A TRANSIÇÃO FRUSTRADA OU O DISCURSO INTERROMPIDO: A PROPÓSITO DA TEODICEIA DE SILVESTRE PINHEIRO FERREIRA
Joaquim Domingues
Filósofo de transição foi como António Braz Teixeira
qualificou quem é considerado uma das personalidades mais representativas do
pensamento luso-brasileiro da primeira metade do século XIX. A seu juízo, a
“figura singular e complexa de filósofo e homem público, cujo saber
enciclopédico abarcou todo o conhecimento do seu tempo, da matemática à
pedagogia, do direito à economia, da mineralogia à botânica, representa, de forma
particularmente expressiva, no pensamento português, o trânsito da fácil e
serena confiança do século XVIII para a austera e dramática inquietação do
século XIX.”[1]. Na verdade, se todas as
épocas são de transição, aquela terá sido uma das mais profundas de toda a
nossa história, como ruptura na continuidade dos princípios, dos valores e das
instituições, que lhe davam feição própria e distinta.
Entre a expulsão dos jesuítas por D. José e a extinção
de todas as ordens religiosas por D. Pedro, ocorreu uma radical mudança da
ordem vigente em Portugal. Num contexto marcado pelas invasões francesas, com
as doutrinas revolucionárias a precederem os exércitos napoleónicos, pelo
“protectorado” britânico, assim como pela independência do Brasil, onde,
afinal, vingaram as mesmas ideias e se impuseram os mesmos estratos sociais.
Processo assaz complexo, onde se cruzaram dinamismos vários, cujos efeitos por
vezes só nas gerações posteriores se patentearam, em luta com a normal inércia
social, assente em muitos séculos de fidelidade a outros valores.
Aliás, não faltara quem, prevendo a tormenta, que se
avizinhava, de um modo ou de outro tivesse procurado identificar os problemas
em causa e antecipar as soluções adequadas. Quer em termos críticos e
divergentes da tradição, como António Ribeiro Sanches (1699-1783), Luís António
Vernei (1716-1792) e os reformadores dos estudos, mormente os universitários;
quer procurando integrar no essencial e permanente as novas aquisições,
transitórias ou não, como os franciscanos Frei José Mayne (1723-1792) e Dom
Frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), o jesuíta Padre Inácio Monteiro
(1724-1812) ou os oratoristas Padres Teodoro de Almeida (1722-1804) e António
Pereira de Figueiredo (1725-1797). Bastaria, aliás, atentar na acção e na obra
de Teodoro de Almeida, a quem a Academia das Ciências de Lisboa concedeu a
honra de proferir a sua Oração de abertura, a 4 de Julho de 1780, para
constatar não só a viabilidade teórica como a larga aceitação dessa perspectiva
de transição fecunda e harmónica, apurada precisamente na fase da formação de
Silvestre Pinheiro Ferreira.
[1] História do
Pensamento Filosófico Português, dir. Pedro Calafate, vol. IV, t. 1,
Lisboa, 2004, p. 28.
