EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento).

Para o 21º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas




O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Entrevista

Publico a entrevista que dei ao nº1 da revista Om Yess (Dezembro de 2009), enquanto presidente da União Budista Portuguesa:

1. Pode falar-nos um pouco sobre o seu percurso de vida e como é que ele o conduziu ao Budismo?

Por um lado, tive a felicidade de ter um pai que se interessava por yoga e espiritualidade e que desde cedo me deu livros interessantes para ler e me ensinou técnicas de relaxação. Por outro, desde pequeno tive a convicção absoluta de já ter existido antes desta vida e de ir continuar a existir depois dela. Até que, após uma adolescência turbulenta, em busca do sentido da existência, e de um curso de Filosofia que me mostrou as limitações do mero conhecimento intelectual, acabei por descobrir o yoga, a meditação e o budismo num centro budista tibetano, em Lisboa. Isso possibilitou-me conhecer e receber ensinamentos e iniciações de um mestre como Dilgo Khyentse Rinpoche e, na sequência disso, tentar seguir o ensinamento de mestres como Sua Santidade o Dalai Lama, Kyabje Trülshik Rinpoche, Tulku Pema Wangyal Rinpoche e Jigme Khyentse Rinpoche.

2. Como caracteriza o Budismo e qual o seu objectivo?

O Dharma ou Via do Buda, conhecido no Ocidente como Budismo, consiste nos ensinamentos e métodos transmitidos pelo Buda Shakyamuni (566-486 a. C.) para que os seres reconheçam a sua própria natureza de Buda, um estado da mente livre de todos os obscurecimentos conceptuais e emocionais e no qual assim perfeitamente se manifestam todas as suas qualidades cognitivas e afectivas, nomeadamente a omnisciência, a visão da natureza última de todas as coisas e um amor e compaixão infinitos e imparciais por todos os seres.

A base do ensinamento do Buda Shakyamuni consiste na exposição das Quatro Nobres Verdades, segundo uma perspectiva terapêutica: 1 – o diagnóstico é o reconhecimento de que todas as experiências condicionadas são dukkha, termo que implica as noções de sofrimento, insatisfação, mal-estar, frustração e imperfeição; 2 – a etiologia consiste em indicar como causas de dukkha a ignorância, no sentido do desconhecimento da natureza última da mente e dos fenómenos, que leva à crença na percepção de uma separação e dualidade entre o sujeito e o objecto, o suposto eu e o mundo, e daí ao egocentrismo do desejo possessivo e da aversão; 3 – o remédio consiste no nirvana ou cessação do sofrimento por abolição das suas causas; 4 – a aplicação do remédio é a via que assume três aspectos: ética (não prejudicar nenhum ser vivo e fazer tudo para o bem de todos), meditação (libertar a mente de todos os conceitos e emoções negativas que a agitam, desenvolvendo uma atenção concentrada, calma e pacífica) e sabedoria (o conhecimento directo da natureza pura de todas as coisas e o viver em conformidade com isso, pondo a vida ao serviço do bem e da libertação de todos os seres).

Assumindo aspectos filosóficos e religiosos de acordo com as necessidades dos seres e das culturas onde se manifesta, o chamado Budismo é fundamentalmente uma via para curar e libertar a mente do facto de ser causadora de sofrimento para si e para os outros.

3. Quais são as principais correntes do Budismo?

Há muitas correntes no Budismo, mas todas se podem inserir nos chamados Três Veículos, correspondentes a diferentes ciclos do ensinamento do Buda, complementares entre si: o Hinayana, representado hoje pela escola Theravada, que põe a tónica na libertação individual; o Mahayana, que acentua a sabedoria da vacuidade do eu e dos fenómenos e o amor e compaixão universal, destacando a figura do Bodhisattva, aquele que deseja chegar ao estado de Buda para aí levar todos os seres; o Vajrayana, que parte da visão de que a natureza de Buda está presente em todas as coisas e combina a sabedoria e a compaixão na forma de meios mais rápidos de progresso espiritual, que podem levar ao despertar numa única vida. O Theravada, todavia, não aceita esta ideia dos Três Veículos.

4. Qual a importância da figura do Mestre no Budismo?

É muita, sobretudo no Mahayana e no Vajrayana, em que o mestre é visto como um Buda vivo e como a manifestação exterior do Mestre interior, que é a nossa própria natureza de Buda, a qual necessita de um espelho onde se reflectir, para que a reconheçamos. Sem um mestre, facilmente se cai em todo o tipo de auto-enganos espirituais, que em vez de nos libertarem nos levam a um reforço do ego e ao chamado materialismo espiritual. É contudo extremamente importante verificar se o mestre é autêntico e se vive de acordo com o que ensina, tal como é decisivo não cair numa devoção dualista, idólatra e cega. Mestre é aquele que nos liberta de toda a dualidade, inclusive da dualidade entre mestre e discípulo.

5. Encontra alguma relação entre o Yoga e o Budismo?

Segundo a tradição, o Buda, antes de atingir o Despertar, foi discípulo de dois mestres indianos, que lhe transmitiram os conhecimentos e práticas tradicionais de meditação e yoga, que ele dominou rapidamente, ao ponto de lhe ser proposto passar a ser o mentor daquelas comunidades. O Buda seguiu todavia a sua busca, pois não considerou haver encontrado naqueles estados meditativos a libertação que procurava para transmitir aos outros. No Budismo, sobretudo no Vajrayana, fala-se contudo de vários níveis de yoga, o que na via budista são outros tantos níveis de experiência não dualista da natureza primordial da mente, a qual se considera desde sempre desperta e iluminada.

6. Como sabe, Ahimsá - Não Violência – é um dos pilares éticos da filosofia do Yoga, e a instauração definitiva de uma Era de Paz o nosso grande objectivo. Qual poderá ser a contribuição do Budismo para a Paz Mundial?

Ahimsá é também um dos pilares éticos e meditativos do Budismo, que assume como princípio fundamental vigiarmos as nossas acções mentais, verbais e físicas de modo a que não só não sejam factores de sofrimento para nós e para todos os seres sencientes, humanos e não-humanos, mas se convertam ainda em causas da sua felicidade. Também desejamos a Paz no planeta e no universo e dedicamos toda a energia positiva das nossas acções e práticas para que isso aconteça e todos os seres sejam felizes. Estamos todavia convictos de que isso só pode acontecer se todos os seres fizerem o esforço individual por disciplinar e transformar as suas mentes e os seus pensamentos, palavras e acções e não consideramos que haja qualquer evolução necessária nesse sentido. Caso não haja esforço ético e espiritual, o mundo humano continuará a ser um mundo condicionado pelas ilusões, emoções e acções negativas, como acontece em todo o samsara, que abrange os mundos não-humanos, inclusive divinos. Enquanto não se transcender o samsara tudo é impermanente e não é possível haver Paz senão numa mente desperta, que se libertou da ilusão do eu e do não-eu, bem como de todos os conceitos e emoções decorrentes.


7. Como é vivido o Budismo em Portugal? Quer-nos falar um pouco das actividades da União Budista Portuguesa?

O Budismo está em franco crescimento em Portugal, tal como na Europa e no Ocidente em geral. A União Budista Portuguesa foi fundada em 1997 para reunir e federar as escolas budistas autênticas presentes no nosso país, sendo a representante oficial do Budismo perante o Estado e a sociedade portuguesa. Temos delegações de Norte a Sul, incluindo na Madeira, e promovemos o estudo e prática do Budismo convidando mestres das diferentes escolas e tradições, organizando seminários, conferências, cursos e retiros com eles e com instrutores com dezenas de anos de prática. Nesse sentido participámos na organização das duas vindas de Sua Santidade o Dalai Lama a Portugal, em 2001 e 2007. Damos aulas de yoga e meditação e organizamos cursos de introdução à meditação e à filosofia budista, que têm uma grande procura. Temos um grupo de tradução, responsável por versões portuguesas de vários textos clássicos budistas. Temos emissões regulares no programa “A Fé dos Homens”, na RTP 2 e agora também na rádio. Damos uma particular importância ao diálogo inter-religioso e assumimos com Sua Santidade o Dalai Lama o compromisso de tudo fazer em Portugal para o promover. Nessa linha, participamos num Encontro mensal de Meditação Inter-Religiosa, no qual praticantes de diferentes confissões e filosofias vivem em conjunto a experiência do silêncio. Muitos de nós participamos ainda individualmente em várias actividades de serviço social, como o apoio aos sem-abrigo, no âmbito de um projecto chamado CASA, que não se limita a budistas. Desenvolvemos também várias actividades em prol dos animais, como a libertação de marisco vivo. As nossas actividades podem ser consultadas em www.uniaobudista.pt

8. Depois de tantos anos de ocupação chinesa no Tibete, o que tem falhado e o que poderemos ainda fazer?

O que tem falhado é um efectivo apoio e solidariedade a nível dos governos em todo o mundo, que por motivos políticos e económicos continuam a apoiar a China e a sacrificar os direitos humanos. A via é continuar a divulgar as atrocidades cometidas pelas autoridades chinesas e a fazer pressão a nível da sociedade civil para que os nossos governos se coloquem não do lado dos carrascos mas das vítimas.

9. Como explica o facto do Budismo ter praticamente desaparecido da Índia, tendo sido essa região a pátria de Buda?

Há várias razões, desde a oposição do Budismo à organização social em castas, que gerou a reacção violenta das castas superiores, até às invasões islâmicas, que destruíram os grandes centros da cultura e espiritualidade budista, como a grande Universidade monástica de Nalanda, onde ensinaram sábios como Nagarjuna, destruída no final do século XII e que chegou a contar com 10 000 alunos e 1500 professores.


10. No seu entender, a eleição de Obama poderá contribuir para uma mudança decisiva do panorama económico, social, político e cultural a nível internacional? E como perspectiva o futuro dos seres humanos tal qual os vê hoje?

Sinceramente, não creio que uma mudança decisiva e um futuro melhor para o homem e o planeta possa vir de algum líder político instalado no sistema, por mais poderoso que seja, pois ninguém chega ao poder sem ter de fazer concessões aos grandes grupos de interesses político-económicos que regem o mundo. A alternativa real passa por não alimentarmos a ilusão que nos leva a esperarmos tudo dos outros, ou de um Salvador, por mais carismático que seja, assumindo antes a nossa responsabilidade – a sua e a minha, leitor – por sermos desde já essa diferença que queremos ver surgir no mundo. Tal qual os vejo hoje, os seres humanos, se não mudarem radicalmente, continuarão a ser o que sempre têm sido: seres iludidos e sofredores. Porém, se em vez de sonhos cor-de-rosa sobre o futuro do mundo, se decidirem a transformar-se realmente, então vejo-os como Budas em potência.

11. Quer-nos falar um pouco sobre o Partido Pelos Animais? Porquê esta necessidade de dar uma contribuição à causa pública? Terá o Budismo influenciado a sua decisão?

É óbvio que o Budismo não me podia deixar indiferente a um projecto de defender a natureza e todas as formas de vida senciente, humana e não-humana, embora o PPA não seja um partido budista. Estou convicto que urge, para bem do planeta, do homem e dos animais, mudarmos radicalmente a mentalidade especista que nos governa, semelhante à racista e sexista, que nos leva a considerar que o homem, por ter uma diferente forma de inteligência, tem o direito de instrumentalizar os animais, que experimentam emoções e sensações de dor e prazer como nós. A defesa da natureza e do bem-estar animal impõe-se hoje como o novo paradigma mental, ético e civilizacional. Disso depende a própria sobrevivência e dignidade da espécie humana. Como budista, não posso deixar de considerar que o modo como tratamos os animais resulta, pela lei da causalidade kármica, em graves problemas ambientais, sociais e de saúde para o ser humano.

12. Como concilia a sua actividade de filósofo, escritor, budista, político, professor e homem? Como vive o Budismo no seu dia a dia?

Com a sensação de falta de tempo, como é óbvio! (risos) Na verdade, sinto-as pessoalmente como complementares e inseparáveis, embora saiba conter cada uma dentro dos seus limites próprios, no que respeita à relação com os outros. Creio que todos nós somos multifuncionais e que temos a potencialidade de “ser tudo, de todas as maneiras”, como diziam Pessoa e Agostinho da Silva, com quem muito aprendi. Procuro levantar-me cedo, fazer uma sessão de meditação e levar para a vida quotidiana, além de uma mente centrada no aqui e agora, uma outra visão das coisas, a visão de todos os seres como manifestações do próprio Buda, de modo a que isso impregne todos os meus pensamentos, palavras e acções. Mas sou apenas alguém que tenta praticar isso, com muitas imperfeições, e que tem muito caminho pela frente.

13. Poderia propor aos nossos leitores uma pequena prática, acessível a todos?

Esqueçam tudo o que acabaram de ler, bem como todas as vossas ideias e preocupações. Endireitem a coluna e sintam o corpo e a respiração durante uns momentos. Depois observem os vossos pensamentos e emoções, sem os combater e sem se deixarem arrastar por eles. Não tentem esvaziar a mente. Observem apenas o que nela surge e logo se dissipa, como nuvens no céu. Permaneçam assim dois ou três minutos.
Pensem agora em alguém que realmente amam, mais incondicionalmente, com menos expectativas de reconhecimento ou retribuição. Pode ser alguém que já partiu desta vida. Sintam-no e, se possível, visualizem-no diante de vós. Sintam como seria bom se o pudessem libertar de tudo o que o possa fazer sofrer, agora e no futuro, e como seria bom oferecer-lhe tudo o que possa tornar feliz, a todos os níveis, para sempre. Comecem então a inspirar, docemente, sentindo que o estão a libertar de tudo o que haja de negativo, sob a forma de um fumo cinzento que converge para o centro do vosso coração, no meio do peito. Mal esse fumo vos toca, transforma-se em luz branca ou dourada e é essa luz que, na expiração, lhe oferecem, impregnando-o totalmente e levando-lhe toda a saúde, bem-estar e felicidade. Continuem assim, sem qualquer receio, transmutando toda a negatividade em luz. Após alguns momentos, incluam todos os seres na inspiração e na expiração, libertando-os de toda a negatividade, transmutando-a em luz e oferecendo essa luz a todo o universo, em todas as direcções. Finalmente, numa expiração, deixem-se dissolver nessa luz, que dissolve igualmente todas as coisas. E permaneçam nesse estado, luminoso, sem limites, para além de todos os conceitos e palavras. Antes que voltem os pensamentos habituais, dediquem mentalmente o que fizeram para o bem, a paz e a felicidade de todos os seres.

Integrem esta experiência na vossa vida quotidiana, recordando que tudo quanto vêem e percepcionam à vossa volta é manifestação dessa mesma luz. E sejam felizes!

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