EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento).

Para o 21º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 20

Capa da NOVA ÁGUIA 20

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 20

Decerto, uma das melhores formas de aferir o valor de uma vida é ter em conta a quantidade e a qualidade dos amigos que deixou. Sob esse prisma, José Rodrigues, que nos deixou recentemente, teve uma grande vida, como se pode verificar neste número da NOVA ÁGUIA: entre textos, testemunhos, poemas e ilustrações, foram cerca de meia centena de contributos que nos chegaram para prestar tributo a uma figura que esteve também na génese desta Revista – não tivesse sido ele o autor da capa do primeiro número da NOVA ÁGUIA.
Em 2017, assinalam-se os 150 anos do nascimento de Raul Brandão e António Nobre. O MIL: Movimento Internacional Lusófono e a NOVA ÁGUIA têm assinalado essa efeméride com um Ciclo a decorrer no Porto (no Ateneu e na Casa Museu-Guerra Junqueiro). Neste número, publicamos igualmente alguns textos sobre Raul Brandão. No próximo número, publicaremos uma série de textos sobre António Nobre.
Em 2016, assinalaram-se os 350 anos do falecimento de D. Francisco Manuel de Melo, essa figura maior da nossa cultura que teve o “azar” de ter nascido no mesmo ano (1608) do Padre António Vieira, “Imperador da Língua Portuguesa”. O Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com uma série de outras entidades (entre as quais o MIL: Movimento Internacional Lusófono e a NOVA ÁGUIA), promoveu um Colóquio, em Outubro do passado ano, na Biblioteca Nacional de Portugal. Os textos apresentados nesse Colóquio são também aqui publicados.

Tendo chegado ao vigésimo número, a NOVA ÁGUIA poderia ter optado por um número auto-celebratório, o que seria mais do que justificado, mas, como sempre, preferimos celebrar as figuras maiores da nossa cultura. Assim, para além da três figuras já referidas, celebramos uma série de outras figuras, em “Outras Evo(o)cações”, e, como sempre, em “Outros voos”, abordamos uma série de outras temáticas. Em “Extravoo”, como também tem acontecido, publicamos alguns inéditos – nomeadamente, de Agostinho da Silva, António Telmo e Delfim Santos.
Em “Bibliáguio”, publicamos uma série de recensões de algumas obras publicadas recentemente: “Portugal, um Perfil Histórico”, de Pedro Calafate, “Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa”, de Miguel Real, e “A Literatura de Agostinho da Silva”, de Risoleta Pinto Pedro. Sem esquecer o “Poemáguio” e o “Memoriáguio”, duas outras secções também já clássicas, antecipamos os autores em destaque no próximo número – para além do já aqui referido António Nobre, iremos celebrar Dalila Pereira da Costa, no centenário do seu nascimento, e Fidelino de Figueiredo, no cinquentenário da sua morte. É tão-só por isso que a NOVA ÁGUIA irá persistir no seu voo, pelo menos por mais vinte números: se soçobrássemos, quem ficaria para falar sobre quem e o que mais importa?

Post Sciptum: Dedicamos este número a João Ferreira e a Antônio Paim, duas das figuras maiores da Filosofia Luso-Brasileira e (por isso) colaboradores da NOVA ÁGUIA, que entretanto chegaram aos noventa anos de vida.



NOVA ÁGUIA Nº 20: ÍNDICE

Editorial…5
A JOSÉ RODRIGUES, AQUELE ABRAÇO
Textos e Testemunhos de Ramalho Eanes (p. 8), A. Andrade (p. 9), Alberto A. Abreu (p. 9), Alberto Tapada (p. 10), António Oliveira (p. 11), Castro Guedes (p. 12), Diogo Alcoforado (p. 13), Diva Barrias (p. 20), Emerenciano (p. 22), Francisco Laranjo (p. 23), Gaspar Martins Pereira (p. 24), Guilherme d’Oliveira Martins (p. 25), Henrique Silva (p. 26), Isabel Pereira Leite (p. 27), Isabel Pires de Lima (p. 29), Isabel Ponce de Leão (p. 34), Isabel Saraiva (p. 36), Jorge Teixeira da Cunha (p. 37), José Adriano Fernandes (p. 38), José Gomes Fernandes (p. 38), José Manuel Cordeiro (p. 39), Júlio Cardoso (p. 41), Júlio Roldão (p. 42), Luandino Vieira (p. 42), Luís Braga da Cruz (p. 43), Maria Celeste Natário (p. 44), Maria Luísa Malato (p. 46), Mónica Baldaque (p. 48), Nassalete Miranda (p. 48), Nuno Higino (p. 49), Roberto Merino Mercado (p. 50), Ruben Marks (p. 52) e Salvato Trigo (p. 55).
Ilustrações de Artur Moreira (p. 9), Avelino Leite (p. 12), Emerenciano (p. 23), Francisco Laranjo (p. 23), Filomena Vasconcelos (p. 28), Isabel Saraiva (p. 36), Mário Bismarck (p. 39), Luandino Vieira (pp. 42-43), Paulo Gaspar (p. 48) e Sousa Pereira (p. 60).
NOS 150 ANOS DO NASCIMENTO DE RAUL BRANDÃO
EM TORNO DO TEATRO DE RAUL BRANDÃO António Braz Teixeira…62
APONTAMENTOS SOBRE HÚMUS DE RAUL BRANDÃO Luís de Barreiros Tavares…66
A COISA NA OBRA DE RAUL BRANDÃO Rodrigo Sobral Cunha…72
NOS 350 ANOS DO FALECIMENTO DE FRANCISCO MANUEL DE MELO
FRANCISCO MANUEL DE MELO: O HOMEM E A OBRA NO CONTEXTO DO BARROCO Maria Luísa de Castro Soares...84
FRANCISCO MANUEL DE MELO E ANTÓNIO VIEIRA Ana Paula Banza…91
FRANCISCO MANUEL DE MELO, MORALISTA António Braz Teixeira…99
FRANCISCO MANUEL DE MELO: CONHECER, SENTIR E «ESCREVIVER» Deana Barroqueiro…103
A METAFÍSICA DA SAUDADE DE FRANCISCO MANUEL DE MELO Manuel Cândido Pimentel…108
AS EXPLORAÇÕES CABALÍSTICAS DE FRANCISCO MANUEL DE MELO Manuel Curado…112
A PINTURA DO PENSAMENTO: ALEGORIA DA HISTÓRIA EM FRANCISCO MANUEL DE MELO Maria Teresa Amado…127
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES
ÂNGELO ALVES J. Pinharanda Gomes…136
ANTÔNIO PAIM José Maurício de Carvalho…143
AZEREDO PERDIGÃO Adriano Moreira…144
CORRÊA DE BARROS José Almeida…150
EÇA DE QUEIRÓS José Lança-Coelho…151
EDUARDO PONDAL Maria Dovigo…153
EUGÉNIO TAVARES Elter Manuel Carlos…158

GUERRA JUNQUEIRO Delmar Domingos de Carvalho…165
JOÃO FERREIRA Renato Epifânio e Luís Lóia…167
MANUEL ANTÓNIO PINA José Acácio Castro…169
MANUEL FERREIRA PATRÍCIO Fernanda Enes e J. Pinharanda Gomes…174
MATEUS DE ANDRADE José Luís Brandão da Luz…181
PINHARANDA GOMES Elísio Gala…190
TORGA E RUBEN A. Paula Oleiro…192
VIEIRA Eduardo Lourenço…196
OUTROS VOOS
A LUSOFONIA COMO UTOPIA CRIADORA Adriano Moreira…200
UTOPIA E MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO: NOS 10 ANOS DA NOVA ÁGUIA António José Borges…204
BREVE CRÓNICA DO CENTRO PORTUGUÊS DE VIGO Bernardino Crego…207
A ITÁLIA NA “GERAÇÃO DE 70”: A “GERAÇÃO DE 70” EM ITÁLIA Brunello Natale De Cusatis…210
LITERATURA E DIPLOMACIA: ALGUMAS REFLEXÕES Cláudio Guimarães dos Santos…218
PROLEGÓMENOS E INTERMITÊNCIAS DIALÓGICAS Joaquim Pinto…222
LUSOFONIA INTERIOR Luís G. Soto…230
A NOVA ÁGUIA E A CULTURA LUSÓFONA Nuno Sotto Mayor Ferrão…235
AUTOBIOGRAFIA 3 Samuel Dimas…241
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…252
APRESENTAÇÃO A ORIENTE DE ESTREMOZ DE UMA REVISTA LITERÁRIA António Telmo…255
DO QUE POSSA SER A FILOSOFIA Delfim Santos…257
BIBLIÁGUIO
PORTUGAL, UM PERFIL HISTÓRICO Renato Epifânio…270
TRAÇOS FUNDAMENTAIS DA CULTURA PORTUGUESA Renato Epifânio e Joaquim Domingues…272
A LITERATURA DE AGOSTINHO DA SILVA António Cândido Franco…276
POEMÁGUIO
PARA AS TINTAS DO JOSÉ RODRIGUES Albano Martins…6
A “ANJA” DE JOSÉ RODRIGUES José Acácio Castro…6
DA ESCULTURA: A JOSE RODRIGUES - IN MEMORIAM António José Queiroz…6
PESSOAS COMO O JOSÉ RODRIGUES Renato Epifânio…6
O ROSTO QUE SONHA: PARA JOSÉ RODRIGUES J. Alberto de Oliveira…7
TU NÃO VIESTE ONTEM Emerenciano…22
CANTANDO-TE Ruben Marks…54
O TEU NOME INSCRITO Rosa Alice Branco…60
PERMITE-TE O IMPOSSÍVEL Isabel Alves de Sousa…60
PROCELA / VIDA E POESIA António José Borges…61
HUMANIDADE Fernando Esteves Pinto…83
ALEKSANDR SOLZHENITSYN Jesus Carlos…135
CARTA AO ALBERTO CORRÊA DE BARROS NA HORA DA PARTIDA José Valle de Figueiredo…151
SONETO – OBIRALOVKA/ INCONSTÂNCIA Jaime Otelo…198
AMADOR, COMO DISSE CAMÕES Manoel Tavares Rodrigues-Leal…250
MORTE EM AZUL Filipa Vera Jardim…251
FLUVIALMENTE Maria Luísa Francisco…279
ESCURIDÃO Delmar Maia Gonçalves…279
MEMORIÁGUIO…280
MAPIÁGUIO…281
ASSINATURAS…281
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284




Apresentação da NOVA ÁGUIA 20

Apresentação da NOVA ÁGUIA 20
18 de Outubro: Palácio da Independência (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas






O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Natureza da mente, meditação e contemplação segundo a tradição do Dzogchen ou "Grande Perfeição"" - I



- Longchenpa

Publico o início da comunicação que apresentarei no Sábado, dia 14, pelas 11.30, no 3º Simpósio Internacional "Fronteiras da Ciência", A Humanidade e o Cosmos, organizado pelo Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência da Universidade Fernando Pessoa (Porto), em 13 e 14 de Novembro. A presente versão não tem notas de rodapé.

...

A presente comunicação visa introduzir à experiência meditativa e contemplativa da natureza última da mente e dos fenómenos segundo a tradição budista tibetana do Dzogchen, ou "Grande Perfeição", a partir de textos de dois dos seus mais eminentes representantes, ambos pertencentes à escola dos Antigos ou Nyingmapa: Longchenpa (1308-1363) e Dudjom Lingpa (1835-1904). Considerado, na classificação da mesma escola, e na perspectiva da via gradual (lam rim), como o último e supremo dos nove veículos para o reconhecimento da natureza primordial da mente e de todos os fenómenos - a natureza de Buda, designação não de uma figura histórica, mas do pleno desvendamento da realidade última - , o Dzogchen é todavia, em si mesmo, não propriamente uma via ou um veículo, mas o próprio estado de experiência imediata da perfeição natural e absoluta de todas as coisas, independente dos métodos e práticas que o podem preparar e mesmo de qualquer tradição, religião ou escola específicas.

Começamos por um texto de Dudjom Lingpa, Nang-jang, Refinar os Fenómenos Aparentes, cujo início descreve a constituição da experiência condicionada de si e do mundo e a sua ausência de fundamento. Se analisarmos, aquilo que se designa como o “si mesmo da personalidade individual” não consiste senão numa “impressão de que existe um si mesmo”, seja na vigília, no sonho ou no bardo – o estado intermediário entre uma morte e um renascimento. Porém, “seguindo imediatamente essa primeira impressão, há uma consciência subjacente” – também designada como “consciência subsequente ou “pensamento discursivo” - que considera essa impressão como sendo um “eu””. Isso parece tornar “mais clara”, “estável e sólida” a “impressão do si mesmo”, se bem que, se tentarmos localizar a fonte originária do dito “eu”, tenhamos de concluir que ela não existe.

Trata-se com efeito de investigar, a respeito do assim chamado “eu”, se podemos determinar-lhe uma “localização” e um “agente localizado”, existentes como “entidades” “individualmente identificadas” e com “características ultimamente definidoras”. Se procurarmos essa id-entidade com características irredutíveis que designamos com a etiqueta “eu”, no corpo e em cada uma das suas partes, ou na sucessão dos momentos de consciência, não a encontramos nem ao seu lugar, o que se converte na certeza acerca da sua “vacuidade” (tong-pa-nyid). Verificando-se, pela experiência analítica que corrige a irreflectida crença conceptual subjacente à experiência comum, não haver senão “a aparência de algo existente onde nada existe”, designar algo como um “eu” revela-se equivalente a “descrever os chifres de um coelho”.

A mesma análise deve estender-se então à suposta natureza intrínseca dos fenómenos integrantes da esfera do não-eu, animados ou inanimados. Se procurarmos a “base da designação” dos “nomes” que lhes atribuímos, ou seja, “os objectos últimos aos quais todos os nomes se aplicam”, verificaremos ser impossível estabelecer a auto-sustentação de qualquer fenómeno que seja, em si e por si. Deste modo, a sua nomeação “em nada mais redunda do que na aplicação de etiquetas ao que não existe”, pelo impulso entusiástico “responsável pelo pensamento conceptual”. A análise da natureza última das coisas vem pôr fim a esse impulso, convidando à abolição dos “conceitos da aparente permanência de entidades substanciais” e objectivamente existentes ao mostrar nelas a mesma “vacuidade” antes reconhecida ao “eu”. É suposto que esta constatação, caso se converta numa experiência constante, tenha como efeito a libertação de todos os condicionamentos mentais, suscitando nomeadamente o colapso da ilusão do benefício e da ofensa, da esperança e do medo.

Até aqui, a abordagem mantém-se na esfera do budismo primitivo e, particularmente, do Mahayana, que enfatiza a sabedoria consistente no reconhecimento da dupla vacuidade, do eu e dos fenómenos, como na paradigmática obra de Nagarjuna, as Estâncias da Via do Meio. Sabedoria indissociável da compaixão imparcial e universal pelo sofrimento de todos os seres vítimas das suas próprias ilusões mentais e das emoções e acções-reacções por elas suscitadas. Tal como são inseparáveis a verdade absoluta, trans-conceptual e trans-emocional, e a relativa, referente à experiência conceptual-emocional do mundo, assim o são a sabedoria, o amor bondoso e a compaixão.
A especificidade do Dzogchen manifesta-se todavia, para além da dialéctica desconstrutiva de todas as visões do mundo, exacerbada em Nagarjuna e na escola Madhyamika, no aprofundamento da natureza da experiência da realidade como uma “interdependência de causas e condições” reunidas, onde se destaca, no íntimo dos doze nidanas - ou elos da produção interdependente que estrutura toda a experiência condicionada de si e do mundo, desde a ignorância até ao nascimento e à velhice e morte - , um fundo primordial inato, livre de todo o condicionamento e, por isso mesmo, eminentemente fecundo. Há assim um ”factor causal” e um “factor condicionante”. O primeiro é shi ying, “o fundo do ser como espaço fundamental, subtilmente lúcido e dotado da capacidade para que tudo apareça”. O “espaço fundamental”, ying, designa a própria vacuidade, que aqui surge, não como mera ausência de pontos de vista sobre as coisas, a qual, como em Nagarjuna, dissolve o haver “coisas” na abstenção de qualquer modo de predicação – A, não A, A e não A, nem A nem não A - , mas antes como a matriz da fenomenalidade universal, indissociável da luminosidade da consciência primordial e da potência manifestativa, as quais constituem no Dzogchen a tríade de aspectos da intemporal natureza de Buda e o sentido mais profundo da Tripla Jóia, Buda, Dharma e Sangha. Quanto ao “factor condicionante”, “é uma consciência que imagina um «eu»”, ou seja, a mesma “consciência subjacente”, “subsequente” ou discursiva atrás referida, que interpreta erroneamente a impressão de existir um “si mesmo”, cristalizando-a na ficção de um “eu” substancial. Da união dos dois factores, “causal” e “condicionante”, “todos os fenómenos aparentes se manifestam, como ilusões”.

A experiência da realidade fenoménica, externa e interna, procede assim da “conexão interdependente” do fundo primordial de tudo com a modalidade de consciência reificante que o vela, mas que não deixa de emergir a partir de si e, mais concretamente, da sua “energia dinâmica” (tsel), a potência ou virtualidade manifestativa atrás referida. Como diz o texto: “Deste modo, o fundo do ser como espaço fundamental (shi-ying), a mente comum (sem) que surge da energia dinâmica (tsel) desse fundo e os fenómenos externos e internos que constituem o aspecto manifesto dessa mente comum estão todos interligados (lu-gu-gyüd), como o sol e os seus raios”. A visão da “Grande Perfeição” assume a presença, em termos mais positivos do que na dialéctica negativa e desconstrutiva das outras abordagens budistas, de um incondicionado cuja funcionalidade consciente e manifestativa permanece inerente a isso mesmo que dela surge como sua distorsão e encobrimento, refractando-a nas aparências já conceptuais e dualistas do absoluto e do relativo ou do nirvana e do samsara, ultimamente ilusórias. Por mais obscurecedora e densa que possa parecer a experiência reificada do eu e do mundo, isto significa que a sua natureza íntima, a cada instante susceptível de ser reconhecida e fruída, é livre de todos os condicionamentos adventícios, que em verdade não possuem fundamento real, pois não procedem senão de uma incompreensão da natureza do processo, a ignorância (ma-rigpa), revogável mediante a meditação analítica e contemplativa.

Toda a infinita variedade dos fenómenos assim se manifesta como algo que em si e por si não existe, pois jamais difere substancialmente da omnipenetrante e lúcida vastidão da vacuidade do “fundo” primordial, que apenas aparece dividida nas esferas do si mesmo e do outro devido à concepção de um “eu” que a força aos “estreitos confins” de uma consciência subjectiva e conceptual e padece a “confusão” de conferir realidade ao que a não tem, ele mesmo e o outro de si, tornada um “hábito arreigado”. Deste modo se constitui a percepção convencional da realidade, de si e do mundo, karmicamente distribuída pelas seis possibilidades de existência e pelos estados de vigília, sonho e bardo, que metaforicamente se descrevem “como a aparência de uma ilusão mágica (gyu-ma)”, uma “miragem (mig-gyu)”, um “sonho (mi-lam)”, um “reflexo (zug-nyan)” num espelho, “cidades” visionárias (dri-zai drong –khyer), “ecos (drag-cha)”, “reflexos de todos os planetas e estrelas no oceano (gya-tsoi za-kar)”, só aparentemente diversos mas na verdade indistintos da própria água, “bolhas formando-se na água (chu-bur-gyi bu-wa)”, uma “alucinação (mig-yor)” e uma “emanação” fantasmática (trul-pa). Meditar e contemplar deste modo todos os fenómenos conduz a vê-los como “ilusões” (gyu-ma), tornando-se o praticante num “yogi de ilusão”.

(continua)

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