EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento).

Para o 21º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas




O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

domingo, 3 de janeiro de 2010

SEMENTES E CLARIDADE da ÁGUIA

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Quando contemplamos a claridade da revista A Águia, publicada sobretudo no Porto entre 1910 e 1932, e a qualidade dos seus intervenientes, discernimos que muitas das sementes lançadas então no húmus das páginas estão ainda hoje prontas a frutificar.
Tal como na agricultura as sementes, sobretudo dos cereais, têm um ciclo longo para germinarem, também a Logocultura detém em si e permite que, passados tantos anos do aparecimento da Águia (com os seus 205 números), não só outras revistas e projectos se tenham erguido na sua senda, tal como a Seara Nova (1921), Portucale (1928), Princípio (1930), 57 (1957), Espiral (1964), Nova Renascença (1980), Leonardo (1988) e agora esta Nova Águia (2008), mas que sobretudo nós seres do 3º milénio possamos levar mais adiante intuições e impulsões dos mestres da Águia, que nos contemplam agora da Terra lúcida e esperam animicamente aperfeiçoamentos e finalizações.
É em verdade na comunhão com a história criativa portuguesa, com o Espírito Divino e a sua Teologia ou Filosofia Perene, e com os que já partiram e os espíritos angélicos, que se consubstancia a Tradição espiritual portuguesa e a sua grande Alma e ordem. É neste sentido que ideias, intuições, interrogações e desafios lançados por mestres ou discípulos como Leonardo Coimbra, Pascoaes, Jaime Cortesão, António Carneiro, Sampaio Bruno, Fernando Pessoa, Junqueiro, Jaime Magalhães de Lima, Gomes Leal,Teixeira Rêgo, Rafael Ângelo, António Sérgio, Sant'Anna Dionísio e Agostinho da Silva permanecem, no corpo místico de Portugal e da Humanidade, abertos ao aprofundamento e realização...
As linhas que se seguem são também uma homenagem aos principais animadores da hoje centenária revista (entre os quais, Álvaro Pinto, o fundador, director e proprietário da 1ª série) e que dando o que deram merecem a nossa gratidão e evocação divina, onde quer que estejam...
Como sabemos, as vicissitudes do movimento da Renascença Portuguesa e da sua revista foram muitas, marcadas pelas cinco séries e respectivas direcções, destacando-se as dificuldades causadas pela Grande Guerra e a instabilidade política, passando mesmo a impressão e edição para o Brasil, de 1920 a 1921, iniciando-se a 3ª série em 1922, no Porto, já não dirigida por Teixeira Pascoaes e Álvaro Pinto mas por Leonardo Coimbra.
Ao lermos os primeiro textos, e sobretudo os manifestos fundadores da 2ª série, observamos uma forte consciência de que a Pátria estava a renascer e que era preciso congregar as energias genésicas de alguns pensadores para darem dignidade, sentidos e orientações. Certamente que no século XXI, com Portugal cada vez mais empobrecido pelos partidos e dirigente políticos que o têm governado, a ideia de Pátria ou mesmo de grande Alma Portuguesa, inserida na Comunidade Europeia uniformizadora e dissolutora das especificidades salvíficas nacionais, é em muitos aspectos cada vez menos substancial e profunda, pelo que o nosso horizonte terá de ser o de um esforço permanente contra a grande massificação e manipulação a que estamos sujeitos enquanto cidadãos governados, receptores e transmissores de informação e trabalhadores-consumidores. Dentro do quadro actual de falência do modelo de sociedade, salvaguardado pelo bode expiatório da crise, realcem-se porém as tentativas de resistência, renovamento ou alternativa, entre as quais as que a Nova Águia lidera nos nossos dias, em projectos bem definidos e difundidos...
Ora se desde logo, na 1ª série da Águia, em 1910, Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão, entre outros, revelam-se nas suas intensas e profundas virtudes e impulsos, é clara também a inexistência de um forte programa doutrinário veiculado como tal por eles, nesse advento caótico da República e quase espontâneo da revista, que em breve, por ideação de Cortesão e Leonardo (já juntos, com Álvaro Pinto na revista Nova Silva, de 1907) se iria tornar o porta voz da Associação da Renascença Portuguesa. Recolhamos então algumas dessas sementes centenárias mais valiosas: Leonardo, no nº 1 da revista, mostrando já o seu forte pendor para a iluminação interior e o dinamismo cósmico do Amor escreve Sobre a Educação, que «deve dar o homem a si mesmo, envolvendo-o de claridade interior; dá-lo à família pelo enternecimento, à humanidade pelo amor, ao Universo pelo deslumbramento e pelo sacrifício. Partindo de si, o homem deve abraçar o Universo».
Jaime Cortesão, no mesmo nº 1, surje como inspirado poeta e luminoso teorizador da Poesis apelando fortemente ao « ver para além, mas muito para além da superfície de cada coisa...», comparando «a nossa alma superficial que balbucia apenas em galreios infantis o que para a Alma imersa, profunda e transcendente é já linguagem calorosa e omnipotente da Verdade (…) Ser poeta é libertar todas as almas, é vê-las com o líquido olhar de enternecidas lágrimas, chorando, falar com elas, fazer Cânticos sublimes desses tácitos colóquios e entregá-las depois ao som de ritmos sugestivos (...) Poeta é o que faz dentro de si as novas experiências do Amor e do Mistério, para depois trazer ao Mundo uma mais alta verdade (...) Poeta é o que reflui sobre si mesmo, e interiorizando-se segue por esses misteriosos caminhos a encontrar—se em fraterna comunidade com tudo quanto na Vida anseia (…) O verdadeiro Poeta é o que nessas abismais imersões vai acender novas estrelas nos recantos da Alma até então obscuros, e volta de lá à superfície, transfigurado, alucinado, com uma centelha de Infinito nos olhos pávidos para cantar a sua visão numa ebriedade divina (...) Quando o meu Deus sobre mim desce na sua sarça de inspiração ardente, meu ser comunga o ritmo dos astros, atravessa-o um arrepio de Infinito e Eternidade, e embebido, encharcado, diluído num luar de sonho, sinto afluir à minha boca numa aluvião tempestuosa de gritos, vozes e hinos formidáveis, todas as vidas do Universo», e eis-nos com alguns ensinamentos germinais do original historiador dos Descobrimentos, adepto do Espírito Santo e da espiritualidade franciscana e que tanta influência teve, por exemplo, em Agostinho da Silva.
Teixeira de Pascoaes é só no nº 2 que lança a sua prodigiosa imaginação e palavra inflamada a propósito da morte de Tolstoi, cuja vida e obra é fortemente comemorada na Águia (nomeadamente por Veiga Simões e Sampaio Bruno), escrevendo: «A pena mística de Tolstoi e a lança heróica de Quixote, presas num abraço, são as extremidades dos últimos raios deste foco imenso de luz espiritual que o sangue e a carne do Homem alimentam, e que explende e brilha, sem um fim, sem um destino talvez, como os lírios florescem e como os astros gravitam...»
No nº 3, Leonardo, escrevendo sobre o Natal e novo ano, valoriza essa expansão de vida nova que é «o Amor cósmico, o amor perfeito, sem egoísmos nem exclusões. O Reino espiritual existe na virtualidade do nosso poder criador. Ele existirá na efectividade das nossas obras de ternura e bondade. Natal? Natal contínuo e permanente de vida nova a sangrar dedicação, a estremecer de afectos! Novo ano? A Terra em novas paragens do cosmos a aquecer e a iluminar o Universo com as fulgurações do novo homem, intérprete de Deus, fecundador da vida!»
Dos dez números dessa rara e pouco estudada 1ª série realcemos ainda as colaborações bem espiritualistas e utópicas de Rafael Ângelo e Veiga Simões, as teorizações de Leonardo: «ser poeta é eternizar o instante, é fazer da vida um contínuo deslumbramento, um permanente convívio com Deus», ou ainda (no nº 4) os discernimentos e desmascaramentos (tão actuais) de Pascoaes: «é na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se, como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc. (…) Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita (...) A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensaguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Boudha, Pascal, Spartacus, Voltaire Rousseau, Hugo Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc, etc...» Um tempo revoluto mas sempre actual, quando o próprio Teixeira Pascoaes (o saudosista e contemplativo para os seus críticos...) desmascarava a mentira política e apelava à revolução popular...
No nº 5, Leonardo escreve a 2ª parte Sobre a Educação, realçando a verdade importantíssima ainda hoje pouco assumida: «A atitude religiosa depende da realidade, isto é, da ciência e da filosofia. Por isso ou se recebe de olhos fechados uma ciência e uma filosofia e então pode caír-se dentro de uma Igreja: ou se procura a verdade, e então cada indíviduo para ser religioso tem de criar a sua religião, porque ela depende dos seus valores e da realidade, cujas últimas hipóteses tem de participar do individualismo. Cada indivíduo é, sob este ponto de vista, uma mónada. Nele actua todo o Universo e ele é um espelho original e inconfundível, onde o Universo se olha... Para ser religioso, isto é, para unir o eu com o Universo, para colocar a consciência no Infinito é preciso ser sábio sem ser escravo da ciência, filósofo sem ser escravo da filósofia, simples sem ser escravo ignorância, bondoso e humilde sem cálculo, regra ou prevenção. E como traduz a religião esse estado emotivo do eu em contacto com o Infinito? Pelas artes. O primeiro sentimento religioso é o do sublime. O sentimento do sublime é o desvairamento, o assombro perante o infinito...» De destacar neste texto a afirmação «cada ser para ser religioso tem de criar a sua religião», que podemos aprofundar com a de que Deus tem de renascer em cada um de nós, íntima ou monadicamente, e que a Religião Universal (como já sinalizámos num artigo do nº 3 da Nova Águia) está a desvelar-se nas consciências livres, acima dos escombros e as egrégoras dos fanatismos e exclusivismos das principais religiões e suas seitas.
No nº 6 um belo louvor ao amor da língua portuguesa por Antero de Figueiredo e a intensa homenagem a Victor Hugo, por Pascoaes, destacam-se. Realcemos no nº 7 um novo artigo monadológico de Leonardo e um conto sobre os mistérios desse subtil Japão, a contraparte oriental do Portugal finistérrico, e no nº 8 um valioso retrato psíquico de Pascoaes por Jaime Cortesão, com uma das mais significativas descrições de conversas espirituais portuguesas, quando vogavam «à beira-mar, numa maré crescente de entusiasmos, ao debater palestras intermináveis.../ Como duas ondas, duas labaredas, ou duas rajadas, que chocando-se, mais se elevam, os nossos pensamentos, à força de embates constantes, tanto se erguiam e volativizavam que por fim rebatiam apenas espumas, névoas, hálitos de ideias, e chegavam a atingir um tal poder de abstração, que nos supunha num contacto espiritual directo, para lá das palavras, comunicando só por gritos, gestos, exclamações, a telegrafar tempestades...» As Noches Claras, Divinas y Humanas Flores, de que Faria e Sousa, e Sampaio Bruno falavam, resplandecem aqui bem vivas...
No nº 10, o final, para além da homenagem a António Nobre e de mais referências a Antero de Quental, Leonardo Coimbra oferece Aos poetas portugueses religiosos, Uma Monadologia (fragmento) bem merecedora de meditação e vivificação, nos nossos tempos de crescente redução da vida ao trabalho de sobrevivência e a lazeres alienantes, afirmando que «quando classificamos de calhaus certos homens, dizemos mais do que uma metáfora. Quando, respondendo às acções mecânicas, biológicas e sociais, sinto ainda um excedente de actividade, a presença do Ideal, sou um homem livre e superior. Sem esse excedente de actividade nunca se teria pensado na liberdade, na alma e em Deus. Os seres medem, pois, a realidade pela amplitude do seu ritmo, excedente psíquico, alma ou liberdade. Assim compreende-se o conhecimento. Cada ser contém materialmente os outros de menor ritmo ou alma. O homem, compreendendo os outros, conhece a actividade livre e vivendo nessa actividade, sente e concebe Deus. Cada ser tem por limite o gasto de energia a que o obrigam os outros seres, ou o Mundo. Deus seria a perfeita actividade, a omnipresente liberdade». E eis-nos com valiosas ideias sobre energias e ritmos (para equacionarmos...) de Leonardo, certamente um dos portugueses que mais acertou no que intuíu, viveu e escreveu sobre a alma humana, o Universo, o Espírito, Deus e o Amor, mas que por erros, má fortuna ou amor ardente prematuramente morreu...
É de novo a Teixeira Pascoaes, a Leonardo Coimbra e a Jaime Cortesão que devemos os textos mais fortes, e agora doutrinários ou programáticos (fundada que foi em 1911 a associação Renascença Portuguesa), expressos na 2ª série da Águia (retomada em 1912), onde logo no nº 1 Pascoaes lança o objectivo de «dar um sentido às energias intelectuais (…) colocá-las em condições de
se tornarem fecundas de poderem realizar o ideal que neste momento histórico abrasa todas as almas sinceramente portuguesas: Criar um novo Portugal, ou melhor ressuscitar a Pátria Portuguesa».
Ora hoje ainda que sejam poucas tais almas, capazes de colher no passado as raízes «para dar à nova luz do futuro a sua flor espiritual», pois «renascer é dar a um antigo corpo uma nova alma fraterna, em harmonia com ele», há ainda assim que tentar chamar a sociedade portuguesa ou, já alargada, a lusófona «desperta à sua própria realidade essencial, ao sentido da sua própria vida, para que ela saiba quem é e o que deseja. E então poderá realizar a sua obra de perfeição social, de amor, de justiça, e poderá gritar entre os povos: Renasci!» Há que lutar por «esta obra sagrada», que compete sobretudo aos «portugueses que encerrem no seu ser uma parcela viva da alma da nossa Pátria». Mas haverá ainda muitos e capazes de se unirem criativa e libertadoramente? Quantos já não se desiludiram dela pelas caricaturas ou mentirosas figuras que os diversos representantes nacionais têm feito?
E se Pascoaes apela à união de «um certo número de operários congregados e harmónicos, ligados pelo mesmo sonho» que «vivam, além da sua vida egoista e individual, a vida mais vasta e profunda, porque é abstracta e trancendente, da Pátria Portuguesa», este chamamento, que ainda hoje ecoa em alguns movimentos ou iniciativas, como os que a Nova Águia lançou nos nossos dias, tem contudo encontrado sempre a dificuldade das individualidades portuguesas ou lusófonas necessárias no momento histórico do aqui e agora saberem congregar-se com pouco ego e em grupos verdadeiramente abertos ao Espírito santo, à busca da verdade, ao eixo cósmico que liga céu e terra e une em fraterna companhia...
Se em 1912 Pascoaes podia afirmar tanto sobranceira como clarividente e prometaicamente que «se não existisse uma alma portuguesa, teriamos de evolucionar conforme as almas estranhas, teríamos de nos fundir nessa massa amorfa da Europa; mas a alma portuguesa existe (...) e o seu perfil é eterno e original. Revelemo-la agora a todos portugueses...» e o seu objectivo era «um novo Portugal, mas português», hoje isto será cada vez mais relegado para brumas alcantiladas nas montanhas do Marão, ou remansadas em vales do que vai restando ecologica e antropologicamente do Portugal profundo, se não houver os que continuarem a manter a ligação com a grande Alma portuguesa, ou a Tradição espiritual, que é intrínsecamente universal, e a consigam efectivar interna, cultural, ecologica, local e internacionalmente, contrapondo à primazia do homem económico, manipulado e sectário, o ser humano espiritual, liberto e solidário...
Contudo, certamente, as sementes da Águia, da Nova Renascença e da Nova Águia frutificarão aqui e acolá, tanto mais que são de qualidade luminosa, como por exemplo, no mesmo nº 1 da 2ª série, de 1912, Jaime Cortesão denunciando os perigos da vida citadina (onde não se contemplam as estrelas nem se pisa a terra) e dando testemunho da teoria da alma-gémea e da Unidade primordial no poema “Esta História é para os Anjos”: «Pois vi-lhe, quando a fitava,/Com os meus olhos nos seus/A parte que me faltava/ Para chegar a Deus. // Oh, olhos extasiados,/Criando um novo sentido,/ Oh, segredos revelados/ No silêncio surpreendido, // Quando as almas estremecem/ à maior profundidade,/Porque enfim se reconhecem/ Na sua eterna Unidade! //(…) Amar é ser a semente,/ Num árido chão sepulta,/ Que germina de repente,/ Transbordando seiva oculta.»
Oiçamos também nesse fundamental nº 1 da 2ª série, Leonardo num diálogo original e unitivo entre Prometeu, o espectro da Terra, e o de Cristo: « a natureza sofre e é impotente, mas o homem possui o fogo do espírito e, com ele, irá acender consciências pelo Espaço. Desperta e luta Natureza! Já não pesa sobre ti a Fatalidade, mas, como amor e o espírito, começa a liberdade, o consentimento mútuo, o auxílio, a fraternidade, a ascenção moral! Deus é o foco invisível das almas, a fonte inesgotável do heroísmo e do amor», ou num Excerto em que nos doa valiosas sementes de meditação e criacionismo, ao considerar as relações das pessoas como mónadas que procuram harmonizar os seus ideais:«ao necessitarismo da matéria é substituído o determinismo moral; e é, de beleza e amor, a atmosfera cósmica. Assim a nossa filosofia será a estética da liberdade e a moral da beleza. A liberdade é o poder do espírito criar beleza, isto é, entendimento, transparência, comunhão, fraternidade. Dominando a matéria, o inerte ou o necessário, pode o espírito afirmar-se com eficácia e valor concreto. A beleza é a graça da transparência, do entendimento entre os seres, o acréscimo contínuo dum novo sol cósmico, que, em luz de amor e recíproca penetração, vai consumindo a matéria. Convém a esta filosofia o nome de criacionismo. Criação de beleza e amor.»
E se ainda soletrarmos, por exemplo, o magma do jorro emanado no ano de 1915, encontraremos, para além das críticas ao pangermanismo e à guerra, ou dos muitos artigos de arte e ciência, alguns escritos marcadamente espirituais e perenes, como os de Sampaio Bruno e Teixeira Rêgo, que pensam pioneiramente as opções a uma leitura demasiado conformista e literal da história das religiões e do catolicismo, propondo antes seja a via iniciática seja a da etimologia, gramática e comparativismo mitológico, para que se possa extrair o essencial dos ensinamentos que nos chegaram. Eis-nos com afloramentos da Filosofia Perene, ou da Religião Universal, entre nós...
É significativa a confissão de Sampaio Bruno de tentar executar o que o pai do notável pintor Dante Gabriel Rossetti cumprira em relação à literatura italiana: encontrar o muito que nela respirava de doutrinas ou mesmo agremiações secretas ou não institucionalizadas, tal como já o nosso Faria e Sousa nos séc. XVII afirmara na suas Noches claras, Divinas y Humanas Flores. Nesses artigos, Bruno, algo movido pelo seu pendor maçónico e anti-papal, dá mesmo quanto aos Fiéis do Amor a prevalência do sentido de anti-Roma, anagrama de Amor, preterindo o simples e mais essencial de serem fiéis verdadeiramente do Amor, do Logos, da Unidade fraterna e sábia, sem dúvida a mais viva e perene corrente iniciática ao abrir as portas do coração que dão acesso ao templo, aos mestres, à grande alma ou corpo místico, ao Divino.
É sabido como Fernando Pessoa se dirigiu a Bruno para saber do Sebastianismo, mas não se pode quantificar a influência em Pessoa destes artigos escritos na Águia em 1915, e que só vieram a ser publicados por Joel Serrão em livro em 1960, Os Cavaleiros do Amor, e em 1996, mais completos, por Joaquim Domingues, Plano de um Livro a Fazer. Neles Bruno retoma o dito de Faria e Sousa («Que es noche, y la conveniencia que tiene com el estudio. Para las Academias, y nueva Cavalleria») e entendo-o numa linha que será desenvolvida por Pessoa e que ainda hoje não está clara: a de um nova Cavalaria com os seus Fiéis do Amor. Aliás, as hesitações de F. Pessoa quanto ao nome a dar-lhe, mostram bem o limiar iniciático potencial: Ordem Templária de Portugal, Ordem de Cristo de Portugal, Ordem Secretíssima, etc., embora assuma em 30 de Março de 1935, no seu famoso testamento, a iniciação nos 3 graus menores da Ordem Templária de Portugal...
Há que aprofundar-se a história das repercussões dos números da Águia nos colaboradores e leitores, na correspondência epistolar e nas páginas da Águia (nomeadamente em polémicas à volta de Sousa Martins e Antero Quental, Saudosismo e Sebastianismo), ou mesmo dos encontros e desenvolvimentos ocorridos entre os que se sentiriam mais da Águia ou da Renascença Portuguesa. Há memórias que deixam entrever alguns níveis internos, como as reuniões mais íntimas na sede da Renascença Portuguesa e lideradas por Leonardo, que Álvaro Ribeiro referencia e que o Joaquim Domingues me sinalizou, ou as que já citámos entre Cortesão e Pascoaes. Sabemos como Leonardo Coimbra, além das tertúlias de cafés, estava sensível aos movimentos espíritas e psíquicos da época e como tentou usar a força do pensamento seja para induzir transes ou mesmo ressurreições nos outros, como o seu discípulo Sant'Anna Dionísio presenciou e me confidenciou.
Quanto aos muitos artistas que colaboraram na beleza gráfica da Águia relembremos o que Ronaldo Carvalho escreveu então sobre António Carneiro (que foi também director): «Pela sua variedade, pelo modelado místico e torturado dos retratos, pela nostalgia doente da paisagem, pelo aspecto longínquo dalgumas figuras é como se Antero renascesse na alma de Ruysbroeck para perpetuar o ignoto e a distância na sua obra evocadora e isolada.» Realcemos aqui a evocação de duas linhas de força valiosas em Portugal: a de Antero de Quental, sem dúvida no séc. XIX um dos que mais cristalizou carismaticamente o sentir e o pensar português face ao Absoluto e em magistral epistolografia, mas que deixou apressar o seu término terreno com dois tiros, e a dos místicos europeus – Ruysbroeck -, de grande profundidade e que influenciou não só os Irmãos da Vida Comum onde Erasmo foi educado, como também muitos portugueses que buscavam, acima de Roma ou das cerimónias, obediências e letras que matam, o Amor no coração, no próximo e em Deus, através da oração não só vocal e na consciencialização ou ligação directa ao Espírito.
Quando no Outono de 1980 há um novo afloramento da Renascença Portuguesa e da Águia, com a fundação da revista Nova Renascença (que se alongará por 19 anos e 73 números e que trará, por exemplo, do Brasil, da Índia e do Japão testemunhos vividos e na linha ecuménica e universalista que nos caracteriza), com outra vez alguns pensadores a congregarem-se (pelo menos na escrita para a revista) e a lançarem sementes valiosas, destacam-se fazendo a ponte com a Águia, no nº 1, Agostinho da Silva, Sant'Anna Dionísio (estes tendo sido da direcção da Águia, nas suas últimas séries) e Dalila Pereira da Costa. Oiçamo-los: se para Agostinho a primeira Renascença procurara «um centro a Portugal e o encontrado num indefinível vivido, aquele a que José Marinho, em alargamento total, chamou insubstancial substante», e a segunda Renascença como «desejando definir a periferia portuguesa... aquela vida conversável, sempre renovada e aberta», agora «gosto de imaginar uma terceira [talvez a da Nova Águia...] (...) em que periferia e centro se confundam, (…) em que o Deus que adoremos seja o de Tudo e Nada, sempre em nós, de nós, a nós, por nós, voltando, num perpétuo e momentâneo e parado mover-se de imanência e transcendência, como em simultâneas sístole e diástole: só então Portugal, por já não ser, será.»
Para Sant'Anna Dionísio, talvez o discípulo mais marcado por Leonardo, num texto sugestivamente intitulado Instantes de mística catálise e de sibilina profecia, a Renascença Portuguesa «foi um movimento, poderemos talvez dizer, de carácter religioso, ao mesmo tempo hermético e ecuménico», no qual «não diremos que todos os que participaram da sua eclosão possuissem a consciência clara dos imperativos e objectivos, digamos de ordem mística que os concitara a proclamar a certeza no advento de uma espécie de redenção (…) pois muitos seriam simples simpatizantes ou pacatos aderentes (...) Os verdadeiros focos de ardor místico, ou quase místico, seriam dois ou três vultos dotados de incontestável ardor apostólico: o nocturno vidente (...) e perseguidor incansável do fantasma da Saudade [Pascoaes], o vulto agigantado e loiro de wiking [Jaime Cortesão] (…) [e Leonardo] misto de filósofo e de tribuno, (...) de palavra clara, inspirada, pronta...»
Já Dalila Pereira da Costa, no seu contributo (sobre o Marânus, de Pascoaes), afirma que «o ultrapassamento, ou libertação, dos limites e condicionamentos do positivismo e racionalismo unívocos, realizado pela Renascença Portuguesa, nos mostrará e abrirá para nós, agora, o caminho a uma nova Descoberta portuguesa. A evocação profética e preparação para essa nova aventura, como descoberta no mundo transcendente do espírito, vem ao encontro de um facto dos mais importantes de nossos dias no pensamento ocidental: a valorização da experiência espiritual». Apela então à abertura ao Logos ou Razão Cósmica, para que o poeta profeta e clarividente seja capaz de prescrutar não só o psiquismo como chegar ao nível espiritual, numa vivência interior noética e transcendendo os limites da pessoa. Discerne lucidamente o ideal do progresso e do bem estar ilimitado como causador do círculo fechado delirante e infernal da sociedade em que vivemos, na qual a excessiva usufruição de bem estar material causa «uma atrofia das suas forças espirituais e do seu ideal de perfeição pessoal como auto-realização», forças (detidas «pelos filósfos pré-socráticos, poetas e taumaturgos, chamanes e yoguis dos nossos tempos e pelos santos») que devemos recuperar e nas quais predomina o Amor Conhecimento e que permitem a participação na Supra-Humanidade espiritual.
Realçar hoje esta assunção da experiência e da vivência espiritual interior, da meditação, da revelação interna, e da posterior partilha e colóquio (ao modo erasmiano, e de conversa convergente...) com outros seres e povos nas suas várias dimensões, parece-me então essencial para que as primícias pedagógicas, monadológicas e divinas da Renascença e da Nova Renascença dêem mais frutos de ressurreição nas mulheres e homens da Nova Águia e nos seus leitores.
Oxalá possam então surgir mais noites claras, o sol a meio da noite (seja ela de injustiça, carência ou aspiração), encontros e partilhas de seres e haveres (como a Nova Águia tem procurado dinamizar no grande espaço anímico lusófono), que façam crescer a harmonia das pessoas e sociedades, a libertação e o vôo de águias e a comunhão com a Verdade, os Mestres e Deus em cada vez mais seres, que se auto-conhecem como mónadas ou estrelas de cinco pontas, quais corpos espirituais ou as formas geométricas estilizadas por Leonardo da Vinci ou Cornélio Agripa, ou entre nós por Francisco de Holanda, Almada Negreiros e Fernando Pessoa.
E que Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão e Leonardo de Coimbra, entre vários outros da Águia, tão pioneiramente viveram, intuíram e transmitiram. Assim se melhorará o nosso alinhamento, participação e comunhão na harmoniosa Unidade cósmica e Divina...

Pedro Teixeira da Mota