Tenho andado curioso por alguma declaração tua, que desvele um indício de um programa, mas já percebi que essa declaração não chegará. Limitaste-te a demarcar-te da suicidária declaração inicial do anterior Ministro – “podemos fazer mais com menos recursos” – e a lembrar o hipócrita acto de contrição do Primeiro-Ministro, que, na campanha eleitoral, instado a reconhecer “um erro na sua governação”, falou de uma “insuficiente aposta na Cultura”. Toda a gente sorriu…Os jornais, coitados, sem essa declaração, viram-se obrigados a falar do teu bom aspecto – serias a “cara bonita” do Governo. E também houve, dada a tua formação, quem garantisse que tu foste convidada para nos dar música. Como se isso não fosse a missão de todos os ministros e do primeiro-ministro em particular: alimentar ilusões sem defraudar expectativas…
Não tenho dúvidas que, para certo tipo de actividades, são precisos (fartos) recursos financeiros. E que, a partir de certo ponto, não há milagres: não se pode fazer mais com menos. Também sei que o Ministério da Cultura tem uma série (alta) de custos fixos com alguns lobbys, que é preciso subsidiar, para não falarem muito alto. Não estou contudo certo que fosse benéfico um aumento do orçamento da Cultura para a mítica cifra de 1%. E olha que quem te diz isto é alguém que acha que a pasta da Cultura é a mais importante. Provavelmente, esse acréscimo orçamental seria desbaratado em fogo-de-artifício, no oblívio, como quase sempre acontece, do que mais importa…
Dada a tua centração na questão orçamental, já imagino o teu discurso de despedida: “Não tive recursos para fazer mais”. Nesse dia, escrever-te-ei outra carta. A lembrar tudo o que podias ter feito e não fizeste. E sem qualquer custo. Não imaginas o quê? Pois eu digo-te: basta uma muito criteriosa presença em actos culturais para definir uma política. Se um dia alguém dissesse de ti – “ela só aparecia quando era realmente importante, mesmo, e sobretudo, quando não era muito vistoso” –, esse seria o teu melhor epitáfio político. Se quiseres, posso dar-te umas dicas. De graça…
Também publicado no MILhafre:
http://mil-hafre.blogspot.com/2009/11/para-nova-ministra-da-cultura-gabriela.html