A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A TERRA

Os Portugueses têm uma ligação telúrica mais forte que as chamadas de valor acrescentado... Qualquer pedaço de sol ou chuva, ponte, feriado ou número a vermelho no calendário de barbearia com gajas nuas é o pretexto conjugado no modo mais-que-perfeito para ir "à terra"... Nos tempos de infância/adolescência era com alegria e viva ansiedade que aguardava pelo atulhar da carrinha para uma interminável viagem de quase quatro horas, não na liteira do Camilo, mas nos mil e trezentos centímetros cúbicos de Bedford Van... Uma ocasião houve em que, estando programada uma ida para a matança do porco, um funesto acontecimento obrigara a zarpar mais cedo, tendo-se tornado a viagem num percurso iniciático, não pela procura do tempo perdido pelo Proust , mas porque desde essa ocasião em diante, perceberia que o prazer e a dor caminhavam lado a lado numa relação perfeita e sem divórcio à vista... O "agarrado" falecera... por ironia, fôra assim alcunhado no próprio dia da sua morte, com rapidez vertiginosa idêntica à sua vida... figura por demais conhecida da aldeia, habitué com cartão dourado de livre acesso a tascas e tabernas, passava os intervalos das jornas numa modorra vínica e alienada, com um riso infantil e uma crença ingénua e desmedida no próximo... Fosse pelo que restava de dignidade fosse pela má companhia do álcool, não resistira a aceitar uma daquelas apostas vãs e inúteis, num braço de ferro pretensamente viril, aceitara o desafio de ir ao cemitério da aldeia no mais profundo breu de uma noite sem luar... entrar fôra fácil, o mais difícil era ir roubar as flores da campa do cunhado do patrão... por entre corredores de lajes frias e lápides encardidas o primeiro objectivo tinha sido cumprido, o segundo, sair dali, afigurava-se mais complicado... toldado pelo álcool, perdera o norte numa bússola sem ponteiros , discernimento ou mão amiga; os vultos das árvores, das campas e o vento miúdo tornaram-se, de repente, figuras ameaçadoras, almas famintas em busca de alimento, desatara a correr sem nexo... dos companheiros nem sinal, o grito de socorro engasgara-se-lhe... amarinhara pelo muro e quando estava quase a saltar para a berma, mão invisível agarrara-o... os gritos lancinates só ele os ouvia, o coração estoirara sob a forma de coágulo afogando os mecanismos e inundando os pulmões... Na manhã seguinte encontraram-no dependurado no muro com o seu capote preso nos ferros pontiagudos do muro forjado a inferno...
O funeral fôra na sexta, no sábado as mágoas e o infortúnio apagavam-se com a matança do porco... o espectáculo era dantesco e pré-histórico, numa tradição digna das cavernas do neolítico após uma sessão de caça... os homens da aldeia reuniam-se para segurar o animal em cima de uma bancada improvisada, as mulheres preparavam o lume , a mesa e a bebida... Luís Alberto, assim baptizado em honra do cantor Luís Alberto del Paraná, artista Mexicano muito em voga nos sessenta, iria participar pela primeira vez com tarefa bem definida: ajudar a agarrar o animal, fosse pelos nós mal feitos fosse pela fraca força nos braços alimentados a puré de batata, o animal, à primeira facada a sangue frio, guinchara, esperneara e escapulira-se com a lâmina dependurada no bandulho... desatou tudo a correr em perseguição do bácoro vindo a encontrá-lo no pinhal próximo esvaindo-se em sangue e tripas... perante tal cenário, o apetite dissipara-se, ao almoço o prato de miudezas e outros órgãos estranhos avivara-lhe a repulsa, fazendo-lhe torcer o nariz de nojo... "Não gosto!"... Ante a desfeita frente ao povo, a autoridade paterna mostrou-se enxovalhada, para reparar a ofensa o trovão ribombou: "primeiro prova e só depois é que diz se gosta ou não gosta !! nunca se rejeita a comida que nos é oferecida!" E o calduço saiu pronto e firme... a carolada, de pontaria fina e certeira, atingiu-lhe o cocuruto...
O mel do tempo escorria lento e doce... à falta de actividades organizadas e escola... deambulava pelos matos... o moço, no viço do desejo, à falta de orientação paterna sobre o assunto que, naquele tempo girava em torno dum par de notas à "Geraldina" para desemburar o miúdo, que normalmente saía de cara corada e comichão micótica na melhor das hipóteses, coisa que um vulgar pó de sulfamidas curava em escassos quinze dias ... À falta de desemburranço paterno, os desejos e a líbido encontraram eco nos calores precoces da Teresinha que diariamente pastava as cabras do Serafim do Ermo... entre as pastagens, os encostos e as graçolas, rebolaram que nem uns perdidos pela encosta até ao rio... refrescando os prazeres em cambalhotas molhadas... o facto não passara despercebido... os dichotes, comentários e a ira levaram a que o pai de Luis Alberto interviesse... mais uma vez, mostrando publicamente a sua autoridade: "Que fizeste tu meu valdevinos que desgraçaste a rapariga e manchaste a nossa honra?" a resposta saíra de rajada: " Eu só fiz o que me disseste... nunca recusar a comida que me oferecessem... primeiro há que provar... provei... gostei!"... O calduço saíra prontamente, com raiva, de pontaria fina e certeira...

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