A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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sábado, 23 de agosto de 2008

HUKALILILE, I


.Violado, Thó Simões (2007?)



CARTA

Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo p'ra sofrer
Boca para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica feito
Para o branco me dizer
«Obra de preto sem jeito»
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.


Alexandre Dáskalos, Poesia, 1961


VEM, CACIMBO

Estende teus dedos anelados sobre a minha carapinha
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
Vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os troncos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do Bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caído sobre a grama do jardim
Ó cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.


Henrique Guerra, Poetas Angolanos, 1962


LÁ NO HORIZONTE

Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.


Agostinho Neto, Poemas, 1961

domingo, 3 de agosto de 2008

Epistolar para o passado: o fim dos 60's e princípio dos 70's, "lá"...



“(...) Li-te atentamente. E, sem surpresa, vi que me percebeste. Um beijo adicional por isso, igualmente um sorriso rasgado por saber que tu, também, soubeste que aquela foi uma "época diferente" e não lhe esqueceste o travo. Tempo de mudança de conceitos, mentalidades, em que os ecos das revoluções culturais que aconteciam no hemisfério Norte demoravam um pouco a lá chegar, escolhos da distância e não só. Embora, por aí, lá nas colónias até se vivesse mais 'folgadamente' que cá, a "metrópole" exageradamente conservadora e fechada ao além suas fronteiras, as físicas e as psicológicas. É minha convicção.
Não me restrinjo ao celebérrimo Maio de 68 que, então, tanto mudou nas formas de pensar e cujos efeitos mexeram com a sociedade global por décadas, pese o "movimento" em si ter sido "politicamente assassinado" pouco após ter-se iniciado. Não esqueço que, uns 30 dias depois do seu início, Malraux, escolasticamente um guru intelectual da gauche francesa e europeia, foi um dos cabeças da manif' dum milhão que encheu os Campos Elísios... contra as greves dos estudantes universitários e dos pólos industriais que, então, lhe aderiram (usine Renault de Billancourt, etc). E, sessenta dias depois, Charles de Gaulle que no início das manif's fizera uma retirada estratégica para fora do País - 'asilou-se' na então RFA, se bem me lembro - teve a maior maioria de sempre em eleições presidenciais francesas: 80%. Portanto em termos políticos imediatos Maio de 68 foi uma falácia, quase um nado morto após a euforia folclórica. Mas as ondas de choque propagaram-se por todo o mundo Ocidental e deixaram rastos de mudanças, maior espaço à liberdade de pensar e, principalmente aos jovens, uma irreversível conquista do direito a comportamentos com matriz libertária, rotura com o status herdado da geração anterior e que, se já em picos ocasionais era posto em causa, a partir de Maio'68 essa 'revolta' ganhou asas e sedimentou-se. Nós, esta geração, duma forma ou doutra todos sentimos as suas benesses e somos dalguma forma portadores do facho da sua herança.
Simultaneamente, do outro lado do grande charco os movimentos de luta pelos direitos cívicos da minoria de ascendência afro atingia o seu auge (Luther King, Malcolm X), as manif's anti-guerra do Viet deixaram a dimensão residual e tornaram-se um fenómeno social nacional que varreu os USA de Leste a Oeste, a tão falada revolução sexual era logicamente cabeça-de-cartaz nas conversas e nos afagos, o movimento hippie atingia o seu auge orgásmico com o celebérrimo concerto de Woodstock em '69, e de tudo isso, fosse com atraso ou não, lá chegavam a Moçambique ecos e decorrentes influências. Do Woodstock, felizmente, também chegou o filme-documentário que, contas d'agora, terei visto umas três vezes seguidas e vi alguns de gravador em punho para 'apanhar' a banda sonora. Número só batido pelo western spaghetti "Trinitá, o cowboy insolente" que vi sem vergonha alguma umas cinco vezes consecutivas no cinema Dicca, LM. Afinal ser puto é ser puto e há fascínios inerentes ao estatuto que são de aproveitar antes de ficarem fora de prazo. Ah! e igualado pelo "Ivan, O Terrível" de Serguei Eiseinstein, que entre o Cine-Clube e o Estúdio 222 também vi três vezes. Mas essa é outra 'estória' que fica em carteira para não ficar já sem munições epistolares ao tema lol
Da mesma informalmente forçada forma em que chegavam ecos alternativos ao chatérrimo "Assim Vai o Mundo", que os cinemas passavam antes do filme, também acontecia chegarem livros/fotocópias de/ que eram proibidos pois o direito a pensar estava espartilhado; puxo do meu exemplo pessoal, claro que adornado com o irresistível smell do proibido: em 73/74 eu lia textos da Internacional Situacionista mesmo que não percebesse nada do que lia, Marx já me cheirava interiormente a demodée mas não o confessava nem ao meu melhor amigo (pré-revolução; que no vivê-la o charme nos primeiros tempos é outro), nutria um fascínio intelectual de puto por Bakhunine's e sua trupe libertária, e o meu guru privado era obviamente Wilhem Reich. Leituras via empréstimos de amigos que chegavam da 'metrópole', onde estudavam ou iam em férias e, alguns, duma outra Europa que tinha também outra maneira de pensar e agir - melhor: de deixar pensar e tolerante no deixar agir. E a literatura 'subversiva' circulava se, efectivamente, quiséssemos saber mais além dos matizes dourados ou cinzentos (depende de quem olhava...) que enchiam a cúpula do ensolarado dia-a-dia.
Os jovens reivindicavam o direito a sê-lo duma forma mais consentânea com a nova Era que, se lá só emergia, já assentara praça e forma por todo o mundo Ocidental. E nós vivemo-lo, mesmo que com atraso e sem consciência política global que soubesse responder aos tantos "porquês" que se levantavam, pois contestar era vedado ou passado à lupa, assumimo-la, individualmente e até inconscientemente dos porquês por que o fazíamos, pela irreverência de comportamentos e poses sociais 'lutamos' por um novo e mais confortável espaço junto do tradicionalismo das famílias e da sociedade.
Esta também reagia e moldava-se aos novos tempos. Por falar em tempos e aproveitando a deixa, disso é exemplo a lufada de ar fresco à sociedade - toda- que foi o surgimento da revista "Tempo", em princípios de 70. Tirando casos e nomes isolados, poucos, nunca ninguém (talvez o 'A Tribuna' nos seus inícios, mas isso já são memórias doutra geração que não a minha), um órgão de informação de grande circulação e todo o seu colectivo se atrevera como eles a fazer capas e reportagens sobre assuntos que eram tabus, quase vacas sagradas.
Aí na tua terra, a Beira, houve bons exemplos da coragem de remar contra a maré, dando a cara e assinando por baixo. Assim de repente recordo Carneiro Gonçalves e Gouvêa Lemos, ambos já falecidos, aquele até precocemente num estúpido acidente de viação na Manhiça quando estava a horas de embarcar para a "metrópole" e assumir nada menos que a chefia da redacção do explosivo neófito da imprensa portuguesa, o hoje ainda referencial semanário "Expresso", a convite directo do seu proprietário, Francisco Balsemão na altura mais conhecido nos Estoris como "Chiquinho do Porsche" (mangusso; mangusso de primeira água... lol).
Dos excessos? claro, onde não os há quando de repente "tudo" que era assumido como placidamente eterno é posto em causa? e por "fedelhos", ainda por cima? Mas lá não destoamos do resto do Mundo nosso geracional e também CONSEGUIMOS. À nossa escala, pequenas vitórias que se iam conquistando e acumulando no bornal dos Direitos, mas fizemo-lo. Ámen. A nós e aos tempos, que a estes quem os viveu nunca os esquecerá. (...)”
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(foto de cartaz de Arte Psicadélica encontrado aqui. devida vénia)