A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Este Sábado, nos Açores


XVIII GRANDE FESTIVAL DE FOLCLORE DA RELVA

MOSTRA FOLCLÓRICA DO ATLÂNTICO

FOLCLORE INTERNACIONAL NA RELVA

Este Sábado tem lugar o maior Festival de Folclore realizado em S. Miguel, um dos maiores dos Açores, e já bem conceituado a nível nacional e internacional.

Trata-se do Grande Festival de Folclore da Relva – Mostra Folclórica do Atlântico, que este ano vai na décima oitava edição.

Já há cerca de dezassete anos, que o 1º Sábado de Agosto é considerado na Ilha de S. Miguel, como o dia do Folclore por excelência, devido à realização deste grande evento da cultura popular, onde as nossas raízes, causa da existência e identidade dos povos estão em evidência e em destaque.

Logo nos primeiros anos da sua realização, afirmou-se como um espectáculo de alto nível cultural, um retalho de tradições, mereceu o grande empenho da Junta de Freguesia da Relva e do Grupo Folclórico de Cantares e Balhados da Relva, e que lhe valeu o reconhecimento da Federação do Folclore Português.

Sempre integrado nas seculares Festas de Nossa Senhora das Neves, que neste fim-de-semana decorrem nessa muito antiga freguesia micaelense, é sem dúvida o maior cartaz turístico do programa cívico e cultural das mesmas e da própria Relva em geral.

Assim neste Sábado 7 de Agosto, poderá assistir às 20:00 horas; Concentração dos Grupos participantes no Centro Cívico e Cultural da Relva, 20:30 horas; desfile folclórico e etnográfico pela Rua da Guiné (lado norte) e Rua de Cima, onde os trajos dos grupos e suas danças a desfilar, far-nos-á recuar alguns séculos atrás. A partir das 21:00 horas; abertura oficial do XVIII Grande Festival de Folclore da Relva – Mostra Folclórica do Atlântico, para às 21:15 horas se dar inicia à actuação dos grupos convidados no Jardim 5 de Agosto, espaço festivamente decorado, e em palco que nos reporta à Fonte da Rocha, local aprazível com uma nascente de água doce e pias do século XV, existente junto ao mar na Freguesia da Relva.

Participam este ano no Festival, três grupos em representação de 2 concelhos da Ilha de S. Miguel, dois do Continente Português; um da Eslováquia e um de França. Sendo estes; Rancho Folclórico da Casa do Povo do Livramento; Grupo de Danças e Cantares da Beira Baixa – Castelo Branco – Continente Português, Groupe La Jouvènço de Mountfavet – França, Grupo Folclórico Nossa Senhora da Graça - Porto Formoso, Rancho Folclórico Sampaense – S. Paio de Gramaços – Oliveira do Hospital – Beira Alta – Continente Português, Folk Dance Group MAJ – Piestany – Eslováquia e Grupo Folclórico de Cantares e Balhados da Relva.

Por volta das 24:00 horas terá lugar o encerramento do Festival seguindo-se no Salão Cultural e Recreativo de Nossa Senhora das Neves a troca de lembranças e convívio beberete entre os grupos participantes e as entidades convidadas.

Como sempre, de um lado a fachada da igreja artisticamente iluminada, do outro o palco num cenário de vivência dos nossos antepassados, num cenário que nos transporta a vivências de um ou mais séculos atrás, encenando a “Fonte da Rocha”, local aprazível com uma nascente de água doce e pias do século XV, existente junto ao mar na Freguesia da Relva, com os grupos em actuação e o público entusiasmado ao centro, o ambiente será multi cultural, pelo que a organização espera à semelhança dos anos anteriores um banho de multidão.

Mais informação em www.grupobalhadosrelva.com

Contacto: 917686538 grupobalhadosrelva@gmail.com ou medeiros.jo@gmail.com


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

CADERNO (de Estudos e Literatura) Açorianos

Caros colegas

Finalmente está em marcha o projeto do CADERNO (de Estudos e Literatura) Açorianos e acabamos de colocar em linha o nº 0 daquilo que se pretende ser trimestral. Os próximos número trarão excertos de obras de Cristóvão de Aguiar, Daniel de Sá, Eduíno de Jesus e Vasco Pereira da Costa, entre outrosVá ler na nossa página em http://www.lusofonias.net/estudos%20e%20cadernos%20a%C3%A7orianos/cadernos%20açorianos%200.pdf

Chrys CHRYSTELLO, Colóquios: www.lusofonias.net

domingo, 9 de agosto de 2009

FALA - Fórum de Artes e Letras dos Açores

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A ideia deste Fórum é permitir uma fácil divulgação e debate de assuntos relativos à cultura dos Açores, na sua perspetiva mais abrangente.

Permite, de forma rápida, fácil e gratuita a criação de grupos de discussão, a disponibilização online de media (som, imagem, texto) e a publicação de páginas dedicadas a assuntos específicos.

Penso que poderá ser uma ferramenta útil a reduzir as distâncias entre os interessados em cultura açoriana, na sua perspetiva mais eclética e abrangente.

a comunidade envolvida nos Encontros da Lusofonia poderia ser um bom ponto de partida para divulgação e interação com o site, .
http://azoresfala.ning.com/
Um abraço,
Rafael Fraga

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Curiosidades sobre a linguagem açoriana

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Ouve-se muitas vezes pronunciar “tesoiras” ou “tisoiras” em vez de tesoira. Bem se sabe que não é correcto:— Á Maria, alcança-me aquelas tisoiras que estão aí im cima da menistra! É ouvido por todas as ilhas nestas formas. Penso que será o equivalente a chamar ‘binóculos’ ao binóculo. Não só nos Açores como por todo o país. Estará correcto?
Quando me criava, meu avô tinha um lindo bonóculo, enviado da América, devidamente acmadado no meio de uns alvarozes, mas sempre lhe ouvi chamar ‘binóculo’. Pela vida fora fui ouvindo as duas formas, singular e plural. Hoje ouve-se frequentemente o plural, mesmo por pessoas que têm obrigação de falar o bom português — refiro-me àqueles que ensinam, os professores, e os que contactam diariamente com o público, nomeadamente através dos meios de comunicação. Vamos ver se estará correcto.
Um ‘óculo’, por definição — pode constatar-se em qualquer dicionário —, é um instrumento equipado com lentes de aumento, próprio para ver ao longe. Um ‘binóculo’, não é mais do que dois óculos unidos, com sistemas de lentes reguláveis. Portanto, a forma correcta deverá ser ‘binóculo’. Deriva, aliás, do francês binocle, e é por isso que na linguagem popular se ouve muitas vezes pronunciar ‘binocle’.
Mas, como toda a Língua é dinâmica e se vai alterando com o andar do tempo, a palavra, dita no plural, tornou-se tão habitual na linguagem de agora que o recente Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia das Ciências de Lisboa) já a regista, a par da vernácula, como fazendo parte do português de agora. Eu por mim uso a correcta, digo, a dita no singular. Os Galegos também.

E, como as conversas são como as cerejas, esta palavra faz-me lembrar outra, neste caso falando no género. Antigamente a palavra ‘bebé’ só se usava no masculino. Os Professores da Faculdade de Medicina de Coimbra, antes da Revolta do 25 de Abril, eram altamente exigentes quanto à terminologia médica. Tão rigorosos, ao ponto de chegarem a ‘chumbar’ um aluno num exame por apenas usarem uma palavra não registada na ‘memória rígida’ das suas doutas mentes, tal como um computador sublinha a vermelho qualquer palavra que lhe não tenha sido introduzida no vocabulário do disco rígido. Resultado fatal: quem tivesse o azar de usar tal palavra no feminino chumbava logo. Realmente essa palavra deriva do francês Bébé (masculina). ‘Bébé’ era o apelido de um célebre anão da Corte do ex-rei da Polónia Estanislau Leczynski quando, no século XVIII, governou as regiões de Barrois e Lorena. O anão chamava-se Nicolas Ferry e diz-se que pouco mais media do que 60 centímetros de altura, sendo uma verdadeira atracção local. O nome, acabou por ser difundido através do inglês baby, em português ‘bebé’, em brasileiro ‘bebê’. Se alguns dicionaristas ainda a usam apenas no masculino, referindo-se à criança de qualquer dos sexos (José Pedro Machado, por exemplo), a maioria regista as duas formas. Eu, quiçá traumatizado pela rigidez da formação académica, uso-a (tal como os Galegos) apenas no masculino: Aquela menina é um bebé lindo. Sei que não será correcto, ou actual, mas às vezes até me tem dado jeito: aqui atrasado, estando no Serviço de Urgência, apareceu-me uma criança com cerca de 6 meses, olhos lindos, azuis, pele clara e uns lindos brincos de oiro em cada orelha. Pensando tratar-se de uma menina, logo comentei: “Que lindo bebé!” Acertei em cheio: era mesmo um bébé, não uma bebé. Não fiz figura de parvo. Parvos, quanto a mim, terão sido os pais ao enfiar nas orelhas do bebé umas arrecadas, num ser humano ainda sem capacidade de discernir. Quem sabe lá se daqui a poucos anos se aborreçam os rapazes de andarem com brincos nas orelhas. Até que, para certas profissões — ajudante de pedreiro, ou outras —, tal delicado adorno deverá ser incomodativo e eventualmente perigoso, estando sujeito a rasgar o lobo da orelha.

No nosso Continente europeu, pela própria anatomia facial dos seus habitantes, não será fácil o adorno usado pelas velhas tribos africanas, a colocação de um prato no lábio inferior. Se não fosse tal impossibilidade anatómica, com o exagero dos adornos que hoje se vão vendo, já teríamos jovens (no sentido amplo da palavra) de beiçola descaída a passear o prato pelas ruas de todo o país.
Embora não pareça, pessoalmente nada tenho com tais manifestações narcisistas, mas nunca mais me esqueço das palavras de meu avô João Travassos, já lá vão mais de vinte anos: Inda hás-de ver esses monços, de saia e perna rapada, de bandolete na cabeça e arrecadas nas orelhas... E hão fugir das raparigas, tanta há-de ser a fartura. Já nã há-de ser pro mei tempo... E já não foi.

João Barcelos, in Diário Insular

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Entre a chama e o bosque

Escrevo este artigo já fora de data, a intenção do editor era a de chegar a tempo do suplemento sobre o Capelo, minha mui amada e distinta freguesia. A minha intenção original passava por manter uma colaboração no campo da ficção. Tudo isso é irrelevante agora, sucede que o tempo correu e nenhuma das intenções se concretizou, nem o Heitor conseguiu o meu texto sobre o Capelo em tempo útil nem eu, também em tempo útil, redigi um novo conto fantástico para essa edição do “Avenida Marginal”.

Quando me foi sugerido escrever sobre a minha freguesia admito que, ao princípio, nada me ocorreu. Não sei porquê mas as memórias por vezes fogem-me desde que abandonei a minha terra, o cérebro enche-se de informação sobre o local onde me encontro, novos nomes, novas ruas, novas pessoas, um novo mundo a processar, um novo mundo que empurra o velho mundo (neste caso o Faial, mais precisamente o Capelo) para o inconsciente. Fiquei apreensivo, quase deprimido, mas eis que me começaram a voltar as memórias. O curioso? O editor deste jornal e a sua família fazem parte de uma boa parte das agradáveis que me foram surgindo, desde tenra idade.

O título do texto não é inocente, “entre a chama e o bosque” ocorreu-me precisamente desses convívios entre a minha família e a do editor no Parque Florestal do Capelo, entre a “chama” das fogueiras que nos assavam o jantar e o “bosque” subjacente onde brincávamos eu, o meu irmão, e os filhos do Heitor.

Recordo toda a parafernália da véspera destes convívios, temperar a carne, o esforço para imitar dentro do possível o famoso pão com alho do Frank Vargas - outra presença quase permanente nas memórias que me têm vindo a afluir – e sei lá mais o quê, o bosque (ou mata, se preferirem) complementava essa chama que por vezes nos aquecia e secava, vítimas éramos da inconstância do clima açoriano.

Já na adolescência sucedeu o que sempre sucede: o lugar anteriormente ocupado pela família é substituído pelo dos amigos. Aqui a constância das chamas e as conversas, jogos e discussões no bosque mantiveram-se e aprofundaram-se, Domingo sim Domingo não, por vezes ao Sábado, parte dos meus melhores amigos oriundos de toda a ilha – da cidade da Horta até aos Cedros – rumavam ao Capelo para a nossa comemoração, o nosso ritual, uma rotina que nunca sentimos como tal.

A chama e o bosque mantêm-se ainda na idade adulta, nos petiscos nas adegas espalhadas entre o Varadouro e o Norte Pequeno, os serões com música – alguns culminando em longos passeios nocturnos na “recta das malhas” ou mesmo no areal do Vulcão dos Capelinhos.

Fui da não-recordação à abundância de recordações, a primeira vez que me deitei num leito de musgo no Monte Queimado e ali vi o pôr-do-sol, as piscinas de pedra natural, as festas do Varadouro, o cheiro do mar na costa, o cheiro das matas dos meus tios e avós, inundo-me de sensações e quase esqueço o nevoeiro quase constante do Areeiro.

Agora o que mais recordo é o verde do bosque e a chama que sinto é a do Capelo propriamente dita, a terra que abandonei mas que permanece ali, faz-me viver livremente seguro de que, caso algum dia tudo me falhe, permanece a freguesia vulcânica como o meu último porto de abrigo.

Avenida Marginal
Ano 2, Nº 3, 29 de Maio de 2009

sábado, 13 de dezembro de 2008

Uma águia entre milhafres

"(...)foi já no longínquo 25 de Outubro que apresentamos a revista “Nova Águia” aos faialenses, creio que para 40º apresentação da revista foi também a mais conturbada, o que só demonstra que os açorianos mantém viva uma chama muito própria de rebeldia de inconformismo. Espero que a apresentação tenha sido apenas a primeira pedra na fundação de um ‘clube de pensadores’ faialense, o crédito mais que merecido do trabalho levado a cabo localmente pela FaiAlentejo (que há anos me deram a conhecer a obra e o pensamento de Agostinho da Silva) neste e em muitos outros eventos.(...)"

In Tribuna das Ilhas, 12 de Dezembro de 2008

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A paragem do Corvo




Na rota das caravelas e dos galeões que iam e vinham das Colônias Americanas e das Índias, carregados de prata, ouro, especiarias e mercadorias do velho mundo, ficava o local conhecido pelos navegantes e piratas como a “Paragem do Corvo”. Rochedo íngreme, emergido abruptamente no Atlântico Norte, onde as correntezas marinhas e os Ventos do Ocidente geram uma mudança de direção das águas, ao largo, para a Terceira e Continente, assinalado nos portulanos do século XIV, era ponto de aguada e refresco para aqueles que ficavam no mar por muitos meses na arte da pesca e da cabotagem e, para os piratas, área de espreita para pilhagem das ricas presas. A Ilha do Corvo, a mais ocidental e longínqua do arquipélago açoriano, pelas dificuldades de acesso e sobrevivência foi, nos primeiros séculos de ocupação, quase esquecida e marginalizada pelo reino. A dificuldade de acesso, a pobreza e escassez do solo, os impostos desmedidos dos donatários e da Coroa, os caprichos da natureza, a falta de defesa eficiente, fizeram destes ilhéus homens que se adaptaram às circunstâncias, que não se importavam muito com as retardadas ou madrastas decisões do governo. Quando não podiam se proteger ou estavam em desvantagem, barganhavam com inimigo, e quando não tinham o que comer, emigravam com ou sem a permissão das autoridades, geralmente como clandestinos, nos barcos que ali aportavam. Naqueles primeiros tempos, a vida corria envolta em mistério, povoada de lendas, naufrágios e encontros com piratas. O que não chegava pela via legal, a do governo, chegava pela ilegal, com o comercio com a pirataria e a recolha dos destroços das embarcações sinistradas. Nas invasões da ilha, quando não se tinha lugar para esconder ou nada para oferecer, o medo era ser morto ou seqüestrado pelos mafomas, para depois ser vendido no mercado do oriente como escravo, ou para ser resgatado pelos reis cristãos, quando para isso se tinha dinheiro. O recurso foi, como disse Drummond: “ser um pigmeu nas muralhas de Tiro”, procurar inverter a situação. Fazer como se fazia nas costas das ilhas da Bretanha francesa ou na Cornualha inglesa, na escuridão da noite acender tochas nas regiões costeiras, atrair o inimigo para o desconhecido... O mar, às vezes tão traiçoeiro, era quase sempre um aliado. Para se chegar ao porto das Casas era preciso conhecer aquelas águas para não ser tragado. Na fúria das tempestades, quando poderosas ondas escuras se levantavam em altas e ameaçadoras muralhas de espuma e, raivosamente, se atiravam contra as rochas num ruído ensurdecedor e profundo, barcos eram arremessados contra a costa, espalhando as cargas preciosas, engolindo com avidez gentes e cascos. Mais tarde, depois que tudo amainava, vinha a clamaria. Um imenso espelho turquesa se dilatava e, como dádiva, oferecia os restos do seu banquete, àqueles ilhéus que, assustados, os aproveitavam. Com a madeira recolhida casas se levantavam, mobília se completava. Gêneros e utensílios enriqueciam os desprovidos lares ilhéus. Era a pilhagem da desgraça alheia, feita sem culpa. Era a oferta do mar aos cativos do rochedo. Conta-se que, dentre os não poucos naufrágios que ali ocorreram, em dezembro de 1770, uma nau vinda do México, afundou na costa da ilha com cerca de 200 pessoas a bordo e uma grande caixa de ferro, repleta de ouro e pedras preciosas. Os habitantes chamaram o barco de: “A nau dos Quintos”. Em 1654, também nestas águas corvinas, naufragou o galeão português, vindo do Maranhão, com o padre Antonio Vieira e outros passageiros. Salvou-os um navio pirata, que rondava pela paragem. Deixou-os em outra ilha, a da Graciosa, para que seguissem viagem. Acontecimentos fantásticos de desespero, loucura e antropofagia em alto mar, desaparecimento de tripulações, revoltas e batalhas, ficaram esquecidos na história do Corvo, quando os piratas e os corsários de antigamente se foram com o tempo.


Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 27/08/08

sábado, 16 de agosto de 2008

Um povo, uma maneira especial de ser.


Frente à globalização e suas exigências, as nações e suas culturas lutam pela sobrevivência. O difícil é encontrar o equilíbrio entre a força da evolução e o respeito às tradições. Talvez a palavra chave seja: adaptação.

Numa conversa entre amigos, num destes dias, alguém disse que o açoriano era um povo individualista, pouco afeito à política.
Como açoriana de nascimento, com mais de três séculos de ascendência insular, não deixei de pensar que havia um fundo de verdade naquela assertiva.

Em todo o povo há um perfil especial, que o caracteriza. Seja na aparência, no espírito aventureiro ou belicista, na tendência artística ou comercial, na pesquisa ou na capacidade produtiva. Não importa qual a vocação, ele sofrerá a ação incontrolável da evolução. Só a capacidade de adaptação e resistência é que vai determinar se irá ou não desaparecer.

Dizem os psicólogos que a personalidade é a qualidade que identifica um individuo, segundo seus padrões de ações, embasados nos seus sentimentos, pensamentos e emoções. Se é verdade que as informações genéticas trazidas no DNA das células ditam comportamentos, também é verdade que eles se alteram com a poderosa força das situações que ocorrem no meio ambiente. E a cultura adquirida através dos tempos, como fonte de aprendizado e adaptação, é fator de sobrevivência.

Com o açoriano não foi diferente. Isolado no meio do Atlântico Norte, apesar da importância como ligação entre continentes, emigrante e colonizador por necessidade, era praticamente desconhecido pelos próprios portugueses, que só ouviam falar deles em épocas de crises frumentícias ou naturais.

Resultado de uma miscigenação européia ( flamenga, galega,francesa, inglesa), majoritariamente portuguesa, com alguns sefarditas e escravos negros africanos, foi moldado pela força da lava vulcânica e mergulhado no mar-oceano, seu destino e sua esperança. Sozinho, frente aos caprichos da natureza, encontrou na fé ao Divino Espírito Santo e no misticismo, força para superar sua fragilidade humana e impotência.

Como parte insular de Portugal desde o século XV, submetido à política portuguesa do Continente que não oferecia condições suficientes de proteção, instrução e desenvolvimento que o capacitasse para atingir uma autonomia administrativa (coisa só conseguida no século XX), o açoriano, sem perspectiva, caiu numa paralisia e imaturidade política e cívica. Salvou-o do ostracismo e da patologia psico-social a direção dada aos seus objetivos. Passou a investir naquilo que tinha domínio e poder: na sua capacidade de resistir e superar obstáculos. Picou a pedra vulcânica e fez terra para plantar, lançou-se ao mar e tornou-se um caçador de baleias. Trabalhou a madeira e o marfim do cachalote, plantou o pastel, a uva e a laranja, fez no tear colchas e tapetes, criou cabras e bois, brincou com as escamas de peixe e com o miolo da figueira, sua mulher fez rendas. Com os piratas e corsários aprendeu que quando se é mais fraco, a barganha é a moeda mais eficaz.

Quando precisou, emigrou e, em outras plagas, ajudou a construir comunidades com a pujança de seus braços e sua cultura.
À principio, achou na Igreja a pouca instrução que teve. Desenvolveu suas potencialidades pessoais. Quando tinha condição financeira, foi estudar no Continente e no estrangeiro. Apesar de todas as dificuldades, deu a Portugal o primeiro presidente da República, oradores, poetas e escritores, como Antero de Quental e Natalia Correa, reconhecidos na literatura portuguesa.
Entre os seus sentiu-se igual, por falta de estratificação sócio-econômica. O nível educacional é que fazia a diferença.
A distancia do governo central, deu-lhe um sentido de maior independência. Passou a julgar e a valorizava mais o lado individual que o coletivo.

O estilo do açoriano que conheci, dentro da minha família, era aberto com o estrangeiro, hospitaleiro, compassivo com o diferente, mas não se contagiava com outras idéias facilmente. Tinha uma personalidade forte, embasada, autodidata, individualista, mas carregada de humanismo. Desconfiada de governos, rejeitava a sociedade robotizada e desumanizada pelas suas próprias características. Curiosa com as novidades, instruía-se. Aceitava a globalização, desde que, isolado, fosse dono da sua própria opinião e respeitado na sua decisão.

Quanto ao futuro... só o tempo e Deus poderão mostrar o que vai acontecer a este povo, que chega ao século XXI com essas características, agora, porém, com o apoio da educação e tecnologia.

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 12/08/08