A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

MALANGATANA HOMENAGEADO EM TAVIRA



A Associação Internacional de Paremiologia/International Assocition of Paramiology (AIP/IAP), com a apoio da Câmara Municipal de Tavira vai homenagear o pintor Malangatana Valente Nowenya (1936-2011), de nacionalidade Moçambicana.
O programa tem início no dia 20 de Agosto, sábado, pelas 14H30, no Auditório da Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, com a presença do Embaixador da República Popular de Moçambique em Portugal, Miguel da Costa Mkaima.
Após os cumprimentos oficiais, será projectado o filme documentário “Ngwenya o Crocodilo” sobre a vida e obra do pintor moçambicano, seguido de debate.
Do programa consta também a visita à exposição de pintura “Contrastes: Homenagem ao pintor Malangatana”, da autoria de Verónique Tello, patente no Salão da Junta de Freguesia de Santiago.

P.S.: Recordamos que Malangatana foi homenageado no sétimo número da NOVA ÁGUIA.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Homenagem a Malangatana



Queridos Amigos,

No intuito de prestarmos uma última homenagem, o corpo do nosso Mestre Malangatana está presente no Mosteiro dos Jerónimos, amanhã, dia 7, a partir das 15h.

Um grande Homem, um Artista, um Cidadão do Mundo.

Maria João Coutinho

P.S.: Em Homenagem a Malagantana, a NOVA ÁGUIA publicará no próximo número o seguinte texto, da autoria de Maria de Deus Manso, da Universidade de Évora.

Retrato de Mulher: Mulher é pai (Malangatana)

Para o nosso primeiro texto sobre Moçambique não nos ocorreria ter feito melhor opção: conversar com Malagantana Ngwenya Valente , um dos maiores artistas do nosso tempo.
Quando há um ano, na atribuição do Doutoramento Honoris Causa da Doutora Graça Machel, se encarou a possibilidade da apresentação da obra do artista na Universidade de Évora, pensámos que esta poderia ter como título simplesmente a palavra Mulher. Contudo, este viria a ser posteriormente convertido num outro título – Malangatana – 50 anos de Pintura nos 450 Anos da Universidade. No percurso artístico deste mestre, a Mulher assume papel central. Trabalhar este assunto seria, na nossa perspectiva, o juntar de dois elementos: a arte do mestre, que pode ser admirada nas obras que aqui agora expõe, aliada à investigação que se nos impunha sobre o seu conceito da mulher real, no seu quotidiano, excluindo da nossa parte a pretensão de uma interpretação de carácter artístico.
Oportunamente, numa das conversas que mantivemos com o artista no seu atelier, em Lisboa, divagámos sobre a questão. Ou seja, divagámos, pois toda a nossa relação se tem estabelecido de um modo informal, como informal se nos apresentou sempre este Homem em quem, desde a primeira ocasião, percebemos a vontade de nos dar a conhecer o seu percurso de vida, por sinal, nem sempre fácil.
Fruto da História que uniu e une Portugal e Moçambique, pensámos encontrar em Malangatana um homem ressentido com o passado colonial. Mas, pelo contrário, a sua vivência e a sua memória, fá-lo sustentar que os portugueses não se podem demitir da cooperação com África. Por isso, não hesitou em falar-nos sobre o processo de paz, nomeadamente os Acordos de Roma, lamentando o distanciamento que Portugal manteve em relação às negociações. É sua opinião que Portugal deveria ter assumido a liderança deste processo: “Portugal fez a Guerra” e, embora o tenha colonizado, conhece a História do país sua ex-colónia, portanto “pelo seu passado estaria mais preparado para as negociações entre a FRELIMO e a RENAMO”.
Olhando o tema da Mulher, quisemos saber o que pensa sobre o assunto um homem de raça negra, um grande artista, que vive entre o mundo ocidental e um outro mundo - não ocidental - e que constantemente reflecte a Mulher na sua arte. Que cogitará ele a este respeito? Embora nascido numa sociedade preponderantemente patriarcal, começou por nos dizer que vê a mulher como o pilar da sociedade moçambicana, onde assume o papel de mãe e de pai. Por isso, quando lhe pedimos para definir Mulher, respondeu-nos: “A mulher é pai”.
Pareceu-nos não fazer parte central das suas preocupações intelectuais a questão do feminismo. Contudo, está atento ao novo papel que a Mulher assume actualmente e reconhece que a mulher moderna “embora mais esclarecida e mais dinâmica fora do lar, começa a desagradar ao homem, pois a sua capacidade de gestão começa a criar complexos ao mesmo”. Quando indagado sobre eventuais mudanças que poderiam resultar de um governo feminino em África, replica: “Talvez (algo) mudasse, mas elas ficariam sob uma ratoeira invisível (…) que seria o homem à espera da sua queda.”
Sobre a polémica da atribuição de “cotas femininas” em alguns países, afirma que, no que concerne a Moçambique, este país tem muitas mulheres na política que se afirmaram pelas suas capacidades. Discorda desta politica de atribuição de cotas, pois em seu entender “inferioriza a mulher”, e compara-a “ à questão das cotas para negros nos USA e no Brasil”. Lembra que hoje em dia muitas mulheres residentes em aldeias são dirigentes responsáveis pela manutenção da tradição, da política, fazem parte dos tribunais tradicionais… “Isto não era uma prática habitual, não fazia parte da tradição. A mulher assumiu esta dianteira depois da descolonização. Quando os homens não conseguem discutir os problemas devido à sua incapacidade, ao consumo do alcool ou devido à emigração, a mulher passa a assumir a liderança”. Acrescenta que uma das principais diferenças entre a mulher portuguesa e a moçambicana se centra sobretudo numa questão de escolaridade: “ Se fosse escolarizada, não haveria grandes diferenças e até estaria em primeiro lugar. Em Moçambique, talvez haja mais homens nas universidades, mas a situação está a inverter-se. Podem entrar mais homens mas são menos os que terminam os cursos. A maior parte da docência está entregue a mulheres, mesmo no ensino superior”.
A aproximação que se sente, no domínio da escolaridade e do emprego, entre a mulher moçambicana e a portuguesa, parece não ter apagado alguns costumes ancestrais nesta sociedade africana, ainda que, oficialmente, estes não sejam permitidos. É o caso da poligamia. O nosso artista parece não discordar em absoluto da mesma e diz-nos a este respeito: “ É uma prática ainda existente mas clandestina, no entanto, aceite pela sociedade.” Não nota “que a mulher moçambicana se queixe da prática” e argumenta que “há razões psicológicas que a justificam”. Concretiza: “ A viúva pode não encontrar um marido e passa a viver infeliz. São poucas as mulheres que se queixam da prática.” No entanto, também não condena o recurso a uma ligação extraconjugal da parte da mulher, caso o marido não tenha vida viril.
Se, por um lado, é defensor da tradição, por outro, sustenta a extinção de algumas práticas ligadas à mesma, como se verifica no caso da excisão feminina. Embora, no seu todo, rejeite “uma ocidentalização da mulher”, no sentido da ” imitação da mulher europeia”, no que diz respeito à formação/educação, aceita o modelo ocidental, pois “ só assim (a mulher) tem capacidade para aceitar ou rejeitar as coisas”.
O binómio tradição/modernidade - submissão/insubmissão, reflecte-se, igualmente, quanto a nós, nas mulheres que elegeu, entre outras, como marcos da História Mundial: Miriam Makeba: “consciente da sua força”; Rainha Ginga: “heroína africana”; Joana D’Arc: “uma incompreendida”; Catarina Eufémia e Florbela Espanca: porque “desafiam a sociedade”.
Divagando sobre a paixão por mulheres brancas, negras ou mulatas e fazendo jus às leis da física, diz: “A atracção é maior quando se cruzam duas raças contrárias ou duas cores contrárias. Mas a maior atracção assenta na simpatia, na doçura e não na cor. O coração não tem cor e a cor não o move”. Sente-se atraído pela maneira como a mulher se organiza, se bambaleia e anda. Na pintura encanta-o “pintar sempre a mulher nua, mas não penso no corpo nu como se a estivesse a despir mas vivo o interior da mulher….Gosto de representar sobretudo os seios (…) Sinto respeito pela mulher…. O meu fetiche pelo erotismo significa respeito e valorização da mulher”.
Indagado sobre o amor lésbico, respondeu-nos lendo um poema de sua autoria, que fala do amor entre duas mulheres e diz-nos: “este poema traduz um desenho. Com ele, pretendo homenagear as mulheres que no mundo querem afirmar publicamente o amor lésbico. Mas (confessa) a dada altura tive uma certa cobardia que foi fazer o poema como se se tratasse do amor dum homem por uma mulher. Escrevi surpeendidos em vez de surpreendidas. Não quis contrariar a natureza. Não sei porque o fiz, não quis fugir dessa parte que quer aceitar a homossexualidade mas há algo dentro de mim que não está bem limpo a respeito da homossexualidade”.
Em fase conclusiva e ponderando a velha ideia de que todos os grandes Homens têm uma musa inspiradora, quisemos saber qual o seu ideal de Mulher. Disse-nos que “o primeiro olhar é físico, embora o belo nem sempre seja uma cara bonita.” Mas fugiu sempre à nossa curiosidade sobre quem foram ou são as mulheres da sua vida. Como resposta, uma gargalhada. E acabou por nos confessar que “o coração tem compartimentos para guardar os segredos”, assegurando: “Sou muito jovem ainda para dizer qual foi (…) e não estou desiludido com a mulher com quem casei. Ela é superior a mim”. Palavras de um grande artista e declarado humanista a quem muito agradecemos a gentileza de nos ter dado o privilégio de com ele conversar. Esperamos tê-lo compreendido.

Évora, 12 de Janeiro de 2010.

Maria de Deus Beites Manso
Comissária para a Exposição - Malangatana – 50 anos de Pintura nos 450 Anos da Universidade

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Morreu Malangatana



O pintor moçambicano Malangatana morreu aos 74 anos, esta madrugada, no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, vítima de doença prolongada, segundo a direcção do hospital.
O pintor, de 74 anos, encontrava-se internado há vários dias naquele estabelecimento hospitalar.

Malangatana vendeu os primeiros quadros há 50 anos e com o dinheiro arranjou uma casa e foi buscar a família para Maputo. Meio século depois, morreu um homem do mundo, um amigo de Portugal e um dos moçambicanos mais famosos.

Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 6 de junho de 1936 em Matalana, uma povoação do distrito de Marracuene, às portas da então Lourenço Marques, hoje Maputo. Foi pastor, aprendiz de curandeiro (tinha uma tia curandeira) e mainato (empregado doméstico).

A mãe bordava cabaças e afiava os dentes das jovens locais (uma moda da altura), o pai era mineiro na África do Sul. Com a mãe doente e um pai ausente, Malangatana foi viver com o tio paterno e estudou até à terceira classe. Aos 11 anos começou a trabalhar porque já era “adulto” e podia fazer tudo, de cuidador de meninos a apanha-bolas no clube de ténis.

Mais do que um pintor
Nos últimos 50 anos foi também muito mais do que pintor. Fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Fez experiências com areia, conchas, pedras e raízes. Foi poeta, actor, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado, da FRELIMO, partido no poder em Moçambique desde a independência.

Ainda que o seu lado político seja o menos conhecido, Malangatana chegou a estar preso, pela PIDE, acusado de pertencer à então FRELIMO, sendo libertado ao fim de 18 meses, por não se provar qualquer vínculo à resistência colonial.

Na verdade Malangatana viveu parte da sua adolescência junto dos colonos portugueses, os mesmos que o iniciaram na pintura, primeiro o artista plástico e biólogo Augusto Cabral (morreu em 2006) e depois o arquitecto Pancho Guedes.

Augusto Cabral era sócio do Clube de Ténis, onde trabalhava um tio do pintor. “Um apanha-bolas nas partidas de ténis era um tal Malangatana Ngwenya (crocodilo), que, no fim de uma tarde de desporto, se acercou de mim para me pedir se, por acaso, eu não teria em casa um par de sapatilhas velhas que lhe desse”, contou Augusto Cabral em 1999.

O pintor iria “nascer” nessa noite, quando Malangatana foi a casa de Augusto Cabral e o viu a pintar um painel. “Ensine-me a pintar”, pediu. E Augusto Cabral deu-lhe tintas, pincéis e placas de contraplacado. “Agora pinta”, disse ao jovem, ao que este perguntou: “pinto o quê?”. “O que está dentro da tua cabeça”, respondeu Augusto Cabral.

O jovem viria a ter também o apoio de outro português, o arquiteto Pancho Guedes, que lhe disponibilizou um espaço na garagem de sua casa de Maputo e lhe comprava dois quadros por mês, a preços inflacionados. Em poucos meses Malangatana quis fazer uma exposição e foi, para espanto confesso de Augusto Cabral, um enorme sucesso.

Nas pinturas, nessa altura e sempre, Matalana, onde nasceu e cresceu e onde frequentou a escola da missão suíça de até à segunda classe. Menino pastor, agricultor, caçador de ratos com azagaia, viria a estudar só mais um ano. Fica-lhe Matalana no pincel, a opressão colonial, a guerra civil. A paz reflecte-se numa pintura mais otimista e nos últimos anos foi um carácter mais sensual que a caracterizou.

E sempre o quotidiano. “Há sempre um manancial de temas a abordar. São os acontecimentos do mundo, às vezes tristes, outras alegres, e eu não fico indiferente. Seja em Moçambique, ou noutra parte do mundo, a dor humana é a mesma", disse numa entrevista à Lusa, ainda recentemente.

Já homem, com a pintura como profissão, confessou ao jornalista Machado da Graça que sentia grande aproximação com os artistas portugueses desde os anos 70, quando foi pela primeira a Portugal, como bolseiro da Gulbenkian.

O legado de Malangatana
Entre 1990 a 1994 foi deputado da FRELIMO e ao longo de décadas ligado a causas sociais e culturais. Foi um dos criadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique, dinamizador do Núcleo de Arte, colaborador da Unicef e arquiteto de um sonho antigo, que levou para a frente, a criação de um Centro Cultural na “sua” Matalana.E exposições, muitas, em Moçambique e em Portugal mas também mundo fora, na Alemanha, Áustria e Bulgária, Chile, Brasil, Angola e Cuba, Estados Unidos, Índia. Tem murais em Maputo e na Beira, na África do Sul e na Suazilândia, mas também em países como a Suécia ou a Colômbia.

Contando com as obras em museus e galerias públicas e em colecções privadas, Malangatana vai continuar presente praticamente em todo o mundo, parte do qual conheceu como membro de júri de bienais, inaugurando exposições, fazendo palestras, até recebendo o doutoramento honoris causa, como aconteceu recentemente em Évora, Portugal.

Foi nomeado Artista pela Paz (UNESCO), recebeu o prémio Príncipe Claus, e de Portugal levou também a medalha da Ordem do Infante D.Henrique. Em Portugal morreria também o pastor, mainato e pintor. Malangatana. Valente.

Fonte: Público

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Retrato de Mulher: "Mulher é pai"

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Quando há um ano, na atribuição do Doutoramento Honoris Causa da Doutora Graça Machel, se encarou a possibilidade da apresentação da obra do artista na Universidade de Évora, pensámos que esta poderia ter como título simplesmente a palavra Mulher. Contudo, este viria a ser posteriormente convertido num outro título - Malangatana - 50 anos de Pintura nos 450 Anos da Universidade.

No percurso artístico deste mestre, a Mulher assume papel central. Trabalhar este assunto seria, na nossa perspectiva, o juntar de dois elementos: a arte do mestre, que pode ser admirada nas obras que aqui agora expõe, aliada à investigação que se nos impunha sobre o seu conceito da mulher real, no seu quotidiano, excluindo da nossa parte a pretensão de uma interpretação de carácter artístico.

Oportunamente, numa das conversas que mantivemos com o artista no seu atelier, em Lisboa, divagámos sobre a questão. Ou seja, divagámos, pois toda a nossa relação se tem estabelecido de um modo informal, como informal se nos apresentou sempre este Homem em quem, desde a primeira ocasião, percebemos a vontade de nos dar a conhecer o seu percurso de vida, por sinal, nem sempre fácil.

Fruto da História que uniu e une Portugal e Moçambique, pensámos encontrar em Malangatana um homem ressentido com o passado colonial. Mas, pelo contrário, a sua vivência e a sua memória, fá-lo sustentar que os portugueses não se podem demitir da cooperação com África. Por isso, não hesitou em falar-nos sobre o processo de paz, nomeadamente os Acordos de Roma, lamentando o distanciamento que Portugal manteve em relação às negociações. É sua opinião que Portugal deveria ter assumido a liderança deste processo: "Portugal fez a Guerra" e, embora o tenha colonizado, conhece a História do país sua ex-colónia, portanto "pelo seu passado estaria mais preparado para as negociações entre a FRELIMO e a RENAMO".

Olhando o tema da Mulher, quisemos saber o que pensa sobre o assunto um homem de raça negra, um grande artista, que vive entre o mundo ocidental e um outro mundo - não ocidental - e que constantemente reflecte a Mulher na sua arte. Que cogitará ele a este respeito? Embora nascido numa sociedade preponderantemente patriarcal, começou por nos dizer que vê a mulher como o pilar da sociedade moçambicana, onde assume o papel de mãe e de pai. Por isso, quando lhe pedimos para definir Mulher, respondeu-nos: "A mulher é pai".

Pareceu-nos não fazer parte central das suas preocupações intelectuais a questão do feminismo. Contudo, está atento ao novo papel que a Mulher assume actualmente e reconhece que a mulher moderna "embora mais esclarecida e mais dinâmica fora do lar, começa a desagradar ao homem, pois a sua capacidade de gestão começa a criar complexos ao mesmo". Quando indagado sobre eventuais mudanças que poderiam resultar de um governo feminino em África, replica: "Talvez (algo) mudasse, mas elas ficariam sob uma ratoeira invisível (...) que seria o homem à espera da sua queda."

Sobre a polémica da atribuição de "cotas femininas" em alguns países, afirma que, no que concerne a Moçambique, este país tem muitas mulheres na política que se afirmaram pelas suas capacidades. Discorda desta politica de atribuição de cotas, pois em seu entender "inferioriza a mulher", e compara-a " à questão das cotas para negros nos USA e no Brasil". Lembra que hoje em dia muitas mulheres residentes em aldeias são dirigentes responsáveis pela manutenção da tradição, da política, fazem parte dos tribunais tradicionais... "Isto não era uma prática habitual, não fazia parte da tradição. A mulher assumiu esta dianteira depois da descolonização. Quando os homens não conseguem discutir os problemas devido à sua incapacidade, ao consumo do alcool ou devido à emigração, a mulher passa a assumir a liderança". Acrescenta que uma das principais diferenças entre a mulher portuguesa e a moçambicana se centra sobretudo numa questão de escolaridade: " Se fosse escolarizada, não haveria grandes diferenças e até estaria em primeiro lugar. Em Moçambique, talvez haja mais homens nas universidades, mas a situação está a inverter-se. Podem entrar mais homens mas são menos os que terminam os cursos. A maior parte da docência está entregue a mulheres, mesmo no ensino superior".

A aproximação que se sente, no domínio da escolaridade e do emprego, entre a mulher moçambicana e a portuguesa, parece não ter apagado alguns costumes ancestrais nesta sociedade africana, ainda que, oficialmente, estes não sejam permitidos. É o caso da poligamia. O nosso artista parece não discordar em absoluto da mesma e diz-nos a este respeito: "É uma prática ainda existente mas clandestina, no entanto, aceite pela sociedade." Não nota "que a mulher moçambicana se queixe da prática" e argumenta que "há razões psicológicas que a justificam". Concretiza: "A viúva pode não encontrar um marido e passa a viver infeliz. São poucas as mulheres que se queixam da prática." No entanto, também não condena o recurso a uma ligação extraconjugal da parte da mulher, caso o marido não tenha vida viril.

Se, por um lado, é defensor da tradição, por outro, sustenta a extinção de algumas práticas ligadas à mesma, como se verifica no caso da excisão feminina. Embora, no seu todo, rejeite "uma ocidentalização da mulher", no sentido da "imitação da mulher europeia", no que diz respeito à formação/educação, aceita o modelo ocidental, pois "só assim (a mulher) tem capacidade para aceitar ou rejeitar as coisas".

O binómio tradição/modernidade - submissão/insubmissão, reflecte-se, igualmente, quanto a nós, nas mulheres que elegeu, entre outras, como marcos da História Mundial: Miriam Makeba: "consciente da sua força"; Rainha Ginga: "heroína africana"; Joana D'Arc: "uma incompreendida"; Catarina Eufémia e Florbela Espanca: porque "desafiam a sociedade".

Divagando sobre a paixão por mulheres brancas, negras ou mulatas e fazendo jus às leis da física, diz: "A atracção é maior quando se cruzam duas raças contrárias ou duas cores contrárias. Mas a maior atracção assenta na simpatia, na doçura e não na cor. O coração não tem cor e a cor não o move". Sente-se atraído pela maneira como a mulher se organiza, se bambaleia e anda. Na pintura encanta-o "pintar sempre a mulher nua, mas não penso no corpo nu como se a estivesse a despir mas vivo o interior da mulher....Gosto de representar sobretudo os seios (...) Sinto respeito pela mulher.... O meu fetiche pelo erotismo significa respeito e valorização da mulher".

Indagado sobre o amor lésbico, respondeu-nos lendo um poema de sua autoria, que fala do amor entre duas mulheres e diz-nos: "este poema traduz um desenho. Com ele, pretendo homenagear as mulheres que no mundo querem afirmar publicamente o amor lésbico. Mas (confessa) a dada altura tive uma certa cobardia que foi fazer o poema como se se tratasse do amor dum homem por uma mulher. Escrevi surpeendidos em vez de surpreendidas. Não quis contrariar a natureza. Não sei porque o fiz, não quis fugir dessa parte que quer aceitar a homossexualidade mas há algo dentro de mim que não está bem limpo a respeito da homossexualidade".

Em fase conclusiva e ponderando a velha ideia de que todos os grandes Homens têm uma musa inspiradora, quisemos saber qual o seu ideal de Mulher. Disse-nos que "o primeiro olhar é físico, embora o belo nem sempre seja uma cara bonita." Mas fugiu sempre à nossa curiosidade sobre quem foram ou são as mulheres da sua vida. Como resposta, uma gargalhada. E acabou por nos confessar que "o coração tem compartimentos para guardar os segredos", assegurando: "Sou muito jovem ainda para dizer qual foi (...) e não estou desiludido com a mulher com quem casei. Ela é superior a mim". Palavras de um grande artista e declarado humanista a quem muito agradecemos a gentileza de nos ter dado o privilégio de com ele conversar. Esperamos tê-lo compreendido.


Évora, 12 de Janeiro de 2010


Maria de Deus Beites Manso Departamento de História

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Malangatana honoris causa da UE



Malangatana Valente Ngwenya recebeu, na Sala de Actos da UE repleta de espectadores, o reconhecimento pela vida e obra enquanto pintor e artista. Feliz e emocionado, Malangatana dividiu a distinção com a sua musa de há mais de 53 anos, a mulher Gelita Mhangwana. "Símbolo fiel e feliz da sua pátria" como descreveu o "padrinho", amigo de há mais de 30 anos e responsável pela laudatio, Marcelo Rebelo de Sousa, o "pintor, escultor, ceramista, pedagogo, animador cultural, diplomata e consciência moral" é uma personalidade de vários saberes, cuja presença é sinónimo de "apego à terra, solidariedade com as gentes, força da cor e da música".
Detentor do primeiro quadro do artista, a "Maternidade", comprado com a sua "magra mesada de jovem terceiro-anista de Direito", Marcelo Rebelo de Sousa destaca ainda o seu sentido humanista e o seu papel no mundo da lusofonia.
Depois da atribuição do doutoramento honoris causa, o mestre sente-se "mais responsabilizado" e confessa "ainda não saber o que fazer para assegurar tamanha responsabilidade". No entanto, o pintor assume: "Vou continuar a ser o que sou: na arte, na forma de pensar, na política, na paz e no apoio a crianças".
Segundo o Reitor da Universidade de Évora, Prof. Jorge Araújo, Malangatana é "um dos mais eminentes artistas plásticos africanos e poeta moçambicano", cuja obra a Universidade de Évora entendeu distinguir no encerramento das comemorações do seu 9.º Jubileu. "A luta pela independência do seu país e, uma vez esta alcançada, com o pincel e a palavra, a luta pelo direito dos meninos à educação, dos moçambicanos à sua identidade cultural e dos povos à paz" foi um dos motivos que levou a universidade a integrar Malangatana no claustro dos seus doutores honoris causa, que têm em comum o facto de se distinguirem ao longo da vida pela defesa dos direitos humanos ou da paz através do diálogo intercultural e inter-civilizacional.
Considerado pelo Ministro da Cultura de Moçambique como um dos "filhos prodigiosos da pátria de Mondlane", o ministro destaca ainda o seu nacionalismo e o papel que o mestre desempenhou na "libertação de Moçambique".
Malangatana inaugurou em Évora, no Palácio D. Manuel, a exposição retrospectiva dos 50 anos da sua obra, que, segundo o Ministro, revela a sua "dimensão estético-artística e o compromisso que assumiu com os valores do humanismo".
Para Malangatana, a exposição foi "uma forma de agradecimento à Universidade de Évora pela entrega deste doutoramento honoris causa, e eu senti que devia mostrar parte do meu trabalho". A exposição do novo doutor da universidade eborense vai estar patente até ao próximo dia 11 de Março, no Palácio D. Manuel, em Évora.

Sofia Ascenso UELINE

domingo, 13 de setembro de 2009

Pintor Malangatana vai receber Honoris Causa da Universidade de Évora

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O pintor moçambicano Malangatana disse hoje que no próximo ano irá receber o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Évora, distinção que o deixa "muito contente".

"Ainda não tem data marcada mas é muito possível que seja em Fevereiro", informou hoje o pintor à agência Lusa na Guarda, à margem da inauguração de uma exposição na galeria de arte do teatro municipal local.

Malangatana Valente Ngwenya, que já possui um título idêntico atribuído pela Universidade Politécnica de Maputo, afirmou que recebeu a notícia "com grande satisfação" e que ficou "muito contente".

"Já me foi dada carta aberta para ter um padrinho, vou-me preparar para ver o que posso apresentar para esse prémio que vou receber e estou a preparar uma exposição" para Évora, adiantou.

Malangatana nasceu em Matalana, distrito de Marracuene, Moçambique, a 6 de Junho de 1936 e expõe pela primeira vez na cidade da Guarda.

A mostra intitula-se "Encontro com Malangatana" e ficará patente na galeria de arte do Teatro Municipal da Guarda (TMG) até 01 de Novembro.

É composta por três secções, uma com 21 desenhos (que pintou para ilustrar o livro "24 poemas e outros inéditos"), outra com 18 desenhos a tinta-da-china (elaborados entre os anos de 1970 e 2008) e a terceira composta por 18 pinturas (desde 1971 até aos dias de hoje).

O pintor disse à Lusa que está "feliz" por expor na galeria de arte do TMG, numa cidade do Interior do país.

"Sinto-me feliz porque estive em muitas partes do mundo e nesta parte do Interior o desenvolvimento não é como em Lisboa, Porto ou Coimbra, mas existe um teatro muito multifacetado, que permite que as pessoas que não se podem deslocar a Lisboa ou ao Porto possam ter aqui uma gastronomia cultural sem grande dificuldade", considera.

O pintor explicou que nas obras expostas aborda temas diversos como "situações do dia-a-dia, o erotismo, o sensualismo da vida, a mentalidade do homem, sonhos passados e presentes e um pouco as turbulências" da sua vida.

"Nalguns casos até aponto uma certa raiva em relação aos acontecimentos a que temos assistido em pleno século XXI, como as guerras", explicou.

Américo Rodrigues, director artístico do TMG, referiu o facto de a mostra incluir "desenhos e pinturas que são expostas pela primeira vez", que fazem parte da colecção privada do artista.

"Para nós é uma grande honra recebê-lo aqui", disse o responsável TMG, dirigindo-se a Malangatana e referindo que o nome do pintor estava na agenda do teatro "desde o primeiro minuto, pelo brilhantismo do seu trabalho, da sua carreira, pela afirmação que tem a nível internacional e, também, por África".

Na inauguração da exposição "Encontro com Malangatana", comissariada por Filomena André, também marcaram presença o director regional da Cultura do Centro, António Pedro Pita, e o vereador do pelouro da Cultura da Câmara da Guarda, Virgílio Bento.

Fonte: Expresso

sábado, 16 de agosto de 2008

Escritores e artistas africanos lusófonos entram na Academia de Ciências de Lisboa


O moçambicano Malangatana, os escritores Germano de Almeida, de Cabo Verde, e Pepetela, de Angola, e o economista Carlos Lopes, da Guiné-Bissau, são os novos membros da Academia de Ciências de Lisboa.

Da Redação

Brasília - O pintor moçambicano Malangatana, os escritores Germano de Almeida, de Cabo Verde, e Pepetela, de Angola, e o economista Carlos Lopes, da Guiné-Bissau, deverão tomar posse como membros da Academia de Ciências de Lisboa em cerimónia a realizar em Setembro.
A admissão dos quatro intelectuais e artistas de países africanos lusófonos foi decidida pelos académicos portugueses durante sessão realizada no dia 24 de Julho.
Na mesma sessão plenária da Academia de Ciências de Lisboa foram admitidos, também na qualidade de "Académico Correspondente Estrangeiro", o príncipe Aga Khan e a antropóloga e investigadora alemã Beatrix Heintze.
O pintor moçambicano Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 6 de Junho de 1936, em Matalane, no sul de Moçambique.
Essencialmente um auto-didacta, Malangatana é hoje um dos artistas africanos mais conhecidos internacionalmente, estando representado em vários museus e colecções privadas de todo o mundo.
O escritor cabo-verdiano Germano Almeida nasceu em 1945 na ilha da Boavista e estudou Direito em Lisboa. Vive actualmente em Cabo Verde, onde exerce advocacia.
"O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo" (1991) é um dos seus livros mais conhecidos, tendo sido adaptado para o cinema.
O angolano Pepetela, de nome próprio Artur Pestana, nasceu em Benguela, em 1941. Em 1997 recebeu o Prémio Camões.
Licenciado em Sociologia, é professor, romancista e dramaturgo, contando-se entre as suas principais obras "As Aventuras de Ngunga", "A Geração da Utopia" ou a "Gloriosa Família".
O economista guineense Carlos Lopes é um alto quadro das Nações Unidas, acumulando desde Março de 2007 o cargo de Subsecretário-Geral das Nações Unidas com o de director executivo do Instituto da ONU para a Formação e Pesquisa (UNITAR).

Fonte: Portugal digital, 13-08-08