Assinalam-se hoje, dia 4 de Janeiro, 79 anos sobre o suicídio do poeta Guilherme de Faria [n. 1907], na Boca do Inferno, em Cascais. Colaborador da revista A Águia, Faria foi um poeta intimamente ligado ao saudosimo e à Saudade. No breve espaço de tempo entre os seus 14 anos e o fim da vida, com apenas 21 anos, Faria publicou oito livros de poesia, tendo ainda sido editor de quatro livros de Teixeira de Pascoaes. A sua antologia de poemas Saudade Minha foi recentemente editado pela Cosmorama (Maia, 2007)."De todos os saudosistas portugueses, Pascoaes incluído, Guilherme de Faria foi porventura na contemporaneidade o mais radical, quer dizer, aquele que mais fundo levou o sentimento saudoso e elegíaco da existência; com ele um denso e inexorável véu de sombra cobriu para sempre a Terra. Foi Guilherme de Faria que tirou inéditas consequências da ideia de saudade, em primeiro e derradeiro lugar aquela insatisfação essencial do ser dividido e separado, e por isso castigadamente saudoso, que só na Morte, uma Morte ainda assim iluminada pela poderosa e transcendente luz do Amor, vislumbra cautério para a sua cisão e saída para a sua miserável condição de bicho da terra tão pequeno." António Cândido Franco
http://www.editonweb.com/Noticias/Noticias.aspx?did=40&type=pas (artigo de ACF)
www.guilhermedefaria.blogspot.com (sobre a vida e a obra do poeta, organizado pelo poeta José Rui Teixeira)
2 comentários:
Guilherme de Faria é um deste "povo de suicidas", como baptizou Unamuno os portugueses, que Pascoaes acrescentou serem-no "por amor a Deus". Suicidas religiosos, para escândalo de todas as religiões. Como se só o suicídio, exterior ou interior, pudesse resgatar-nos do "inconveniente" de termos nascido ou da "tentação de existir", para usar expressões de Cioran. Na verdade, lendo o "Livro Tibetano dos Mortos", vemos que não celebramos nos nossos nascimentos e aniversários senão a ilusão da nossa morte/suicídio num mundo subtil por apego à existência grosseira e a perda de mais uma oportunidade de Despertar para o que há além da vida e da morte, para a Luz que somos ! Mas no mesmo livro e na mesma tradição podemos ver quão raro e difícil é obter uma existência humana, que nos oferece a preciosa oportunidade de Despertar nesta mesma vida física e usá-la para o bem de todos os seres e, assim, quão grave e causa de terrível sofrimento futuro é desperdiçá-la mediante o suicídio exterior ou interior de andarmos distraídos em actividades egoístas e fúteis ! Neste sentido nada quero com este "povo de suicidas" e só evoco Guilherme de Faria, Antero e todos os outros, desde as figuras grandes da nossa cultura aos desesperados anónimos que continuam hoje a suicidar-se em grande número, para por eles orar e aspirar a que possamos em nós expiar todas as dores a que se condenam !
"A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade" - Emil Cioran.
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