EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, temos tido o contributo das mais relevantes figuras da Cultura Lusófona...

Para o 26º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Lançamento da NOVA ÁGUIA 25

Lançamento da NOVA ÁGUIA 25
10 de Março, no Palácio da Independência (na foto: Miguel Real, António Braz Teixeira, Renato Epifânio e Abel Lacerda Botelho). Para ver o vídeo, clicar sobre a imagem...

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Reino Português de Lourenço e Saramago



Dimas Macedo
Poeta e Crítico Literário.
Professor da Universidade Federa do Ceará.

   Do mar português de Luís de Camões, ao tudo enquanto nada que permeia a criação literária de Fernando Pessoa, correm as águas armoriais da cultura lusa. O Barroco, no campo literário, é, possivelmente, o seu melhor tecido emblemático; e o labirinto linguístico é feito às vezes de surpresas, que ousam renovar os desvios da língua, mas o que fazem, não raro, é pagar tributos à geografia simbólica da solidão e da saudade.
   Herculano, Garret, Pascoaes, Camilo Castelo Branco e tantos outros, fiéis ao imaginário do mito português, desenharam de Portugal a tatuagem lírica, mas não de forma genial ou sutil quanto Eça de Queiroz ou Miguel Torga, ou não de jeito tão francamente existencial e filosófico quanto Guerra Junqueiro ou Antero de Quental, ascendentes maiores de Pessoa e de Vergílio Ferreira.
   Mas nenhum deles, acredito, foi tão perdidamente simbólico ou tão rispidamente cético e barroco quanto, respectivamente, Eduardo Lourenço e José Saramago, possivelmente os dois maiores escritores portugueses vivos. [em 2000].
    O que impressiona, neles, é como ambos foram tocados pelo sentimento da diáspora e como se expatriaram do território português e continuaram devendo à cultura lusa as maiores reverências possíveis. Lourenço lhe fazendo acenos de Vence, em pleno território francês; e Saramago se resignando à solidão dolorida de Las Tias, pequeno povoado da ilha Lanzarote, nas Canárias – ambos, no entanto, envolvidos até a medula com a melancolia feliz e com os signos da simbologia imperial portuguesa, que os castelos de Pessoa e a polifonia armilar dos seus brasões elevaram talvez ao plano da cosmogonia e representação universal.
     Neste sentido, como ponto de partida, parece-me ser o verso célebre de Fernando Pessoa – Minha pátria é a língua portuguesa – o coroamento de síntese inimaginavelmente icônica em qualquer cultura moderna.
     A reinvenção do barroco, na literatura de Saramago, e a Mitologia da Saudade, almejando Portugal como destino, na Heterodoxia de Eduardo Lourenço, são espaços seminais que refletem um indiscu­tível apelo saudosista.
    Podemos observar em Saramago, especialmente em um livro de crônicas de uma fase bem anterior àquela de construção do grande romancista, intitulado – A Bagagem do Viajante, uma referência expressa às “Saudades da Caverna”, onde Saramago leciona que “esta atração pelo primitivo português, que até na decoração de nossas casas ganha aspectos de ideia fixa, quase agressiva, se por um lado pode significar a continuidade, em plano diferente, de certa atração de contrários que nos caracterizou como sociedade particular, (...) há de certamente obedecer a razões menos visíveis e mais universais”.
   Essas razões a que se refere José Saramago, penso que são aquelas da tradição e do imaginário português que, segundo Eduardo Lourenço, “ousaram colocar-se no centro do mundo”, revelando assim o autor de Heterodoxia a ousadia e a erudição da eterna sensibilidade portuguesa e da sua alma tão enlevada e envolvente.
     Sem a fidelidade à língua portuguesa e sem a sua recriação através de volteios e de inigualáveis torneios barrocos, talvez Saramago jamais tivesse conseguido ser lido, e é possível também que essa língua – que é nossa e pela qual sentimos e pensamos de maneira quase solitária – jamais pudesse almejar o seu futuro Prêmio Nobel, uma vez que o passado não permitiu a Portugal os louvores do reconhecimento.
     A Bagagem do Viajante, de forma gentil e emblemática, aponta para o eterno retorno da cultura lusa. Mas sobre o seu autor cabe finalmente perguntar: o que seriam José de Sousa Saramago e a sua imaginação sediciosa? Em que consistiria o êxtase da sua grande aventura com a língua? Estas perguntas, claro, me exigem que lhes diga algo sobre o estilo saramaguiano, isto é, sobre os traços góticos e barrocos de sua escri­tura literária.
   Minhas rendas verbais, no entanto, possuem outros acentos literários e, por isto mesmo, prefiro dizer que amo Saramago pelas muitas virtudes do seu texto e pela virtuose semântica e estilística do seu universo polifônico. E que vejo em sua obra os fundamentos da cultura lusa como um todo, principalmente o memorial do convento português, que é o lócus que esconde a sua solidão de místico e de poeta, que se tornou cético em relação ao destino que não lhe permitiu pensar por intuições e metáforas, mas apenas por alusões e alegorias.
   Particularmente, do ponto de vista da linguagem, José de Sousa Saramago é um escritor enigmático. É cético, como disse, e pessimista como todo intelectual que se preza. Se tivesse enveredado pelo romance de ideias, talvez fosse hoje um ficcionista derrotado. Teve, no entanto, o dom de pesquisar a estética e estabelecer um tormentoso diálogo com a língua. E isto talvez seja tudo para sua reputação de militante político renomado.
    A excelência que permeia a luminosidade do seu texto, a extraordinária beleza de sua dicção literária, a polissemia dos sentidos e a arqueologia da existência social e individual, a consciência de estar no mundo e de ter que gravitar em meio a incompreensão e a desigualdade – configuram, com certeza, uma personalidade e uma estrutura literária maiores do que se podiam pretender.
    No mais, que se ponha em relevo, na imensa bagagem saramaguiana, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o maior, talvez, de todos os seus empreendimentos barrocos, e que se releve o Evangelho Cristão-Português de Saramago, antes mesmo que a cegueira seja uma visão a enfocar o nosso sentimento e o modo de sentir e de pensar o reino português.
   Isto pode nos levar, também, à concussão de que a mitologia do mar português de Luís de Camões tenha se esgotado talvez nos artifícios barrocos saramaguianos. Não é assim que penso, no entanto.
    O que não posso esquecer é aquilo que me ensinou Eduardo Lourenço no seu livro – Mitologia da Saudade, o seu último conjunto de escritos, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em 1999, com orelhas espantosamente saramaguianas.

     Pois bem: para Eduardo Lourenço, “na trama do imaginário português convivem: a imagem do reino cristão, o sentimento de isolamento e fragilidade, o sebastianismo e a ideia de um povo messiânico, a visão de um país – predestinadamente colonizador e oniricamente imperial”.
   Mas é a saudade, assegura Lourenço, o ícone maior da cultura que se armou em Portugal, e o elemento que alinhava todos os demais. Saudades da infância, também, ou do tudo que é nada - o lugar não dito ou não revelado na escritura de Saramago, e que se tornou, igualmente, uma obsessão em suas entrevistas, especialmente depois que assumiu a diáspora e não conseguiu esquecer Portugal como destino. A Mitologia da Saudade nele é tão intensa e tão forte quanto em Eduardo Lourenço.
  Para Saramago, Eduardo Lourenço sempre insistiu no labirinto de sua vasta obra – a obra de maior ensaísta português da atualidade – em referir-se a “um lugar de crepúsculo que se esvai como um rio entre a decepção de outrora carregada de sonho e o sonho de hoje sonhado pela memória dessa decepção”.
   E acrescenta Saramago: “nenhuma dúvida, portanto, sobre o tema central das reflexões de Eduardo Lourenço: o que sempre o ocupou e preocupou foi Portugal, um Portugal que, depois de ter inventado, como lhe cabia, os seus mitos fundadores, fantasiosos como todos são, também precisou criar o que poderá ser chamado de mitos mantenedores, cujo ofício têm sido o de sustentar e prolongar as esperanças coletivas, sucessivamente colocadas num porvir que sucessivamente se nega”.
  “Foi por este caminho que viemos desde as trovas do Bandarra ao profetismo pessoano, com passagem pela “volta” de D. Sebastião, pelas exaltações patrióticas de Vieira, pelo melancolismo saudoso de Pascoaes. Equívoco grave, porém, seria pensar-se que a reflexão de Eduardo Lourenço se gratifica em brumosas contemplações de ausências. Pelo contrário: tudo o que o autor de Nós Como Futuro escreveu até hoje obedece a uma necessidade de ver e compreender o que há por trás dos véus em que parecem esconder-se, mais do que Portugal, os portugueses”.
    Por fim, registro que A Viagem a Portugal, de José Saramago, muito mais do que A Bagagem do Viajante, a que me referi, assim como as linhas barrocas da sua arquitetura verbal e polifônica, são atestados, grandiloquentes também, de que Saramago sucumbiu ao mar português de Luís de Camões e ao sebastianismo que fez de Pessoa o Príncipe-Infante da modernidade literária.

Palestra apresenta no VI Encontro de Intelectuais e Artistas da Diáspora, realizado em Fortaleza, em junho de 2000.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

EU E SARAMAGO

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DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO



O título deste escrito parece pretensioso, porém, não é essa a minha intenção, mas sim, contar os diversos episódios que constituem a relação estabelecida entre mim e o grande escritor agora desaparecido.
Comecei a ler a obra de Saramago (1922-2010) pelo Memorial do Convento (1982) e, apesar, de não estar habituado àquela escrita sem vírgulas, entrei no tipo inovador da narrativa do escritor. Pouco depois, li Levantado do Chão (1980), livro passado no Alentejo anterior ao 25 de Abril de 1974, e este livro agarrou-me extraordinariamente, uma vez que, muitos dos detalhes descritos acerca da luta dos assalariados rurais por um pouco mais de pão, coincidiam com as verídicas histórias bejenses contadas pelo meu pai, natural da capital do Baixo Alentejo, sobre o sofrimento do povo que, encostado à parede, como escravo medieval, esperava ser escolhido para trabalhar de sol a sol, durante as épocas da sementeira e colheita dos cereais, nas herdades dos poderosos, que o afrontava do alto dos seus possantes garanhões.
Seguiram-se outros livros que li com muito agrado como, Deste Mundo e do Outro (1971) – que contém a inesquecível e, talvez a mais bonita crónica da Literatura sobre o amor maternal, quando um menino na escola explica à professora que, no seu desenho, tanto as nuvens como os flocos de neve eram negros, porque tinham sido desenhados no dia em que lhe morrera a mãe -, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) – sempre o imortal génio de Fernando Pessoa, desta vez retratado num dos mais conhecidos dos seus setenta e sete heterónimos-, A Jangada de Pedra (1986) – a Península Ibérica separou-se da Europa e procura um caminho comum para os dois países que a constituem, Portugal e Espanha -, História do Cerco de Lisboa (1989) – onde um revisor tipográfico, ao rever um livro com o mesmo título, troca um sim por um não, concedendo uma dimensão histórica e social completamente diversa ao livro que tratava -, O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) – um homem, o próprio Jesus Cristo, que, como todos os seus semelhantes, tinha uma vida sexual com a sua mulher Maria Madalena, e que levará Saramago a exilar-se em Lazarote por, hipocritamente, o Secretário de Estado da Cultura da época não autorizar este livro a concorrer a um prémio internacional, por, na opinião de Sua Excelência, o político, ele ofender a tradição católica do povo português (uma polémica com os mesmos contornos como a que se registou o ano passado quando da saída do derradeiro livro de Saramago, Caim (2009).
Deixem-me agora falar um pouco de mim, para se ver como me relaciono com Saramago. Em 1998, publiquei o meu sétimo livro a que chamei 366 Dias da Vida da Humanidade e que tinha como principal objectivo, comemorar diariamente, na minha aula de Português, (e noutras), uma efeméride relativa a um vulto da História humana, escritor, pintor, músico, etc., o seu nascimento, morte, atribuição dum prémio ou outra circunstância, que aumentasse a débil cultura geral dos alunos. Assim, no dia 8 de Outubro de 1998, ao entrar em casa, depois de uma extenuante manhã de aulas, a minha mulher anunciou-me que, Saramago acabava de ganhar o Prémio Nobel da Literatura atribuído anualmente pela Academia Sueca. Fiquei extremamente satisfeito, tanto como português, como homem de Letras, e fui imediatamente à tipografia, onde o livro citado acima estava em provas, substituir o escritor que homenageava neste dia, por o nome do segundo português que ganhava tão importante prémio (o primeiro fora, como se sabe, Egas Moniz que, em 1949, ganhara o Nobel da Medicina, e que tivera a censura do salazarismo por não ser uma ‘persona grata’ ao Estado Novo, tanto mais que fora embaixador e defensor da Iª República).
Mas, a minha relação com Saramago não fica por aqui. Nos anos seguintes, continuei a ler os seus livros mais importantes como, dois volumes dos cinco diários que constituem os Cadernos de Lazarote (1994), Ensaio sobre a Cegueira (1996), Todos os Nomes (1997), O Conto da Ilha Desconhecida (1997) – livro oferecido por um aluno, a quem consegui transmitir o bichinho da leitura -, A Caverna (2000). Até que, em 2001, escrevi uma biografia de José Saramago, para que os alunos conhecessem a vida do escritor, a que chamei O Caso do Estranho Náufrago, jogando com o facto de Saramago se ter exilado na ilha de Lazarote. Meses depois do livro sair, aconselhado por um amigo, Miguel Real, que, também já escrevera um livro sobre a obra de Saramago, acabei por mandar o meu livro para Lazarote, para a morada do nobelizado, que me foi dada pela colega de escrita e de magistério, Ana Maria Magalhães. Passaram-se quatro meses, e quando eu já pensava que não haveria resposta à minha missiva, ela chegou, dactilografada, e assinada pela mão do escritor. Saramago agradecia-me o livro e, como o meu endereço é Carnaxide, confessava que anos atrás, quando os prédios altos ainda não se tinham expandido, andara muito por aqui, e também em Linda-a-Velha, em bailes populares. Claro que guardo esta carta entre os mais preciosos documentos do meu espólio! À alegria de receber a carta, juntei meses depois, a felicidade de ver o meu livro, via Net, entre os títulos que constituem a biblioteca da Fundação José Saramago no núcleo de Lazarote.
Em 2004, saiu Ensaio sobre a Lucidez, critica política às democracias, onde, todos os eleitores votam em branco, quando chamados às urnas. Saramago lançou este livro na antiga Feira das Indústrias à Junqueira, local onde me desloquei para o ouvir e (veleidade de um idealista) para falar com ele. Compareceram milhares de pessoas e, as minhas intenções goraram-se. Porém, meses depois, Saramago, que fez uma enorme campanha de lançamento do livro, deslocou-se à biblioteca de Beja, que tem o seu nome. Disse para mim mesmo, “na cidade de nascimento do meu pai, é que vou falar com ele!”. Quando o escritor entrou, já eu lá estava, sentado na primeira fila, e como a palestra ainda demorava, levantei-me, dirigi-me a ele de carta na mão e perguntei-lhe, “Conhece isto?”. Saramago agarrou-a, passou-lhe os olhos e, laconicamente, respondeu-me, “Sim”. Como não me disse mais nada, refugiando-se num mutismo com que era costume defender-se, fiquei completamente desarmado e apenas tive voz para dizer: “Sou a pessoa que escrevi o livro. Muito prazer”. Ele respondeu, “Muito prazer.” Não dizendo mais nada. E ficou por aqui, a minha relação com o escritor agora desaparecido.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ainda sobre Saramago

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Um Labutador ou um Provocador?

J. Jorge Peralta


“Defendeste a pátria? Cumpriste o teu dever.
A Pátria foi ingrata?! Fez o que costuma fazer.”
(P. Antônio Vieira)


1. Um Homem Paradoxal

O aguilhão de Saramago talvez nos faça falta. Poderemos não concordar com ele, em algumas de suas diatribes polêmicas, no entanto, não podemos negar sua coerência de homem livre. Por outro lado, ele carregou consigo um grande mérito: Suas posições políticas, como cidadão, não interferiram em sua obra: não fez literatura partidária.

Politicamente, no entanto, teve atitudes, para muitos, abomináveis. Ninguém é perfeito... Até dos seus erros podemos tirar ensinamento.

Saramago com sua vida e obra, com seus defeitos e virtudes, estará no Panteão da Lusofonia, quer queiramos quer não.

No Panteão da Lusofonia não cabem ódios nem rancores. Saramago não colocou ódios ou rancores na sua obra. O tempo o absolverá de seus erros políticos. Restará sua obra. Esta o elevará.

Acredito que está na hora de Portugal redescobrir Saramago, sem preconceitos, como um de seus filhos amados, apesar dos pesares.


2. Saramago foi um homem e um artista que teve como seu grande mérito, o seu esforço por acordar a sociedade de certa letargia: provocou as pessoas para que refletissem, em busca da consciência do ser. A rejeição que ele teve faz parte dessa tomada de consciência...

A incredulidade que ele tanto propagava, acredito que faz parte de seu processo de provocação à sociedade para que sua fé não seja em decorrência de uma tradição formal, da inércia e de uma vontade de ser igual e de não destoar do meio em que convive.

Talvez uma afronta, subconsciente, ao “pensamento único” e “inquestionável” que move ações e atitudes, mas não move corações, convicções e sentimentos coerentes, e conscientes.

Não move o espírito.

Suas polêmicas acordaram muita gente. Ribombaram como trombetas...

Mas as pessoas não gostam de ser “perturbadas”, como os homens não gostam de ir ao médico.


Mesmo quando acusou Deus e todas as religiões, por todos os males e misérias do mundo, por todas as guerras e maledicências, provocando um grande terremoto de agressões e contestações e constrangimentos, acredito que foi mais um ato provocativo de bom resultado. Fez as pessoas pensarem e reagirem. Despertou consciências.

Acordou os que estavam sonolentos, “estagnados”, no átrio das igrejas.

Ajudou a curar a cegueira de muitos...

Até o seu último romance, “CAIM”, com todas as suas inconsistências, foi uma obra que, socialmente, deixou um saldo positivo. Provocou uma grande corrida à Bíblia, para conferir os textos originais...


3. Sejamos Críticos, mas não Injustos

Podemos e devemos ser críticos, mas não injustos. Não podemos demonizar as pessoas.

Podemos não concordar em tudo o que Saramago agitou, mas não podemos deixar de reconhecer o valor de sua lealdade a princípios, até quando abala alguns dogmas da Igreja. Até quando venerou o “bezerro de ouro” do poder despótico e deletério de seu país, que nos causa repugnância.

Naturalmente podemos discordar de muitas de suas posições, mas não podemos deixar de dar valor à sua bela história humana.

Tanto política como literariamente, Saramago foi um homem coerente. Nunca temeu perder leitores com suas atitudes. Isto ninguém pode negar. Foi um homem de coragem. Ao contrário de muitos que o criticaram...

Saramago foi um homem simples. Um homem dedicado à sua obra.


4. Vai-se o homem, fica a obra. Devemos perdoar-lhe (?!) alguns de seus eventuais desvios, mas não podemos de deixar de apreciar o difícil percurso, seguido por um homem humilde de nascimento, que conseguiu subir todos os degraus da fama e encantar milhões de pessoas, com mérito e qualidade. Saiu do anonimato, para se projetar na história, como um vencedor que, com sua obra literária, deixou o mundo mais belo.

Acredito que não vendeu sua alma ao diabo... Se vendeu, recuperou-a.


Já vi pessoas lendo Saramago nos lugares mais inesperados, como em praias do Brasil, em banco de praça e nos metrôs de Lisboa... etc, etc.

Foi um grande escultor da frase e um genial contador de histórias.

Diz uma grande crítica literária brasileira:

“Com ele, a Língua Portuguesa readquiriu, ao mesmo tempo, a majestade de um Vieira, o humor de um Eça de Queirós e a beleza poética de Pessoa prosador” (Leyla Perrone-Moisés).

Chico Buarque fala de Saramago como “um ser humano admirável, um escritor imenso, um zelador apaixonado da Língua Portuguesa”.


Sei que estas ideias são uma reviravolta naquilo que muitos pensam em Portugal sobre Saramago.

Precisamos repensar sempre nossos conceitos, quando surgem novas luzes. Não nos fechemos à luz, como as ostras.


5. Saramago no Brasil

José Saramago tinha profunda estima pelo Brasil, que muito admirava.

No Brasil tinha e tem muitos milhares, talvez milhões de admiradores. Aqui veio muitas vezes. Sentiu o coração do Brasil palpitar no ritmo e com a força do coração português. Era e é o autor mais vendido da etiqueta literatura estrangeira. Aqui falou sempre bem de Portugal.

Do Brasil dizia:

“Somos gente da mesma família,

de uma mesma língua,

de uma mesma cultura que é, embora diferente, a mesma”.

Para ele, o Brasil e Portugal estavam fadados a viverem unidos.

Saramago sempre se sentiu muito bem, entre os brasileiros, que retribuíam com grande carinho. O Brasil é um novo Mundo.

No Brasil encontrou o céu em vida. Foi muito amado, aqui. Porque ele era muito bom. Mas nem todos souberam ver o que ele nos oferecia...

Em Portugal Saramago foi muito antipático. Isto é questão circunstancial; não diminui o valor de sua obra e de sua vida.

Precisamos apreciá-lo com certa objetividade, desapaixonadamente, para não sermos atropelados pela história. Saibamos que a realidade tem muitos ângulos, e não só um.


6. Saramago vai ao Paraíso

Até Deus Pai, lá do Céu, quando Saramago chegou, foi recepcioná-lo à porta, junto com São Pedro, o homem das chaves.

Deu-lhe as boas vindas, com um grande abraço. E ele encabulado... sem dizer nada...

Tinha aqui na terra, falado muito mal de Deus e do seu Cristo! O Pai logo atalhou: filho, eu ausculto os corações... Quando falavas mal de mim, criticavas o que eu não era e não a mim. Criticavas porque amavas o que eu sou. Eu sou justo e generoso. Sou a Sabedoria.

Muito do que fizeste, às vezes por caminhos tortuosos, fez as pessoas pensarem e acertarem suas vidas. Tiraste muita gente da monotonia e da inércia.

As pessoas te criticavam mordazmente e com razão; mas fizeste-as pensar. Já te deram a pena que mereceste.

Vem comigo. Também aqui terás por missão provocar, em todos, um sorriso largo, com teu humor e teus paradoxos. Precisamos inovar sempre... Precisamos despachar mais sinais de esperança para teus irmãos, lá na terra de onde vens.


7. O Grande Legado de Saramago

A vida e a obra de Saramago, o segundo Prêmio Nobel da Língua Portuguesa, têm algo de monumental que apela à nossa consideração.

[Nosso primeiro Prêmio Nobel foi o Médico, Dr. Egas Moniz, (1949). Um grande homem.]

Quaisquer que sejam as nossas apreciações, Saramago é um imortal, em dimensões de literatura universal.

Saramago saiu da vida e entrou na história.

Na história ele continua vivo, em outra dimensão. Ninguém conseguirá tirar-lhe o que lhe pertence. Os méritos são dele.

Seus críticos vão e ele fica.


Agora cabe a nós fazermos a nossa lição de casa, sem preconceitos e sem simplismos.

Compete a cada um de nós detectar onde está os melhores tesouros que nos legou.

Se soubermos olhar, apesar dos percalços, o saldo é muito positivo. Merece o nosso apreço e a nossa consideração.

A posteridade, apagados os erros de percurso, saberá lhe fazer justiça, enaltecendo a sua imagem.


Não podemos repetir o que o país tradicionalmente fez com as pessoas que mais se destacavam no seu povo. Estas, de praxe, são renegadas por seus contemporâneos. O P. Antônio Vieira, um dos maiores ou talvez o maior sábio do século XVII denunciou este costume execrável, de que ele quase foi vítima.

É de Vieira esta frase constrangedora:

“Defendeste a pátria?

Cumpriste o teu dever.

A Pátria foi ingrata?!

Fez o que costuma fazer.”

Lembremo-nos de que Camões, se não fosse a dedicação de seu escravo, teria morrido de fome. E que Pessoa também foi rejeitado por muitos, no seu tempo. Vieira, se não fosse tão sagaz, teria sido queimado pela Inquisição, e foi uma das maiores inteligências da História de Portugal e do Brasil, de todos os tempos.

Aguardemos o que o futuro dirá de Saramago. Ele ainda está muito vivo. Como estará daqui a 50 anos? Se ele merecer a glória, glória terá.

sábado, 19 de junho de 2010

Sobre Saramago

Lamento muito mas não posso alinhar no coro angélico que pretende canonizar José Saramago, agora que morreu lá em Lanzarote onde se tinha auto-exilado. Sei que é uma coisa típica portuguesa: sempre que alguém morre por cá passa automaticamente a ser uma excelente pessoa, com lugar garantido no Céu.

Já tinha acontecido o mesmo com Álvaro Cunhal (que pretendeu transformar Portugal num satélite do Sol soviético) e agora repete-se com outro camarada.

E se falo de Cunhal agora é também porque Saramago teve -- convém lembrar -- comportamentos estalinistas públicos:

- primeiro em 1975, quando fez parte da direcção do «Diário de Notícias» e«saneou» (expressão característica dessa época sinistra) 24 jornalistas desse mesmo jornal, onde fora colocado para actuar como comissário político -- e nessa altura, eu, que nunca tenho participação política por descrer da mesma, desci à rua e juntei-me à manifestação na Avenida da Liberdade para protestar contra os tais saneamentos;

- depois quando mandou apagar (à boa maneira estalinista) o nome daquela a quem devia tanto -- a escritora Isabel da Nóbrega, uma grande senhora e excelente escritora que lhe ensinara a comer à mesa e lhe abrira portas do mundo literário -- nas dedicatórias dos livros que escrevera no tempo em que viveram juntos e os substituiu, nas reedições, pelo nome da nova mulher, Pilar del Rio, que nem sequer conhecia quando escreveu e publicou «Levantado do Chão», «Memorial do Convento» e outras obras.

Aliás, valia a pena analisar a obra de Saramago tendo em vista os livros que escreveu no tempo de Isabel da Nóbrega e os que escreveu depois, no tempo de Pilar del Rio. Só para perceber as diferenças e tirar as necessárias conclusões…

E já agora convém igualmente lembrar esses livros lamentáveis deste último período, «O Evangelho segundo Jesus Cristo» e «Caim», iniciativas de marketing para chamar a atenção, através do escândalo provocado, sobre a própria obra. Certamente foi Pilar del Rio que lhe forneceu os temas e os materiais para tais iniciativas. Nada melhor do que um escândalo ou uma polémica para «dar vida» às vendas nas livrarias.

E a manobra resultou, como sabemos. O Homem é como uma árvore, e, tal como a árvore, reconhece-se pelos frutos. Não se pode separar o Homem e a obra como se fossem os compartimentos estanques de um submarino.

Na nossa avaliação de um escritor, creio nisso absolutamente, tem sempre de entrar em linha de conta o ser humano que ele é, ou foi, e o que ele fez do dom que recebeu de Deus. E claro que, para além desta poeira dos dias de hoje, o que resta, e permanecerá, é o Juízo Final -- e esse não pertence aos homens, mas a Deus. De quem, aliás, Saramago disse e escreveu tudo o que sabemos. E que nos envergonha.


António Carlos Carvalho

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Se eu pudesse, fecharia todos os Zoológicos do mundo" - homenagem a José Saramago

Otra vez el genial José Saramago, Premio Nobel de Literatura en 1998, vuelve a golpear en nuestras conciencias, soñando claro y fuerte con un mundo mejor al que se enfrenta tan sólo armado por la razón. Un mundo de respeto, más justo con las personas, pero también con los animales, el paisaje y todo lo que nos rodea.
Su último aldabonazo es en contra de los zoológicos y los espectáculos de circo con animales. Lo hace para defender algo tan aparentemente anecdótico como la vida de Susi, la pobre elefanta deprimida del zoológico de Barcelona de la que ya os hablé la semana pasada.
Os pongo a continuación el principio de su artículo Susi, publicado el paso 19 de febrero en su muy recomendable blog personal El cuaderno de Saramago, una dura crítica a estos centros de reclusión de animales que deberían cerrarse cuanto antes. Gracias maestro.
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Si yo pudiera, cerraría todos los zoológicos del mundo. Si yo pudiera, prohibiría la utilización de animales en los espectáculos de circo. No debo ser el único que piensa así, pero me arriesgo a recibir la protesta, la indignación, la ira de la mayoría a los que les encanta ver animales detrás de verjas o en espacios donde apenas pueden moverse como les pide su naturaleza. Esto en lo que tiene que ver con los zoológicos. Más deprimentes que esos parques, son los espectáculos de circo que consiguen la proeza de hacer ridículos los patéticos perros vestidos con faldas, las focas aplaudiendo con las aletas, los caballos empenachados, los macacos en bicicleta, los leones saltando arcos, las mulas entrenadas para perseguir figurantes vestidos de negro, los elefantes haciendo equilibrio sobre esferas de metal móviles. Que es divertido, a los niños les encanta, dicen los padres, quienes, para completa educación de sus vástagos, deberían llevarlos también a las sesiones de entrenamiento (¿o de tortura?) suportadas hasta la agonía por los pobres animales, víctimas inermes de la crueldad humana. Los padres también dicen que las visitas al zoológico son altamente instructivas. Tal vez lo hayan sido en el pasado, e incluso así lo dudo, pero hoy, gracias a los innúmeros documentales sobre la vida animal que las televisiones pasan a todas horas, si es educación lo que se pretende, ahí está a la espera.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Texto que nos chegou...

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MUITO BARULHO POR NADA OU A BÍBLIA SEGUNDO SARAMAGO

Cristóvão de Aguiar

Em continuação do santo Evangelho segundo José Saramago, é bom não esquecer que o tema do pecado de Caim, o primeiro assassino da humanidade, a tomar como verídicas as palavras do Génesis, não foi uma novidade trazida pelo nosso Nobel à Literatura. Já antes dele, Byron, Baudelaire, Victor Hugo e Tournier trataram do assunto com outra elevação, adiante-se já a bem da verdade. O que irrita em Saramago, neste seu último romance, é a leviandade, a pobreza de ideias e a falta de argúcia interpretativa com que analisa os textos bíblicos, não raro lançando mão de uma linguagem escabrosa, que pouco dignifica quem a utiliza.

Exemplifique-se: “O lógico, o natural, o simplesmente humano, seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim...”; ou, na mesma página: “Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso...”; mais adiante, na página 106, escreve o Nobel: “Lúcifer sabia o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”... Linguinha de prata, como se diz na Ilha! Saramago já veio pedir desculpa por ter chamado filho da puta ao senhor. Mas, como bom teólogo que está provando ser, logo acrescentou: “Ele não é filho da puta, porque não pai nem mãe!”

Nada disto me choca no sentido religioso, mas convenhamos que o vazio de ideias e a escrita paupérrima, esses sim, escandalizam quem quer que seja, crente, ateu ou agnóstico, sobretudo quem ama a boa escrita e detesta mentes distorcidas!

Saramago analisa o texto bíblico ao pé da letra. Atente-se nesta invectiva do Nobel a um teólogo, numa entrevista televisiva:

“Que autoridade têm os senhores para pôr na Bíblia o que lá não está escrito?” Que me desculpe o escritor, mas parece que a sua interpretação bíblica pede meças à das Testemunhas de Jeová e à dos Adventistas do Sétimo Dia, que esperam Cristo desde 22 de Outubro de 1844, pelas contas feitas, e bem feitas, pelo seu fundador, William Miller, antes pertencente à igreja Baptista e depois fundador do Adventismo por ter interpretado a Bíblia de modo diferente do dos baptistas. Nas suas contas baseou-se nas profecias de Daniel. Está escrito! E o que está escrito é a palavra de Deus... e a ela não se pode mudar um til! Deu no que deu: em 22 de Outubro de 1844, toda a gente, de olho no céu, à espera e Jesus não desceu... Grande foi a desilusão: ficou para a história como o Dia do Grande Desapontamento. Houve debandada quase geral dos fiéis. Sentiram-se defraudados: foram enfileirar-se noutros credos, fundando outros... Mas, e há sempre uma interpretação à letra que nos pode sair ao caminho: Os poucos que restaram fiéis à igreja, agora dirigida por Helen White, a profetisa pelos adventistas, escreveu: Cristo realmente principiou a viagem, mas ficou a meio, em quarentena, num lugar entre o céu e a terra, esperando por melhor ocasião para aterrar no nosso planeta...

Não abona muito em favor de um romancista da envergadura de Saramago ser tão estrito na interpretação de um livro polissémico. E tanto assim é que há centenas e centenas de igrejas cristãs, todas elas baseadas no mesmo livro, a Bíblia, cujos textos, pelo visto, podem ser interpretados de milhentas de maneiras, ao gosto da imaginação de cada qual. Cada uma religião cristã de per si (e todos os dias nasce uma nova agremiação) são, segundo os seus pastores e teólogos, as únicas verdadeiras, as que melhor interpretam a palavra inspirada de Deus... Vamos agora fazer um exercício com dois romances de José Saramago: Jangada de Pedra e No Ano da Morte de Ricardo Reis. Se os interpretarmos como Saramago o faz em relação à Bíblia, temos que, na Jangada de Pedra, a Península Ibérica se dessarreiga do resto da Europa e vai pelos mares afora em forma de jangada... Assim está escrito, assim se deve interpretar, caso contrário ainda podemos ter Saramago de dedo em riste a ameaçar: “Com que autoridade pões nos meus livros o que lá não está?” O mesmo em relação ao outro romance, em que o seu autor traz Ricardo Reis (heterónimo de Pessoa) do Brasil, onde se encontrava homiziado, para Lisboa, via marítima, ressuscita-o, fá-lo viver na capital durante algum tempo, morrendo-o mais tarde e enterrando-o no cemitério do Alto de São João. Quem poderá acreditar nisso, se tomado à letra? Duas ricas metáforas serão, que como tal devem ser interpretadas, mas Saramago não consente... A avaliar pela sua exegese bíblica, tem a razão do seu lado, como sempre... Até quando discursou, em Lisboa, nas comemorações do 25.º aniversário da Revolução de Abril: Se não tivesse havido revolução, o país estava como está!

Só de um Nobel, na altura ainda a cheirar a novo, poderia sair tal pesporrência. Pôs aquele ovo na sessão comemorativa e logo abandonou a sala, para ir dizer missa em outra freguesia, que a ocasião era de discursatas... Ninguém objectou. Temor reverencial!

Nada há de novo debaixo da rosa do Sol! Nem tão-pouco o tema de Jesus Cristo, que Saramago, no seu Evangelho, apesar de páginas sublimes, não consegue desmistificar o emaranhado que se teceu à volta da figura de Jesus e seus discípulos, sendo por vezes mais fácil acreditar no Novo Testamento do que na versão saramaguiana (coteje-se os dois textos sobre o milagre das Bodas de Caná, o da Bíblia e o do Evangelho), e ficar-se-á elucidado. Essa tarefa desmistificadora coube, porém, entre outros, a Renan, em A Vida de Jesus), a Gèrard Messadié, em Um Homem que se tornou Deus, que o autor transformou em romance (edição esgotadíssima da Difusão Cultural, que esteve ao lado do Evangelho, nas livrarias, et pour cause). Trata-se de um estudo profundo sobre o primeiro século da nossa era, em que o autor é especialista. Lido, como foi o caso, na altura em que saiu, seis meses antes de o Evangelho, de Saramago, fez com que este me tivesse sido uma desilusão, tanto pela celeuma que levantou por causa do então secretário da cultura, que fez o jeito de o proibir de concorrer a um concurso internacional, como pelo consequente exílio dourado de Saramago, em Lanzarote, embezerrado com a pátria e os seus governantes.... Outros dois livros de uma teóloga alemã, Uta Ranke-Heinemann, professora de teologia católica na Universidade de Essen: Eunuchs for the Kingdom of Heaven (Eunucos para o Reino dos Céus) e, sobretudo, Putting Away Childish Things (Deixando de Criancices, tradução livre, minha) ed. HarperSanFrancisco, 1992, que lhe valeu a irradiação da cadeira de Teologia, passando a leccionar História das Religiões. Os assuntos doutrinais-chave de que trata e se desmistifica neste livro são: The divinity of Christ; the Virgin Birth; the empty tomb (o sepulcro vazio), e muitos outros, que a autora considera distorcerem a mensagem do Jesus autêntico e genuíno...

De resto, tem sido o PSD um grande adjuvante na promoção da obra saramaguiana: no século passado, foi o secretário da cultura; neste, o inefável deputado europeu... A juntar às declarações explosivas de Saramago, em Penafiel, que tanta balbúrdia têm causado, fica o ramalhete publicitário bem florido e rematado. Saramago não acredita, mas tem anjos da guarda a zelar pelo êxito comercial de algumas das suas obras mais polémicas... O autor do romance Caim deve ser dos homens mais tementes a Deus do planeta...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Saramago se despede de seu blog para escrever outro livro



MADRI, Espanha (AFP) http://contigo.abril.com.br/noticia/afp/saramago-se-despede-seu-blog-escrever-outro-livro-495809.shtml


O escritor português José Saramago, de 86 anos, deu uma pausa em seu blog com o objetivo de se dedicar em tempo integral à concepção de um novo livro, anunciou.

''Sempre conveio às despedidas que fossem breves (...) Então, adeus. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar todo o meu tempo a ele. Já verá por quê, se tudo correr bem'', explicou na última entrada de seu blog ''O Caderno de Saramago''.

''Enquanto isso, aqui está 'Caim''', oferece o escritor, prêmio Nobel de Literatura 1998, referindo-se ao título de seu último romance, que será publicado em vários idiomas nos próximos meses.

''Caim'', que segue ''A viagem do elefante'', publicado no ano passado, é o décimo sexto romance de Saramago, que também é poeta, dramaturgo e ensaísta, tendo como tema esse personagem bíblico.

O autor de ''A caverna'', de ''O evangelho segundo Jesus Cristo'' e de ''Ensaio sobre a cegueira'', que em 2007 sofreu uma grave pneumonia, avisa que a despedida de seu blog, que iniciou há cerca de um ano, não é definitiva.

''Se alguma vez sentir necessidade de comentar ou opinar sobre algo, virei bater à porta do Caderno'', adverte.


Acho que ele se refere ao caderno:
e não ao cuaderno:

Líder da comunidade judaica diz que Saramago não conhece a Bíblia


19.10.2009 - 12:25 Por Lusa


O responsável pela comunidade judaica de Lisboa, o rabino Eliezer di Martino, acusou hoje José Saramago de desconhecer a Bíblia, garantindo que o “mundo judaico não se vai escandalizar” com o que o prémio Nobel escreveu.
Saramago afirmou, em entrevista à Lusa, que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. “Na Igreja Católica não vai causar problemas porque os católicos não lêem a Bíblia, só a hierarquia, e eles não estão para se incomodar com isso. Admito que o livro possa incomodar os judeus, mas isso pouco me importa”, disse.

Em declarações hoje à agência Lusa, o rabino disse que o escritor José Saramago “não conhece a Bíblia nem a sua exegese”, fazendo “leituras superficiais das narrativas da Bíblia”. Eliezer di Martino garantiu que o “mundo judaico não se vai escandalizar pelo que escreve o senhor Saramago ou qualquer outro”.

“Continuamos a existir e a acreditar naquele livro [Bíblia] desde há milhares de anos, embora tenhamos ataques e perseguições precisamente por acreditarmos.Vamos continuar na nossa fé sem ter a mínima dúvida daquilo que vai ser o nosso caminho, apesar do livro do senhor Saramago e daqueles que pensam como ele”, referiu.

O responsável pela comunidade judaica de Lisboa admitiu que ainda não leu o livro, considerando “inútil” dar muita importância à polémica em volta da nova obra do Nobel da Literatura. “Temos milhões de autores que fazem um esforço enorme para falar mal da religião e sobretudo das religiões bíblicas”, afirmou.


Alguém pode dizer ao “bocas” Saramago que a frase, "Se Deus não existe, tudo é permitido!”, não é do Nietzsche e sim do Dostoiévisky?

A frase é do livro, "Os Irmãos Karamazov".

Agradecido.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Esfera Armilar - Consumismo: a nova religião

"Outra leitura para a crise"

A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?

- José Saramago, in O Caderno de Saramago.

Há algum tempo que abordo esta questão, de modo mais desenvolvido, nas aulas de "Filosofia da Religião". Na verdade, crentes ou descrentes, raros são os que se furtam a uma nova religião inconsciente: o consumismo. Novos sacerdotes, em complexos, múltiplos, obscuros e ocultos níveis hierárquicos, concebem e produzem as novas e sedutoras divindades, produtos, bens, serviços. A revelação e o anúncio da salvação é feito pela nova profecia e pelos novos profetas, publicidade e publicitários. Como recompensa do sacrifício do tempo, do trabalho e da conta bancária, e primeiro que tudo da inteligência, trocada pela crença de que assim se vai ser feliz, as novas divindades, completamente patentes e disponíveis, sem qualquer mistério, descem dos novos altares, as montras, ecrãs e catálogos, para oferecerem o êxtase imediato e efémero da sua posse. Que logo deixa o devoto insaciado e cada vez mais sequioso, como se bebesse água salgada para se dessedentar. Porque ignora não ser isso que no fundo busca e não ser aí que o pode encontrar.

Outros comportamentos e sucedâneos neoreligiosos facilmente se constatam, no futebol, na política, no rock. Tudo, tal como nas religiões tradicionais ou nos espiritualismos new-age, por se imaginar que algo falta possuir, ou que algo falta acontecer, para se ser o que todos queremos ser: felizes.

É demasiado evidente para se reparar nisso. Como é demasiado evidente que, enquanto este novo e mais profundo obscurantismo dominar as mentes e as multidões, haverá sempre um tipo de poder e de economia, de degradação do mundo e da vida humana que impossibilitará qualquer transformação profunda a nível social e político. No fundo para que trabalhamos todos nós, todos os dias, senão para sustentar e reproduzir isto? E quem chegará ao poder senão por e para sustentar e reproduzir isto? Quem poderá mudar isto do exterior, por decreto? E quem poderá mudar esta mentalidade, a nível colectivo? Quem reconhece e desmonta a ilusão que tudo move?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Para o José Saramago...




Há uns dias publiquei aqui uma diatribe contra ti. Numa entrevista à revista Ler, o António Barahona dizia que uma página dos “Discursos” do Salazar valia mais, estilisticamente, do que toda a tua obra. Não resisti a publicar…

Não que concorde em absoluto com ele. Nenhuma página, aliás, de algum autor “valerá mais” do que toda a obra de um outro…

Devo até dizer-te que tenho respeito por ti. Um tipo que “veio do nada”, de um meio muito pobre, sem livros no berço, e que se tornou, por mérito próprio, num Autor. Poderás, de facto, não tratar muito bem a língua, mas é inegável que tens um estilo próprio. E uma Obra, pelo menos em quantidade...

O que não suporto, contudo, é a tua presunção – sobretudo, desde que ganhaste o Nobel. O primeiro Nobel português de Literatura, num século em que houve Pessoa e Pascoaes, só para referir dois Autores infinitamente maiores do que tu…

Mas os “Nóbeis”, já se sabe, são dados por muitas razões extra-literárias. E tudo sempre foste muito hábil a gerir essas razões…

Conseguiste até, depois de uma brilhante encenação, e com a prestimosa ajuda do então Sub-Secretário de Estado da Cultura, Sousa Laura, teres-te tornado no “Salman Rushdie português” – sei que tiveste pena que ninguém te tivesse condenado à morte, mas, ainda assim, “foste forçado a exilar-te” para Lanzarote…

E, claro, sempre clamando pela “liberdade de expressão” – aquela mesma que tu negaste, sem qualquer peso na consciência, quando foste Director-Adjunto do Diário de Notícias depois da Revolução…

O teu irmão-gémeo, o Lobo Antunes, nesse aspecto, tem muito a aprender contigo. No outro dia, li no jornal, fez o lançamento, no Cinema S. Jorge (em Lisboa), do seu último livro. Sala quase vazia. Fosse ele militante de um partido…

Ah!, e o teu fervor castelhano-iberista. Disso é melhor nem falarmos…

Saudações patrióticas

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Uma frase chocante...

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"Vale mais uma página de qualquer discurso de Salazar do que toda a obra de Saramago. Estilisticamente. O autor de cabeceira do Salazar era o Padre António Vieira. Se ler qualquer dos discursos de Salazar lê português. Que é uma coisa que já raramente se encontra. É um clássico."

António Barahona, Revista Ler, Dezembro de 2008, p. 34.