EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento).

Para o 21º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas




O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

domingo, 9 de maio de 2010

Texto que nos chegou...

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Saudade na Árvore

A Saudade, um dos temas caros do pensamento Português, desde literalmente há séculos que é passada pelo crivo de Filósofos e Poetas, no entanto, a verdadeira extensão do seu significado Cósmico apenas se começou a compreender com a brilhante geração de pensadores do início do século passado.
Como é óbvio este é dos tais temas que, devido à sua extensão, se poderá aprofundar infinitamente sem que nunca se chegue ao seu mistério nuclear, pois o desvendar seria desvendar a própria essência do Cosmos; a Saudade tem as suas raízes na própria base do Universo como coisa criada e existente, Saudade é pois sinónimo de existência.
Ainda assim há que continuamente perseguir este eterno vislumbre, sendo que esta foi a vez de fazer passar a Saudade pelo crivo Cabalista, usar este poderoso e magnifico sistema, em que tudo tem o seu lugar, para encontrar a Saudade e a sua função no complexo esquema Divino .

Comecemos então por uma afirmação simples: «Saudade é o desejo da Cousa ou Criatura amada, tornado dolorido pela ausência» . Esta é uma das definições, bastante afim de inúmeras outras, que ao longo do tempo, em muitos e longos livros, tem sido dada como uma aproximação da complexidade sentimental que na língua Portuguesa se chama “Saudade”.
Ainda que não se concorde com a citação acima na sua totalidade, poder-se-á concordar, como fundo de todo o estudo da Saudade, que esta emerge de algo em falta, algo que se sente como ausente. É o sentimento de algo perdido, quer tenha havido alguma coisa a se perder ou não.
Esta ideia de perda remete-nos rapidamente e sem muito esforço para algo que se poderá equacionar directamente com a noção de Queda judaico-cristã. Sendo que, na sua origem, o Homem estaria num estado de graça e proximidade com a divindade sua criadora (vulgo Deus – bendito seja o seu nome) e a brusca e violenta perda deste estado é o que o torna eternamente saudoso dessa completude e perfeição arcaicas, traduzida na expressão “Saudade de Deus”. Esta é a ideia claramente apresentado por Leonardo Coimbra, entre outros:

«O éden era a Pátria, donde o homem foi escorraçado como consequência da revolta da sua vontade contra a união amorosa com o Deus criador.
Tombado do Éden, como o anjo rebelde da presença de Deus, eis que o homem caminha, em exílio, por entre a matéria rebelde.
(…) mas a Saudade do Éden é o bendito óleo que faz arder ainda aquela luz originaria.
Tudo tombou na desordem como o primeiro pecado e os mundos seguiram suas orbitas de morte, nelas arrastando o homem, enquanto este ficou a sonhar o regresso, à luz da Saudade, que, por dentro, o esclarecia.»

E novamente, alguns séculos antes, sublimemente retratada por Camões nos seus “Sôbolos rios que vão”:

Não é, logo, a saudade
das terras onde nasceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa Cidade,
donde esta alma descendeu.
E aquela humana figura,
que cá me pode alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio da Fermosura,
que só se deve de amar.

A Saudade é então o eterno desassossego que sempre impeliu o homem em direcção ao futuro, um futuro esperançado com a lembrança de um passado idílico. É a raiz de todo o sentimento e pensamento religioso, como a força de regresso ao paraíso, um inverter da Queda, levando o Homem e a natureza, nas suas condições de criados, ou na sua dualidade, à sua original condição de unidade .

Ora, toda esta questão de Queda e retorno (ou desejo de retorno) tem logicamente uma tradução Cabalista. Esta remete-nos às noções da Árvore da Vida pré-Queda usualmente pouco abordadas na literatura da especialidade.
Aceitando então que na história do Cosmos existiram dois momentos (pré e pós Queda) em que a configuração e leis Universais eram completamente distintas, então é apenas lógico que estes dois momentos tenham que apresentar configurações diferentes da Árvore da Vida, como um mapa para o Cosmos, o Homem e a Divindade.
Esta Árvore pré-Queda será então a Árvore perfeita e esta perfeição traduz-se como uma Árvore harmoniosa e simétrica em todos os seus eixos. A notória diferença então entre esta Árvore perfeita e a que nos é apresentada hoje será o facto de que a décima Sefira, Malkuth, o Reino, o mundo material, não terá existência. Ao em vez disto, no Pilar do Equilíbrio, acima de Tiphareth, encontrar-se-á a Sefira Daath concreta e existente , contrariamente à existência “ilusória” com que se apresenta na disposição actual. Nesta configuração o Homem habitaria a Sefira Yesod, que seria uma reflexão exacta de Kether, sendo então o Homem neste estado uma imagem exacta de Deus – bendito seja o seu nome.
Daath é a Sefira que traduz a síntese de Chokmah e Binah, Sabedoria e Compreensão, que geram Conhecimento (Daath), este é o ponto em que toda a unidade do Conhecimento está contida . Assim o mito bíblico do arrancar e comer do fruto da Árvore do Conhecimento relaciona-se directamente com a Sefira Daath.
No momento da Queda, do arrancar do fruto do Conhecimento, a Sefira Daath como que caí do seu lugar para a posição que agora conhecemos como a de Malkuth e no seu antigo lugar abre-se o Abismo, uma fenda entre o Homem e os Mundos inferiores e os Divinos . A Queda representa então a queda do Homem e da natureza para a matéria, para o estado de criação separada do criador. Isto traduz o banimento do Homem do Jardim do Éden para o mundo do exílio, este Mundo que nos é hoje apresentado, Malkuth, e assim se gera a Árvore na sua configuração actual.
Se é então Daath o ponto central do desenrolar da tragédia divina, a marca do exílio do Homem, da sua Queda para Malkuth, a abertura do Abismo e a perda de comunhão com o Divino, é então aqui a génese do primeiro sentimento de falta no espírito do Homem, da lembrança da plenitude e da sua perda, o ponto de origem da Saudade portanto. A actual Daath (a Sefira “ilusória”) e o Abismo são a chaga cósmica da Queda, a eterna e dolorida lembrança, cuja existência emana para os mundos inferiores o sentimento de Saudade (podemos agora somar à frase de Pinharanda Gomes, «Assim, o Cristo seria o acto histórico em que melhor a saudade se manifestou como saudade no homem para Deus », a seguinte, «Qabalistically, the crucifixion of Jesus symbolizes how, through his death, he creates a bridge over the Abyss and thus re-unites God and man » e obter uma harmoniosa ideia de Cristologia).
Para mais, a definição da Saudade como “síntese de opostos”, tantas vezes assim apresentada por Pascoaes, vem corroborar esta posição. Sendo a posição do Abismo e de Daath, imediatamente anterior às três Séfiras Supernais (Binah, Chokmah e Kether), na sua travessia pelo adepto está então implícita a transcendência da dualidade, conceito desprovido de sentido nos Mundos Superiores. Assim a travessia do Abismo e o fim da noção de dualidade é o concretizar da Saudade divina, a transformação final do homem pela Saudade, a porta\chave para as três Sefiras superiores.
Ainda, sendo a Queda tida como uma das origens do conceito de “Mal” Cósmico, uma falta para com as leis divinas, é precisamente nesta chaga do Abismo e Daath, e também no seu resultado directo, Malkuth, o nadir da criação, onde se encontram as duas grandes portas por excelência para a Sitra Ahra, o outro lado da Árvore da Vida, os Reinos Qliphoticos. Daí que estando a Saudade precisamente no portão entre o lado luminoso e sombrio da Árvore (também entre as Sefiras Supernais e as inferiores, sendo o ponto onde todas as forças cósmicas se cruzam ), numa abordagem superficial, esta apresente dois aspectos tão distintos como a já referida tendência para o Futuro, para a Divindade, e o também conhecido e muitas vezes popularizado passadismo, inércia e decadência de uma Saudade “mal sentida”. Citando Pascoaes: «A saudade, no mais alto sentido, significa a divina tendência do português para Deus; na sua expressão decadente, patológica, representa a tendência do português para o fantasma…» . Estes são os dois aspectos da Saudade, como sentimento entreposto entre a Luz e as Trevas, Deus – bendito seja o seu nome – e o “fantasma”, a Árvore Sefirotica e a Árvore Qliphotica.

No entanto, esta interpretação da Saudade como aqui apresentada, embora lógica, poderá não corresponder a uma verdade completa. Embora no estado actual do Cosmos, “caído”, o sentimento de Saudade divina possa ser associado directamente às chagas da Queda, não se poderá excluir a hipótese de que já no Cosmos pré-Queda existisse algo que já se pudesse designar de Saudade. Ainda que na pré-Queda a criação gozasse de uma proximidade e semelhança ao divino, esta já estava criada. Significando isto que, por mais perfeita que fosse a existência, haveria já um distanciamento do original e uno divino, Kether, ou mesmo de Ain Soph. Tal é apenas um corolário da existência de uma Árvore com dez Sefiras.
Ainda que se possa supor que, no seu estado édenico, não tendo colhido da Árvore do Conhecimento (Daath), o Homem não possuísse a fome ou insistente desejo de Futuro (Saudade), especulações como a da seita dos Shabatianistas acerca da fonte do Mal podem dar azo a pensamentos contrários. Nos escritos de Nathan de Gaza sugere-se que em Ain Soph, antes do inicio da criação, existiria uma dualidade de uma luz pensante e uma luz não pensante, tendo a primeira o desejo de criação e a segunda o desejo de permanecer emersa em si mesma . Esta ideia poderá então sugerir que o Divino, ou parte do Divino, tem Saudade da sua própria unidade; unidade que foi quebrada com o primeiro instante da criação. No entanto a lógica desta especulação é, numa nota pessoal, um desafio, mas fica aqui assente a hipótese. Neste momento particular do Tempo, tais especulações nunca poderão ser mais que isso, e com tal completamente impossíveis de fundamentar. Seria necessário reverter a Queda para se verificar se no coração de Homem, ou de algo que ainda sentisse, algum sentimento Saudoso restaria.

Por fim, e estabelecendo definitivamente a Saudade como residente em Daath, várias mais implicações tomam lugar. Como já múltiplas vezes referido, a Saudade é o impulso do homem para o Divino, a “tendência para Deus”, mas isto de facto é apenas metade da verdade. Retomando as considerações de Pinharanda Gomes em torno da Saudade, encontramos desenvolvida com bastante insistência a ideia da Saudade como sentimento da singularidade . Isto faz de facto sentido na nossa perspectiva. O primeiro passo para uma transcendência do próprio é o sentimento, a noção, de singularidade e individualidade. Isto poderá parecer contraditório, mas este é o primeiro aspecto a ser desenvolvido e cultivado para a ascensão através dos mundos e das várias Séfiras, para, aquando da travessia do Abismo, ser descartado e sacrificado, marcando o fim da dualidade entre o Eu e o Outro (todo o Outro, toda a criação no fundo), o processo em que o adepto sacrifica o seu sentido de identidade terrena .
No entanto, se agora trouxermos para o campo das nossas ideias os caminhos do Diabolismo, damos de caras com algo da maior relevância. Até agora apenas considerámos a Saudade no contexto de caminhos que procuram um reverter da Queda e uma restauração da unidade original com o Divino, caminhos que apontam para o subir da Árvore em direcção à Luz. No outro lado do espectro temos os caminhos que buscam uma concretização final e aprofundamento da Queda, o caminho em direcção oposta ao Divino criador, na busca da auto-deificação. Nestes caminhos o adepto segue as forças da Sitra Ahra, uma descida na Árvore Qliphotica (isto não de facto uma obrigatoriedade, mas simplifique-se a questão para fins de argumentação), como tal, a questão da singularidade e identidade ganham uma relevância obsessiva da maior importância para o adepto, e esta fome de singularidade é ela também um processo Saudoso.
Voltando a Pinharanda Gomes, o seu desenvolvimento em torno da questão do “Emparedado Vivo” ganha aqui uma grande relevância, valendo a pena a sua leitura semi-integral:

«(…) Quando, sob a pressão da ditadura democrática mais antiga e mais moderna, ou dos totalitarismo aristocráticos e monocráticos, alguém resolvia professar como Emparedado Vivo, isso significa que esse alguém chegava a saber que a liberdade egotista corria o risco de sucumbir perante a violência do poder da alteridade. A decisão de emparedamento é uma forma de guardar a virgindade da saudade perante a presença inquisitorial da alteridade. A extrema quietude surge como o ultimo reduto em que a singularidade do mesmo se protege da diversidade do outro sublimando-se, ou degradando-se, consoante a reflexão proposta, ou na esperança salvítica, ou na morte. No entanto a razão critica do eu enquanto ele mesmo, só se revela em plenitude na liberdade autorizada, ou na autoridade liberativa, e as exigências que de fora lhe são propostas, ou impostas, afirmam-se como tentativas de assassinato – de onde a saudade, ou suidade, ao reflectir a quietude, não ter outro caminho que não seja o do extremo individualismo e, pois, o da cisão definitiva e universal relativamente a quanto surja como limitativo da sua mais funda verídica onticidade.»

Ora, se em vez dos exemplos dados por Pinharanda Gomes, transportarmos esta ideia para o reino do espiritual, e considerarmos um adepto, alguém com “fome de Deus”, que perante o próprio Divino sinta repulsa, desejando, por medo ou convicção, conservar a sua individualidade até a situação extrema, a Saudade que sente, a sua “fome da Deus”, guardando-se ao extremo (do próprio Deus – bendito seja o seu nome) toma o sentido oposto, para o «extremo individualismo e, pois, o da cisão definitiva e universal relativamente a quanto surja como limitativo da sua mais funda verídica onticidade», acabando por glorificar a rebeldia demoníaca como salvítica. Isto poderá chegar ao limite extremo, como o descrito pelo autor anónimo do Liber Niger Legionis, em que o diabolista, estendendo a sua mão esquerda ao Diabo, recebe deste a sua mão direita, levando-o a um aprofundamento do mistério do Outro, que dirige o Ser para o seu interior em devoção isolacional, um êxtase de separação do amado Divino, reflectindo o próprio auto-isolamento de Satanás, a eterna oposição. Isto gera um desejo maior que qualquer realização, a imortal dissatisfação da negação absoluta . Portanto, um aprofundar infinito da Saudade, ao invés da sua concretização.
Assim, temos que a Saudade é a fonte da busca tanto dos caminhos da Luz como das Trevas (palavra um pouco estigmatizada, pense-se antes em Luz Negra), mais uma vez sublinhando a razão da sua presença em Daath e no Abismo. Saudade, então, pode não ser de Deus, será mais correcto dizer, em vez de “Saudade de Deus”, “Saudade de Divindade”.

A compreensão destas ideias, e um estudo adequado da Árvore da Vida, revelará ao leitor interessado uma miríade de articulações e ramificações que sem dúvida o auxiliarão na compreensão de si próprio e desta nossa cultura.

José Leitão