EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018) - temas e autores: Mais um Abraço a José Rodrigues; Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre e Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento).

- 22º número (2º semestre de 2018): em destaque – V Congresso da Cidadania Lusófona; Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Francisco do Holanda (nos 500 anos do seu nascimento).

- 23º número (1º semestre de 2019): tema de abertura – A Lusofonia, avanços e recuos (10 anos após a criação do MIL: Movimento Internacional Lusófono).

Para o 23º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 21

Capa da NOVA ÁGUIA 21

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 21

Iniciamos este número por dar mais um Abraço a José Rodrigues, publicando mais uma série de textos (mais de uma dúzia) que nos chegaram, conjuntamente com algumas ilustrações e poemas, nomeadamente de Fernando Guimarães.

A secção seguinte é dedicada a Fidelino de Figueiredo. Em 2017 assinalaram-se os 50 anos de seu falecimento e o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira promoveu um Colóquio sobre a sua Obra. Alguns dos textos então apresentados são aqui publicados, associando-se assim a NOVA ÁGUIA a esta Homenagem a uma grande figura da cultura lusófona, tais as pontes que criou: entre Portugal e o Brasil, entre Filosofia, História e Literatura.

De seguida, na esteira do número anterior, em que assinalámos os 150 anos do nascimento de Raul Brandão, publicamos mais alguns textos sobre o autor de Húmus, bem como sobre António Nobre, nascido no mesmo ano de 1867. Em “Outras Evo(o)cações”, estendemos o nosso olhar a uma extensa série de outras figuras relevantes da cultura lusófona: de Afonso Botelho e Agostinho da Silva a Vergílio Ferreira e Vicente Ferreira da Silva.

Em “Outros Voos”, como igualmente é já um clássico, abordamos as mais diversas temáticas, a começar, guiados por Adriano Moreira, pela questão do “sagrado”, tema do II Festival Literário TABULA RASA, que decorreu em Novembro de 2017, co-organizado pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono e pela NOVA ÁGUIA. Em “Extravoo”, publicamos, uma vez mais, alguns inéditos: nomeadamente, de Agostinho da Silva e José Enes. Nesta secção, publicamos ainda um inédito de Dalila Pereira da Costa, uma das figuras em destaque no próximo número, por ocasião dos 100 anos do seu nascimento.

Fazendo ainda referência a essas três outras secções já clássicas – “Bibliáguio”, Poemáguio” e “Memoriáguio” –, salientamos enfim os autores em destaque no próximo número: para além de Dalila Pereira da Costa, iremos igualmente evocar Francisco de Holanda, publicando uma série de textos apresentados num Colóquio que decorreu em Dezembro de 2017, por ocasião dos 500 anos do seu nascimento, uma vez mais por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-brasileira.

De igual modo, publicaremos no próximo número da NOVA ÁGUIA os textos apresentados no V Congresso da Cidadania Lusófona, coordenado pelo MIL, que decorreu em Novembro de 2017 e que, uma vez mais, juntou representantes de Associações da Sociedade Civil de todos os países e regiões do amplo e plural espaço de língua portuguesa. Número após número, a NOVA ÁGUIA vai, pois, cimentando pontes: entre a cultura portuguesa e as demais culturas lusófonas (antecipamos, a esse respeito, a publicação, no próximo número, de mais um fundamental ensaio de António Braz Teixeira, sobre a “expressão e sentido da saudade na poesia angolana e moçambicana”).

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Sciptum: Dedicamos este número a Pinharanda Gomes, que, depois de ter recebido o “Prémio Vida e Obra” do II Festival Literário TABULA RASA, foi homenageado pela Universidade Portuguesa, que, curvando-se igualmente (e finalmente) perante a sua monumental Vida e Obra, lhe atribuiu, em Março deste ano, o mais do que justo “Doutoramento Honoris Causa”.


NOVA ÁGUIA Nº 21: ÍNDICE


Editorial…5
MAIS UM ABRAÇO A JOSÉ RODRIGUES
Textos e Testemunhos de Ana Isabel Ornellas (p. 8), António Reis (p. 8), Arnaldo de Pinho (p. 9), Duarte de Cifantes e Leão (p. 10), Helena Mendes Pereira (p. 12), Hélder Pacheco (p. 14), Jorge Pinto (p. 17), Júlio Gago (p. 18), Luís Portela (p. 19), Maria João Fernandes (p. 20), Manuel de Novaes Cabral (p. 22), Manuela de Abreu e Lima (p. 23) e Paulo Telles de Lemos (p. 24).
Ilustrações de Lauren Maganete (p. 6), João Nunes (p. 6), Paulo Gaspar Ferreira (p. 6) e José Rodrigues (pp. 16, 17 e 21).
FIDELINO DE FIGUEIREDO, 50 ANOS DEPOIS
CONTRIBUIÇÃO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO PARA A HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA PORTUGUESA António Braz Teixeira…26
BREVES CONSIDERAÇÕES ACERCA DE UMA ONTO-PO(I)ÉTICA EM FIDELINO DE FIGUEIREDO Joaquim Pinto…29
FILOSOFIA E MITO: EUDORO DE SOUSA, LEITOR DE FIDELINO FIGUEIREDO Luís Lóia…33
FIDELINO DE FIGUEIREDO: O TRAÇO ESSENCIAL DO SEU HUMANISMO Manuel Ferreira Patrício...38
PERTINÊNCIAS DO PENSAMENTO FILOSÓFICO DE FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…39
NOS 150 ANOS DO NASCIMENTO DE ANTÓNIO NOBRE E RAUL BRANDÃO
NO5 150 ANOS DO NASCIMENTO DE ANTÓNIO NOBRE José Lança-Coelho…46
ANTÓNIO NOBRE: PEREGRINAÇÕES DE UM POETA SÓ António José Queiroz…48
EFEITOS DE LEÇA DA PALMEIRA: “A DELICIOSA HIPNOTIZADORA” NO POETA ANTÓNIO NOBRE J. Alberto de Oliveira…55
ANTÓNIO NOBRE: TEMÁTICA E VERSO NA SUA OBRA ‒ MITO E REALIDADE Júlio Amorim de Carvalho…63
O OUVIR E O ESCUTAR DE RAUL BRANDÃO, OU HÚMUS ENQUANTO MÚSICA Edward Ayres de Abreu…70
EL-REI JUNOT DE RAUL BRANDÃO: UMA NARRATIVA SOBRE O SENTIDO NA HISTÓRIA Mendo Castro Henriques…80
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES
AFONSO BOTELHO Abel de Lacerda Botelho…90
AGOSTINHO DA SILVA E MARIA CECÍLIA CORREIA Eleonor Castilho…91
BOCAGE (VISTO POR AGOSTINHO DA SILVA) Pedro Martins…97
CAMILO CASTELO BRANCO Pinharanda Gomes…103
CARLOS MALHEIROS DIAS João Bigotte Chorão…108
COUTO VIANA E JOSÉ VALLE DE FIGUEIREDO José Almeida…110
JOAQUIM MARIA DA SILVA Samuel Dimas…116
MIRANDA BARBOSA António Braz Teixeira…122
NUNO BRAGANÇA La Salette Loureiro...128
ORTEGA Edson Ferreira da Costa…135
PADRE CHICO MONTEIRO Valentino Viegas…139
PESSOA (VISTO POR ALMADA) Luís de Barreiros Tavares... 140
SILVA DIAS José Esteves Pereira…145
VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…151
VICENTE FERREIRA DA SILVA Constança Marcondes César…154
OUTROS VOOS
O SAGRADO NA VIDA DE CADA UM DE NÓS Adriano Moreira…158
A CULTURA DIVERSA DA CPLP NA “MARCHA HARMÔNICA” DO MERCADO GLOBAL André Ramos Tavares…162
O LUGAR DA FILOSOFIA NOS CURRÍCULOS DO ENSINO SECUNDÁRIO EM PORTUGAL Artur Manso…169
A PROPÓSITO DE GNOSE, GNÓSTICOS E GNOSTICISMO Diogo Alcoforado…175
OS AÇORES E A LUSOFONIA Eduardo B. Coelho…190
AS LÍNGUAS COMO FACILITADORAS DO DIÁLOGO CULTURAL Evanildo Bechara…192
O QUE NUNCA SE DIZ AO PAPA Manuel Curado…195
OS MITOS DO PRIMEIRO MODERNISMO Paula Oleiro…200
SOBRE A NATUREZA RELIGIOSA DA POLÍTICA MODERNA Pedro Velez…207
FILOSOFIA FILOSOFANTE EM PORTUGAL Pedro Vistas…210
AUTOBIOGRAFIA 4 Samuel Dimas…224
MANIFESTO HOLISTA Tiago de Vasconcelos e Moita e Edmundo Luís Ribeiro da Silva…233
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO), DE AGOSTINHO DA SILVA…236
TRÊS CARTAS DE AGOSTINHO DA SILVA A AARÃO LACERDA…239
TEXTO DE JOSÉ ENES sobre JOSEPH MOREAU & CARTA DE JOSEPH MOREAU A JOSÉ ENES…241
POSFÁCIO DE DALILA PEREIRA DA COSTA AOS SEUS “DISPERSOS”…243
BIBLIÁGUIO
OBRAS PUBLICADAS EM 2017 Renato Epifânio…246
A “ESCOLA DE SÃO PAULO” Luís Lóia…247
OLHARES LUSO-BRASILEIROS Jorge Teixeira da Cunha…250
O CROCODILO & FULGORES DE FÁTIMA José Almeida…251
FILOSOFIA COM CORAÇÃO Samuel Dimas…253
PRISCILIANO, UM CRISTÃO LIVRE Maria Dovigo…258
AI DOS VENCEDORES! Mário Matos e Lemos…260
UMA VIDA QUALQUER José Luís Brandão da Luz…262
DEMÓNIOS POR SEFARAD Lídia Machado dos Santos…266
AGULHAS DE ÁGUA Maria Luísa de Castro Soares…267
ARDOROSA SÚMULA António José Borges…269
MITOS GREGOS Inês Miranda…272
POEMÁGUIO
DESENHO Fernando Guimarães…7
MESTRE Avelina Vieira…7
AS MÃOS DE VAN GOGH Adília César…44
AS PONTES; VIAGEM António José Queiroz…45
TRÊS POEMAS A ANTÓNIO NOBRE Manoel Tavares Rodrigues-Leal…89
NA VIDA REAL; NA REAL VIDA António José Borges…156-157
CARTA PARA O-YONÉ Jesus Carlos…234
TEIA POÉTICA Maria Luísa Francisco…234
VAZADA NA RUA José Luís Hopffer C. Almada…235
PEDRO SEM INÊS Ana Luísa Queiroz…245
TEMPO CINZENTO Susana Roque Bravo…245
MEMORIÁGUIO…274
MAPIÁGUIO…275
ASSINATURAS…275
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…278


Apresentação da NOVA ÁGUIA 21

Apresentação da NOVA ÁGUIA 21
28 de Março: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA:

https://zefiro.pt/as-nossas-coleccoes-zefiro-revista-nova-aguia-assinaturas


O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O MOVIMENTO FENOMENOLÓGICO BRASILEIRO

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Antonio Paim
(Instituto de Humanidades)

1 – Principais ciclos da aproximação à fenomenologia

Na visão de Alexandre Morujão, para a disseminação da fenomenologia de Husserl muito contribuiu a perseguição que lhe moveu o nazismo, acarretando, entre outras coisas, a espetacular recuperação de sua obra para a organização dos Arquivos de Husserl, na Universidade de Louvain. A simples atividade editorial desenvolvida entre o início do pós-guerra e fins da década passada – quando se publicaram 25 volumes da chama Husserliana – serviu para constituir um ativo grupo de pesquisadores, que alcançaram grande nomeada em todo o mundo pelo significado de seus estudos. Nos Estados Unidos, em torno da revista Philosophy and Phenomenological Research mantém-se vivo o interesse pelo desenvolvimento das idéias de Husserl. Assinale-se também a repercussão do livro de Georges Gurvitch (1894-1965) Les tendances actuelles de la philosophie allemande, Paris, 1930.
Tenha-se presente que os textos básicos da Escola de Marburgo, de onde provém toda a meditação subseqüente, inclusive a fenomenologia e o existencialismo, não foram sequer traduzidos. Em decorrência disto, o conhecimento da obra de Hermen Cohen foi muito prejudicado. No tocante à fenomenologia ocorreria precisamente o contrário. No bojo da difusão do pensamento de Husserl, desperta-se o interesse pela obra de Heidegger e principais representantes do existencialismo, do mesmo modo que pelos autores vinculados ao culturalismo.
No caso do Brasil e presumivelmente de Portugal, verifica-se um primeiro ciclo do que se poderia denominar de difusão das idéias da fenomenologia, seguindo-se o que se convencionou chamar de “Diálogo com Husserl”. Procedo adiante à base caracterização de ambos os ciclos.

2 – O ciclo inicial de difusão

O conhecimento da obra de Husserl data, no Brasil, dos anos trinta. Contudo, acha-se restrito a pequeno número de estudiosos. Difusão mais ampla só terá lugar no pós-guerra. Nos círculos ligados à inquirição filosófico jurídica, tal ocorre sobretudo em decorrência da publicação da Filosofia do Direito, de Miguel Reale, cuja primeira edição é de 1953 – logo reeditada em 1957 –, que contém a caracterização do método fenomenológico (“Análise fenomenológica da realidade jurídica” e “Da redução fenomenológica à reflexão histórico-axiológica”).
A esse propósito, vale referir aqui a tese elaborada, em 1958, pelo professor cearense Moacir Teixeira de Aguiar (nascido em 1918), intitulada Fenomenologia e Culturalismo Jurídico, com que pretendia obter o título de Livre Docente. Acontece que o concurso não teve lugar e o prof. Moacir Aguiar não divulgou, posteriormente, produção intelectual digna de nota. Como parte das homenagens na ocasião do seu jubilamento, a Revista da Faculdade de Direito do Ceará publicou essa tese inédita (número correspondente ao primeiro semestre de 1988), que, por essa circunstância tornou-se um documento importante na avaliação dos níveis de difusão da obra de Husserl e as fontes conhecidas, nos fins da década de cinqüenta. A fenomenologia é entendida como “uma filosofia do conhecimento”. “... representa o espírito da filosofia contemporânea, sequiosa de uma terceira posição ideológica, eqüidistante, do mesmo modo, do relativismo positivista e do “absolutismo” metafísico...” Estão mencionadas três obras de Husserl: Investigaciones logicas, tradução espanhola de 1929; Idées directrices por une Phenomenologie, tradução de Paul Ricoeur, Galimard, 1950 e La philosophie comme science rigoreuse, tradução de Quentin Lauer, Paris, PUF, 1955. A tese não o explicita, mas a tradução espanhola deveu-se à iniciativa da Revista do Ocidente, sendo da autoria de Manuel Garcia Morente e José Gaos, tendo merecido uma segunda edição, em 1967. Apareceu também uma edição resumida, da mesma tradução, efetivada por Fernando Vela (Revista de Ocidente, 1945).
Naquela oportunidade, Moacir Aguiar faz referência à obra de Francisco Romero (1891-1962) – Filosofia contemporânea; Estudios e notas. Buenos Aires, Primeira série, 1941; 2ª ed., 1944; 3ª ed., 1953 – e de Joaquim Xirau (1895-1946) – La filosofia de Husserl: una introducción a la fenomenologia. México, 1941.
Outro indicador do processo que se deseja aqui caracterizar é a atuação didática de Evaldo Pauli (nascido em 1925). Professor titular de filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina, criou, ainda na década de cinqüenta, em Florianópolis, a Biblioteca Superior de Cultura, instituição que mantém uma biblioteca e na qual ministra cursos. Nestes é que buscou familiarizar seus alunos com a fenomenologia de Husserl. Diversos desses cursos foram publicados em livros, entre estes Que é pensar? Teoria fundamental do conhecimento (Florianópolis, 1964) e Primeiras luzes do pensamento (Florianópolis, 1965). A publicação preservou a forma original em que foram ministrados esses cursos, inexistindo citações, referências bibliográficas precisas etc. Assim, refere Brentano (Psicologia sob o ponto de vista empírico, 1874) e Edmundo Husserl (Investigações lógicas, 1900 e Meditações cartesianas, 1931) mas não menciona edição, se original ou tradução. Assinale-se que sendo de formação tomista, situa a fenomenologia numa certa linha de continuidade aristotélica. Acha que há em Aristóteles “intencionalismo notório” embora não explicitado, do mesmo modo que em São Tomás ou nos neotomistas. Escreve, por exemplo: “O intencionalismo, alma do sistema gnoseológico, aristotélico, se desenvolve ainda nos meios da escolástica renovada, especialmente com Maritain (Os graus do saber, 1932). Ali Brentano, de formação centro-européia e dominicana, conhecia a velha doutrina e nela se inspirava diretamente”. (Que é pensar?, ed. cit., p. 102).
Outra personalidade que tem seu nome associado a essa fase inicial de difusão da obra de Husserl no Brasil é Luís Washington Vita (1921-1968). Como Secretário Geral do Instituto Brasileiro de Filosofia, editor da Revista Brasileira de Filosofia e professor universitário, Vita desenvolveu uma grande atividade no que se refere à difusão da filosofia contemporânea, notadamente através de cursos e conferências. Mais duradoura seria a ação, no mesmo sentido, efetivada através de livros. No caso particular de Edmund Husserl, tratou especificamente de sua obra, com o propósito deliberado de torná-la conhecida e não de manifestar seu posicionamento diante da fenomenologia, nestes livros: Introdução à filosofia (1ª ed., 1964; 2ª ed., 1965); Pequena história da filosofia (1968) e Momentos decisivos do pensamento filosófico (1964). Este último adquire maior relevância desde que insere uma antologia de textos do próprio Husserl, em que aborda os seguintes tópicos: “A filosofia como ciência de rigor”; “O método fenomenológico” e “Noesis e noema”. No caso do primeiro texto, vale-se da tradução de Albin Beau, aparecida em Portugal (Coimbra, Atlântida, 1952), sendo de sua autoria as traduções subseqüentes.
Na introdução a essa antologia, além de uma breve biografia e da trajetória intelectual de Husserl, Vita adota a esquematização proposta por Eugene Fink, ao dividir o desenvolvimento de sua meditação em três etapas, representadas respectivamente por Investigações Lógicas, Idéias e pela Lógica formal e transcendental. Mas acrescenta: “Uma exposição adequada do pensamento filosófico de Husserl não é ainda possível, porquanto para isso será preciso que apareçam os escritos completos do filósofo, atualmente em curso de publicação”.
Entre as obras de referência, além do já citado Joaquim Xirau, inclui Gurvitch, Antonio Caso (La filosofia de Husserl, 1934); Carlos Andrada (Idealismo fenomenologico y metafísica existencial, 1936, Sofia Vanni Rovighi (La filosofia di E. Husserl, 1939); Quentin Lauer e Marvin Farber. Aparece, ao que se supõe pela primeira vez, referência a autor português o prefácio de Joaquim de Carvalho à antes mencionada edição de A filosofia como ciência de rigor (1952).
Nos anos cinqüenta, nos principais cursos de filosofia, era freqüente a consideração do pensamento de Husserl entre as correntes de Filosofia Contemporânea, se bem que sem maior aprofundamento e sem estudo direto de suas obras. A principal referência então em voga era Quentin Lauer (Phénoménologie de Husserl. Essais sur la genése de l’intentionalité. Paris, PUF, 1955).
De Husserl, no Brasil, além do que consta da Antologia preparada por Vita, publicou-se unicamente a Sexta investigação das Investigações Lógicas. O texto em apreço figura na Coleção “Os Pensadores”, da Abril Cultural, cuja primeira edição é de 1975, coleção que vem sendo reeditada sucessivamente,

3 – O diálogo com Husserl

a) Conceituação de diálogo
O que temos em vista, ao falar de “diálogo” com Husserl, é o fato de quealguns pensadores brasileiros tenham se aproximado da fenomenologia para confronta-la ao seu próprio pensamento e, então, recusar ou aceitar essa ou aquela tese e, na última circunstância, avançar dela uma interpretação autônoma. Assim, a noção de intencionalidade teve aceitação a bem dizer universal. Ainda assim, divergem substancialmente as formas como vem a ser conceituada.
Para o fim proposto, foram selecionados aqueles autores cuja posição na contemporânea meditação brasileira é deveras expressiva, além naturalmente do fato de que se hajam proposto encetar o que denominamos de “diálogo com Husserl”.

b) Miguel Reale

Ainda que Miguel Reale tenha procurado, em sua Filosofia do Direito, com propósitos eminentemente didáticos, destacar o valor das descrições fenomenológicas para o estudo da realidade jurídica, não se furtou a correlacioná-la à reflexão históricoaxiológica, na mesma obra e no tópico subseqüente, o que não deixa de ser empenho em inseri-la numa tessitura mais ampla. De todos os modos, a discussão efetiva que empreende com a fenomenologia de Husserl tem lugar no texto “Ontognoseologia, fenomenologia e reflexão crítico-histórica”, aparecido na Revista Brasileira de Filosofia(16 (62), abril/junho, 1966). Esse texto, reformulado e ampliado constitui o Capítulo V– Da Fenomenologia à Ontognoseologia de Experiência e Cultura (São Paulo,Grijalbo/EDUSP, 1977), que tomaremos por base para caracterizar o que estamoschamando de “diálogo com Husserl”.
Com o propósito de aprofundar o conceito de Ontognoseologia, MiguelReale aceita de Husserl as noções de consciência intencional e de Lebenswelt. Na sua visão, a intencionalidade da consciência deve ser interpretada como uma correlação entre sujeito e objeto, superadora do formalismo kantiano. Essa correlação corresponde a uma exigência de concreção e dialeticidade, embora esse último aspecto não esteja em Husserl. Assim, escreve: “Como tenho exposto em diversas oportunidades, se partirmos do conceito husserliano de “intencionalidade da consciência”, ou seja, de que conhecer é sempre conhecer algo, passa a ser focalizado sob nova luz a tão reiterada afirmação da heterogeneidade de sujeito e objeto, a qual, não raro, oculta ou pressupõe um dualismo abstrato entre natureza e espírito, como se fossem duas instâncias em si conclusas – quando, efetivamente, o que há, no plano do conhecimento, é uma correlação transcendental subjetivo-objetiva, ou ontognoseológica, que não permite se reduza anatureza ao espírito e vice-versa, nem a sua compreensão dual abstrata, visto como algo haverá sempre a ser convertido em objeto, alguma coisa haverá sempre além daquilo que já recebeu significado noemático; e, ao mesmo tempo, não se exaure, em qualquer doação de significado, ou seja, em qualquer experiência particular, a síntese noética constitutiva de todas as possíveis formas de experiência, ou, como diz Husserl da “praxis” da vida como da praxis teórica do conhecimento”.
Dessa colocação do problema resulta, a meu ver, em que pese a dominante dialeticidade da filosofia husserliana, o caráter dialético do conhecimento, que é sempre de natureza relacional concreta ou subjetivo-objetiva, sempre aberto a novas possibilidades de síntese, sem que esta jamais se conclua, em virtude da essencial irredutibilidade dos dois termos relacionados ou relacionáveis; cumprindo notar, desde logo, que a relação do conhecimento, a essa luz, não é puramente formal, como a que prevalece no transcendentalismo kantiano, estereotipado, de certo modo, nos seus esquemas categorias a priori e definitivos, incompatíveis com o ineditismo inerente ao poder originário e constitutivo do eu, tão genialmente intuído pelo próprio Kant em sua teoria da “apercepção transcendental”. (obra cit., p. 108/109).
Embora o próprio Husserl não se haja desprendido dos pressupostos do idealismo transcendental, facultou os elementos para superar o idealismo através do próprio idealismo.
Quanto à Lebenswelt, permite enraizar o conhecimento no plano précategorial, evidenciando como é correta a crítica de Husserl quanto ao artificialismo, presente à Filosofia Moderna, da separação entre doxa e episteme. Deste modo, pari passu com a polaridade sujeito-objeto, ocorre a polaridade do eu com a Lebenswelt.
Esclarece: “Com a expressão “todo pólo de objetos” alude Husserl ao mundo intuitivo e familiar da vida quotidiana, à experiência comum, a todo complexo de coisas, situações e atos originários, da mais diversa e contrastante natureza, os quais não podem ser considerados “objetos” exatamente por serem anteriores à ciência ou a todo conhecimento formulado expressamente em juízos predicativos: é o mundo natural da vida ou do viver comum (Lebenswelt) como experiência pré-categorial ou antepredicativa; o mundo pré-científico do meramente dado, ou o “reino de evidências originárias como pólo de objetos infinitamente possíveis”, ou, por outras palavras, a experiência originária e fundante, como “estrutura fundamental de toda experiência em sentido concreto”.
Esse mundo em que vivemos, que nos envolve e nos acolhe, e que não pode ser posto em dúvida, impõe-se-nos por si mesmo, inclusive como doxa, ou conhecimento não articulado segundo formas e categorias. É ele anterior a toda atividade predicativa, como pressuposto de todo ato de julgar. “A teoria da experiência antepredicativa, afirma Husserl, ou melhor, aquela experiência que fornece os substratos mais originários na evidência objetiva, constitui a parte em si da teoria fenomenológica do juízo”, de tal modo que o fenomenológico deverá se propor a pesquisa da historicidade já depositada no mundo que nos é dado, e que já vem carregado de significados, para penetrar até às origens do originário mundo vital da opinião comum, ou doxa, ainda objetivada nas formas e estruturas da episteme”. (p. 115/116).
Reale retém ainda a noção de “a priori material”, segundo a qual haveria algo de significado universal inerente às coisas mesmas. Na discussão dos aludidos conceitos husserlianos Reale não pretende simplesmente aceitá-los como tais mas inseri-los numa concepção renovada de dialética (dialética de complementariedade) e no que denomina de historicismo axiológico.

c) Leonardo Van Acker

Belga de nascimento (1896-1986), veio para o Brasil muito jovem, aos 26 anos de idade, em 1922, para ensinar filosofia na Faculdade de São Bento, criada em 1908, que estava vinculada hierarquicamente à Universidade de Louvain, onde Van Acker concluiu o doutorado. Integrou aquela instituição mesmo depois que foi absorvida pela PUC de São Paulo, aposentando-se em 1969. Continuou entretanto em grande atividade, no Instituto Brasileiro de Filosofia, até às vésperas de sua morte, em 1986, com a avançada idade de 90 anos.
Fiel à formação recebida em Louvain, sempre professou e praticou um tomismo aberto à ciência e à filosofia contemporâneas. Neste espírito, dialogou com as suas principais vertentes, consagrando no Brasil o entendimento do tomismo como uma perspectiva filosófica e não como um corpo rígido de doutrinas a que se devem enquadrar os problemas teóricos emergentes. Assim, sua aproximação à fenomenologia pretende ser eminentemente compreensiva. O texto básico em que a efetiva consiste no curso que ministrou, em formas de conferências, em 1946, publicado pela Convívio em 1981 (Vol. 1 da Biblioteca do Pensamento Brasileiro). Esse mesmo ponto de vista expressou-o em sua habitual colaboração à Revista Brasileira de Filosofia.
No curso de 1946, resume da seguinte forma o projeto husserliano: “Pelo sobredito, o conhecimento fenomenológico puro deve obedecer a quatro condições fundamentais e progressivas: 1) Deve ter um objeto existindo intencionalmente num ato cognitivo; 2) o objeto deve ser um “fenômeno” evidente, dado numa consciência intuitiva; 3) o fenômeno deve ser uma essência geral ou universal, mas concreta, presente numa vivência intuitiva e eidética, graças à redução eidética; 4) a essência deve ser pura ou transcendental, correlativa a uma experiência pura ou absolutamente certa, graças à redução transcendental.
Podemos vislumbrar agora o que seja a fenomenologia pura (Reine Phanomenologie) na conceituação de Husserl. Não é uma ciência de fatos (Tatsachenwissenschaft), mas sim de essências (Wesenswissenschaft). Nem se trata de essências de realidades contingentes, senão de essências puras ou transcendentais. Em outras palavras, objeto da fenomenologia pura são, sem dúvida, os fenômenos. Não, porém, os fenômenos reais, como os empíricos das ciências experimentais ou os eidéticos das matemáticas aplicadas, mas sim os fenômenos eidéticos puros ou transcendentais reduzidos. A fenomenologia é uma disciplina descritiva, devassando, pela pura intuição, o campo da consciência transcendental pura. Sua norma é: nada afirmar a não ser aquilo cuja essência podemos tornar evidente na pura imanência da consciência transcendental. Ela é a ciência filosófica fundamental ou última, abrangendo, na absoluta universalidade eidética, todas as ciências e todos os conhecimentos, em tudo o que neles é evidente, ou pelo menos deveria sê-lo, se fossem conhecimentos no sentido absolutamente legítimo da palavra. (Ideen, p. 118).
“Como se vê, a fenomenologia de Husserl tende a transcender ou ultrapassar as condições empíricas e contingências humanas para alcançar um conhecimento absolutamente a priori, certo e verdadeiro, que, segundo o cristão, só se encontra propriamente em Deus, verdade absoluta. Para melhor compreendermos uma tentativa aparentemente tão estranha, convém examiná-la na perspectiva histórica”. (obra cit., p. 103).
Considerada na perspectiva histórica, a fenomenologia explica-se como uma reação às principais tendências modernas (o subjetivismo; o empirismo positivista e o “apriorismo” kantiano e neokantiano). Em sua demarche superadora dessas tendências, Husserl chegou a evidentes exageros. Assim, escreve: “A sua oposição implacável ao empirismo psicologista levou-o do cancelamento metódico à pura negação da realidade contingente e extramental, para só admitir a existência da consciência pura ou transcendental. A sua insistência no a priori científico chegou a tais extremos de radicalismo que o a priori foi proclamado a única realidade existente. De uma crítica antiempirista das ciências, a fenomenologia tornouse uma metafísica do idealismo absoluto.
Nesta curiosa experiência filosófica averiguamos mais uma vez que não só a metafísica – como diz Marcel De Corte – mas também a matemática traz em si uma espécie de aspiração a constituir-se em ciência perfeita e absoluta; um orgulho congenital e implacável de se colocar no lugar de Deus, para daí lançar um olhar divino sobre o mundo! (cf. Revue Néo-Scolastique de Philosophie, Louvain, novembro de 1935, p. 498). (p. 113)
Esse radicalismo foi contudo amenizado por Scheller o que lhe permite dizer que ao reivindicar os direitos da ciência das essências necessárias ou a priori, a fenomenologia consagra a volta “à concepção tradicional da filosofia como ciência de todas as coisas e dos seus princípios essenciais ou primeiros”.

d) Creusa Capalbo

Creusa Capalbo (nascida em 1934), da nova geração de filósofos brasileiros que concluíram sua formação, nos anos sessenta, em Louvain, encampou, e deu desenvolvimento filosófico, à tese muito divulgada entre psicólogos e psiquiatras, de que a fenomenologia consistiria basicamente num método capaz de encontrar fundamentos para aquelas disciplinas científicas.
Ainda em 1971, no ensaio “A fenomenologia segundo Husserl”, publicado na Revista Brasileira de Filosofia, sugeriu uma classificação histórico-temática da obra de Husserl com vistas a estabelecer: 1º) que a fenomenologia não pode ser entendida como um sistema filosófico (usa a expressão “orotodoxia”) no sentido que se pode falar do sistema Kant-Hegel ou aristotélico-tomista, sendo mais adequado classificá-la como um questionamento (isto é, um método); e, 2º) que não se reduz (este método) a uma teoria intuitiva do conhecimento mas se desdobra numa hermenêutica e numa dialética.
A obra de Creusa Capalbo está voltada para o desdobramento dessa interpretação, embora preserve, concomitantemente, grande interesse pela Filosofia da Educação, a que tem dedicado diversos ensaios, alguns reunidos em livro (Ideologia e educação, São Paulo, Convívio, 1978). O texto fundamental consiste em Historicidade em Merleau-Ponty (tese de doutoramento em Louvain). Os temas considerados são ainda abordados de modo sistemático no livro Fenomenologia e ciências humanas, Rio de Janeiro, 1973, 2ª ed., 1987). Neste, considera especificamente a noção de fenomenologia como método e como filosofia, além da tese de que “as idéias centrais que orientaram a fenomenologia abriram um caminho fecundo para o estudo do comportamento concreto do homem”, ilustrada através da psicanálise e da história. Essa
tese é retomada, desta vez no que respeita às suas implicações para a sociologia, no livro A fenomenologia de Alfred Schultz (Rio de Janeiro, 1979).
A interpretação de Creusa Capalbo é resumida esquematicamente a seguir. No pensamento de Husserl, a intuição volta a tornar-se uma questão nuclear. Ao afirmar a impossibilidade da intuição intelectual, Kant inverteu totalmente o rumo da investigação sobre o conhecimento na filosofia moderna. Ao invés de voltar-se para a descrição do processo mesmo do conhecimento, Kant quer saber como se constitui o saber de validade universal (a objetividade, em suma). Como se estrutura a ciência e quais os seus pressupostos? - eis o caminho aberto por Kant retomado pelos neokantianos e que nos conduziu à epistemologia do século XX.
Husserl restaura a intuição intelectual. Creusa Capalbo escreve: “A visão das essências é uma intuição, isto é, um ato de conhecimento direto, sem intermediários, que nos põe em presença, num face a face ao objeto “em pessoa”. Ele chamará de intuição doadora a este ver que constitui seus objetos”. (Fenomenologia e ciências humanas, p. 16). Em outro ensaio iria aproximar o procedimento husserliano da teoria da abstração no tomismo (“O problema da abstração em Husserl e no tomismo”, tese submetida ao Congresso Interamericano de Filosofia, realizado em Brasília em 1972).
A exemplo de outros estudiosos, não parece a Creusa Capalbo que nesta restauração da intuição intelectual resida a fecundidade da fenomenologia. Considera que o mérito essencial de tal análise consiste em haver remetido para a relação com os outros e, simultaneamente, com o mundo da vida. Afirma a propósito: “A significação do mundo não é obra de um só ego subjetivo, mas de uma pluralidade de egos, visto que é intencionado por vários egos, inaugurando-se, assim, uma relação inter-subjetiva na qual a significação é atribuição de uma comunidade de pessoas e portanto essencialmente histórica”. (Fenomenologia e ciências humanas, p. 19).
O seu grande tema reside na conceituação da fenomenologia como instrumento fundamentador das ciências humanas. No que se refere à sociologia, aceita o encaminhamento que Alfred Schultz deu à questão ao considerar como categoria ontológica fundamental – capaz de permitir o acesso às categorias próprias da sociologia, superando o impasse suscitado por Max Weber – o ser do homem no mundo. Ao tema dedicou o livro antes mencionado (A fenomenologia de Alfred Schultz, 1979). No que se refere entretanto à psicologia (e também à psicanálise e à psiquiatria) procura empreender caminho próprio (Fenomenologia e ciências humanas, cit.).
Na sua visão, a fenomenologia e a psicanálise têm em comum o fato de que desejam penetrar além dos fenômenos conscientes e racionais. Assim, o tema da relação entre desejo e linguagem interessa às duas disciplinas. Por essa via pretende-se chegar a modelos que permitiriam alcançar o fundamento da comunicação (da intersubjetividade, vale dizer). O inconsciente passa a ser o elo ou o ponto de encontro entre o “ego” e o “alterego”; facultaria a compreensão daquilo que alguns filósofos denominam de “pensamento já constituído”. Neste sentido, a consciência deve ser entendida, primariamente, como inconsciência de si (terminologia de Ricoeur: “O primado do irrefletido sobre a reflexão” e, na de Merleau-Ponty, a anterioridade do involuntário com relação ao voluntário e do invisível sobre o visível).
Para desenvolver seu raciocínio, que situa no plano hermenêutico – isto é, a contribuição que a hermenêutica fenomenológica pode oferecer à fundamentação das ciências humanas – Creusa Capalbo aproxima o conceito de consciência lógica de consciência operante (consciência refletida capaz de constituir-se em cultura, trabalho e civilização) e de consciência dominadora. Dominadora no sentido de que tenta dominar o que fraciona e reúne. A interpretação do mito seria uma primeira forma de dominação do logos sobre o símbolo, ao que supõe para impedir a sua transformação em valor objetivo. O tema da desmistificação é pois uma questão teórica nuclear. Ao revelá-lo, a fenomenologia fornece um fundamento de validade universal que a própria psicanálise não seria capaz de descobrir por si própria: os símbolos não podem ser substituídos nem devem ser traduzidos, correspondendo-lhes, simplesmente, ser reveladores (a função de “abrir horizontes” de que fala Heidegger). A recuperação do valor simbólico equivale ao que, na linguagem freudiana, denomina-se “redução das ilusões”.
Na sua particular interpretação da dialética, a fenomenologia também pode atuar no sentido de encontrar os fundamentos para as ciências humanas, aqui exemplificada ainda com a psicanálise. Esse particular entendimento consiste em fazer sobressair o valor atribuído à negação, como aquele elemento capaz de fazer emergir o aspecto criador próprio do momento subseqüente. Assim, considerada, a negação “tem poder inovador: não destrói nem anula”.
Na conceituação do que seria a historicidade do homem, Creusa Capalbo também se detém na questão da ciência histórica e da filosofia da história.

e) Machado Neto

Antonio Luiz Machado Neto (1930-1977) faleceu aos 47 anos, em plena curva ascendente de sua notável criatividade. Bacharelou-se em direito em 1954, aos 24 anos, e, mais tarde, cursou filosofia. Dedicou-se desde logo ao magistério, tendo alcançado a livre docência e o cargo de Professor Titular de Sociologia da Universidade Federal da Bahia. Organizou o curso de direito na Universidade de Brasília, quando de sua fundação, retornando posteriormente à Bahia, onde concebeu e implantou o Curso de Pós-Graduação em Ciências Humanas, de que se ocuparia desde 1965 até a sua morte. Publicou cerca de 25 livros, todos dedicados à sociologia do conhecimento e à filosofia do direito, tornando-se, nessa última, personalidade das mais destacadas, tendo sua obra encontrado entusiástica acolhida na Argentina e na Espanha, entre outros países. Na parte final de sua atividade docente ocupava-se do que denominaria de eidética sociológica, desenvolvimento da fenomenologia com vistas a fundar a sociologia. Embora não tenha tido oportunidade de dar tratamento acabado ao tema, numa coletânea de ensaios que organizou no próprio ano da morte encontram-se as suas intuições fundamentais na matéria (Para uma eidética sociológica), Salvador, Universidade Federal da Bahia, 1977, 179 p.), de que se dará breve notícia nos tópicos subseqüentes.
Eidética sociológica eqüivale a ontologia regional do social. Por esta razão, só poderia consistir numa demarche de índole fenomenológica, mas aberta às contribuições de orteguianos (o raciovitalismo seria uma de suas fidelidades desde a juventude) e culturalistas (manteve um diálogo fraterno com os culturalistas brasileiros, aos quais estava unido por uma grande amizade, a começar de Miguel Reale). De Husserl, Machado Neto recolhe não apenas a idéia de ontologia regional como o conceito de Lebenswelt.
O passo seguinte mais importante será constituído pelo que denomina de estrutura empírica da vida humana, denominação sugerida por Julian Marias que acolhe e desenvolve. Não se trata de ignorar o Dasein heideggeriano ou a “mi vida” orteguiana, mas de enriquecê-los com categorias como a mundanidade, a corporeidade, a temporalidade, a condição sexuada etc. Escreve na obra citada, a propósito das contribuições de Marias: “Tentando, porém, a impossível síntese, diríamos que a teoria da estrutura empírica da vida humana especifica a analítica existencial, completando a descrição fenomenológica da vida pessoal ou biográfica em geral, pelas especificações estruturais, ainda que empíricas, dessa até aqui única forma inconteste de vida pessoal ou de Dasein que é o homem. Assim, se o Dasein não tem sexo, o homem vive sua vida instalado num dos sexos e em constante disposição vetorial para o outro sexo. ... O Dasein (assim como mi vida) é temporal em sua essência. Mas a temporalidade que importa ao homem é o tempo que falta, mediante o qual cada um de nós se sente a uma determinada altura da vida, o que faz da idade uma estrutura empírica da vida humana, por outro lado responsável por esse elemento fundamental da estrutura social e da vida histórica que são as gerações”. (p. 19/21).
A compreensão social advirá também do que denomina de “estrutura e dinâmica das gerações” e das vigências sociais. A esse último tema dedicaria um de seus livros anteriores (Da vigência intelectual: um estudo de sociologia das idéias, 1968). A seu ver, as crenças são uma das formas de vigências.
Nessa altura, torna-se imprescindível estabelecer as características distintivas das esferas de objetos: naturais, ideais e culturais (como os culturalistas, distingue três e não apenas duas). Os objetos culturais especificam-se em mundanais e egológicos, conforme tenham por substrato um pedaço da natureza ou um momento do ego pessoal de alguém. O social é o inautêntico que cada um de nós tem de viver em sua vida pessoal.
O substrato de uma sociedade é o conjunto de todos os indivíduos. E, como em qualquer sociedade os contemporâneos não são coetâneos, o conhecimento estrutural das gerações é primordial.
Distingue explicação de compreensão. A natureza se explica enquanto o humano, o cultural, além disso se compreende. Explicar, na sua definição, é referir um fenômeno a algo que lhe é exterior (a causa). Enquanto a compreensão, que é o ato gnoseológico próprio do conhecimento cultural, realiza-se por um método empírico (porque usa o sensório para perceber o substrato dos objetos culturais) e dialético (porque uma manipulação lógica da dualidade de substrato e sentido). Assim, compreender é conhecer um substrato por seu sentido e um sentido em seu substrato.
Quando a compreensão parte do substrato, temos a interpretação. Quando da parte do sentido, temos a descoberta ou a criação.
A eidética sociológica parte do pressuposto de que o ser do homem é um dever ser existencial, ou seja, uma sucessão de estimativas. Deste modo, a morte é que dá significação à nossa vida, pois se os meus minutos são contados e eu não lhes sei a conta, há que justificar qualquer uso deles.
Finalmente, o erro nas ciências naturais e matemática, desde que é descoberto como tal, não atrapalha mais. Nas ciências humanas, pode constituir-se num obstáculo social, sobrevivendo como ideologia. Nessa perspectiva, objetividade (intersubjetividade) não é necessariamente verdade. Se todos crêem no mesmo erro ou numa ideologia, já temos aí realizada a objetividade. Apenas a verdade, como intersubjetividade transcendental, contém uma objetividade empírica potencial. Somente cabe ideologia onde não há verdade e na medida mesma em que não há
verdade.

4 – À guisa de conclusão

Estas breves e despretensiosas notas não tiveram a pretensão de esgotar o tema (desde que sequer nos referimos a todas as obras e autores) mas apenas mostrar a filosofia brasileira numa dimensão que tem sido obscurecida: a sua capacidade de posicionar-se diante da meditação contemporânea, revelando dispor de referenciais muito precisos, abandonando o complexo de inferioridade que apareceu em nosso meio graças à influência positivista-marxista. Esta, aliás, nada mais é que o reaparecimento da tradição pombalina (cientificista), recusada pelos grandes pensadores do Segundo Reinado. Assim, o movimento fenomenológico revela o quanto nos temos aproximado do programa que Miguel Reale nos traçou, ainda em 1976, na 2ª edição de Filosofia em São Paulo, ao escrever: “Quando pesar no espírito de nossos pensadores toda a força do presente, não como instante imediato e fugaz, mas como a concreção de nosso passado e de nosso futuro; quando vivermos realmente inseridos na problemática de nossas circunstâncias, natural e espontaneamente, sem sentirmos mais a necessidade de proclamá-la a todo instante, quando houver essa atitude nova, saberemos conversar sobre nós mesmos e entre nós mesmos, recebendo idéias estrangeiras como acolhemos uma visita que nos enriquece, mas não chega a privar-nos da intimidade de nosso lar”.