António Cândido Valeriano Cabrita Franco, mais conhecido entre nós como António Cândido Franco, nasceu em Lisboa no dia 13 de Julho de 1956. Passou a infância, no bairro da Graça, rodeado pela mãe e pela a avó materna, já vez que ficou órfão de pai logo aos 5 anos de idade.
Estudou línguas e literaturas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na qual obteve também, em 1987, um mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa dedicado ao tema “Simbologia telúrico-marítima na obra de Manuel Lopes: Exercício sobre o imaginário caboverdiano”. Dez anos mais tarde, no âmbito da literatura portuguesa, defendeu, na Universidade de Évora, a sua tese de doutoramento subordinada ao título “A Literatura de Teixeira de Pascoaes”.
Para além de poeta, ensaísta e romancista, António Cândido Franco é professor auxiliar com agregação (obtida em 2006) no Departamento de Linguística e Literaturas da Universidade de Évora, dedicando-se essencialmente à disciplina de Cultura Portuguesa.
Considerado um dos maiores pascoaesianos do nosso tempo, António Cândido é, à semelhança do seu herói-poeta, um saudosista nato: “Sou, por natureza íntima, não por imitação literária, um saudoso; vivi sempre, desde que me lembro, com a saudade à minha beira. A minha saudade é muito larga, muito antiga, mas depende muito mais da minha própria experiência de vida que de qualquer leitura ou de qualquer influência literária. Mesmo que nunca me tivessem ensinado a ler e a escrever, eu continuaria a ser um saudosista, porque a soidade foi a essência da minha vida de criança e tem sido a essência da minha vida de adulto”.
Apontamento Crítico
Se olharmos, em traços gerais, para a lista de obras publicadas por António Cândido Franco, chegamos à conclusão de que é um autor que se interessa essencialmente pela literatura portuguesa, embora tenha também algumas incursões pela literatura africana e pela brasileira; pela história; pelo pensamento português contemporâneo; e pela poesia.
No que respeita a esta última, já que se constitui enquanto parcela larga da sua obra, poder-se-á dizer que a sua criação poética resulta de uma exaltação da arte imaginativa. No seu ponto de vista, não há poesia sem imaginação, quer dizer, a poesia é a própria imaginação. Deste modo, o poeta é um revelador, um descobridor e um criador de outros mundos, inimagináveis a priori, mas desvelados pelos olhos e pelos sentidos do poeta. Este usa as palavras (“matéria da imaginação”; “garantia da permanência do invisível”) para melhor os definir e fazer chegar até nós. Ou seja, o poeta é um mensageiro, um ser da fronteira e do limiar, alguém que consegue ver e dizer o que do invisível e do indizível às vezes se entremostra.
Enquanto saudosista e pascoaesiano, António Cândido Franco detém, da obra de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), uma interpretação exaustiva. Não é só a literatura e a hermenêutica do saudosismo que lhe interessam. A bem da verdade, para Cândido Franco, Pascoaes é um dos mentores culturais do início do século XX, em Portugal. Na sua visão, importava ao poeta de Amarante traçar um novo caminho para o seu país, depois da Implantação da República, em 1910, e das consequências, em certa medida desastrosas, que dela advieram. O movimento da Renascença Portuguesa, do qual é um dos principais ideólogos, constitui-se como uma das primeiras medidas tomadas para a edificação desse Portugal necessariamente novo. No entanto, isso não implicava, na concepção pascoaesiana, uma abertura aos modelos da Europa, nos quais a economia e a tecnologia são primados, mas um aperfeiçoamento ético e moral por parte de Portugal. De igual forma, Teixeira de Pascoaes incentivava uma aproximação às raízes e às tradições do país, isto é, à terra e à natureza. Se tal acontecesse, Portugal não seria mais um a imitar os paradigmas da Europa Central mas, inversamente, seria aquele que teria algo novo e diferente para ensinar aos europeus. A revitalização do país não poderia ser feita a partir de mimetismos. Como sabemos, são estas questões que entram em conflito com o ideário que, na mesma época, António Sérgio (1883-1969), também ele fundador da Renascença Portuguesa, expunha e que deram início à famosa polémica entre os dois pensadores portugueses e que, em certa medida, dura até hoje. Tal polémica nada mais é do que o reflexo de duas perspectivas contrárias, de duas heranças diversas, de dois modos diferentes de encarar Portugal e a relação deste com a Europa e o Mundo, no entanto, ambas são representativas do estado mental dos portugueses. Se, na altura, tal polémica foi vivida intensamente, diríamos até que foi exaltada de uma forma maniqueísta, e posteriormente exacerbada por muitos que se consideravam seguidores ou de Pascoaes ou de Sérgio, hoje é já altura de se propor uma leitura compreensiva - menos sentimental, portanto - de tal confronto, que, como nos relembra António Cândido Franco, é já ele próprio uma continuação das diferenças existentes entre Antero de Quental (1842-1891) e Sampaio Bruno (1857-1915). Deste modo, Cândido Franco alerta para o facto de, apesar das diferenças conceptuais entre os dois grandes pensadores do princípio do século serem contrastantes, ambos tinham o mesmo objectivo: criar “homens universais, que fossem capazes, com a sua capacidade criadora, de influenciar o mundo.(...) O que os separa, pelo menos entre 1911 e 1915, não é a reforma de mentalidades e a necessidade de educarem o País com vista a um novo grau de civilização universal, mas o modo de o fazer”. Compreender e superar tal polémica, passa, então, por assumir este pressuposto.
António Cândido Franco interessa-se ainda pela História, especificamente pela História do seu país. A esse propósito, tem-se dedicado essencialmente ao estudo das vidas de D. Pedro (1320-1367), de D. Inês (1320?-1355) e ainda de D. Sebastião (1554-1578) com o escopo de as reproduzir em forma de romance. Foi o que aconteceu com Memória de Inês de Castro, Vida de Sebastião – Rei de Portugal, A Rainha Morta e o Rei Saudade e A Saga do Rei Menino. O autor vê na personagem de Inês de Castro o símbolo do amor, da beleza, da inocência mas também do sacrifício. D. Pedro, por sua vez, é encarado como a força matriz da saudade, como a voz que perpetua a memória de D. Inês. Finalmente, Sebastião é visto por si como o eterno Rei Menino, o herói infantil, o cavaleiro do elmo de papelão.
No seu último romance histórico, A Saga do Rei Menino, editado no ano passado, António Cândido Franco propõe uma biografia de D. Sebastião como se fosse uma saga de ficção. Desse modo, o autor expressa as impressões e as convicções pessoais que tem acerca do Rei ou até mesmo do sebastianismo, sem, no entanto, atrapalhar o discurso da narrativa ou o desfecho do destino convencional / histórico do Rei Sebastião. De igual modo, Cândido Franco permite-se “inventar” quando não tem outras alternativas (fontes) para aprofundar o destino das suas personagens e tecer opiniões acerca das mesmas e de situações ocorridas. Neste romance, o autor distingue muito bem o que é de natureza histórica e o que não é, apesar de valorizar a tragédia de Alcácer Quibir enquanto acontecimento meta-histórico. Afinal, a realidade e a seriedade da vida dependem também (e talvez muito) de factores supra-visíveis e extra-sensoriais.
Bibliografia Indicativa
Murmúrios do Mar de Peniche (1977)
Na renúncia do coração: Poemas (1984)
Matéria Prima: Poesia Portuguesa (1986)
Arte Régia (1987)
Poesia, Liberdade e Aventura (1987)
O Mar e o Marão (1989)
Corpos Celestes (1990)
Memória de Inês de Castro (1990)
Teoria e Palavra (1991)
Vida de Sebastião – Rei de Portugal (1991)
Narrativa Histórica Portuguesa (1992)
Eleanor na Serra de Pascoaes (1992)
Teoria da Literatura na Obra de Álvaro Ribeiro (1993)
O Saudosismo de Teixeira de Pascoaes (1996)
Poesia Oculta: Estudos sobre a moderna lírica portuguesa (1996)
A Literatura de Teixeira de Pascoaes: Romance de uma obra (2000)
A Primeira Morte de Florbela Espanca (2000)
Os Descobrimentos Portugueses e a Demanda do Preste João (2001)
O Essencial sobre Guerra Junqueiro (2001)
Arte de Sonhar – 87 Sonhos com Teixeira de Pascoaes (2001)
A Rainha Morta e o Rei Saudade (2003)
Viagem a Pascoaes (2006)
O Essencial sobre Bernardim Ribeiro (2007)
A Saga do Rei Menino (2007)
1 comentário:
o poeta é o profeta do mundo interior. e o mundo interior é sempre fora deste mundo.
um abraço
jorge vicente
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