EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – Francisco Manuel de Melo, Guerra Junqueiro, José Rodrigues, Lima de Freitas e Raul Brandão.

Para o 20º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.





Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas


O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

sábado, 20 de setembro de 2014

DESAFIOS DE PORTUGAL: A IDENTIDADE NACIONAL | De Adriano Moreira, para a NOVA ÁGUIA 14

 
Numa data em que é evidente a crise de mais de um Estado, designadamente na área ocidental, e particularmente no Norte do Globo onde residiu durante séculos a hegemonia global, no sentido de evoluírem para a categoria de Estados Exíguos, isto é, com relação deficitária entre as suas capacidades e objectivos, parece-nos do maior interesse e actualidade meditar sobre a relação entre a Nação e o Estado, que apenas em 1918 foram proclamados como realidades que devem coincidir.
Tendo por segura a ideia de que a identidade da Nação Portuguesa, é uma das mais antigas, senão a mais antiga europeia, as Cortes de Coimbra, reunidas entre 3 de Março e 10 de Abril de 1385, também podem entender-se como consagrando, em vésperas de uma guerra longa com Castela, a união entre a Nação e o Estado querido pela primeira, entendido aqui o Estado como o enquadramento institucional da governança soberana.
Esta união entre a Nação e o Estado, no sentido que viria a ser afirmado nos lembrados 18 Pontos de Willson em 1918, foi quebrada pela Dinastia dos Habsburgos Espanhóis, que governaram Portugal entre 1580-1640, com violação das leis do Reino, pelo uso das armas e da corrupção, dando origem à consolidação do mito do Sebastianismo, que alimentou a vontade de regressar a uma dinastia também nacional, o que é lembrado e celebrado por esta Sociedade Histórica da Independência de Portugal no 1.º de Dezembro de cada ano, no Palácio que abrigou os Conjurados. O facto que historicamente marca esta alteração gravosa do estatuto do Reino de Portugal é sempre identificado com a Batalha de Alcácer-Quibir, travada em 14 de Agosto de 1578, onde morreu talvez metade dos efectivos do exército português, foram aprisionados milhares de combatentes incluindo os representantes da nobreza mais destacada; na base do desastre, além da inexperiência e impetuosidade do jovem Rei, que diz respeito à condução das operações, a situação de o Estado exíguo ficou demonstrada, e a primeira questão importante que as circunstâncias evidenciaram foi a de preservação da identidade nacional, ponto de apoio para a resistência ao infortúnio e recuperação de um Estado nacional.
Não deixaram de existir motivações menores, quer para acompanhar os riscos da Restauração, quer para evitar os riscos consequentes do levantamento, quer para reivindicar o êxito seguro da conspiração e revolta, mas o que interessa e releva é a determinação com que “sábado, primeiro de Dezembro de 1641, dia memorável para as idades futuras, a nobreza da Cidade de Lisboa, para remédio da ruína em que se via, e ao Reino todo, aclamou por Rei o Duque de Bragança Dom João, príncipe benigníssimo, magnânimo, fortíssimo, piedoso, prudente, nos trabalhos incansável, no governo atento, no amor da república cuidadoso, do seu acrescentamento ardentíssimo, e vigilante, legítimo sucessor do Império Lusitano”. [1]
A crítica contemporânea, apoiada nos adiantamentos da ciência política, na mudança de perspectivas, e no progresso da metodologia e fontes da história, separa a definição, como que mitológica, do evento, das realidades dominantes na área das legitimidades jurídicas da época, na distância de então entre o princípio tardio da exigente coincidência entre Nação e Estado e as vigências do legitimismo.
Mas do ponto de vista da identidade nacional, e do que isso significa e crescentemente importa na conjuntura que vivemos nesta entrada do terceiro milénio, é que a História de Portugal Restaurado, escrita pelo Conde da Ericeira D. Luís de Meneses, a persistente doutrinação do Padre Vieira, o sobrevivente sebastianismo a adaptar-se a cada época, é finalmente, (Ramos, 2010) o facto de que “no ambiente nacionalista da viragem para o século XX, não só se ampliou o interesse pelo estudo do acontecimento, como o mesmo foi elevado ao estatuto de uma das datas essenciais da afirmação da identidade nacional”. As dificuldades da mobilização militar, as dificuldades financeiras, a designação das chefias militares competentes, e os condicionamentos adversos da circunstância internacional, não impediriam que a mais longa guerra em que Portugal esteve envolvido, de 1640 a 1668, vencesse os Habsburgos, recuperasse o império com perdas limitadas, recuperando igualmente o lugar independente na cena internacional. Como lembrou D. Manuel Clemente, em 1810 o Estado estava falido e foi necessário refundar o Estado, em 1910 o Estado estava falido e foi necessário refundar o Estado, em 2010 o Estado está em circunstância de desastre, e, com base na identidade, é necessário de novo reconciliar a Nação com o Estado, com base no espírito que vive nesta instituição. As evidências não parecem discutíveis.
Na dificílima circunstância em que se encontra Portugal, amarrado à séria circunstância do globalismo sem regras, começa a ganhar enorme relevo o facto de ter sido negociado um acordo internacional de auxilio financeiro, com regras severas e vigilantes atentos, e tudo parece remetido para futuriveis incertos pelos debates que antecedem necessariamente as eleições.
Não se trata apenas de ter um povo para governar, dentro de um território limitado e excessivamente abandonado, com escassos recursos próprios a dinamizar, e leis da Republica a observar, também acresce nesta data um compromisso internacional que estrutura o limite da criatividade sem regras que a soberania usou demasiadas vezes, ao longo da história e para além das capacidades e das leis.
O debate sobre as personalidades, e sobretudo envolvendo as ambições incompatíveis dos interlocutores, ultrapassa facilmente a capacidade de o eleitorado finalmente ver a realidade que permanece para além do que se consegue ouvir. Disse o Padre Vieira, no Sermão para o dia de S. Bartolomeu, que “não há coisa mais difícil, que eleger um homem outro homem”, porque “com a paixão, ou ainda sem ela, nenhum homem conhece o outro”, e o alarido em que frequentemente se transformam os debates e comentários não contribuem para vencer esta barreira. Do que se trata é do futuro, se possível aceitável, porque do passado todos conhecem o suficiente pelos efeitos que atingem a terra e as gentes, situação que não melhora com reinterpretações e voz forte.
Voltando ao Padre Vieira, e agora ao Sermão da Quarta Feira da Quaresma do ano de 1669, parece apropriado lembrar este texto: “Estais Cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra, vedes as obrigações, que se descarregam sobre o vosso cuidado, vedes o povo, que carrega sobre as vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos grandes, e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores, e gemidos de todos? Ou os vedes, ou os não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se não remediais, como os vedes? Estais cegos”.
O Padre não viveu os tempos em que os meios de comunicação consentissem que o Estado Espectáculo, em todas as suas vertentes da soberania, sem distinguir entre detenção do poder e oposição, se tornou no modelo mais cultivado, de modo que nem o eleitorado, não fora medir as circunstâncias pelos efeitos que sofre, não conseguiria ver, ao menos parte da realidade, pela cortina de palavras que tem de ouvir. De algum modo, a própria Europa no seu todo, tendo por alarme algumas anunciadas reacções não efectivadas contra o auxilio a Portugal, designadamente da Finlândia, da Alemanha, ou da Inglaterra, está a por em causa a percepção da debilidade colectiva em que se encontra perante o resto do mundo, supondo que o regresso aos atomismos dos interesses próprios de cada país não atinge gravemente a debilidade colectiva de um agregado que, com as suas guerras interiores, destruiu o império que tinha sobre o que chamou “resto do mundo”, que é onde se encontram as matérias primas, as energias não renováveis, e até os suplementos da alimentação que não produz.
E também a nova vaga dos que crescem de poder e não diminuem a memória de submissões passadas. A política não tem a gratidão como uma das suas virtudes fundamentais, mas a solidariedade de um espaço que decaiu de poder, e que pretende não apenas salvaguardar o que ainda tem, mas progredir, se possível, no equilíbrio mundial, é com base nos interesses, que moveram a sabedoria dos fundadores, que tem de basear decisões bem definidas para salvaguardar não apenas o espaço europeu, mas de facto o espaço ocidental. Os ditos de espírito, ou falta dele, podem aliviar tensões individuais, mas não resolvem problemas. Precisamos sobretudo de vozes que ajudem a ver a realidade, que promovam as solidariedades cívicas, que tenham o bem comum como paradigma. Com isto preservam as diferenças.
Quando, em 1890, a humilhação do Ultimato feito pela Inglaterra, colocando um ponto final na ambição excessiva do Mapa Cor de Rosa, as manifestações patrióticas que tiveram expressão no apelo à vontade nacional com A Portuguesa de Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, mas também de desânimo expresso com o Finis Patriae de Junqueiro, não foi o regime político o valor a salvar, não foi o declínio desse regime o inspirador, tratou-se da identidade nacional, do seu paradigma apoiado como sempre em realidades e mitos, mas proclamado, ou com esperança e projecto, ou com desânimo e lamentos, de facto animando finalmente a constituição do Terceiro Império, o africano, que terminaria, acompanhando o fim do Império Euromundista em que participava, em 1974.
Neste ano, parece-me oportuno referenciar, relembrando D. Manuel Clemente, esta permanência da identidade nacional como valor directivo da mobilização das vontades cívicas, não subordinadas à estrutura política como demonstrou no passado, consolidado progressivamente o princípio de que o Estado, como estrutura de governança, que na convicção do Lord Acton em regra precedeu a Nação, é definitivamente um servidor dela, e que deve ser reformulado sempre que a função o exige.
A esta tendência impulsionada pelo globalismo, que é um factor externo, acrescenta-se em vários casos, numa das integrações em regionalismos como o da União Europeia, a evolução do Estado para Estado Exíguo, isto é, para uma situação de relação acentuadamente negativa entre os recursos e os objectivos dessa entidade, já submetida à evolução da soberania renascentista para a soberania cooperativa que implica transferência de competências para centros de poder do novo espaço integrador. É nesta situação que se encontra o Estado Português, abrangido com os parceiros da União nas transferências de competência do Tratado de Lisboa, mas também fortemente atingido pela crise financeira e económica mundial, sendo objecto da crise de confiança que lavra por toda a União, quer na relação da sociedade civil com o Poder político, quer na vida privada em que, ao lado da sociedade civil, cuja estrutura de solidariedade e confiança, expressa no património imaterial da sua cultura específica, sofre deteriorações várias, quer na sequência da transformação das fronteiras geográficas em apontamentos administrativos, quer pelo descontrolo das migrações, uma realidade não absorvida pelo tecido cultural da sociedade civil, e que corresponde ao conceito de multidão, com as implicações de conflitos que se multiplicam em várias grandes cidades europeias.
Nesta crise, com certamente raros exemplos passados de referência, a questão do valor fundamental das identidades emergiu entre as inquietações que interpelam grandes e pequenos Estados.
Nos EUA, a chegada das antigas minorias ao poder, que inquietou Huntington, foi sublinhada pela proclamação de Obama quando afirmou – somos todos americanos –, uma temática que começa a ter réplicas preocupantes dentro da superpotência sobrante. Mas é o globalismo, de efeitos colaterais insuficientemente identificados, que obriga a acompanhar com atenção preocupada, indagações como a levada a cabo por François Jullien, sobre os conceitos de universal, uniforme e comum, em confronto com realidades a que correspondem os conceitos de alteridade, heterogéneo, e singular.[2]
É nesta categoria do singular que a questão da identidade dos povos tem um lugar principal e uma exigência de meditação inadiável.
Voltando à relação actual de Portugal com a sua circunstância, interna e externa, tudo aponta para o imperativo de olhar com sentido histórico, cívico, e de futuro, para relação entre identidade e Estado, numa data em que o Estado dá sinais irrecusáveis de evolução para Estado Exíguo, com o valor básico da confiança atingido na vida civil e na relação entre a Nação e o Estado, para assumir que a crise do Estado não é a crise da identidade nacional, que no passado graves crises do Estado foram resolvidas e ultrapassadas pelo dinamismo cívico derivado da solidez da identidade nacional. Seria inteiramente falso e abusivo, e talvez agravante da crise, imaginar ou sugerir que é a natureza filosófica e jurídica dos regimes que estas crises inevitavelmente atingem. De facto é a crise do valor da confiança que leva ao apelo urgente à autenticidade, à exigência de vozes capazes de elucidar sobre a realidade desafiante e mobilizar para respostas inovadoras com os sacrifícios indispensáveis. É a própria soberania, que não pode deixar de evoluir respondendo à mudança imperativa das circunstâncias mundiais, mas que não é imperativo que nessa evolução perca o sentido da igualdade na tomada de decisão e a noção da exigência de assegurar a capacidade de a manter. Recentemente, o professor Jonh Crowley escrevia que “longe de ser um “repli”, a identidade é, para o melhor e o pior, um avanço. Para o pior se tomarmos à letra a sua pretensão de ser “naturelle”; para o melhor se os particularismos puderem ser o ponto de apoio para um universalismo coerente”.
Voltando aos conceitos de François Jullien, no globalismo que nos envolveu sem projecto e largamente construído com efeitos colaterais, o particularismo da identidade nacional não se confunde nem com as interdependências desses efeitos colaterais, nem com a uniformidade dos consumismos que resulta da teologia de mercado: a identidade nacional é um institucionalismo criado pela história, é uma célula irredutível da marcha para a articulada unidade da governança mundial a construir, e por isso mesmo a titular da vontade de reorganizar o Estado em crise para o habilitar a servir a comunidade. Foi o que aconteceu no 1.º de Dezembro de 1640, uma celebração que não é apenas um exercício de veneração do passado, é um exercício de inspiração no passado a pensar na responsabilidade cívica de reabrir o futuro.
No caso português, sem poder ignorar o processo evolutivo do Brasil, que prudentemente avalia a escolha de futuros entre os compromissos com o regionalismo sul-americano e a sua própria afirmação de grande potência, a solidariedade procurada entre os países de língua portuguesa, na organização que espera mais atenção e desenvolvimento, que é a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), é uma contribuição sua. Não apenas para a racionalização do globalismo, e para o património imaterial de que se ocupa a UNESCO, mas também para o interesse desta Europa, à procura de objetivo estratégico convictamente partilhado, de governança finalmente racionalizada, com imaginação criadora e lideranças credíveis. Tudo para que a Euráfrica não seja apenas um sonho que a realidade semeie de pontos de interrogação, a que lembranças revitalizadas do passado impeçam de encontrar respostas construtivas. Na circunstância atual, não é fazendo renascer o espirito de cidadelas na União que a fraqueza desta encontrará remédio, porque não poderá dispensar os esforços ordenados para dominar a irracionalidade do globalismo.
Finalmente, sempre lembrarei que não se escolhe o país em que se nasce, mas que decidir ficar é um ato voluntário e de amor. Uma decisão que não se toma a benefício de inventário do passado, torna-se, com esperança, a benefício do futuro da maneira portuguesa de estar no mundo.

[1] In Rui Ramos (coord.), História de Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, pg. 295.
[2] François Jullien, O Diálogo entre as culturas, do universal ao multiculturalismo, ZAHAR, Rio de Janeiro, 2009.