EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – Francisco Manuel de Melo, Guerra Junqueiro, José Rodrigues, Lima de Freitas e Raul Brandão.

Para o 20º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.





Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas


O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Passaram ontem 42 anos sobre a sua morte...

Começando ex-abrupto: Haverá, ou não, filosofias nacionais? E haverá, ou não, uma filosofia portuguesa? Eis, meu amigo, questões muito insistentemente solevadas pelos livros de Álvaro Ribeiro, cuja última obra, A Razão Animada, você pretende, mas não consegue, discutir.

Claro está que muitas outras questões se levantam nesses livros, ricos de pensamentos; e, antes de mais, porque exprimem eles próprios uma filosofia, – discutível como todas. Discutir, porém, uma filosofia que se tem vindo abrindo aos poucos, sob forma bem mais aforística, até hermética ou oracular, do que discursiva, e expressando-se numa original linguagem em que, por vezes, até o rigor paradoxalmente desconcerta o leitor mais ou menos vulgar – não é coisa fácil. Por isso a maioria dos leitores, mesmo os considerados críticos, preferem discutir o autor, as suas intenções particulares e atitudes meramente humanas. Não serei eu quem me abalance, e menos num breve artigo, a discutir a filosofia de Álvaro Ribeiro. Para isso me falta a competência dos especialistas. Só, sobre um ponto ou outro dos versados pelo autor, quando muito poderei dar a minha opinião de leigo. Os nossos especialistas, porém, – os que naturalmente possuem o dom, e culturalmente conquistaram o direito, de criticar obras de pensamento – não poderão esses ir mais longe?

Haverá, ou não, filosofias nacionais? E haverá, ou não, uma filosofia portuguesa? Eis sobre que venho dar-lhe a minha opinião de leigo, pois a mim se me afigura não serem inconciliáveis as duas posições postas em forma contraditória. Sim e não, – aventarei. Creio que a filosofia é universal; ou, mais modestamente, internacional. E creio que há filosofias não só nacionais como, até, temporais e individuais. Universal e intemporal é a filosofia, porque todo o pensamento válido ou autêntico – isto é: gerado num cérebro humano e capaz de ser assimilado por outros cérebros humanos – pode e deve ultrapassar as fronteiras das individualidades, das pátrias ou dos tempos. Assim nós, portugueses do século vinte, somos capazes de nos interessarmos pela filosofia de Platão, ou de Sto. Agostinho, ou de Descartes. Não me parece obstar isto a que se possa falar na filosofia de um autor, ou de uma nação, ou de uma época ou idade. Aqui mesmo, sem intenção, acabo eu de o exemplificar quanto aos autores, referindo-me à filosofia de Descartes, de Sto. Agostinho, ou de Platão. E a cada passo encontramos referência, por exemplo, à filosofia grega, francesa, ou alemã, – à filosofia medieval ou ao pensamento contemporâneo. Torna-se evidente que estas expressões algum sentido têm. Independentemente da sua perene validez em qualquer lugar da Terra, toda a filosofia criada por um indivíduo se há-de ressentir da personalidade sua criadora; e tanto mais quanto mais original for, devendo, ainda, notar-se que, quanto mais original, – mais interessante, mais autêntica, mais válida; por outras palavras: mais internacional e intemporal. O que se dá quanto à personalidade criadora se dá, ou pode dar-se, quanto à necessidade ou temporalidade. Pois até na medida em que se ressente a criação filosófica da personalidade do filósofo-criador, e se ressente esta personalidade do lugar e tempo em que nasceu, cresceu, criou, reflecte a citada criação das várias características de uma nação ou época. Pode o centro, o fundo de qualquer pensamento filosófico ser, como é, intemporal e inespacial, e, simultaneamente, reconhecermos nos autores certas posições, tonalidades, modalidades, preferências, inclinações que os distiguem como indivíduos, como cidadãos de uma pátria, como seres de uma idade; e que naturalissimamente se espelham nas suas obras. Mas por que seria – a ser doutro modo – por que seria a filosofia diferente da arte ou, até, da religião? Acaso não sentimos que, por exemplo, Tolstói e Dostoievski são universais, são intemporais, – sem, por isso, deixarem de ser russos e pertencerem ao século dezanove? Não será, no fim de contas, a arte tão universal e intemporal como a filosofia? Sobretudo em nos reportando ao pensamento de Álvaro Ribeiro, não estará a filosofia tão presa à língua e à palavra como a literatura propriamente dita? Não pertence, afinal, à própria arte literária?

Talvez o fenómeno religioso seja ainda mais delicado ou esquivo, mais difícil de abordar. E, todavia, até com a criação religiosa, produto do génio místico, se dão coisas idênticas. Porventura o cristianismo, que liga todos os seres através dos tempos e dos espaços, no natural e no sobrenatural, não nasceu da personalidade de Jesus Cristo, não se enriqueceu da colaboração doutras personalidades, não surgiu numa certa época, não reflecte cambiantes das épocas que vai atravessando? O paganismo que caracterizou certos povos, floresceu em certos tempos, – não pode renascer hoje e, sem negar a sua essência, apresentar aspectos que pertencem aos indivíduos, aos países, aos tempos? Muito natural julgo, pois, que se fale em filosofia portuguesa, como tenho por naturalíssimo falar-se na internacionalidade da filosofia.

Suponho, porém, ainda não ser isto – nacionalizar a filosofia, ou uma filosofia – o que mais irrita e assombra, o que provoca mais indignados protestos aos adversários de Álvaro Ribeiro: mas sim afirmar a existência de uma filosofia portuguesa. Perfeitamente admito que possa tal afirmação ser contraditada por indivíduos de senso e boa-fé. O caso é que dificilmente poderá caber o que chama Álvaro Ribeiro «a filosofia portuguesa» no conceito que têm esses de filosofia. Além, porém, dos que só têm por filosofia a monumentalidade, racionalidade e discursividade dos grandes sistemas filosóficos (que, nós, por enquanto, não produzimos) há os que se comprazem em negar a seus compatriotas quase toda a capacidade para quaisquer superiores formas de criação literária. Em Portugal não há senão excepcionalmente romance – os pobres dos portugueses são inaptos para a criação romanesca! Em Portugal não há teatro, – os infelizes lusitanos não se adaptam à criação teatral! Em Portugal não há filosofia, – os míseros lusíadas mostram-se incapazes de pensar sobre quaisquer intuições! Destas e outras negações, seria, precisamente, a que diz respeito à filosofia que os nossos auto-negativistas julgariam mais inabalável, Como, então, não darão pinchos com a insistente afirmação de Álvaro Ribeiro.

Todavia, poder-se-á conceber, sequer, que não tenha filosofia alguma um povo que já vive há alguns séculos, e está ao nível civilizacional dos outros povos cultos? Tão impossível como conceber que não tenha teatro, romance, ou música. Parece que esta coisa simplíssima dificilmente penetra em certas cabeças, que aliás podem nem ser das mais duras. Afinal, tudo depende do conceito que de filosofia se tenha; e também do que se exija à virtualidade filosófica impossível de recusar seja a que povo for. Há já uns anos, protestando contra os que negavam aos portugueses quaisquer possibilidades de criação de um romance de interesse universal, sugeria o autor destas linhas que se estudasse o nosso romance não só nas mais acabadas realizações do género, como nas várias, diversas obras em que pudessem revelar-se as nossas virtualidades ficcionistas próprias. Arrojo-me a pensar que, no caso da filosofia, segue Álvaro Ribeiro um caminho que não deixa de ter ligação com esse. Porque... vejamos: Não será uma das mais insólitas audácias de Álvaro Ribeiro (e das mais irritantes para os que, por um lado, se enfurecem com qualquer sua originalidade de pensamento ou criação), não será uma das mais insólitas audácias de Álvaro Ribeiro ter, de filosofia, um conceito próprio, dar, de filosofia, uma definição que, precisamente, lhe permite afirmar a existência de uma filosofia portuguesa?

Em suma: não valerá mais ler, estudar, tentar compreender os livros de Álvaro Ribeiro (além de tudo o mais, notabilíssimos de linguagem), discutí-los e criticá-los a partir desse estudo, que atirar ao ar foguetes de lágrimas, procurar facílima razão junto do vulgo, e morder no homem em vez de analisar o autor?

("A existência de filosofias nacionais e a de uma filosofia portuguesa", in Nova Renascença, 1993, Vol. XIII, pp. 151-153).