EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento).

Para o 21º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas




O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ainda sobre "A Via Lusófona"


Via Sincera
Rodrigo Sobral Cunha

Para o Renato Epifânio

Que me seja permitido nesta ocasião*, junto destes amantes do saber em língua portuguesa – e homenageando um deles –, começar por chamar para o nosso convívio alguém que, na realidade, há muito faz parte dele, Thomas Carlyle, que dizia o seguinte bem a propósito:
“Afirmo que a sinceridade, a profunda, a grande, a genuína sinceridade, é a primeira característica de todos os homens que de algum modo são heróis. Não a sinceridade que a si própria se chama sincera; ah, não, porque esta de pouco vale, na verdade; – não a sinceridade superficial, jactanciosa, consciente, porque esta muitas vezes não passa de pretensão. A sinceridade dos homens superiores é de tal espécie que ele nem sequer dela fala, porque dela não está consciente; não quero com isto dizer que esteja consciente de insinceridade; porque, qual será o homem que possa progredir desviando-se da lei da verdade, por um só dia que seja? Não; o homem superior nem se jacta de ser sincero, longe disso; é que ele não pode deixar de ser sincero! A grande realidade da existência é grande para ele. Por mais que se eleve, não pode afastar-se da terrível presença da realidade. O seu espírito é assim feito de verdade; é grande por isso, antes de tudo o mais. Terrível e maravilhoso, tão real como a vida, tão real como a morte, é este universo para ele. Ainda que todos os homens esquecessem a sua verdade e caminhassem por entre sombras vãs, ele não poderia fazer o mesmo. A todos os momentos o reflexo da chama brilha acima da sua cabeça, inegavelmente, sempre, sempre! Desejaria eu que aceitásseis esta como a minha primeira definição do homem superior. O homem vulgar pode ter essa qualidade, porque ela compete a todos os homens criados por Deus; não pode, porém, haver homem superior que não a possua.”[1]
Meio século antes do pensamento do filósofo escocês que acabais de escutar na tradução de Álvaro Ribeiro, traduzia Sampaio Bruno livremente a continuação desta mesma passagem daquele que designava “o poderoso livro de Carlyle acerca dos heróis e do heroísmo”; considerando então o herói
“um mensageiro enviado do fundo do misterioso Infinito com novas para nós... Ele vem da substância interior das coisas. Aí vive e aí deve viver em comunhão quotidiana... Ele vem do coração do mundo, da realidade primordial das coisas; a inspiração do Todo-Poderoso dá-lhe a inteligência, e verdadeiramente o que ele pronuncia é uma espécie de revelação.”[2]
Mais dizia Sampaio Bruno:
“E a vida, heróica ou pura, santa ou genial, do grande homem convém que se exiba, na sua rutilância, quando tão fumosas se condensam as desmoralizantes sombras das malfeitorias que vinham e vêm sendo o amargo pão-nosso de cada dia.”[3]
E indicava:
“Assim, o culto dos heróis não se degrada em idolatria, e a humanidade, reverenciando o heróico na história, nos seus representantes se contempla, reconhecendo-se e incessantemente aperfeiçoando-se.”[4]
Tal era o que Álvaro Ribeiro igualmente defenderia:
“Em todas as sociedades civilizadas existe este processo de cultura que se chama culto dos homens superiores. Cada povo elege as personalidades históricas e as personagens lendárias que celebra na representação social do seu destino e da sua liberdade.”[5]

Agora, se principiámos por aqui as palavras que correspondem ao convite que nos foi endereçado pelo autor do livro A Via Lusófona, foi porque, logo na abertura deste, Renato Epifânio faz suportar a noção de Pátria no conceito de cultura; e se este ligado está a culto e aquela a patres (decerto os pais heróicos), assim é que do cultivo dos heróis (que dão forma à pátria, ou se preferirdes, verdadeiramente a informam), tal como do culto destes – decorre aquela cultura que dá de beber às nações, tal como penetra nos campos a água dos rios depois de ser onda do mar e nuvem celeste.
É desta cultura, que espiritualiza as nações, que vemos surgir, à cabeça d’A Via Lusófona, a efígie de Agostinho da Silva como aquele em quem convergem o pensamento e a acção no culto sublime do Espírito Santo. Do mesmo passo que tem o poder de suplantar a “época da cisão extrema” (assim chamou José Marinho a este tempo, conforme recorda Renato Epifânio), convida já o culto do Espírito Santo à extremosa Acção. Obra daquela cultura que vivifica as nações, na de Agostinho da Silva se elege como herói o Povo Português, nascedoiro de nações que conversam acerca do universo em português. Ora, desta conversa é feita a via lusófona.
Ao contrário do que julgam aqueles que se encontram submersos na barbárie solipsista ou na barbárie do colectivismo uniforme, este livro de Renato Epifânio não é o diário de bordo de um navegador solitário: antes nele se encontram, como o vaivém das ondas, as notas de quem voga sobre esse murmúrio luso das águas que une quanto no tempo e no espaço parece separado.
Pela missão que recaiu sobre os ombros de Renato Epifânio, diremos assim dele que, inclusivamente pelo nome, se liga tanto à Renascença Portuguesa como ao que com ela, de diáfano, advém (para quem possa ver).
Mas se alta é a causa, baixos são ainda os homens. Mal ressoa ao duro humano ouvido o combate que se dá entre o Visível e o Invisível.
Mas o que combate, cordato e pacífico, Renato Epifânio – que de si mesmo diz que olha todas as pessoas de frente? Deixe-me responder de dois modos: combate o patricídio perpetrado por aqueles que dilaceram o corpo e a alma da nação portuguesa e todos os veios que a ligam ao mundo. Enquanto sopra a nortada, debaixo dos círculos dos abutres entrega-se a avidez dos chacais à voragem da hora sob o tempo insepulto. De 1755 aqui são dez gerações, de mal a pior, sob o governo burgesso (de burguês) dos publicanos (os cobradores de impostos) sem alma.
Mas regressemos ao início desta ocasião, já que Renato Epifânio é um dos poucos homens sinceros que conhecemos e chamou Carlyle à sinceridade “o mérito salvador, agora como sempre” – precisamente contra as épocas doentes de cepticismo e insinceridade (“Mundo insincero; ateísta, não verdadeiro mundo!”, no qual “Saem os heróis, entram os charlatães”, onde nem sequer há a esperar “nenhuma alba neste crepúsculo do mundo”). Recorda, todavia, o nosso conviva escocês:
“Somente num mundo de homens sinceros a unidade é possível; só entre eles, e ao fim de muito tempo, a unidade pode ser tida por boa e certa.”
E:
“O mérito da originalidade não está na novidade; está na sinceridade.”[6]
Concluindo:
“Profetizo que o mundo vai tornar-se mais uma vez sincero, crente, acolhedor de muitos heróis, mundo heróico, enfim. Será então um mundo vitorioso; não o será até então.”[7]
Concluamos também nós, meu caro Renato e amigos nossos:
Os antigos romanos diziam: Decorum est pro patria mori (decoroso é morrer pela pátria); porém, nós diremos aqui: Decorum est pro patria vivere.
É que há um segredo.
____________
* Este texto foi lido pelo autor na sessão de lançamento de A Via Lusófona, de Renato Epifânio, que teve lugar na Biblioteca Municipal de Sesimbra, no dia 29 de maio de 2010.
[1] T. Carlyle, Os Heróis (Tradução portuguesa e Apresentação de Álvaro Ribeiro, 1956), Lisboa, Guimarães Editores, 2002, pp. 51-52.
[2] Bruno, A Questão Religiosa, Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão, editores, 1907, pp. 152, 373.
[3] Ibid., p. 372.
[4] Ibid., p. 385.
[5] Na Apresentação de Os Heróis, ob. cit., p. 13.
[6] Os Heróis, p. 120. Aí pode ler-se: “Todas as épocas, a que chamamos épocas de fé, são originais; todos os homens, ou quase todos os homens, são nessas épocas sinceros. [...] Eis a verdadeira união, a verdadeira regência, a lealdade, todas as coisas verdadeiras e benditas na medida em que a pobre Terra pode produzir bênçãos para os homens.”
[7] Ibid., p. 164.