Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".
A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso Manifesto.
Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:
- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.
- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.
- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.
- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.
- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.
- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.
- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).
- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.
- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?
- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.
- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.
- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.
- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.
- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.
- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"
- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.
- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.
- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.
- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.
- 20º número (2º semestre de 2017): José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).
- 21º número (1º semestre de 2018): Ainda sobre José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).
- 22º número (2º semestre de 2018): V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).
- 23º número (1º semestre de 2019): Nos 10 anos do MIL: Movimento Internacional Lusófono); Almada Negreiros; ainda sobre Dalila Pereira da Costa.
- 24º número (2º semestre de 2019): Afonso Botelho (nos 100 anos do seu nascimento).
- 25º número (1º semestre de 2020): Pinharanda Gomes: Textos e Testemunhos dos seus Amigos.
Para o 25º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.
EDITORIAL NOVA ÁGUIA 24
As personalidades maiores (ou mais aquilinas) são aquelas que mais transcendem fronteiras – culturais, religiosas ou ideológicas. Pela amostra (significativa – mais de uma dúzia) de testemunhos que aqui recolhemos, proferidos numa sessão em sua Homenagem promovida pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no dia 10 de Maio do corrente ano, no Palácio da Independência, João Bigotte Chorão foi, de facto, uma personalidade maior da nossa cultura lusófona.
Personalidade não menor foi a de Afonso Botelho, que completaria no dia 4 de Fevereiro 100 anos. Igualmente por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, realizou-se, nesse exacto dia, também no Palácio da Independência, um Colóquio que abordou as diversas facetas do seu pensamento e obra. São os textos então apresentados (com mais alguns entretanto chegados) que aqui publicamos (mais de uma dezena e meia de textos).
Dois mil e dezanove tem sido um ano especialmente rico em centenários. Para além de Afonso Botelho, evocamos aqui igualmente Jorge de Sena e José Hermano Saraiva. Para o próximo número, fica desde já prometida a evocação de Joel Serrão e de Sophia de Mello Breyner Andresen, onde iremos também recordar Agustina Bessa-Luís, recentemente falecida, no início deste semestre, que marcou ainda presença na NOVA ÁGUIA – logo no primeiro número, onde publicámos um texto seu intitulado “O fantasma que anda no meu jardim”, que termina desta forma: “Voltaremos a encontrar-nos”. Até sempre, Agustina!
Ainda no vigésimo quarto número da NOVA ÁGUIA, para além do “Poemáguio” e do “Memoriáguio” (duas secções igualmente clássicas), publicamos cerca de uma dezena de “Outros Voos” e, em “Extavoo”, mais um capítulo da segunda parte (inédita) da Vida Conversável, de Agostinho da Silva, bem como a série completa das “Cartas sem resposta” de João Bigotte Chorão –, algumas das quais já publicadas em números anteriores da nossa revista. No “Bibliáguio”, por fim, publicamos mais de meia dúzia de recensões de obras que despertaram a atenção do nosso olhar aquilino.
A Direcção da NOVA ÁGUIA
Post Scriptum: Já na fase final da composição deste número, a 27 de Julho, faleceu, aos oitenta anos, Pinharanda Gomes, Sócio Honorário do MIL: Movimento Internacional Lusófono, um dos mais importantes colaboradores da NOVA ÁGUIA, desde o primeiro número (até este que aqui se apresenta, com dois ensaios que nos fez chegar no primeiro semestre deste ano), e, sob todos os pontos de vista, uma das mais relevantes figuras da cultura lusófona do último meio século (facto que só por ignorância ou má-fé pode ser contestado). Por isso, no próximo número da revista, teremos, logo a abrir, uma série de Textos e Testemunhos em sua Homenagem.
NOVA ÁGUIA Nº 24: ÍNDICE
HOMENAGEM A JOÃO BIGOTTE CHORÃO
Textos e Testemunhos de J. Pinharanda Gomes (p. 8), Alfredo Campos Matos (p. 22), Annabela Rita (p. 22), António Braz Teixeira (p. 24), António Cândido Franco (p. 24), António Leite da Costa (p. 25), António Manuel Pires Cabral (p. 26), Artur Anselmo (p. 27), Eugénio Lisboa (p. 27), Isabel Ponce de Leão (p. 29), Jaime Nogueira Pinto (p. 29), Miguel Real (31), Paulo Ferreira da Cunha (p. 39) e Paulo Samuel (p. 41).
NOS 100 ANOS DE AFONSO BOTELHO
APOLOGIA E HERMENÊUTICA NA OBRA DE AFONSO BOTELHO | António Braz Teixeira…48
AFONSO BOTELHO SEMI-INÉDITO | António Cândido Franco…57
AFONSO BOTELHO NO 57: MOVIMENTO DE CULTURA PORTUGUESA | Artur Manso…59
EDUCAÇÃO E SAUDADE EM AFONSO BOTELHO | Emanuel Oliveira Medeiros…65
HUMANISMO ESPERANÇOSO DE AFONSO BOTELHO | Guilherme d’Oliveira Martins…86
À MEMÓRIA DE AFONSO BOTELHO | J. Pinharanda Gomes…88
AFONSO BOTELHO: TESTEMUNHO BREVE | Joaquim Domingues…90
AFONSO BOTELHO, UM ARISTOCRATA EXEGETA DE D. DUARTE | José Almeida…92
TESTEMUNHO E HOMENAGEM A AFONSO BOTELHO | José Esteves Pereira…97
MITO E MITOS FUNDANTES: A POSSIBILIDADE DO DISCURSO DA SAUDADE | Luís Lóia…98
O TEMA DA SAUDADE NA TEORIA DO AMOR E DA MORTE DE AFONSO BOTELHO | Manuel Cândido Pimentel…104
AFONSO BOTELHO: DA RAZÃO E DO CORAÇÃO | Maria de Lourdes Sirgado Ganho…108
AFONSO BOTELHO, DO PENSAMENTO À ESCRITA FICCIONAL NO 57: UMA ABORDAGEM DO CONTO O INCONFORMISTA | Maria Luísa de Castro Soares…112
A FICÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Miguel Real…118
DA FILOSOFIA COMO “SABEDORIA DO AMOR”: ENTRE JOSÉ MARINHO E AFONSO BOTELHO | Renato Epifânio…125
A RENÚNCIA DO MAL NA METAFÍSICA CRISTÃ DA REDENÇÃO DE AFONSO BOTELHO | Samuel Dimas...127
SOBRE A MÓNADA HOMEMULHER EM AFONSO BOTELHO | Teresa Dugos-Pimentel…139
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES: JORGE DE SENA E JOSÉ HERMANO SARAIVA
A CRÍTICA LITERÁRIA EM JORGE DE SENA | Miguel Real…146
JOSÉ HERMANO SARAIVA: HISTORIADOR E DIVULGADOR DA CULTURA PORTUGUESA | Nuno Sotto Mayor Ferrão…151
OUTROS VOOS
A MANEIRA PORTUGUESA DE ESTAR NO MUNDO | Adriano Moreira…162
O PENSAMENTO ESTÉTICO DE EDUARDO LOURENÇO | António Braz Teixeira…165
O SENTIDO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO DA LUZ EM “VIRGENS LOUCAS” DE ANTÓNIO AURÉLIO GONCALVES | Elter Manuel Carlos…170
OS AÇORES E O MAR – O POVO, SOCIEDADE(S) E TERRITÓRIOS | Emanuel Oliveira Medeiros…176
SOBRE OS INÉDITOS DE JUNQUEIRO | Joaquim Domingues…188
VIVÊNCIAS COM MÁRIO CESARINY E FERNANDO GRADE: POETAS E PINTORES | Luís de Barreiros Tavares…194
SENTIDO E VALOR ACTUAIS DA MONARQUIA: UMA PERSPECTIVA TEÓRICO-CONSTITUCIONAL | Pedro Velez…197
CINCO DEAMBULAÇÕES PRÓ-LUSÓFONAS| Renato Epifânio…199
AUTOBIOGRAFIA 6 | Samuel Dimas…204
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) | Agostinho da Silva…220
CARTAS SEM RESPOSTA | João Bigotte Chorão…227
BIBLIÁGUIO
ARISTÓTELES EM NOVA PERSPECTIVA | Joaquim Domingues…256
A ESCOLA PORTUENSE EM QUESTÃO | Elísio Gala…256
LEONARDO COIMBRA: VIDA E FILOSOFIA | José Esteves Pereira…258
EUDORO DE SOUSA E A PRESENÇA DO MITO NA FILOSOFIA PORTUGUESA | Samuel Dimas…262
TABULA RASA II & ESTUDOS SOBRE HEIDEGGER | Renato Epifânio…263
PEITO À JANELA SEM CORAÇÃO AO LARGO | Onésimo Teotónio Almeida…264
ESPÍRITOS DAS LUZES | Anabela Ferreira…266
POEMÁGUIO
CATATÓNICO; GOLGOTHA | António José Borges…46
SEU HÁBITO MELHOR | Jaime Otelo…47
“NASCERÁ O MAIOR AMOR…” | Catarina Inverno…144
FUNDURA | Maria Leonor Xavier…145
MACAU | António José Queiroz…159
CANÇÃO SUPREMA | Carla Ribeiro…160
COMO PODEM ESPERAR | Delmar Maia Gonçalves…161
PELOS SENTIDOS | Juvenal Bucuane…161
NUME | Luísa Borges…218
STELA | Jesus Carlos…219
MIMNERNO E AS FOLHAS CAÍDAS DE JÚDICE | Susana Marta Pereira…254
LARGO | Joel Henriques…255
PARA O HERBERTO HELDER | Manoel Tavares Rodrigues-Leal…267
SEGUNDA VARIAÇÃO | José Luís Hopffer C. Almada…268
MEMORIÁGUIO…272
MAPIÁGUIO…273
ASSINATURAS…273
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…274
Lançamento da NOVA ÁGUIA 24
18 de Outubro, no Palácio da Independência (na foto: Abel Lacerda Botelho, Renato Epifânio e António Braz Teixeira). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...
Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.
MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.
PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:
https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas
O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"
Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
domingo, 12 de abril de 2009
Um texto para o Bibliáguio...
Eça de Queiroz – Ramalho Ortigão, Retrato da «Ramalhal Figura», A. Campos Matos (2009), Livros Horizonte, 111 pp.
É geralmente acoplado a Eça de Queiroz, ou como escritor interessante mas de valor flutuante, que encaramos Ramalho Ortigão. Após a leitura de Eça de Queiroz – Ramalho Ortigão, Retrato da «Ramalhal Figura», de A. Campos Matos, ficamos a pensar se não será justa essa condição, pelo menos se nos ativermos ao homem, e não apenas à obra do prosador exímio que Ramalho sem dúvida foi – «primoroso escritor e detestável pedante», nas palavras de Castelo Branco Chaves, citadas por Campos Matos (p.44). É o próprio autor do ensaio em epígrafe quem instala a dúvida. Respigando as palavras de Eça, segundo o qual Ramalho seria «um homem de bem», põe mesmo em causa a opinião do romancista – «Levanta-se aqui um pequenos problema: o de saber em definitivo se a Ramalhal figura seria de facto um homem de bem… Temos razões de sobra para pensar que Eça talvez se tem há enganado nesta apreciação, ou que, pelo menos, ela merece cuidadosos matizados.» (p.13) O decurso do livro confirma, creio, a suspeita. O grande queiroziano deixa-nos, efectivamente, de Ramalho um retrato desapiedado mas pleno daquele rigor e erudição a que nos habituou o autor do Dicionário de Eça de Queiroz. Conseguiu reunir um conjunto de informações e de documentos – para os quais terá sido de capital importância o convívio diuturno com a obra de Eça – que se me afiguram, a todos os níveis, de suma importância para o estudo da obra queiroziana e da problemática da história literária, para não falar de qualquer estudo comparativo que se possa levar a cabo entre a obra de Eça e Ramalho.
O presente ensaio compreende duas partes complementares. Num primeiro momento, o autor reúne o resultado dos seus estudos, que têm por objecto a relação entre os escritores epónimos, e, em particular, o espinhoso assunto da intervenção de Ramalho nas obras póstumas de Eça. Segue-se um conjunto de inestimáveis documentos, entre os quais se conta uma carta até agora inédita de Ramalho, além de outra correspondência trocada entre este escritor e figuras da maior importância para o caso, como a viúva de Eça. O conjunto é ainda enriquecido pela reprodução de alguns espécimes autógrafos, bem como de documentos fotográficos, que auxiliam a contextualização dos assuntos em apreço.
Começa A. Campos Matos por apresentar Ramalho, desfazendo alguns equívocos e lugares-comuns mais ou menos estabelecidos, como o de ter sido Eça aluno de Ramalho (por não haver nada que cabalmente o prove), no portuense Colégio da Lapa, de que seu pai, de resto, era o director. (Curiosamente, mais tarde, por 1870, também Antero estaria no Porto, em funções docentes, ou quase: examinador, no Liceu do Porto.) Neste momento da obra, Campos Matos começa por tecer, nas suas, digamos, peculiaridades, o retrato da «Ramalhal figura». Lendária, a sua vaidade, e porque não dizê-lo, futilidade, avulta em episódios como o que o autor aqui lembra, entre muitos que a este se poderiam juntar – «O seu apetite pelas condecorações não provinha desta época [1893]. Datava de muito antes. Quando foi a Paris em 1867, quis levar na lapela a insígnia de cavaleiro da Ordem de Cristo, escrevendo então ao literato Luís Augusto Palmeirim, poeta do ultra-romantismo, a pedinchá-la.» (p.16) Não estranhará saber Ramalho tão próximo dos luminares do ultra-romantismo, se nos lembrarmos que a sua adesão às causas da chamada Geração de 70 foi tardia, e que a sua posição inicial foi mesmo de oposição às rapaziadas do grupo em questão. Lembremos o famoso duelo (1866) com Antero, figura à qual, de resto, como lembra A. Campos Matos, Ramalho jamais se rendeu por completo. Nas palavras de Oliveira Martins, por Campos Matos citadas, «Entre o feitio cénico do ramalho e o nosso chorado Antero não havia, decerto, pontos de contacto.» (p.21)
A segunda parte da obra começa por apresentar a postura de Ramalho, «Forte ratão», na picante expressão do conde de Arnoso (p.26), perante a morte de Eça. Em carta ao genro, o autor dá notícia do acontecimento, mas, curiosamente, escassas linhas adiante, já a Ramalhal figura «fazia frases», como se diria na altura – «ao voltar, de tarde, encontrei-o na larga varanda do seu quarto, confortavelmente instalado numa poltrona lendo um romance inglês, fumando um cigarro de papel e contemplando a paisagem encantadoramente risonha que tinha em frente de si, sobre jardins, escalonados quase a pique e transbordante de rosas e jasmins, por entre pinheiros, até à beira da água, em baixo o doce espelhamento azul do lago Léman, riscado, pelo fumo dos vaporzinhos…» (p.56) Todavia, a displicência de Ramalho vai ainda mais longe, quando, em carta à mulher, na sequência do relato do triste facto, logo faz literalmente descer o tom da missiva – «A não ser esta grande consumição eu continuo bem de saúde. Para isso creio que contribuiu muito o uso de mel, que e, toda a Suíça e em parte da Itália comi sempre ao primeiro almoço» (p.59). De resto, em carta à filha, datada do mesmo dia, dirá, com a leveza que o caracterizava, ou que o caracterizou pelo menos neste ponto: «Nunca na vida fiz mais deliciosos passeios do que os que tenho feito aqui, no fundo de uma gôndola, com um charuto nos beiços, ao longo desses canais em que cada casa é uma maravilha de Arte» (p.62) Tudo isto, escassos dias após a morte de Eça…
O desaparecimento de Eça de Queiroz levantava, porém, uma outra questão: o que fazer dos vários materiais que compunham o espólio do autor. A viúva de Eça «punha Ramalho à cabeça das operações que iriam tratar da obra póstuma do marido» (p.23). Tratava-se, em primeiro lugar de A Cidade e as Serras. Logo aqui, a atitude de Ramalho se revelou questionável, ao pôr em causa o estado de acabamento do texto queiroziano, que, nas palavras de Matos Campos, apresentava, pelo contrário, «uma caligrafia de meridiana perfeição! Vê-se que se trata da versão pronta para ir para a tipografia» (p.25). Tal não impediu, no entanto, a clamorosa revisão de Ramalho, que grandemente danificou o original de Eça, em exemplos gritantes de que A. Campos Matos amplamente dá conta (pp.43-44). No entanto, Ramalho Ortigão rapidamente se descarta da penosa tarefa (!), remetendo o trabalho de revisão para Luís de Magalhães – «Já para a revisão e coordenação de A Cidade e as Serras a Senhora D. Emília me falara em V. considerando-o dentre os amigos do seu marido como o mais adequado a aliviar-me desse doce trabalho, que V. faria talvez melhor, mas de que eu procurei desempenhar-me o melhor que pude» (p.83).
O exemplo mais gritante da desfaçatez de Ramalho é o caso de O Mistério da Estrada de Sintra. Como se sabe, este «romance policial folhetinesco, ou romance-paródia» (p.45) foi o fruto da colaboração dos dois escritores, embora seja do conhecimento geral que a maior parte, e de indiscutível superioridade, coube a Eça. E a edição de 1885, a segunda, comprova-o, segundo o parecer dos especialistas. O problema emerge da quarta edição, de 1902 (visto que, conforme diz Campos Matos, a terceira nada de grave acrescenta, tirante pequenas revisões pontuais). Nesta, sim, após a morte de Eça, Ramalho leva de novo avante a sua acção gravosa de revisor. Uma vez mais, são muitas, e seríssimas, as alterações, perpetuadas até ao presente, em reedições e reimpressões – em clara traição à escrita e memória de Eça de Queiroz. Infelizmente, porém, o caso de O Mistério da Estrada de Sintra não fica por aqui. Convenientemente, após a morte de Eça, Ramalho defendeu como sendo projecto seu e fruto sobretudo do seu trabalho aquele romance. E mesmo em 1915, pouco antes da sua morte, pensando talvez na sua glória póstuma (segundo aventa Campos Matos), Ramalho Ortigão pretendeu pôr um ponto final póstumo – e sórdido – na questão, escrevendo ao então director do Diário de Notícias, Alfredo da Cunha, esclarecendo que se dirigira ao antigo director daquele diário «para lhe propor um romance que eu acabara de idear» (p.88) – isto quando se sabe de fonte segura (cartas, entre outros registos) que a ideia partira de Eça. Ramalho amplia, todavia, o logro, acrescentando – «a esse tempo eu não tinha a colaboração do Queiroz, que só lhe propus em amigável camaradagem depois de firmado o meu contrato com o Diário de Notícias» (p.88) – escusado será dizer que se tratava de uma rematada mentira.
Creio que as palavras do próprio A. Campos Matos poderiam ser as mais indicadas para concluir – «o estudo das relações entre Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz transcende os episódios por vezes insólitos que podemos historiar, para se assumir, no que a Ramalho diz respeito, num caso muito especial de complexa interpretação psicológica e também literária» (p.51).
Hugo Pinto Santos
1 comentário:
Em secção da Revista NOVA ÁGUIA que se tem firmado. Chegou também já mais um texto, do Pedro Martins, sobre a Correspondência entre o Álvaro Ribeiro e o José Régio...
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