A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Palavras Comerciais

A pluralidade dos deuses é, com efeito, um dos característicos do paganismo. Mas cumpre entender qual o sentido que subjaz a essa pluralidade, cumpre ver qual o espírito que a anima. E para isso é preciso ter presentes três coisas: que acima dos deuses, no sistema pagão, paira sempre o Ananke, o Fatum, incorpóreo, submetendo os deuses como os homens aos seus decretos inexplicados; que os deuses se destacam dos homens e lhes são superiores por uma questão de grau, que não de ordem, que eles são antes homens aperfeiçoados, ou perfeitos, homens maiores, por assim dizer, do que homens diferentes ou ultra-homens; que um arbítrio absoluto, e não uma razão de ordem moral, qual a intervenção de Cristo pelos seus, ou os aparecimentos da Virgem aos seus merecidos pela virtude – rege as relações dos deuses com os homens. Com a percepção clara destes três elementos típicos do plurideísmo pagão, poder-se-á compreender o sentido íntimo da mitologia dos Gregos e dos Romanos.
O primeiro destes elementos confessa nos seus crentes a noção, intuitivamente exacta, da Lei Natural de que acima da própria força e grandeza dos deuses paira uma Lei, cujo sentido se desconhece, mas que age sempre e sobre tudo impera. No segundo elemento se reconhece a mentalidade de uma gente que tem a necessidade de objectivar tudo, para quem os deuses são, não fantasias concretizadas, mas probabilidades aumentadas. No terceiro elemento colhe-se a justa noção das coisas que tiveram os povos que notaram como a lei moral não tem valor fora da cidade e do povoado, como, no seu conjunto, não rege o mundo. Eles viram bem que a religião e a moral são necessidades sociais, não são factos que valham na metafísica das acções; que em tudo paira o arbítrio, no sentido de o amoral.
Esta noção instintiva do paganismo, de tratar a moral e a religião antes como virtudes cívicas do que como realidades metafísicas, é um dos factos em que mais há que reparar numa apreciação do espírito do paganismo.
Objectivos acima de tudo, os pagãos tinham a noção do Limite. Foram os primeiros a tê-la.

Ricardo Reis



Tudo o que sabemos sobre árvores é um conjunto estranho de chavões técnicos, símbolos, fragmentos de um universo descontínuo, despersonalizado e destituído de qualquer semelhança com a realidade. Na verdade, estamos permanentemente num estado alterado de consciência derivado dos hábitos incríveis de manipulação da percepção com que fomos obrigados a ser coniventes. A realidade é para nós algo abominável, nem queremos ouvir falar disso.
A complexidade e mentalidade do universo urbano tem por equivalente o seu habitante que para se adaptar a este caos e conseguir ver alguma ordem nele tem de se ausentar do mundo prático do aqui e agora e passar para o mundo da imaginação e do simbolismo abstracto.

(...)

Não há cura para a morte. Quem vos vende disso, são charlatães, garanto-vos. Se algum orvalho da verdade caiu sobre eles, eles estão no seu intimo tão certos disto quanto eu - apenas não conseguem renunciar aos seus hábitos de vampiro. O único caminho é o do espírito na terra.


Excerto de:


O Quarto Livro Sem Nome, Babalith

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

FAKE PLASTIC TREES


Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera que é de outrem,
Nem para o estio de quem somos mortos
Senão para o que fica do que passa
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.


REIS, Ricardo, Odes.


Apenas porque era manhã levantou. “Já não consigo mais tocá-la, porque não existe mais em mim aquela abstração necessária ao amor, ou à poesia”. Pensou, não necessariamente com essas palavras. Pela fresta da janela, a luz dominical entrava muito educada, mas sem pedir licença. O que era verdade no meio daquilo tudo? Existir? Mas o que vem a ser existir e esta vida tão monótona e cotidiana diante do universo?
Ela já estava acordada, mas mantinha os olhos fechados. “Parece um bebê”. Ele pensou porque ela dormia toda encolhida. Levantou a mão com desejo de tocá-la, nos cabelos principalmente, mas recuou. Era como se um lutador de boxe, Mike Tyson talvez com seus dezenove anos, o segurasse pelo pulso.
Procurou os chinelos sob a cama. Estavam perdidos... lá... no fundo... Teve que entrar embaixo da mobília para pegá-los. O azulejo era frio no seu peito. Mármore. Todo o processo o irritou. Precisava mesmo era de umas férias na Jamaica, isso sim!
No banheiro, puxou, mirou, disparou. Errou outra vez. Ela se irritaria novamente. Fazê o que, né? Como conseguiam encher um dia inteiro de discussões? Escovou os dentes.Eles não eram mais brancos. Nicotina demais. O tempo todo. Voltou para a cozinha. Encheu a chaleira de água e colocou no fogo. Tirou o revolver da capa e pôs no som pra tocar. I´m only sleeping. Abriu a porta e acendeu um cigarro. Da cama ela fingiu uma tosse. Aqui na cozinha ele não se irritou. Continuou apenas sorvendo a fumaça e observando as falsas rosas de plástico que cresciam no canteiro lá fora.
Se não eram vivas, tampouco morreriam.



O pianista boxeador é Daniel Lopes.