Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Congresso Internacional do Estudo da Língua e Culturas Portuguesas na América do Norte
Prazo limite para submissão - 24 de Junho
Data de aceitação - 7 de Julho
Envio da versão final do trabalho para publicação - 28 de Julho
Data do Congresso - 27 de Agosto
Local – Bristol Community College, Fall River, Massachusetts
Objectivos do Congresso
Dar a conhecer o trabalho desenvolvido por docentes e investigadores no campo do ensino da língua e culturas Portuguesas.
Apresentar estratégias/actividades de sucesso de ensino do Português como língua estrangeira nos EUA, Canadá e Bermuda.
Tópicos do Congresso
Este congresso, organizado pela Universidade dos Açores e pelo Portuguese World Language Institute, sedeado na Lesley University, Cambrigde, MA, em parceria com o Bristol Community College, Fall River, MA, pretende congregar docentes e investigadores da Língua e Cultura Portuguesas que pretendam apresentar uma comunicação ou dinamizar uma Oficina de Trabalho sobre os seguintes tópicos:
- Ensino do Português como língua estrangeira na América do Norte
- Ensino das literaturas de língua portuguesa na diáspora
- Os países de língua portuguesa e as suas culturas
- As comunidades de Língua Portuguesa na América do Norte
Os autores devem submeter uma proposta de Oficina de Trabalho ou comunicação à Organização do Congresso através do email gcastanho@uac.pt, nos tópicos acima referidos.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA
A Língua Forte, Bela, Gentil e Exuberante
J. Jorge Peralta
O grande e complexo mundo da Lusofonia celebrou, no mês de maio deste ano, pela primeira vez, o Dia da Língua Portuguesa, criado pela CPLP.
A data foi comemorada com Semanas de Estudo, sessões solenes e festivas, grandes palestras, com temas de exaltação à nossa língua, bela, versátil, exuberante, altiva e forte.
Enfim, o Dia da Língua Portuguesa é um dia propício para estudá-la melhor, para divulgar suas excelências e mostrar suas belezas.
Mais do que dizer que é uma língua de grande potencial cultural, social e econômico, por ser falada nos cinco continentes, em todos os quatro cantos do mundo, por aproximadamente 260 milhões de lusófonos, devemos mostrar ao mundo, e a nós mesmo, os predicados que a fazem bela, forte e cativante. Os valores e encantos que a destacam entre as três línguas mais faladas no Ocidente.
Falta a CPLP proclamar o Grande Mestre P. Antônio Vieira, a quem Fernando Pessoa proclamou de Imperador da Língua Portuguesa, como Patrono da Lusofonia, e o Dia 18 de julho como Dia da Lusofonia.
No projeto GlobiLíngua (Língua Global) desenvolvemos longamente essa questão nuclear: (Ver link adiante)
Alguns autores estrangeiros teceram loas sinceras à Língua Portuguesa, mais do que nós. Os entendidos falam de nossa língua sempre com muito entusiasmo.
Dois grandes intelectuais espanhóis não tiveram dúvidas em proclamar a superioridade de Língua Portuguesa, sobre o espanhol.
Citamos, por exemplo, o inquestionável Miguel de Cervantes, autor da obra prima da língua castelhana, “Dom Quixote”, e Miguel de Unamuno, um dos maiores intelectuais do século XX.
Estes não estão sós. Quem conhece a alma de nossa língua, fala de sua sedução. Os estrangeiros falam e sentem melhor os encantos de nossa língua, pois têm o parâmetro comparativo e de contraste.
Na Língua Portuguesa, entre uma plêiade imensa de grandes mestres, destaca-se Camões e Vieira.
No final do mês de Maio realizou-se no Itamaraty uma Grande Conferência Internacional sobre a Língua Portuguesa, como Língua Internacional. Aguardamos a publicação das conclusões do magno evento.
Na brevidade desta crônica, cito o Grande Pensador Brasileiro, Gilberto Freire:
“A Língua Portuguesa é uma das mais belas e mais sonoras – Talvez a mais bela e mais sonora – no que se refere à descrição de objetos de luxo e de matérias preciosas, por se ter apercebido da complexidade da cultura ou do passado lusitano. Uma complexidade que torna o edifício verbal do português semelhante ao estilo manuelino de arquitetura. Ambos se apresentam marcados por alguma coisa de exuberante, de mestiço, de contraditório, que vem da aventura ou de experiência ultramarina: Uma experiência que juntou, ao passado europeu dos lusitanos, outros passados – o oriental, o chinês, o indiano, o africano, o americano, o atlântico (...)” (Conf. Gilberto Freyre, Um Brasileiro em Terras Portuguesas, Ed. Livros do Brasil, p.17).
Enfim, esta língua tão forte, tão bela, tão dinâmica e tão universal é a terceira (3ª) língua mais falada no Ocidente, e é a quinta (5ª) língua mais falada no mundo.
Hoje somos aproximadamente, 260 milhões de falantes. Daqui a trinta (30) anos serem 500 milhões de Lusófonos. Se língua é poder. Imagine-se o poder de nossa língua.
Para saber mais, leia:
* O grande despertar da Língua Portuguesa (clique)
em:
http://globilingua.blogspot.com/2010/03/o-grande-despertar-da-lingua-portuguesa.html
* Padre Antônio Vieira, Patrono da Lusofonia (clique)
em:
http://tribunalusofona.blogspot.com/2009/11/p-antonio-vieira-patrono-da-lusofonia.html
*Dia Mundial da Lusofonia (clique)
em: http://tribunalusofona.blogspot.com/2009/11/dia-mundial-da-lusofonia.html
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Em Angola, "português é a língua da nacionalidade”, diz Pepetela

Nasceu em Benguela Artur Pestana, como escritor ficou Pepetela, tradução do seu apelido na língua umbundu. Diz que a língua “molda a expressão do pensamento” e quanto ao novo acordo ortográfico, “está mais contra os que estão contra”.
“Eu escrevo em português, mas se o fizesse em francês seria outra coisa, outra cabeça, e à expressão própia dentro da língua, alguns chamam estilo", afirma logo no início da conversa com o Observatório do Algarve.
Conversa que se travou sob o pretexto do doutoramento "Honoris Causa" recebido na Universidade do Algarve e que o escritor dedicou “ao povo angolano”, considerando que "muito dificilmente se separará a obra e a vida de um escritor da história e cultura do seu povo" .
Uma dedicatória que estende à sua mãe e à sua mulher. A primeira por uma "estória de matemática, uma equação" que o empurrou para a escrita e a outra “por ser responsável por, pelo menos, metade daquilo que tenho produzido".
Para Pepetela, os ambientes entram nas escritas, as palavras, seus instrumentos de trabalho, são também a ligação com o exterior e portanto “é diferente estar em Portugal, no Brasil ou, por exemplo, nos Estados Unidos”.
Isso vê-se em qualquer conferência internacional, ilustra o escritor angolano, "quando procuramos sempre moçambicanos, cabo-verdianos, portugueses, antes de tudo".
O português é a língua da nacionalidade
E como vai o português, enquanto língua oficial em Angola? “Como língua materna, já ultrapassou todas as outras”, disso não tem dúvidas Artur Pestana que garante ser o português dominado por mais de 90 por cento dos angolanos, embora uns se expressem melhor que outros. Não é só, portanto, a língua oficial, mas sim “a língua da nacionalidade”.
Uma nação para cuja classe dirigente lança um olhar crítico, perante “o processo lento que será necessário percorrer, até ter uma elite capaz e séria. E a oposição ainda não tem força”, remata.
Ainda assim, Pepetela fala do irromper de “espaços de liberdade, órgãos de informação com mais pluralidade”, de lugares “onde se pode fazer cultura”.
A “falta de imaginação” do novo acordo ortográfico
É um tema quase incontornável, quando se fala de lusofonia, mas Pepetela confessa-se “um bocado farto” do acordo.
“Eu sou contra este acordo, mas sou ainda mais contra os que estão contra, que me parece terem uma reacção parecida com a que existiu no século dezanove, relativamente ao francês”. É uma reacção reaccionária, diz num jogo de palavras significativo.
Reacções à parte, Pepetela diz que o acordo sofre de “falta de imaginação”. E dá um exemplo: Diz-se António em português e Antônio em brasileiro. “Não seria altura de se inventar um novo acento, para definir as sílabas tónicas, uniformizar grafia e sotaques?, questiona.
Um outro livro na calha
“Este ano não sai nada ”, não há novo livro, comenta de imediato quando o Observatório do Algarve o questiona sobre novos trabalhos.
Pepetela está antes envolvido num projecto que implica “muita pesquisa e investigação. Tento sempre ser diferente, evitar o perigo da repetição”, justifica.
Mas não é possível, por enquanto, saber mais sobre o seu novo trabalho. “Sou supersticioso e ainda não é o tempo de falar nisso”, atalha.
Pepetela retomaria este escrúpulo de falar de si próprio e da sua obra no discurso que proferiu, após receber as insígnias de doutor "Honoris Causa onde disse que, no seu "fraco entender, um ficcionista deve contar preferentemente estórias, com 'es', e não falar ou escrever sobre aquilo que é o seu trabalho íntimo, talvez o mais íntimo dos trabalhos humanos".
"Chamemos-lhe discrição ou suma vaidade a este cuidado de não revelar intimidades. Há porém escritores, também especialistas em teoria literária, e que sem caírem em esquizofrenias, conseguem analisar, ponderar e divulgar aquilo que vão descobrindo nos textos ditados pela sua própria imaginação. O que alguns denominam subconsciente", afirmou.
Uma obra que é a busca de encontros, desencontros, às vezes encontrões
"Tocou-me vivamente o gesto da UAlg ao lembrar-se de me outorgar o título de Doutor Honoris Causa. Compreendo o gesto como vontade de homenagem que ultrapassa o próprio homenageado, mas também, e principalmente, visa uma literatura e uma nação, a angolana", afirmou ainda.
Para ele, "muito dificilmente se separará a obra e a vida de um escritor da história e cultura do seu povo", uma perspectiva que está plasmada na sua obra, intimamente ligada à luta de libertação, mas também à história e aos universos míticos de Angola, à crítica ideológica e social de um período mais recente.
O sociólogo António Correia e Silva, reitor da Universidade de Cabo Verde, foi o padrinho do doutoramento e para ele “não há como desligar a escrita de Pepetela de um projecto político que permitiu aos povos da periferia colonizadora tornarem-se em autores da sua própria história. Uma escrita assumidamente política, mas não panfletária. Uma escrita que resgata a vida que ficava fora da moldura. Uma busca de encontros, desencontros, às vezes encontrões”.
"Suspeito por isso que esteja um pouco desarmado perante uma obra literária complexa, que fala do branco e do negro, da paz e da guerra, da realidade e da utopia, do passado e do presente, da África e da Europa, do planalto e da estepe", acrescentou.
O reitor da UAlg, João Guerreiro, mencionou por sua vez quatro paralelos entre a obra do novo doutor e a instituição que dirige: "a interculturalidade, a valorização da língua portuguesa, a adopção de um intransigente compromisso social e a liberdade".
Igualmente presente na cerimónia, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, disse que as suas palavras tinham como objectivo "saudar o escritor e através dele, não apenas a literatura, mas o homem nas suas metamorfoses, que revelam a história".
Publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/04/em-angola-portugues-e-lingua-da.html
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Língua portuguesa conquista jovens urbanos
O projeto resulta de dois protocolos assinados, no último ano, entre o Instituto Camões, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Universidade Pedagógica de Moçambique, disse à Lusa o responsável pelo Instituto Camões em Maputo, António Braga.
Falando sobre o estado da língua portuguesa em Moçambique, país que logo após a independência, em 1975, adotou o português como língua oficial da administração pública e da educação, António Braga qualificou de "positivo" o crescimento do português no país e apontou alguns projetos de expansão.
Publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2010/02/we-love-lusophony.html
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Vocabulário Ortográfico do Português disponível na Internet
Produzido pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), o vocabulário reúne uma extensa lista de palavras com indicações de ortografia, categoria morfossintática e peculiaridades de flexão, caso existam.
Nesta primeira fase, o VOP, concebido para consulta na Internet (http://www.portaldalinguaportuguesa.org/), integra 150 mil palavras do vocabulário geral, num projecto submetido ao Fundo da Língua Portuguesa. Este fundo agrega quatro ministérios - Negócios Estrangeiros, Cultura, Educação e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - e é gerido pelo Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento.
Até ao fim deste mês, o Portal da Língua Portuguesa disponibilizará ainda o Lince, que permitirá converter textos em formatos DOC, PDF, ODT, RTF e TXT. Os verificadores ortográficos são extensões para o Microsoft Office Word e Outlook 2003 e 2007 e para o OpenOffice.org que permitem verificar a ortografia dos textos enquanto são digitalizados. Ambas as ferramentas integram os dados do VOP.
Em Abril, o VOP passará a dispor de mais de 200 mil entradas do vocabulário geral e seis dicionários: estrangeirismos, topónimos e gentílicos, nomes próprios, expressões latinas, unidades de medida e abreviaturas.
O VOP e os recursos a ele associados estão disponíveis gratuitamente e visam fazer face às necessidades do público em geral e dos profissionais que trabalham com a língua portuguesa, para que a redacção do Português seja consonante com a nova ortografia em vigor
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Governo adopta Acordo Ortográfico nas próximas semanas
Cultura, Educação e Negócios Estrangeiros reúnem esta semana para “homogeneizar regras”.
O Governo promove esta semana uma reunião interministerial entre os ministérios da Cultura, Educação e Negócios Estrangeiros para "homogeneizar todos os procedimentos" e avançar com o Acordo Ortográfico ao nível da sua estrutura. A informação foi avançada ao Diário Económico pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, que garantiu que no seu próprio gabinete, "nas próximas semanas já todos os emails, comunicados e documentos serão escritos ao abrigo das novas regras".
"Será também uma questão de semanas", garante a ministra, para que todo o Governo tenha adoptado o novo Acordo Ortográfico a nível interno. Por escolher continua ainda o vocabulário que será formalmente instituído como única referência oficial. A escolha será entre o novo Vocabulário Resumido da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, com 90 mil palavras, e que tem essa delegação de competências atribuída, ou o vocabulário organizado pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional e que contém 150 mil palavras.
Fonte:
http://economico.sapo.pt/noticias/governo-adopta-acordo-ortografico-nas-proximas-semanas_81656.html
sábado, 16 de janeiro de 2010
A Evolução da Língua Portuguesa no Brasil
Como todos sabem, o povo brasileiro fala e escreve na “Língua Portuguesa”, assim reza a “ Constituição Brasileira", no entanto, não foi sempre assim, uma vez que, nos primórdios da terra brasileira, muita confusão aconteceu. Porquanto, quando chegaram os navegadores lusitanos, encontraram os famosos “indígenas”, grupos ou tribos esparsas de habitantes, os quais falavam as suas línguas ou dialetos, eram os “tupis” e os “ guaranis” e eles habitavam as florestas ou o litoral e cada um constituía as suas “tabas” e já denominavam os locais de acordo com as suas línguas.
Evidentemente como aconteceu em Portugal, quando da invasão dos romanos e depois dos “mouros”, ali falava-se a língua “celtibera”, uma mistura das línguas celta e ibera, com vários povos, celtas, iberos, lusitanos e termos foram introduzidos pela língua “romana”, o “Latim” e daí derivando para o lusitano arcaico, que com o decorrer do tempo foram os lusitanos também misturando termos dos “mouros”, e começou a surgir o “português arcaico”, derivando mais tarde, já no século 16 para o “português moderno”. Todavia, milhares de termos das línguas Celta, Latina e Moura foram introduzidos na língua e permanecem até os nossos dias.
Aqui no Brasil aconteceu a mesma coisa, chegando a existir então até uma língua já falada em quase todo o litoral do Brasil, a “Língua Geral”, que era uma mistura do português, com os termos da língua “Tupi" e “Guarani",inclusive o próprio padre “Anchieta” fez versos nessa língua. Essa língua que existiu até o princípio do século 18 (1725), foi eliminada da escrita e do falar, por imposição do “Marquês de Pombal”, o qual havia sido nomeado ministro em Portugal e proibiu no Brasil que as pessoas falassem e escrevessem na “Língua Geral”, inclusive, determinou que os “Cartórios” trocassem os registros de vendas e compras de imóveis, e casamentos ou nascimentos da “Língua Geral” pela “Língua Portuguesa” e assim sendo ficou uma língua morta.
Hoje no “Dicionário Brasileiro" da Língua Portuguesa, encontramos milhares de termos "indígenas”, inclusive, “Estados brasileiros” como, Acre, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Roraima, Tocantins, Amapá, Goiás e Paraná, bem como, nomes de rios, como Tietê, Parnaíba, Sapucaí, Tocantins, Paranapanema, Iguaçu, Tamanduatei, e um número infindável de cidades, como exemplo Congonhas, Pirapóra, Araçatuba, Baurú, Guaratinguetá, Guariba, Caruaru, Araguari, Jequié, Paraguaçu, e designações como “cariocas” “fluminenses” nascidos na capital e Estado do Rio de Janeiro, "capixabas” no Estado do Espírito Santo, Piratininga em São Paulo e até na comida muita coisa que hoje saboreamos tem esses nomes, como: paçoca, pipoca e milhares de termos, bem ainda nas “serras” como da Mantiqueira, Tumucumaque, Paçaraima e assim por diante.
Várias reformas da Língua Portuguesa foram feitas, tanto em Portugal como no Brasil, todavia, foi tão somente na ortografia atualizada, como em 1943, 1973 e agora em 2009, no entanto, todas essas designações ficaram eternamente fixadas e no dia comum dos brasileiros todos esses termos ficaram no falar diário e todos eles foram introduzidos no decorrer dos 5 séculos da existência do Brasil formando um cabedal grandioso de termos, todavia, sem que a maravilhosa “Língua Portuguesa” ficasse modificada no sentido geral, para honra e glória do nosso querido e eterno Portugal.
Adriano da Costa Filho
Fonte: http://www.mundolusiada.com.br/COLUNAS/ml_coluna_275.htm
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Programas informáticos facilitam adopção de acordo ortográfico
De forma gratuita e automática, vamos poder converter qualquer documento, usar revisores de texto e consultar a lista do novo vocabulário ortográfico com mais de duas mil entradas.
Os programas informáticos estão a ser ultimados pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional, em Lisboa.
Até hoje, o Executivo não esclareceu quando ou onde adoptar o acordo, apesar das promessas recentes da ministra da Cultura, que dizia que o acordo entraria gradualmente em vigor este ano. Primeiro nos manuais escolares e no Diário da República ainda em Janeiro, mas o resto do Governo fez "orelhas moucas". A ministra da Educação demarcou-se. Os manuais escolares mantém-se e a presidência do Conselho de Ministros afirma que não tem nada previsto ainda para o Diário da República.
Quem não vai esperar pelo Governo para avançar com a nova ortografia é a agência Lusa.
Contactado pela Renascença, o director da agência noticiosa afirma que pretende avançar a muito breve prazo, mal tenha os programas que estão a ser ultimados pelo Instituto de Linguística Computacional.
Fonte: http://www.rr.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=92&did=86787
domingo, 3 de janeiro de 2010
Reportagem sobre os lusófonos de Malaca
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Texto que nos chegou...
ASSENSO DA FÉ:
O PORTUGUÊS COMO LÍNGUA OFICIAL NOS QUATRO CONTINENTES[1]
Enilde Faulstich[2]
No Sermão de Santo Antônio, também conhecido como “Sermão de Santo Antônio aos peixes”, pregado na cidade de São Luís do Maranhão, no ano de 1654, o Padre Vieira escreve uma alegoria - um tipo de metáfora - por meio da qual compara uma realidade de caráter abstrato com uma expressão concreta, visível, a fim de atingir uma percepção plástica do objeto, uma personificação daquilo que não é pessoa. Neste Sermão, Vieira louva que “ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.”[3] – eis uma das alegorias, se não a principal, do Sermão citado.
Em continuação diz Vieira que:
Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António[4], querendo-o lançar da terra, e ainda do mundo, se pudessem, porque lhes repreendia seus vícios, porque lhes não queria falar à vontade, e condescender com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos, e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio, e com sinais de admiração e assenso (como se tivessem entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados, e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem razão.[5]
Bem, fizemos um recuo no tempo — fomos ao séc. XVII — para, a partir dessa alegoria de Vieira, estabelecer uma conversa política — de Política Linguística, melhor ainda, de Política da Língua Portuguesa. Vejamos.
A chegada dos portugueses aos portos, tocados pelos navegantes, criou o mundo da Língua Portuguesa transplantada, em que, por meio de missões, a língua foi implantada. Depois disso, criados os Estados nacionais, o Português desenhou o espaço geopolítico do que seria a Lusofonia no mundo. Séculos já decorridos, as Nações constituídas por embates internacionais e locais fixaram comunidades de fala, com línguas resistentes, que não se deixaram assimilar pela política missionária que tomou conta da terra, onde passaram a habitar nativos e portugueses. Mesmo subjugado ao veio capitalista dos colonizadores, cada um dos Estados se manteve original e, assim, angolano, caboverdiano, bissau-guineense, moçambicano e santomeense são africanos, brasileiro é sul-americano, timorense é asiático e português é europeu. Ninguém virou o outro, e, tampouco, os outros viraram um. O certo é que, na contemporaneidade, uma forma de aproximar culturas de povos que tão distantes vivem surgiu da vontade política do Brasil a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — CPLP —, constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Talvez essa tenha sido motivada por uma nova intenção de reinterpretar Lusofonia, nos moldes dos blocos de economia política, que vigem no mundo. No entanto, duas questões, que procuraremos relacionar, direta ou indiretamente, ao título desta palestra, merecem nossa reflexão. A primeira questão que trazemos à mesa do debate é se a CPLP é uma comunidade de assenso. E a segunda, tomando de empréstimo a alegoria do PE. Antônio Vieira, é saber se nós, participantes da CPLP, somos PEIXES.
Assenso, relembremos, quer dizer concordância, consentimento, adesão mental, e, ainda, do ponto de vista da filosofia moderna, aceitação da verdade de uma proposição. Isso posto, concordamos que a CPLP é uma comunidade de assenso. Mas, para além desse sentido genérico, cabe questionar se a CPLP é uma comunidade de assenso de fé ou de assenso pela fé. Eis que continuamos com a questão aberta. Adiantemos que não estamos fazendo um jogo de palavras, mas querendo discutir a ordem política da CPLP, por meio do papel que a Língua Portuguesa representa no Estado supranacional em que está inserida e que tem efeitos significativos na cultura de cada país da Comunidade. Para melhor esclarecer o que queremos aqui dizer, retomemos os estatutos da CPLP.
Nos Estatutos da CPLP, documento originário do ato de criação, três são os objetivos gerais: 1) «concertação político-diplomática entre os seus Membros em matéria de relações internacionais, nomeadamente para o reforço de sua presença [da CPLP] nos fóruns internacionais»; 2) «a cooperação, particularmente nos domínios económico, social, cultural, jurídico e técnico-científico»; 3) «a materialização de projectos de promoção e difusão da Língua Portuguesa»[6]. Nosso entendimento é o de que até o momento a língua portuguesa no espaço da CPLP tem sido muito mais uma representante da latinidade do que da lusofonia. A distinção se faz justamente pelo plurilinguismo de cada um dos países, em que uma língua de origem latina — o português — se mantém no contraste e no contato com línguas não latinas, de tal forma que a CPLP não sabe muito bem o que fazer com a promoção e a difusão da Língua Portuguesa. Para que a CPLP materialize, de fato, o uso da língua portuguesa, a “implantação” da Língua deverá ser maior do que a “difusão” e do que a “promoção”, sob pena de se manter como uma metáfora, uma alegoria, em que os “comunitários” são “peixes de duas boas qualidades: ouvem e não falam.”
O que temos visto para a promoção e difusão da língua são projetos que falam sobre a língua portuguesa e sobre as línguas locais, mas não vemos a execução de projetos de ensino e de aprendizagem que levem os cidadãos a exercitarem a fala em Língua Portuguesa, na variedade do Estado, e nas variantes resultantes, bem como em línguas locais, ao lado do português. Projetos operacionais de fala e de escrita implantarão o bilinguismo ou o plurilinguismo necessário, desde que fundamentados na linguística das línguas e executados por linguistas que saibam o que precisa ser feito. No âmbito dessas reflexões, é preciso compreender que, do ponto de vista de política de língua, o binômio Estado-Nação não funciona, porque o Estado, que contém o conceito de Nação, possui soberania como país, com estrutura e organização política próprias, com controle financeiro e administração autônomos. Por sua vez, a Nação é percebida na abstração de território, que tem limites definidos e símbolos nacionais exclusivos, que sobrelevam o espírito cívico e, de certo, cultural. Entre estes símbolos, se encontram as línguas, sejam elas quais forem. Cabe inserir, ainda, nesse conjunto de conceitos, o de política linguística, que, no dizer de Calvet[7], é o conjunto de escolhas conscientes no que diz respeito às relações entre língua(s) e vida social.
Para finalizar, retornemos à questão posta anteriormente: a CPLP é uma comunidade de assenso de fé ou de assenso pela fé?
Digamos que, até então, como língua oficial nos quatro continentes, o Português mantém uma Comunidade de assenso pela fé, quando deve, pelos princípios sociais, históricos, linguísticos, políticos e comunitários, manter o assenso de fé, porque, enquanto aquele (pela fé) é um caminho, este (de fé) materializa a constituição do objeto de análise. A CPLP é, pela sua natureza, um importante veículo de manutenção do vigor da Língua Portuguesa nos quatro continentes. Porém, as qualidades de promoção e difusão, enunciadas em um dos objetivos gerais, precisam, de fato, fazer parte de um escopo funcional cujos fundamentos sejam capacitar os indivíduos a falar e a escrever não só em português, mas também nas primeiras línguas, porque estas se desenvolvem naturalmente, no processo de aquisição da linguagem, que não pode se perder, tendo em vista que é a linguagem que mantém as especificidades culturais de cada povo.
Referências bibliográficas
CALVET, Louis-Jean. Le marché aux langues. Les effets linguistiques de la mondialisation. Paris, Plon, 2002
CHACON, Vamireh. A grande Ibéria. Convergências e divergências de uma tendência. São Paulo/Brasília: UNESP/Paralelo 15, 2005
FAULSTICH. Enilde. Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: um lugar de falas múltiplas. In: SARAIVA, J. F. S. (org.) Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Solidariedade e Ação Política. Brasília: IBRI, 2001, p. 105-43
FAULSTICH, Enilde. A língua portuguesa como fator de integração. A cooperação na área de educação. In: CARDIM, C. H. e CRUZ, J. B. (orgs.). CPLP: Oportunidades e Perspectivas. Brasília, FUNAG, IPRI, Col. Países e Regiões, 2002, p. 279-298
FAULSTICH, Enilde. A dinâmica do plurilinguismo na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. In: MOTA, K. e SCHEYERL, D. (orgs.). Espaços Lingüísticos: Resistências e Expansões. Salvador: EDUFBA, 2006, p. 179-206
FIRMINO, Gregório. A “questão linguística da África pós-colonial: o caso do português e das línguas autóctones em Moçambique. Moçambique, Promédia, 2002
MARTINS, Estevão C. de Rezende. Consciência histórica, práxis e cultura. Transformações na Europa da integração da segunda metade do século XX. In: SZESZ, C. M.; RIBEIRO, M. M. T.; BRANCATO, S. M. L ; LEITE, R. L.; ISAIA, A. C. (orgs.). Portugal-Brasil no século XX: sociedade, cultura e ideologia. Bauru, SP, EDUSC, 2003, p. 403-442
SIGUAN, Miquel. A Europa das línguas. Lisboa, Terramar, 1996
[1] Texto da palestra proferida no Ciclo de Debate “Convergência da Língua Portuguesa: Agostinho da Silva e a CPLP”, em 29 de novembro de 2009, 28ª Feira do Livro de Brasília.
[2] Professora Doutora do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas – LIP, Instituto de Letras – IL, Universidade de Brasília – UnB.
[3] Extraído de Sermão de Santo António, in Obra completa do Padre António Vieira SERMÕES, vol. III, Tomo VII, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1959, p. 248.
[4] Santo Antônio
[5] Extrato de Sermão de Santo António, op. cit., p. 250.
[6] Em DOCUMENTOS. Comunidade dos países de língua portuguesa. Secretariado Executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, 1999.
[7] ... politique linguistique (ensemble des choix conscients concernant les rapports entre lengue(s) et vie sociale). CALVET, Louis-Jean. Le marché aux langues. Les effets linguistiques de la mondialisation. Paris, Plon, 2002: 16.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Ortografia não é apenas escrever palavras com a grafia correta
Por Luiz Carlos Cagliari, fonte: comciencia http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=51&id=636
1. Primeiras ideias sobre ortografia
A nossa tradição escolar, baseada nos livros didáticos, nas gramáticas e dicionários, formou a ideia comum que as pessoas têm, segundo a qual a ortografia significa escrever as palavras da língua com a grafia correta. Algumas pessoas lembram a origem dessa palavra, dizendo que ela veio do grego e que, naquela língua, significa “escrita correta”. Embora não se saiba bem o que “escrita correta” signifique, a palavra ortografia ficou com o sentido tradicional de grafar as palavras com as “letras corretas” com que as pessoas escrevem a língua que usam. Como apoio para isso, apareceram os vocabulários ortográficos e os dicionários.
As questões problemáticas a respeito de saber “com que letras” se escrevem as palavras começam com a própria história da língua. Por exemplo, em português, já se escreveu a palavra “igreja” dos seguintes modos: jgreja, egleja, egleia, eglesa, eglesia, egreja, eigleja, eygleyga, eigleja, eigrega, eigreja, ergreja, ergueyja, greja, igreija, igreja, etc., (cf. Dicionário etimológico da língua portuguesa (1956), de José Pedro Machado). Aparentemente, aquela palavra não mudou muito em sua pronúncia, mas a percepção da fala e os recursos da escrita levaram as pessoas a escrevê-la de muitas maneiras, na história da língua. Um dos motivos pelos quais a grafia das palavras muda é porque mudou a pronúncia. Até o século XV, ainda se via escrito “estromento” para o latim instrumentum. Depois, voltou a pronúncia instrumento: mudando a pronúncia, a tendência da escrita é mudar o modo como a palavra é escrita.
A questão da pronúncia é ainda mais complicada. Nenhuma língua tem apenas uma pronúncia para todas as palavras. Todas as línguas sofrem de um processo dinâmico de transformação, o que se torna muito óbvio com o passar do tempo. Todavia, a escrita é um meio permanente de registro da fala e, vendo escritas muito antigas, facilmente percebemos que a língua mudou. As mudanças mais evidentes para os falantes são as de natureza dialetal, geográfica ou social. Percebemos muito bem que os portugueses não falam como os brasileiros. No Brasil, o português apresenta características próprias nas diversas regiões do país. Numa cidade, facilmente distinguimos classes sociais com pronúncias peculiares para determinadas palavras. Por exemplo, no Rio de Janeiro, ouvimos alguém falar “tchia”, “doidu”, “chuva”. As mesmas palavras são pronunciadas “tia” no sul do Brasil, “doidju” numa variedade de Alagoas e Sergipe, e “tchuva” em uma variedade do Mato Grosso. Há pessoas da zona rural que falam “drentu”, há pessoas que falam “nóis ponhamu us pratu”, “uz adevogadu acharu us curpadu”, etc. A variedade linguística é um resultado do fato de as línguas se transformarem inevitavelmente ao longo dos tempos. O latim virou português, francês, espanhol etc. Essas línguas também não pararam de se transformar. As línguas românicas vieram do latim popular, não do clássico, mas, ao serem adotadas pela nobreza nos diferentes territórios da Europa, tornaram-se línguas com um status semelhante ao do latim clássico, falado pelos nobres, e não ao do latim vulgar, falado pelas classes sociais menos privilegiadas. Como as novas nações também passaram a ter nobres e plebeus, ricos e pobres, nelas também se desenvolveu a teoria segundo a qual os nobres, os ricos, os poderosos e as pessoas cultas falam uma variedade da língua considerada “melhor” e os demais falam uma variedade “com muitos erros”. Essas diferenças de fala traziam um problema para a escrita. Por essa razão, no final do século XV e, principalmente, a partir do século XVI, começaram a aparecer gramáticas vernáculas para ensinar o povo a distinguir o que era fala de pessoas nobres e cultas da fala das pessoas menos favorecidas socioculturalmente. Apareceram também os tratados de ortografia.
Os tratados de ortografia se mostraram importantes, pois as pessoas cultas e ricas também tinham dúvidas sobre como escrever certas palavras, porque elas também percebiam que havia pronúncias diferentes no país e porque havia, ainda, uma tradição mais nobre de escrita, que vinha dos antigos. Mudar ou não mudar? Ficar com o antigo ou com o moderno? Era preciso estabelecer regras. Analisando o modo como as pessoas escreviam, era evidente que havia regras não declaradas publicamente, mas seguidas nas escritas oficiais, nas publicações e até em documentos e em cartas particulares. Explicitar tais regras seria uma maneira de justificar o modo como as palavras deveriam ser escritas, manter uma tradição, corrigir erros do passado e evitar problemas futuros. Com os ortógrafos, a ortografia passou a ter donos. Todavia, o poder dos ortógrafos era limitado, tratava-se de uma questão acadêmica, que podia ser contestada com argumentos contra. E foi o que aconteceu na história da ortografia da língua portuguesa, até o final do século XIX. Com muitas teorias e modelos ortográficos em uso, o poder político resolveu entrar na questão e estabelecer, via leis e decretos, a forma ortográfica das palavras. Curiosamente, nem assim a ortografia ficou única em seu uso, passando por muitos acordos entre Portugal e Brasil, procurando um ideal único de escrita das palavras da língua portuguesa. O último acordo, depois de mais de dez anos de discussão, acabou sendo implementado no Brasil no final de 2008, com início em 2009. Portugal também aceitou o acordo, mas ainda não o implementou.
Como vimos acima, as ideias mais comuns sobre ortografia dizem respeito à correção ortográfica, aos tratados de ortografia e aos acordos oficiais entre países usuários de uma mesma língua, no sentido de manter uma grafia única para todos. Observamos também que apesar dos ortógrafos e das leis, na prática, encontramos pessoas que escrevem sem seguir todas as normais oficiais ou porque discordam delas, ou porque não as conhecem. Em graus diferentes, todos os falantes da língua têm alguma dúvida ortográfica em determinadas circunstâncias. Mesmo palavras já escritas muitas vezes, ocasionalmente, podem aparecer com uma dúvida sobre qual letra ou letras devam ser escritas.
2. Por uma teoria da ortografia (Cagliari, 2009)
Para entender um pouco mais sobre a ortografia, é preciso rever algumas questões sobre os sistemas de escrita. Embora a escrita seja muito difundida na sociedade, ela é pouco estudada com a atenção que merece. Sem entender algumas de suas características básicas, não se entende como a ortografia é, de fato, e como funciona. A escrita é uma representação gráfica que permite a leitura. Essa definição é fundamental para se entender qualquer aspecto relacionado com a escrita. A unidade básica de todo sistema de escrita é a palavra. Nenhum sistema de escrita transmite diretamente um significado ou um som. Toda representação escrita exige do leitor (ou do escritor na hora de escrever) uma interpretação para traduzir o que está escrito em material próprio da língua oral. Permitir a leitura não significa que haja apenas um modo de ler, mas tantos quantos forem os dialetos dos leitores do texto. Eu leio no meu dialeto e não no dialeto de quem escreveu. Caso contrário, seria muito difícil a comunicação via escrita na nossa sociedade e muito mais difícil se houver diferenças notáveis de tempo entre quem escreveu e o leitor.
Como a escrita representa as palavras de uma língua, e as palavras são constituídas por uma parte semântica (o significado) e por uma parte fonética (a sua pronúncia), os sistemas de escrita do mundo se constituíram em apenas dois tipos básicos: ou são ideográficos, ou seja, partem da representação gráfica das idéias (semântica) para o leitor descobrir como ele fala a palavra que a escrita representa, ou são sistemas fonográficos, isto é, partem da representação dos sons das palavras para que o leitor descubra qual o significado que uma sequência de sons tem na língua, ou seja, descubra qual palavra está escrita. Na prática, as escritas sofrem de um processo cumulativo: formas antigas convivem com formas novas. Reformas ortográficas sempre levam em conta o fato de algumas palavras apresentarem uma grafia tradicional, que não deve ser alterada, ocorrendo como exceções a alguma regra geral do sistema. Além disso, as duas possibilidades de escrita, em todos os sistemas, fazem com que, embora predomine um tipo, o outro não é totalmente excluído. Na escrita chinesa, há modos de representar também a pronúncia, para ajudar o leitor, evitando leituras ambíguas ou mesmo erradas. No nosso mundo de escrita, além das letras, usamos uma enorme quantidade de ideogramas, pictogramas, símbolos, marcas que nada mais são do que escritas puramente ideográficas. Os números e as notações científicas que usamos pertencem a um sistema ideográfico e não alfabético. Nesse mundo aparentemente caótico de escrita, vivemos bem, lidamos bem com todos esses modos de escrita, encaramos nosso mundo de escrita como algo familiar. E isso é fascinante.
Qualquer ideograma poderia ser escrito de vários modos: a figura de um homem, de uma casa, poderia ser feita com diferentes formatos. A escrita ideográfica chinesa, porém, escolheu um padrão e não tolera a variação além de um determinado limite. Esses limites constituem a ortografia dos sistemas ideográficos. Nos sistemas fonográficos, as letras também podem ser lidas de muitas maneiras, de acordo com os dialetos, porém há limites. Além dos limites estabelecidos, a leitura fica prejudicada ou mesmo errada. Alguém pode ler “doidju” para “doido”, mas não pode ler “maluku” como decifração da escrita “doido”.
Portanto, a ortografia veio estabelecer limites. Não se pode fazer qualquer representação gráfica para qualquer palavra, à vontade do usuário. Por outro lado, os limites com as possibilidades de representação, tiradas de dentro do próprio sistema e da tradição de uso da escrita de uma língua, ficam a desejar no sentido de facilitar ou dificultar a vida dos leitores. Poderíamos escrever “doidju”, “tchuva” ou até formas idiossincráticas, como “hygreja”, “khaza”, etc. Se cada usuário pudesse escrever do modo que achasse melhor ou mais conveniente para si, teríamos em circulação na língua muitas grafias para uma mesma palavra. Para resolver essa questão, os sistemas de escrita contam com uma ortografia. O objetivo da ortografia é neutralizar as variantes de todos os tipos. Porque em nosso sistema uma letra acaba representando alguns sons diferentes (como a letra “e” nas palavras belo, beleza, pé, pode), isso não significa que o sistema permite que o usuário use tal letra em qualquer contexto em que identifica um som possível que a letra representa, escrevendo, por exemplo: “lápes”, “quero”, “menenu” (para “lápis”, “quero”, “menino”).
A ortografia congela a forma de escrita, seja um ideograma, seja a sequência de letras que devem compor uma palavra. Ao fazer isso, a escrita pode cumprir plenamente sua missão de “permitir a leitura”, sem precisar representar a fala de cada falante ou dialeto. Pelo contrário, é da natureza da ortografia não trazer a fala de alguém ou de algum dialeto em particular, mas formas de escrita mais ou menos óbvias, dependendo do dialeto do falante, para que o leitor parta das letras, descubra a palavra escrita, o que lhe permitirá dizê-la em seu dialeto. Assim, diante de “os advogados acharam os culpados”, alguém pode ler em seu dialeto “uz adevogadu acharu us curpadu” e inclusive repassar essa informação a alguém que está a seu lado. A mesma escrita permite outras leituras. Uma outra consequência da ortografia em nosso sistema é o fato de as relações entre letras e sons – e vice-versa – serem controladas pela ortografia e não pelo princípio acrofônico do alfabeto (ou seja, letra “a” tem o som de “a”, letra “t” tem o som de “t”, etc). Com a ortografia, uma letra representará todos os sons que os falantes de todos os dialetos atribuem a ela em todas as palavras da língua. Por exemplo, se alguém fala “acharu”, a letra “a” do final terá também o som de “u”; se alguém falar “incontremu”, a letra “a” também terá o som de “e”, e assim por diante. Esse fato, por exemplo, torna o método fônico de alfabetização altamente complicado.
3. As reformas
Os ortógrafos apegavam-se apenas à etimologia e à pronúncia. Como são duas coisas inconciliáveis, nunca chegaram a propor um sistema ortográfico razoável e aceitável. O caráter etimológico significava, na verdade, transparecer de algum modo a origem grego-latina de certas palavras. Para isso, usavam dígrafos (“ph” com o valor de “f”, “ch” com o valor de “k”, “th”, “y”) e algumas tendências latinizantes na escrita. Com relação à pronúncia, achavam que a corte portuguesa era o modelo, ajustado com um toque de sofisticação acadêmica. Por outro lado, a fala do povo era condenada, assim como modismos regionais e dialetais. Apoiando um extremo ou outro, até o século XX, os sistemas ortográficos propostos para a língua portuguesa tendiam a ser mais etimológicos (às vezes, ao exagero e cheios de erros) ou a ser mais sônicos ou fonéticos, sem uma definição clara de qual pronúncia devia ser seguida e como lidar com a variação dialetal. A reforma ortográfica comandada por Gonçalves Viana no início do século XX, apesar de explicitar e discutir as razões das escolhas das grafias, pelo desconhecimento de noções básicas sobre a própria natureza da ortografia, suas funções e usos, acabou gerando um modelo ortográfico que não agradou nem aos portugueses nem aos brasileiros. As reformas que se seguiram caíram nos mesmos erros. Nenhuma delas partiu do princípio de que o objetivo da escrita é permitir a leitura, nem da ideia de que a ortografia existe (e tem que existir) para neutralizar a variação linguística. Nem levaram em conta o fato de um sistema ortográfico mudar as relações entre letras e sons, perdendo-se o princípio alfabético (ou acrofônico). Com esses três princípios bem estabelecidos, qualquer reforma ortográfica ficaria clara e definitiva. Não é da natureza da ortografia preocupar-se com a representação de um determinado dialeto, como modelo de pronúncia. Isso vai diretamente contra a própria natureza da ortografia. Uma vez estabelecida a forma gráfica das palavras, cada um irá ler em seu dialeto. Portanto, nenhum dialeto precisa prevalecer sobre os demais. Certamente, há outros critérios desejáveis em um sistema ortográfico, como manter o quanto possível uma certa tradição, porque certas mudanças são chocantes e, na prática, não alteram nada, não permitem uma melhor leitura... É desejável, por outro lado, que haja algum tipo de uniformização, ou seja, algumas regras (ou bases) que ajudem a manter uma certa regularidade na escrita de casos semelhantes. Também é desejável que a ortografia esteja, de certo modo, associada a usos socioculturais mais salientes na sociedade, que as obras literárias apresentem uma certa uniformidade ortográfica. Como as línguas mudam inexoravelmente com o tempo, a defasagem entre a ortografia e o uso corrente da língua nas suas expressões de pronúncia vai ficando cada vez maior, exigindo pequenos reparos, depois de muito tempo em uso. Por exemplo, embora pareça que as ortografias da língua inglesa e francesa estejam paradas no tempo, isso não é verdade, porque apesar de terem variado pouco, elas têm recebido pequenas reformas, historicamente. Finalmente, nenhuma ortografia consegue ser uma camisa-de-força e, por conseguinte, sempre terá algum tipo de variação, introduzida ou por modismos passageiros, ou por novas grafias que passam a integrar o vocabulário ortográfico da língua. Essas variações entram em conflito com as regras mais gerais (bases), criando listas de exceções. Essas ideias desejáveis só não funcionam quando a proposta de sistema ortográfico para a língua se esquece dos três princípios fundamentais mencionados acima: que o objetivo da escrita é permitir a leitura, que o objetivo da ortografia é neutralizar a variação linguística, e que, com isso, as relações entre letras e sons não seguem o princípio alfabético.
4. O caso da reforma de 2009
Desde a reforma do início do século XX (1910) até a última (2008), o que se buscava, na verdade, era uma “unificação” das grafias usadas em Portugal e no Brasil. Havia dois modos de resolver isso: um, fazendo concessões de ambos os lados, e outro, juntando tudo em um mesmo modelo. A primeira solução durou até a última reforma. Nesta, a ideia de juntar as diferenças prevaleceu, porém, não de modo absoluto, como devia, mas acompanhada de soluções ad hoc para os dois sistemas, isto é, introduzindo novidades desnecessárias e indesejáveis. Essa reforma também veio com muitos pressupostos não esclarecidos: as grafias variantes para Portugal e Brasil servem igualmente para os dois países ou são de uso exclusivo para cada um? Por exemplo, um brasileiro pode escreve “receção” ou precisa escreve “recepção”, pode escrever “económico” ou tem que escrever “econômico”? Parece que o “espírito” da reforma deixou cada um com seu modo de escrever, mas isso não foi declarado assim. Por outro lado, algumas regras ou bases vieram confundir a tradição, o que é sempre um problema. Por exemplo, o uso que se propôs do hífen. Se é para mudar, uma solução melhor e mais simples seria escrever com hífen apenas os processos de composição vocabular (duas palavras com um sentido próprio, como “porta-bandeira”, que se refere a uma pessoa e não a um pedestal). Os prefixos e sufixos poderiam vir todos ligados com hífen se tiverem mais de uma sílaba (duas vogais, como em “hiper-mercado”, “anti-aderente” etc). A duplicação de “r” e de “s” aconteceria para manter o valor de “rr” e de “ss” quando duas palavras se juntam sem hífen, etc. A reforma poderia ter um conjunto extremamente pequeno de bases ou regras. Somente por razões de uso tradicional, seriam aceitas algumas exceções, como escrever “girassol” e não “gira-sol” para a flor. O objetivo do que se apresentou acima não é propor uma nova reforma, mas mostrar que as opções da última reforma mudaram algumas grafias sem critérios linguísticos bem definidos.
Certamente, uma reforma ortográfica é sempre indesejável e desnecessária. Pequenos ajustes, porém, podem ocorrer ocasionalmente. Tirar o trema é um desses ajustes, porque não precisamos de trema. Na verdade, não precisamos nem sequer de acentos gráficos. Assim como todos sabem ler palavras como “belo” e “beleza”, variando a vogal “é” com “ê”, ou lemos sem dificuldade a variação de “ô” com “ó” em palavras como “porco”, “porcos”, do mesmo modo, sabemos que “república” tem pronúncia acentuada na sílaba “pu”, e que na palavra “túnel” pronunciamos a sílaba “tu” com acento; portanto, o uso das marcas gráficas do acento são absolutamente desnecessárias para o falante nativo, porque ele sabe como falar a sua língua nativa e onde deve ou não acentuar ou como pronunciar determinada vogal e não outra. Se as regras cobrissem todos os casos de como falamos, a variação que a língua apresenta, mesmo mantendo-se numa variedade padrão, iria tornar a ortografia cheia de exceções, inutilizando em grande parte o valor de se ter uma regra geral. A realidade da língua é cheia de pequenas regras. Por exemplo, os apresentadores do Jornal Hoje, da Rede Globo, muito comumente pronunciam o nome do noticiário como “jôrnal hôje” e não como “jornál hoje”. Que adianta dizer que a palavra “lápis” tem acento porque é paroxítona (fato próprio da pronúncia) terminada em “i”, seguida de “s” (que não é marca de plural), se é comum as pessoas falarem “laps”, com uma só sílaba? No caso dos acentos, a única justificativa a partir da escrita é dizer que os acentos são enfeites, lembretes talvez. A referência à pronúncia nem sempre é correta. Casos como esses mostram como as bases de nosso sistema ortográfico fazem uma grande confusão entre fatos de escrita e fatos de fala, desconhecendo, em grande parte, os princípios que regem a escrita e a realidade oral da língua (mesmo em se tratando de uma variedade padrão). Disso tudo resulta que as reformas ortográficas, incluindo a última, acabam fazendo uma lista de palavras para serem escritas de um modo e não de outro. A verdadeira reforma ortográfica aparece no “vocabulário ortográfico”. As razões linguísticas são falhas e, não raramente, equivocadas. Outras razões que motivaram a última reforma também são falhas. Alegar que somente o português tem duas ortografias oficiais é distorcer a realidade, porque basta ver os corretores ortográficos dos computadores para saltarem aos olhos os vários sistemas que têm o inglês, o francês, etc. Nós temos apenas dois. Então, não seria mais razoável que uma lei ou decreto simplesmente dissesse que o modo de grafar as palavras em Portugal é válido também no Brasil e o que usamos é válido em Portugal? Com relação aos usuários estrangeiros, eles poderiam escolher qual dos dois sistemas preferem, assim como nós escrevemos ora seguindo a ortografia do inglês americano, ora a ortografia dos britânicos. Se o movimento de unificação tivesse ido nessa direção, como sugeri desde o começo do projeto de acordo, todos ficariam contentes e satisfeitos com suas tradições e resolveríamos o famigerado problema que, no passado, por razões absurdas, transformou nossa ortografia em objeto de lei, com as consequentes exigências legais. Luiz Carlos Cagliari é professor do Departamento de Lingüística, da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e pesquisador do CNPq.
Referências bibliográficas
Cagliari, Luiz Carlos. “Aspectos teóricos da ortografia”. Em: Ortografia da língua portuguesa: história, discurso, representações. Silva, Maurício (org.). São Paulo: Editora Contexto, 2009 (p.17-52).
Machado, José Pedro. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Lisboa: Editorial Confluência, 1956.
Decreto Número 6.583 (29/09/2008) com o texto do Acordo Ortográfico no Diário Oficial da União (número 189). Disponível na internet no seguinte endereço http://www.ufmg.br/online/arquivos/anexos/decreto6583_acordoortografico.pdf
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Lançado hoje, no Padrão dos Descobrimentos...
Novo “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”
O linguista, em declarações à Lusa apelou ao Governo para implementar “o quanto antes” o Acordo Ortográfico, assinado em 1990, pois já existe um “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”.
“Com a saída deste Vocabulário não há agora razões para que este Acordo Ortográfico não entre rapidamente em vigor no Ensino, na Comunicação Social, e até no Diário da República, de modo a acompanharmos o esforço que o Brasil está a fazer no sentido de promoção da Língua Portuguesa não apenas no plano interno, mas também internacional, e é importante o nosso Governo conjugar esforços em prol do reforço da Língua Portuguesa no mundo”, disse Casteleiro.
O Vocabulário que inclui 180 000 vocábulos “partiu da base de dados lexicais da Porto Editora” que o edita, e inclui “mais de 5000 vocábulos próprios do português do Brasil, bem como africanismos e asiaticismos, mais de 800 palavras da norma galega do português, mais de 12 500 nomes próprios de pessoas portuguesas e lusófonas e cerca de 8500 topónimos, incluindo termos geográficos relevantes da história mundial”.
“Um trabalho de anos” sublinhou o investigador, “mas que nesta sua fase final levou apenas alguns meses, por existirem já as bases lexicais da Porto Editora de todos os seus dicionários”.
O investigador afirmou que aceitou “este desafio depois de ter sido dispensado pela Academia das Ciências”, instituição a que dedicou “grande parte dos seus 25 anos de vida investigação”.
“Fiquei surpreendido, tinha projectos, dediquei grande parte do meu trabalho aos dicionários da Academia, ao Acordo Ortográfico, fiquei magoado com esse processo”, rematou.
Malaca Casteleiro referiu que a anterior obra de referência era o “Vocabulário” de Rebelo Gonçalves, de 1966, “indispensável ainda hoje a todos os lexicógrafos e linguistas, já há muito esgotadíssimo e que nunca foi reimpresso, mas este novo ‘Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa’ vai muito mais além, é mais abrangente e inclui neologismo, as novas formas que surgiram, ale´m de seguir as normas do Acordo assinado em 1990”.
O “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa” inclui um anexo com cerca de 2000 palavras estrangeiras de uso corrente não adaptadas ao português com idicação da língua de origem “e mais de 1500 abreviaturas e símbolos usados na Língua Portuguesa e mais de 2500 elementos de formação de palavras”, acrescentou o linguista.
Este será o primeiro Vocabulário português que visa “satisfazer as necessidades de escrita dos lusófonos que têm seguido a norma gráfica portuguesa”.
O Vocabulário que é “a concretização de um dos primeiros instrumentos, para a implementação do Acordo Ortográfico, é de consulta fácil para o cidadão comum”.
“As palavras estão por ordem alfabética, indicadas a sete colunas, num volume fácil de manusear, pequeno, de 700 páginas”, explicou.
Por fazer está, alertou o académico, o Vocabulário Técnico-Científico da Língua Portuguesa, mas esta “é uma tarefa muito grande que não envolve só Portugal, mas todos os países com vista à unificação da terminologia técnica e científica do Português”.
Relativamente ao Vocabulário de Língua Portuguesa editado pela Academia Brasileira de Letras, Malaca Casteleiro afirmou que “há pequenas divergências”, designadamente de ordem gráfica como a acentuação, “mas muito circunscritas”.
O “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa” é apresentado hoje às 19:00 no Padrão dos Descobrimentos, a Belém, por Fernando Cristóvão.
João Malaca Casteleiro é professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa, tem colaborado em diversos projectos de investigação e de edição, em Portugal e no estrangeiro. É membro da Academia das Ciências de Lisboa desde 1979, foi presidente até ao ano passado do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, é conselheiro científico do Instituto Nacional de Investigação Científica, e exerce ainda as funções de director de investigação do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e professor convidado nas Universidades da Beira Interior e de Macau.
O linguista representou a Academia das Ciências de Lisboa no Encontro de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa que se realizou no Rio de Janeiro em 1986, e participou no Ante-projecto de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa em 1988, e liderou a equipa técnica que assinou o Acordo Ortográfico em 1990.
Fonte: http://hardmusica.pt/noticia_detalhe.php?cd_noticia=3348
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Sobre o ensino do português na Extremadura Espanhola e a questão de Olivença
A Comunidade Autónoma da Extremadura aderiu oficialmente ao acordo entre Portugal e Espanha que possibilita o ensino da língua portuguesa nessa Comunidade. Neste âmbito, o português será ensinado nas escolas da Estremadura por 14 professores portugueses enviados para Badajoz e 3 outros enviados para Cáceres.
O objetivo do governo autónomo é dentro de alguns anos, todos os alunos conheçam língua portuguesa. Do lado português, a situação recíproca está mais avançada, havendo perto de 60 mil alunos de castelhano em Portugal, muitos dos quais no ensino privado e fora de qualquer cobertura institucional, como sucede em Espanha.
A Extremadura coloca-se assim na vanguarda da aplicação deste acordo Luso-Espanhola, bem à frente da Galiza, onde a Xunta (recentemente transitada para o Partido Popular) se mantêm ainda no bífido terreno das promessas...
A introdução do ensino do português na Extremadura reveste-se de especial importância se tivermos em conta que é precisamente nesta Comunidade que se situam os 3 concelhos portugueses ocupados ilegalmente e ao arrepio de tratados internacionais nunca honrados por Espanha desde 1801. Badajoz situa-se muito próximo dos concelhos de Olivença e estes professores de português poderão contribuir para o renascimento da língua de Camões depois de séculos de repressão e de apoio isolado, mas abnegado por parte da associação local Além Guadiana.
A situação da língua portuguesa em Olivença é hoje dramática. Até aos começos da década de cinquenta, a maioria dos habitantes dos três concelhos ainda usavam o português de forma corrente e quotidiana. Mas por volta dessa época o Estado Espanhol começou a introduzir o castelhano, no ensino e na administração local. Usando métodos muito semelhantes à máscara do bilinguismo na Galiza, Madrid conseguiu reduzir a língua destes territórios portugueses ocupados a uma expressão praticamente museográfica. Na década de 60, todos os habitantes eram bilingues - antecipando a plena aculturação - e hoje em dia, em grande medida devido ao afluxo contínuo de colonos e de repressão linguística por parte do Estado central, o português quase desapareceu.
Existem muitos paralelismos entre os concelhos de Olivença e a presente situação da Galiza: o Bilinguismo, o poder do Ensino e da Administração Publica aplicado contra a língua local por parte dos espanholistas e a indução de mitos infundados e desprestigiantes que buscam associar na mente dos habitantes locais o uso do português à ruralidade e à incultura, são instrumentos que já conhecemos e que seguem hoje sendo aplicados na Galiza, sempre com o mesmo objetivo: aculturar a população local e substituir a língua portuguesa pelo castelhano.
Fontes:
http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1039:portugues-sera-segunda-lingua-do-ensino-na-estremadura&catid=2:informante&Itemid=74http://pt.wikipedia.org/wiki/Extremadura
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1318336
http://www.olivenca.org/historiaDeOlivenca.htm
http://alemguadiana.blogs.sapo.pt/
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Nenhuma?!...
"...se pela minha parte gostaria que à Língua fosse dada mais ênfase no programa eleitoral do PS, a verdade é que nos programas do PCP e do BE não lhe encontrei nenhuma, mas nenhuma, referência!..."
José Carlos Vasconcelos, Director do JL (edição de 26.08.09, p. 3)
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Curiosidades sobre a linguagem açoriana
Ouve-se muitas vezes pronunciar “tesoiras” ou “tisoiras” em vez de tesoira. Bem se sabe que não é correcto:— Á Maria, alcança-me aquelas tisoiras que estão aí im cima da menistra! É ouvido por todas as ilhas nestas formas. Penso que será o equivalente a chamar ‘binóculos’ ao binóculo. Não só nos Açores como por todo o país. Estará correcto?
Quando me criava, meu avô tinha um lindo bonóculo, enviado da América, devidamente acmadado no meio de uns alvarozes, mas sempre lhe ouvi chamar ‘binóculo’. Pela vida fora fui ouvindo as duas formas, singular e plural. Hoje ouve-se frequentemente o plural, mesmo por pessoas que têm obrigação de falar o bom português — refiro-me àqueles que ensinam, os professores, e os que contactam diariamente com o público, nomeadamente através dos meios de comunicação. Vamos ver se estará correcto.
Um ‘óculo’, por definição — pode constatar-se em qualquer dicionário —, é um instrumento equipado com lentes de aumento, próprio para ver ao longe. Um ‘binóculo’, não é mais do que dois óculos unidos, com sistemas de lentes reguláveis. Portanto, a forma correcta deverá ser ‘binóculo’. Deriva, aliás, do francês binocle, e é por isso que na linguagem popular se ouve muitas vezes pronunciar ‘binocle’.
Mas, como toda a Língua é dinâmica e se vai alterando com o andar do tempo, a palavra, dita no plural, tornou-se tão habitual na linguagem de agora que o recente Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia das Ciências de Lisboa) já a regista, a par da vernácula, como fazendo parte do português de agora. Eu por mim uso a correcta, digo, a dita no singular. Os Galegos também.
E, como as conversas são como as cerejas, esta palavra faz-me lembrar outra, neste caso falando no género. Antigamente a palavra ‘bebé’ só se usava no masculino. Os Professores da Faculdade de Medicina de Coimbra, antes da Revolta do 25 de Abril, eram altamente exigentes quanto à terminologia médica. Tão rigorosos, ao ponto de chegarem a ‘chumbar’ um aluno num exame por apenas usarem uma palavra não registada na ‘memória rígida’ das suas doutas mentes, tal como um computador sublinha a vermelho qualquer palavra que lhe não tenha sido introduzida no vocabulário do disco rígido. Resultado fatal: quem tivesse o azar de usar tal palavra no feminino chumbava logo. Realmente essa palavra deriva do francês Bébé (masculina). ‘Bébé’ era o apelido de um célebre anão da Corte do ex-rei da Polónia Estanislau Leczynski quando, no século XVIII, governou as regiões de Barrois e Lorena. O anão chamava-se Nicolas Ferry e diz-se que pouco mais media do que 60 centímetros de altura, sendo uma verdadeira atracção local. O nome, acabou por ser difundido através do inglês baby, em português ‘bebé’, em brasileiro ‘bebê’. Se alguns dicionaristas ainda a usam apenas no masculino, referindo-se à criança de qualquer dos sexos (José Pedro Machado, por exemplo), a maioria regista as duas formas. Eu, quiçá traumatizado pela rigidez da formação académica, uso-a (tal como os Galegos) apenas no masculino: Aquela menina é um bebé lindo. Sei que não será correcto, ou actual, mas às vezes até me tem dado jeito: aqui atrasado, estando no Serviço de Urgência, apareceu-me uma criança com cerca de 6 meses, olhos lindos, azuis, pele clara e uns lindos brincos de oiro em cada orelha. Pensando tratar-se de uma menina, logo comentei: “Que lindo bebé!” Acertei em cheio: era mesmo um bébé, não uma bebé. Não fiz figura de parvo. Parvos, quanto a mim, terão sido os pais ao enfiar nas orelhas do bebé umas arrecadas, num ser humano ainda sem capacidade de discernir. Quem sabe lá se daqui a poucos anos se aborreçam os rapazes de andarem com brincos nas orelhas. Até que, para certas profissões — ajudante de pedreiro, ou outras —, tal delicado adorno deverá ser incomodativo e eventualmente perigoso, estando sujeito a rasgar o lobo da orelha.
No nosso Continente europeu, pela própria anatomia facial dos seus habitantes, não será fácil o adorno usado pelas velhas tribos africanas, a colocação de um prato no lábio inferior. Se não fosse tal impossibilidade anatómica, com o exagero dos adornos que hoje se vão vendo, já teríamos jovens (no sentido amplo da palavra) de beiçola descaída a passear o prato pelas ruas de todo o país.
Embora não pareça, pessoalmente nada tenho com tais manifestações narcisistas, mas nunca mais me esqueço das palavras de meu avô João Travassos, já lá vão mais de vinte anos: Inda hás-de ver esses monços, de saia e perna rapada, de bandolete na cabeça e arrecadas nas orelhas... E hão fugir das raparigas, tanta há-de ser a fartura. Já nã há-de ser pro mei tempo... E já não foi.
João Barcelos, in Diário Insular





