EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento).

Para o 21º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas




O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

quarta-feira, 10 de março de 2010

AGOSTINHO DA SILVA: ARAUTO DE UM MUNDO EM EXPANSÃO

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I - UM PARADIGMA DO MUNDO LUSÓFONO


1. Agostinho da Silva, na sua visão profética e dinâmica da história, sonhou sempre com um mundo melhor para todos. Foi um homem apaixonado pela vida; um cidadão do mundo. É um marco cultural da segunda metade do século XX. Nasceu no Porto, em 1906, e morreu em Lisboa, em 1994.

Foi um português da estirpe dos grandes construtores da nacionalidade e dos grandes descobridores do mundo; Foi um bandeirante, no arrojo e na ousadia de suas ideias, e na competência e coragem de praticá-las. Foi um grande inspirador e um exímio obreiro da lusofonia.

Foi um homem plural, como Fernando Pessoa. Via a essência do ser português. Personificou a alma lusa. Agostinho da Silva foi, como Pessoa, um indisciplinador de almas, um decifrador de enigmas, um provocador de pessoas, para que elas próprias achassem e construíssem o próprio caminho.

Foi um dos homens de maior destaque, no mundo da Língua Portuguesa, no século XX. Sua contribuição à Lusofonia assumiu dimensões gigantescas, pelas perspectivas que foi abrindo e pelo seu espírito genuinamente humanista. Foi um homem de um pensamento sólido, múltiplo e articulado. Atuou intensamente no Brasil, de 1944 a 1969.


2. Foi descobrindo e difundindo as grandes forças que regem os destinos da humanidade, superando egoísmos e desvendando dúvidas e inquietações. Foi um homem notável, modesto e discreto, movido por incontida determinação.

Agostinho focou-se nas forças que impelem o espírito da lusitanidade: a identidade, com alteridade, articulada com a cordialidade e a tolerância. Levou essa equação a todas as dimensões da vida.

Essa equação possibilitou que os portugueses dessem novos mundos ao mundo, nos séculos XV, XVI e XVII.

Só o espírito lusitano poderia viabilizar a imensa epopéia dos descobrimentos de novas terras e o relacionamento cordial com novas gentes.

O espírito dos descobrimentos é a marca do povo português, que ainda perdura. Foi a força motriz de Agostinho.

Essas forças ainda impulsionam os descobridores dos tempos modernos, pelos tempestuosos mares interiores, numa perspectiva espiritualista.

Agostinho foi um homem de uma lucidez extraordinária: um visionário. Sentiu as dimensões permanentes e ainda atuais das forças matriciais que levaram a cultura e a língua portuguesa pelos quatro cantos do mundo, sentiu a força estupenda que sustenta e impulsiona a Lusofonia, no contexto da modernidade.

Sem nostalgias, ele procurava abrir novos caminhos de esperança, pelo cultivo e defesa de valores do mais autêntico humanismo, superando valores espúrios e mascarados.

Foi um pensador e um obreiro sagaz, construtor de Universidades e de Institutos de Pesquisa. Abriu espaços para a sociedade crescer por dentro.


3. A Identidade e Alteridade são as forças motrizes que fizeram de Agostinho um arauto da esperança, um otimista, um homem cheio de vida, um cavaleiro da esperança.

Um homem que creditava na vida e que irradiava vida e esperança, em todos que dele se aproximavam. Um homem sem arrogância e sem vaidades vazias; um homem humilde que sabia onde estava a grandeza da pessoa humana: no seu caráter, na sua generosidade e benquerença, sem hipocrisia e sem farisaísmos... Foi um homem de portas e coração aberto para todos.

Diziam que ele tinha um coração maior que o mundo.

Diz Agostinho:

“Temos de aprender duas coisas:

Aprender quão extraordinário é o mundo

e aprender a ser bastante largo, por dentro,

para o mundo todo poder entrar”1

Agostinho foi um homem de grande visão; acreditava na educação séria, como o caminho para superar a miséria e as mazelas sociais.

Na perspectiva em que coloca seu pensamento, seus sentimentos e sua ação, Agostinho comporta-se como um homem universal. Atrai, a si, pessoas de todas as filosofias, ou atitudes políticas. Todos o ouvem, com atenção e receptivamente. Assim é até hoje, e será por muito tempo. Personificou o espírito da Lusofonia.


4. Agostinho foi uma pessoa afirmativa e positiva.

Como Sócrates, não dava soluções: ensinava as pessoas a encontrá-las; provocava; inquietava e mostrava caminhos. Apontava, mas não fazia caminhos para ninguém. Respeitava a liberdade e a competência de cada um.

Assim as pessoas cresciam pelo próprio mérito, e conseguiam forças para crescer mais. Agostinho não dava o peixe a quem tinha fome, a não ser excepcionalmente; dava o anzol e ensinava a pescar. Foi um criador de pessoas livres e altruístas.

Em toda a sua vida, Agostinho foi um homem sincero, coerente e leal a seus princípios humanísticos. Foi um amante da liberdade. Ele é uma mensagem viva. Nele o saber e o fazer, o pensar e o querer estavam plenamente articulados.

Foi um educador (ex-ducator = tirar de dentro). Nunca quis fazer discípulos. Quis um mundo de pessoas livres. Por isso dizemos que Agostinho é um arauto de um mundo melhor, um paradigma da Lusofonia.


II – PERFIL DE UM HOMEM REALIZADOR


5. Agostinho foi um homem dedicado, competente e empreendedor.

Foi um homem determinado e de grandes ideais. De tão simples, sua atuação e a sua vida, nada tinham, na aparência, que revelasse nele mais que um homem comum. Nele, nada segue os códigos de grandes feitos espetaculares, cinematográficos, com apelo a “efeitos especiais”, irreais, a que nos acostumamos no nosso mundo mediático, onde vale mais o que parece e aparece do que a essência do que se é.

Por fora foi sempre um típico homem simples, cordial e generoso. Por dentro teve uma alma de gigante.

Agostinho foi um extraordinário homem comum.


6. Pertenceu a uma geração que deu ao mundo, em nosso meio, grandes sábios, com idênticas marcas. Aqui destacamos: Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes, Guerra Junqueiro, Antero de Quental e Fernando Pessoa. Como Agostinho, todos cultivaram idênticos ideais humanistas, altruístas e lusófonas, em perspectivas plurais e universais. São pessoas que somam e multiplicam forças, solidários nos princípios matriciais que os inspiram.

Na Espanha destacamos Miguel de Unamuno e Ortega y Gasset, muito bem relacionados com Portugal.

Desta estirpe encontramos, pelo país, milhares de Pessoas. Elas se

distinguiram pela genialidade, que os fez Paradigmas; por uma vida dedicada ao bem-comum e por um espírito de sinceridade, simplicidade e entusiasmo. Caracteriza-os uma visão franciscana da vida e do mundo e um pensamento sólido, profundo, consistente e ousado, numa religião para além das igrejas, com liberdade interior.

“Para essa “geração”, São Francisco é o São Paulo de uma nova igreja dos simples, diz Eduardo Lourenço.

Eram pessoas de espírito socrático: sábio, altruísta, simples e desprendido. Eram pessoas de altos ideais, como o Cristo do Evangelho, voltados ao bem comum...

Pensar em Agostinho, é, um pouco, sentir uma sombra de São Francisco de Assis , passando lépido, com seu bordão...

Sempre peregrinando por um mundo a descobrir e a reconstruir.

Pensou em perspectivas universais, onde cabem todas as contribuições, sem discriminação.

Foi um homem que acreditou que é possível construir um mundo melhor.

Olhou o mundo como algo, em permanente processo de construção e reconstrução: algo sempre a haver, ao abrir-se para novas perspectivas dinâmicas.

Foi um homem de pensamento e um homem de ação; um pensador consistente e um realizador coerente. Pensar, querer e realizar era sua plataforma de atuação.

Foi um homem da terra e um homem do espírito, do mundo das ideias e da ação transformadora. Foi um filósofo comprometido com a vida das pessoas e do universo. Agostinho dialogou desinibido, com o mundo dos homens, com mundo das ideias e com o mundo do Espírito.


7. Agostinho foi um homem aberto a tudo: aberto para a vida, para as energias do universo, que nele se integram por todos os sentidos: pela visão, pela audição, pelo tato, pelo olfato e sabor, e todos os mais que houver.

Dentro dele, de seu espírito, de sua alma, havia lugar para tudo e para todos. O que tinha: (saber, sabedoria e até seus bens), tudo repartia e compartilhava. Amava e cultivava a vida.


A sua visão do outro, da alteridade, integrava-se no seu ser, na sua identidade. Vivia para o “outro”. Foi um educador pleno. Um ser humano pleno, um homem cativante, por suas ideias, modo de vida e visão de mundo.

Foi um homem de pensamento e de ação: um construtor; um transformador de vidas, um iluminador de caminhos. Foi luz, onde passou.

Para levar a teoria, à prática, foi um criador de universidades e um exímio professor.

Foi um homem cheio de vida, e se realizou na convivência ativa e dinâmica. Nada lhe faltava, porque tudo repartia... Isto parece paradoxal, mas, nele, é bem real. Foi o típico homem consciente: o cidadão do mundo.

Foi um homem sem máscaras. Por isso as pessoas não tinham receio de a ele se dirigirem, como quem se dirige a um amigo, sempre de portas abertas.

Dentro do espírito lusitano, que era sua força matricial, foi um homem de perspectivas universais


III – ABRINDO CAMINHOS – REFLEXÃO E AÇÃO


8. Nasceu em 1906, no Porto... Em 1944, com 38 anos, emigra para o Brasil, para prosseguir a sua obra, buscando novas oportunidades. Teve-as.

Do Brasil descobriu melhor a alma e a força profunda de Portugal.

Aqui, a sua vida toma novas dimensões e novos rumos.

Aqui, Agostinho da Silva pôde realizar suas perspectivas universais, da vida e da mente típica portuguesa, sempre aberta a novas descobertas.

Sua personalidade de pensador, místico e mestre encontra aqui um campo fértil. Sua missão de professor e seu humanismo e dedicação às grandes causas da humanidade, sem distinção de classe ou de nível sócio-cultural, aqui germinaram. O espírito brasileiro combina muito bem e enriquece e dinamiza o espírito lusitano.

Do Brasil vê-se melhor Portugal e toda a força da Lusofonia.


Para ele, a unidade e a soberania de Portugal é essencial. Por isso, manda um recado claro e veemente:

“Nunca mais se deve falar na questão de unir a Espanha e Portugal”.

A visão universal e planetária de Portugal, poderá levar os dois países ibérico a olharem-se mutuamente como “outro”, numa relação criadora de identidade e alteridade.

Foi um Semeador. Quem dele precisou foi atendido. Semeou para as próximas gerações colherem. Semeou rabanetes para as próximas refeições e semeou jacarandá para as futuras gerações.

Sua vontade e disposição para o trabalho, para servir o país de adoção, fizeram dele, como diz Eduardo Lourenço:

“o homem dos sete ofícios, profeta, pedagogo, sábio, naturalista (...)

um pólo de vida ativamente contemplativa2”.


Fez amigos, por toda a parte onde atuou, de Norte a Sul do país.

Em tudo o que pôs as mãos e o seu ideal, agiu como fermento transformador.

Onde esteve, fez a diferença, ajudando a abrir novas perspectivas e novos rumos às pessoas e às instituições onde atuou.

Este homem extraordinário, além de professor e foi um pai de família. Com esta repartia também a sua vida, a sua sabedoria e a sua generosidade.


9. Uma das marcas deixadas por Agostinho foi seu carinho pela cultura portuguesa e pelo mundo lusófono.

Ajudou a formar Centros de Estudos Portugueses, em diversas universidades em diversos Estados do Brasil. Em 1954 é nomeado Diretor dos Serviços Pedagógicos da Exposição Histórica do IV Centenário da cidade de São Paulo, onde seu sogro Jaime Cortesão desenvolveu um trabalho extraordinário.

Em 1959, funda o Centro de Estudos Africanos e Orientais, na Universidade Federal da Bahia. Uma instituição inovadora, revolucionária, dentro do espírito de Gilberto Freire: visão de um País e de uma lusofonia multiracial e plural. Com isto Agostinho deu sequência aos trabalhos pioneiros de Gilberto Freire e Nina Rodrigues, valorizando e fazendo justiça às ricas contribuições que os negros trouxeram à cultura do Brasil 3


Começa aqui a pôr em prática o sentido plural da lusofonia. Quis mostrar a necessidade de se dedicar mais aos Estudos Africanos, por sua presença marcante da Lusofonia.

Deu destaque à vertente africana da lusofonia. Abriu um portal de amplas perspectivas.

Agostinho foi um espírito de convergência. Ia abrindo novos espaços que expandiam e articulavam as suas ideias matriciais, dando-lhes novos horizontes, multiplicando-se. Nunca se dispersou.


10. Em 1963, visita o Japão, Macau e Timor, com bolsa da UNESCO.

De volta a Portugal (1975) visita a Galiza.

Em 1987, visita Olivença, onde deixou marcas de seu gênio e de sua generosidade.

Em 1988, visitou Moçambique.

Com sua atividade múltipla e pelo Espírito de União dos Povos Lusófonos, com que sempre trabalhou, Agostinho lançou as sementes férteis da Lusofonia pluricontinental, em perspectivas universais, na perspectiva do Quinto Império, sob as luzes do Divino Espírito Santo, Agostinho deu novas e amplas perspectivas à Lusofonia Mundial.


11. Agostinho foi o verdadeiro inspirador da criação da CPLP: a união de povos soberanos: unir-se para crescer e prosperar, nas dimensões materiais e espirituais.

O objetivo era:

Unir-se para superar o subdesenvolvimento e as decorrentes chagas sociais e as chagas da guerra civil.

Unir-se para superar antagonismos, aceitando a diversidade.

Unir-se para reencontrar-se com o progresso, consigo mesmo e com os seus amigos.

Unir-se para dar uma educação melhor a todo o povo.

Unir-se para, juntos, construirmos um futuro melhor, sem abdicar da liberdade.

Unir-se para produzir mais alimentos e mais riquezas para a nação e emprego, para todos poderem alimentar-se e alimentar suas famílias.

Unir-se para construir uma nação próspera, com o bem-estar do povo.

Unir-se para saber ir além do progresso material, superando e ultrapassando o economicismo capitalista, cultivando os valores humanos e o bem-estar de todos.

Agostinho deu contribuição destacada às ideias matriciais da Lusofonia, em toda a sua amplitude e complexidade.

Agostinho ajudou a dar unidade ao mundo da Lusofonia, dando a cada povo o seu valor, sem discriminações. Semeou o espírito da confraternização. Fez o que todos podem fazer, se quiserem...

Somou suas ideias e sua ação, às ideias e ações de milhares de outras pessoas inspiradas, que germinam nas terras férteis da Lusofonia, dando-lhes novas forças. Suas ideias não se caracterizam pelo ineditismo, mas pela operacionalização e articulação de novas forças, e pelo espírito que as fecundou. Ele faz acontecer.

Sua visão de mundo passa pela confraternização de todos os povos, com a instauração do quinto Império Espiritual, na busca de um mundo com mais justiça, generosidade, prosperidade material e espiritual e mais paz.

Por estes posicionamentos de Agostinho, dizemos que ele foi um “arauto de um mundo em expansão”, preconizando uma nova era da humanidade.

J. J. Peralta