O CORVO GRASNADOR E O MOCHO FEIO
O corvo grasnador e o mocho feio
O sapo berrador e a rã molesta,
São meus únicos sócios na floresta,
Onde carpindo estou, de angústia cheio:
Perdi todo o prazer, todo o recreio,,
Ah, malfadado amor, paixão funesta!
Urselina perdi, nada me resta,
Madre terra! Agasalha-me em teu seio;
Da víbora mordaz permite, oh Sorte,
Que nos matos aspérrimos que piso
As plantas me envenene o tênue corte!
Ah ! Que é das graças? Que é do paraíso?
A minh'alma onde está? quem logra... oh Morte,
Quem logra de Urselina o doce riso?
ENQUANTO O SÁBIO ARREIGA O PENSAMENTO
Enquanto o sábio arreiga o pensamento
Nos fenonemos teus, oh Natureza
Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
Volve o subtil geométrico instrumento:
Enquanto, alçando a mais o entendimento,
Estuda os vastos céus, e com certeza
Reconhece dos astros a grandeza,
A distância, o lugar, e o movimento:
Enquanto o sábio, enfim, mais sabiamente,
Se remonta nas asas do sentido
À corte do Senhor omnipresente:
Eu louco, cego, eu mísero, eu perdido
De ti só trago cheia, ó Jonia, a mente:
Do mais, e de mim mesmo ando esquecido ..
URSELINA GENTIL, BENIGNA E PURA
Urselina gentil, benigna e pura,
Eis nas asas subtis de um ai cansado
A ti meu coração voa alagado
Em torrentes de sangue, e de ternura;
Põe-lhe os olhos, meu bem, vê com brandura
Seu miserável, doloroso estado,
Que nas garras da morte já cravado
A fé, que te jurava, inda te jura:
Põe-lhe os olhos, meu bem, suavemente,
Põe-lhe os mimosos dedos na ferida,
Palpa de Amor a vítima inocente:
E por milagre deles, oh querida,
Verás cerrar-se o golpe, e de repente
Em ondas de prazer tornar-lhe a vida .
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