antecede ao seu modo, filtrando uma cor de entre tantas possíveis; o total dos povos forma um magnífico arco-íris. Estou convencido que esta diferença é a razão de ser do mundo, de outro modo estaríamos naquele lugar de onde uma parte de cada um de nós nunca saiu: na transparência da luz.

Creio que a melhor forma de continuarmos a ser tolerantes é a de aprendermos a aprender com a diferença; isso nos tirará um pouco do casulo em que nos tendemos, tantas vezes, a encerrar. É por esta razão que não posso concordar com o acordo; é por esta razão que estranho ver a defesa do acordo numa associação livre dos países falantes da língua portuguesa, como é a Nova Águia. A língua é a mesma, mas a expressão é maravilhosamente diversificada. Que assim seja, que assim possa ser.

P.S.: Algum amigo brasileiro, africano, timorense ou macaense teve dificuldade em ler este texto? Se não teve, essa será a melhor prova de que o acordo não tem necessidade de ser.

Pedro Sinde



11 comentários:

Rosália disse...

Por outras palavras, você está em desacordo, não?

Renato Epifânio disse...

Caro Pedro Sinde

Também tenho reservas pessoais quanto ao Acordo Ortográfico, mas considero que ele é estratégico para a almejada "União Lusófona" e por isso o defendo.
Uma vez ratificado, não me sentirei pessoalmente obrigado a segui-lo. Aliás, paradoxalmente, o que prevejo é que com o Acordo cada um irá criar uma ortografia só sua, assim multiplicando ao infinito as variantes da língua lusa...
Que isso não seja pois motivo para não aderir ao MIL!

rosália disse...

Caro Renato,

vejo que a sua é uma posição flexível: cada um escreva à sua maneira, o importante é a união!

Mas, então, onde está a união?

AGIL disse...

Sei que a perspetiva é, para os humanos, definitória: Os que nos achamos nesta parte da raia não vemos o mesmo que os assentes na outra. Cá domina o discurso da unidade (a respeito do castelhano) e a praxe da uniformidade (relativa à ortografia). É por isso que não podemos ver nem julgar do mesmo modo situações opostas: Defender na Galiza o não-acordo acelera a desfeita das falas galaico / portuguesas que ainda pervivem nesta parte do Reino de "EspaÑa".
Por outro lado, cumpre evitar confusões, de que adoece o artigo (e desculpe-se-me):
1.- Podia ter dito, à partida, que a língua (escrita) é una, embora admita diferenças pequenas, segundo usos generalizados.
2.- Esses usos ou "línguas funcionais" virão definidos ou delimitados pelo que o Prof. Cosseriu denominava variantes ou variedades diastráticas (ou sinstráticas, depende da perspetiva), diatópicas (ou sintópicas) e diafásicas (ou sinfásicas).
3.- Mas em regra na escola é ensinada uma língua comum, a verificar a também denominada pelo Professor "língua histórica", a qual na realidade cobre todas as "línguas funcionais" que são e que foram.
4.- É essa língua comum, para o ser, a que precisa uma "formosa cobertura" ou grafia comum, no possível.

Renato Epifânio disse...

Cara Rosália

A minha perspectiva é flexível porque é realista.
Obviamente, as pessoas já formadas (nem sequer falo dos mais idosos) não vão passar de um momento para o outro a seguir o acordo ortográfico.
Como se sabe, estas mudanças acontecem geracionalmente. Só as gerações que se formarem sob a vigência do novo acordo é que irão segui-lo de modo natural...
Em virtude do meu trabalho, estou neste momento a digitalizar os Cadernos do Agostinho da Silva dos anos 30. Era uma ortografia tão diferente...

Rosália disse...

Caro Renato,

Percebo. Mas repare no que lhe diz AGIL: nos territórios onde o português se vê ameaçado, as políticas de diferenciação gráfica não ajudam à sua sobrevivência.

Isso está para além do que você faz com os textos do Agostinho. Uma coisa é respeitar a grafia por ele utilizada, e outra bem diferente é promover na atualidade a diferenciação gráfica. Os estudos de textos devem ser feitos com correção, porém a aprendizagem da língua histórica nas escolas cumpre uma outra função.

Renato Epifânio disse...

Por isso sou a favor do Acordo. Apesar de saber que a mudança será espinhosa para muitos. A começar por mim...

Rosália disse...

ha ha ha!

Como se vê que você não teve que aprender a língua de jeito autodidata... Olhe, cá por mim, tanto me tem escrever acção ou ação. É cousa singela. Nada de outro mundo. Acredite.

Já sabe que só se verão reformadas uma percentagem mínima de palavras?

Deixo-lhe uma ligação que talvez já conheça:

http://video.google.com/videoplay?docid=6589563498220554829&q=academia+galega+da+l%C3%ADngua+portuguesa&total=1&start=0&num=10&so=0&type=search&plindex=0

Telo Vieira de Meireles disse...

A sensatez regojiza-nos, mas na verdade considero o acordo inútil. Sou antes do mais pelo estudo das línguas, dialectos, falares do universo lusófono, pela sua divulgação por meio de dicionários, etc. Quantos cursos das línguas africanas do mundo lusófono, só como exemplo, são estudadas e leccionadas regularmente em Portugal? Qual o papel da língua portuguesa em regiões onde a língua materna é diversa? No entanto, estamos a falar só do mundo lusófono. Alfabetizar em português, sim, mas também nas línguas-mãe dos falantes. Todos os seres humanos são hoje multiculturais, multilinguísticos, etc. A diversidade só tornará o mundo lusófono mais rico.

Abdul Cadre disse...

Para Renato Epifânio:

É claro clarinho que o acordo, que o não é, vai permitir a multiplicação das ortografias ao gosto do freguês, anulando obviamente o grande argumento dito de unificação. E esta porta aberta resulta do próprio texto da coisa alcunhada de acordo. A única vantagem que vejo nessa subtileza política, que em termos linguísticos é um aborto, é os meninos deixarem de dar erros. Conheci um caso em que um aluno escrevia isto: DÃO QUE CHOTE E SEM CHUPANÇA. Ele queria dizer, como adivinhais, D. QUIXOTE E SANCHO PANÇA. Foi erro, mas talvez deixe de o ser
Venha o acordo que vier e desculpe-se quem quiser.
Não sei se caberia aqui aquele slogan ecológico: pensar global e agir local...
ABDUL CADRE

Abdul Cadre disse...

Respondendo a Clóvis, que tece bons desejos de progresso às editoras portuguesas (?), diria:

Falar em editoras portuguesas à conquista de um mercado de 180 milhões de leitores é como que um conto de fadas. As fadas são as seguintes:
FADA DO EXAGERO. É aquela que nos faz confundir habitantes com leitores e põe no mesmo saco alfabetizados, analfabetos e «iliterados»;
FADA DO FAZ DE CONTA. É aquela que nos procura convencer que os jornais são feitos pelos jornalistas e que editora portuguesa é aquela que tem depósitos de papel impresso em Portugal;
FADA DO REMOQUE. É aquela que quando dizemos que até as editores que mandam fazer livros em língua provisória – esta que estou a escrever – se servem do parque gráfico espanhol e que os espanhóis e os alemães dominam o panorama editorial português, nos admoesta: menino, isso não se diz, que é muito feito descobrir a careca de quem tem o poder e os carcanhóis.
FADA DE MOLHAR O PÃO NO MOLHO. É aquela que, para nos intoxicar com amanhãs que cantam, nos manda molhar o pão no molho, embora não haja molho nem conduto.
FADA DO NEVOEIRO. É aquela que nos quer fazer acreditar que uma editora singra por diversificar os títulos e ter bons livros, embora a realidade do dia sem nuvens nos ensine que é precisamente o contrário, como sabem melhor do que ninguém os brasileiros. A D. Quixote, que é uma editora espanhola, fundada por uma sueca e sedeada em Lisboa, tem lucro grande quando publica lixo e lucro pequeno ou prejuízo quando publica coisa boa. É a vida.
Apresentadas as fadas que existem para nos iludir, há que pô-las em drama, para nos entreterem.
Como a minha parteira foi a Bruxa da Arruda, quero fazer um vaticínio. O celebérrimo e indecoroso ataque à ortografia portuguesa padrão vai facilitar o domínio do castelhano sobre este rectângulo que ninguém ama. Se os mais instruído em geral e os intelectuais em particular desprezam a Língua-Pátria, por que há-de o povo respeitá-la, se é de Espanha que vêm os caramelos?

ABDUL CADRE