EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – Francisco Manuel de Melo, Guerra Junqueiro, José Rodrigues, Lima de Freitas e Raul Brandão.

Para o 20º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.





Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas


O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Reino Português de Lourenço e Saramago



Dimas Macedo
Poeta e Crítico Literário.
Professor da Universidade Federa do Ceará.

   Do mar português de Luís de Camões, ao tudo enquanto nada que permeia a criação literária de Fernando Pessoa, correm as águas armoriais da cultura lusa. O Barroco, no campo literário, é, possivelmente, o seu melhor tecido emblemático; e o labirinto linguístico é feito às vezes de surpresas, que ousam renovar os desvios da língua, mas o que fazem, não raro, é pagar tributos à geografia simbólica da solidão e da saudade.
   Herculano, Garret, Pascoaes, Camilo Castelo Branco e tantos outros, fiéis ao imaginário do mito português, desenharam de Portugal a tatuagem lírica, mas não de forma genial ou sutil quanto Eça de Queiroz ou Miguel Torga, ou não de jeito tão francamente existencial e filosófico quanto Guerra Junqueiro ou Antero de Quental, ascendentes maiores de Pessoa e de Vergílio Ferreira.
   Mas nenhum deles, acredito, foi tão perdidamente simbólico ou tão rispidamente cético e barroco quanto, respectivamente, Eduardo Lourenço e José Saramago, possivelmente os dois maiores escritores portugueses vivos. [em 2000].
    O que impressiona, neles, é como ambos foram tocados pelo sentimento da diáspora e como se expatriaram do território português e continuaram devendo à cultura lusa as maiores reverências possíveis. Lourenço lhe fazendo acenos de Vence, em pleno território francês; e Saramago se resignando à solidão dolorida de Las Tias, pequeno povoado da ilha Lanzarote, nas Canárias – ambos, no entanto, envolvidos até a medula com a melancolia feliz e com os signos da simbologia imperial portuguesa, que os castelos de Pessoa e a polifonia armilar dos seus brasões elevaram talvez ao plano da cosmogonia e representação universal.
     Neste sentido, como ponto de partida, parece-me ser o verso célebre de Fernando Pessoa – Minha pátria é a língua portuguesa – o coroamento de síntese inimaginavelmente icônica em qualquer cultura moderna.
     A reinvenção do barroco, na literatura de Saramago, e a Mitologia da Saudade, almejando Portugal como destino, na Heterodoxia de Eduardo Lourenço, são espaços seminais que refletem um indiscu­tível apelo saudosista.
    Podemos observar em Saramago, especialmente em um livro de crônicas de uma fase bem anterior àquela de construção do grande romancista, intitulado – A Bagagem do Viajante, uma referência expressa às “Saudades da Caverna”, onde Saramago leciona que “esta atração pelo primitivo português, que até na decoração de nossas casas ganha aspectos de ideia fixa, quase agressiva, se por um lado pode significar a continuidade, em plano diferente, de certa atração de contrários que nos caracterizou como sociedade particular, (...) há de certamente obedecer a razões menos visíveis e mais universais”.
   Essas razões a que se refere José Saramago, penso que são aquelas da tradição e do imaginário português que, segundo Eduardo Lourenço, “ousaram colocar-se no centro do mundo”, revelando assim o autor de Heterodoxia a ousadia e a erudição da eterna sensibilidade portuguesa e da sua alma tão enlevada e envolvente.
     Sem a fidelidade à língua portuguesa e sem a sua recriação através de volteios e de inigualáveis torneios barrocos, talvez Saramago jamais tivesse conseguido ser lido, e é possível também que essa língua – que é nossa e pela qual sentimos e pensamos de maneira quase solitária – jamais pudesse almejar o seu futuro Prêmio Nobel, uma vez que o passado não permitiu a Portugal os louvores do reconhecimento.
     A Bagagem do Viajante, de forma gentil e emblemática, aponta para o eterno retorno da cultura lusa. Mas sobre o seu autor cabe finalmente perguntar: o que seriam José de Sousa Saramago e a sua imaginação sediciosa? Em que consistiria o êxtase da sua grande aventura com a língua? Estas perguntas, claro, me exigem que lhes diga algo sobre o estilo saramaguiano, isto é, sobre os traços góticos e barrocos de sua escri­tura literária.
   Minhas rendas verbais, no entanto, possuem outros acentos literários e, por isto mesmo, prefiro dizer que amo Saramago pelas muitas virtudes do seu texto e pela virtuose semântica e estilística do seu universo polifônico. E que vejo em sua obra os fundamentos da cultura lusa como um todo, principalmente o memorial do convento português, que é o lócus que esconde a sua solidão de místico e de poeta, que se tornou cético em relação ao destino que não lhe permitiu pensar por intuições e metáforas, mas apenas por alusões e alegorias.
   Particularmente, do ponto de vista da linguagem, José de Sousa Saramago é um escritor enigmático. É cético, como disse, e pessimista como todo intelectual que se preza. Se tivesse enveredado pelo romance de ideias, talvez fosse hoje um ficcionista derrotado. Teve, no entanto, o dom de pesquisar a estética e estabelecer um tormentoso diálogo com a língua. E isto talvez seja tudo para sua reputação de militante político renomado.
    A excelência que permeia a luminosidade do seu texto, a extraordinária beleza de sua dicção literária, a polissemia dos sentidos e a arqueologia da existência social e individual, a consciência de estar no mundo e de ter que gravitar em meio a incompreensão e a desigualdade – configuram, com certeza, uma personalidade e uma estrutura literária maiores do que se podiam pretender.
    No mais, que se ponha em relevo, na imensa bagagem saramaguiana, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o maior, talvez, de todos os seus empreendimentos barrocos, e que se releve o Evangelho Cristão-Português de Saramago, antes mesmo que a cegueira seja uma visão a enfocar o nosso sentimento e o modo de sentir e de pensar o reino português.
   Isto pode nos levar, também, à concussão de que a mitologia do mar português de Luís de Camões tenha se esgotado talvez nos artifícios barrocos saramaguianos. Não é assim que penso, no entanto.
    O que não posso esquecer é aquilo que me ensinou Eduardo Lourenço no seu livro – Mitologia da Saudade, o seu último conjunto de escritos, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em 1999, com orelhas espantosamente saramaguianas.

     Pois bem: para Eduardo Lourenço, “na trama do imaginário português convivem: a imagem do reino cristão, o sentimento de isolamento e fragilidade, o sebastianismo e a ideia de um povo messiânico, a visão de um país – predestinadamente colonizador e oniricamente imperial”.
   Mas é a saudade, assegura Lourenço, o ícone maior da cultura que se armou em Portugal, e o elemento que alinhava todos os demais. Saudades da infância, também, ou do tudo que é nada - o lugar não dito ou não revelado na escritura de Saramago, e que se tornou, igualmente, uma obsessão em suas entrevistas, especialmente depois que assumiu a diáspora e não conseguiu esquecer Portugal como destino. A Mitologia da Saudade nele é tão intensa e tão forte quanto em Eduardo Lourenço.
  Para Saramago, Eduardo Lourenço sempre insistiu no labirinto de sua vasta obra – a obra de maior ensaísta português da atualidade – em referir-se a “um lugar de crepúsculo que se esvai como um rio entre a decepção de outrora carregada de sonho e o sonho de hoje sonhado pela memória dessa decepção”.
   E acrescenta Saramago: “nenhuma dúvida, portanto, sobre o tema central das reflexões de Eduardo Lourenço: o que sempre o ocupou e preocupou foi Portugal, um Portugal que, depois de ter inventado, como lhe cabia, os seus mitos fundadores, fantasiosos como todos são, também precisou criar o que poderá ser chamado de mitos mantenedores, cujo ofício têm sido o de sustentar e prolongar as esperanças coletivas, sucessivamente colocadas num porvir que sucessivamente se nega”.
  “Foi por este caminho que viemos desde as trovas do Bandarra ao profetismo pessoano, com passagem pela “volta” de D. Sebastião, pelas exaltações patrióticas de Vieira, pelo melancolismo saudoso de Pascoaes. Equívoco grave, porém, seria pensar-se que a reflexão de Eduardo Lourenço se gratifica em brumosas contemplações de ausências. Pelo contrário: tudo o que o autor de Nós Como Futuro escreveu até hoje obedece a uma necessidade de ver e compreender o que há por trás dos véus em que parecem esconder-se, mais do que Portugal, os portugueses”.
    Por fim, registro que A Viagem a Portugal, de José Saramago, muito mais do que A Bagagem do Viajante, a que me referi, assim como as linhas barrocas da sua arquitetura verbal e polifônica, são atestados, grandiloquentes também, de que Saramago sucumbiu ao mar português de Luís de Camões e ao sebastianismo que fez de Pessoa o Príncipe-Infante da modernidade literária.

Palestra apresenta no VI Encontro de Intelectuais e Artistas da Diáspora, realizado em Fortaleza, em junho de 2000.