EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento).

Para o 21º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 20

Capa da NOVA ÁGUIA 20

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 20

Decerto, uma das melhores formas de aferir o valor de uma vida é ter em conta a quantidade e a qualidade dos amigos que deixou. Sob esse prisma, José Rodrigues, que nos deixou recentemente, teve uma grande vida, como se pode verificar neste número da NOVA ÁGUIA: entre textos, testemunhos, poemas e ilustrações, foram cerca de meia centena de contributos que nos chegaram para prestar tributo a uma figura que esteve também na génese desta Revista – não tivesse sido ele o autor da capa do primeiro número da NOVA ÁGUIA.
Em 2017, assinalam-se os 150 anos do nascimento de Raul Brandão e António Nobre. O MIL: Movimento Internacional Lusófono e a NOVA ÁGUIA têm assinalado essa efeméride com um Ciclo a decorrer no Porto (no Ateneu e na Casa Museu-Guerra Junqueiro). Neste número, publicamos igualmente alguns textos sobre Raul Brandão. No próximo número, publicaremos uma série de textos sobre António Nobre.
Em 2016, assinalaram-se os 350 anos do falecimento de D. Francisco Manuel de Melo, essa figura maior da nossa cultura que teve o “azar” de ter nascido no mesmo ano (1608) do Padre António Vieira, “Imperador da Língua Portuguesa”. O Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com uma série de outras entidades (entre as quais o MIL: Movimento Internacional Lusófono e a NOVA ÁGUIA), promoveu um Colóquio, em Outubro do passado ano, na Biblioteca Nacional de Portugal. Os textos apresentados nesse Colóquio são também aqui publicados.

Tendo chegado ao vigésimo número, a NOVA ÁGUIA poderia ter optado por um número auto-celebratório, o que seria mais do que justificado, mas, como sempre, preferimos celebrar as figuras maiores da nossa cultura. Assim, para além da três figuras já referidas, celebramos uma série de outras figuras, em “Outras Evo(o)cações”, e, como sempre, em “Outros voos”, abordamos uma série de outras temáticas. Em “Extravoo”, como também tem acontecido, publicamos alguns inéditos – nomeadamente, de Agostinho da Silva, António Telmo e Delfim Santos.
Em “Bibliáguio”, publicamos uma série de recensões de algumas obras publicadas recentemente: “Portugal, um Perfil Histórico”, de Pedro Calafate, “Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa”, de Miguel Real, e “A Literatura de Agostinho da Silva”, de Risoleta Pinto Pedro. Sem esquecer o “Poemáguio” e o “Memoriáguio”, duas outras secções também já clássicas, antecipamos os autores em destaque no próximo número – para além do já aqui referido António Nobre, iremos celebrar Dalila Pereira da Costa, no centenário do seu nascimento, e Fidelino de Figueiredo, no cinquentenário da sua morte. É tão-só por isso que a NOVA ÁGUIA irá persistir no seu voo, pelo menos por mais vinte números: se soçobrássemos, quem ficaria para falar sobre quem e o que mais importa?

Post Sciptum: Dedicamos este número a João Ferreira e a Antônio Paim, duas das figuras maiores da Filosofia Luso-Brasileira e (por isso) colaboradores da NOVA ÁGUIA, que entretanto chegaram aos noventa anos de vida.



NOVA ÁGUIA Nº 20: ÍNDICE

Editorial…5
A JOSÉ RODRIGUES, AQUELE ABRAÇO
Textos e Testemunhos de Ramalho Eanes (p. 8), A. Andrade (p. 9), Alberto A. Abreu (p. 9), Alberto Tapada (p. 10), António Oliveira (p. 11), Castro Guedes (p. 12), Diogo Alcoforado (p. 13), Diva Barrias (p. 20), Emerenciano (p. 22), Francisco Laranjo (p. 23), Gaspar Martins Pereira (p. 24), Guilherme d’Oliveira Martins (p. 25), Henrique Silva (p. 26), Isabel Pereira Leite (p. 27), Isabel Pires de Lima (p. 29), Isabel Ponce de Leão (p. 34), Isabel Saraiva (p. 36), Jorge Teixeira da Cunha (p. 37), José Adriano Fernandes (p. 38), José Gomes Fernandes (p. 38), José Manuel Cordeiro (p. 39), Júlio Cardoso (p. 41), Júlio Roldão (p. 42), Luandino Vieira (p. 42), Luís Braga da Cruz (p. 43), Maria Celeste Natário (p. 44), Maria Luísa Malato (p. 46), Mónica Baldaque (p. 48), Nassalete Miranda (p. 48), Nuno Higino (p. 49), Roberto Merino Mercado (p. 50), Ruben Marks (p. 52) e Salvato Trigo (p. 55).
Ilustrações de Artur Moreira (p. 9), Avelino Leite (p. 12), Emerenciano (p. 23), Francisco Laranjo (p. 23), Filomena Vasconcelos (p. 28), Isabel Saraiva (p. 36), Mário Bismarck (p. 39), Luandino Vieira (pp. 42-43), Paulo Gaspar (p. 48) e Sousa Pereira (p. 60).
NOS 150 ANOS DO NASCIMENTO DE RAUL BRANDÃO
EM TORNO DO TEATRO DE RAUL BRANDÃO António Braz Teixeira…62
APONTAMENTOS SOBRE HÚMUS DE RAUL BRANDÃO Luís de Barreiros Tavares…66
A COISA NA OBRA DE RAUL BRANDÃO Rodrigo Sobral Cunha…72
NOS 350 ANOS DO FALECIMENTO DE FRANCISCO MANUEL DE MELO
FRANCISCO MANUEL DE MELO: O HOMEM E A OBRA NO CONTEXTO DO BARROCO Maria Luísa de Castro Soares...84
FRANCISCO MANUEL DE MELO E ANTÓNIO VIEIRA Ana Paula Banza…91
FRANCISCO MANUEL DE MELO, MORALISTA António Braz Teixeira…99
FRANCISCO MANUEL DE MELO: CONHECER, SENTIR E «ESCREVIVER» Deana Barroqueiro…103
A METAFÍSICA DA SAUDADE DE FRANCISCO MANUEL DE MELO Manuel Cândido Pimentel…108
AS EXPLORAÇÕES CABALÍSTICAS DE FRANCISCO MANUEL DE MELO Manuel Curado…112
A PINTURA DO PENSAMENTO: ALEGORIA DA HISTÓRIA EM FRANCISCO MANUEL DE MELO Maria Teresa Amado…127
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES
ÂNGELO ALVES J. Pinharanda Gomes…136
ANTÔNIO PAIM José Maurício de Carvalho…143
AZEREDO PERDIGÃO Adriano Moreira…144
CORRÊA DE BARROS José Almeida…150
EÇA DE QUEIRÓS José Lança-Coelho…151
EDUARDO PONDAL Maria Dovigo…153
EUGÉNIO TAVARES Elter Manuel Carlos…158

GUERRA JUNQUEIRO Delmar Domingos de Carvalho…165
JOÃO FERREIRA Renato Epifânio e Luís Lóia…167
MANUEL ANTÓNIO PINA José Acácio Castro…169
MANUEL FERREIRA PATRÍCIO Fernanda Enes e J. Pinharanda Gomes…174
MATEUS DE ANDRADE José Luís Brandão da Luz…181
PINHARANDA GOMES Elísio Gala…190
TORGA E RUBEN A. Paula Oleiro…192
VIEIRA Eduardo Lourenço…196
OUTROS VOOS
A LUSOFONIA COMO UTOPIA CRIADORA Adriano Moreira…200
UTOPIA E MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO: NOS 10 ANOS DA NOVA ÁGUIA António José Borges…204
BREVE CRÓNICA DO CENTRO PORTUGUÊS DE VIGO Bernardino Crego…207
A ITÁLIA NA “GERAÇÃO DE 70”: A “GERAÇÃO DE 70” EM ITÁLIA Brunello Natale De Cusatis…210
LITERATURA E DIPLOMACIA: ALGUMAS REFLEXÕES Cláudio Guimarães dos Santos…218
PROLEGÓMENOS E INTERMITÊNCIAS DIALÓGICAS Joaquim Pinto…222
LUSOFONIA INTERIOR Luís G. Soto…230
A NOVA ÁGUIA E A CULTURA LUSÓFONA Nuno Sotto Mayor Ferrão…235
AUTOBIOGRAFIA 3 Samuel Dimas…241
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…252
APRESENTAÇÃO A ORIENTE DE ESTREMOZ DE UMA REVISTA LITERÁRIA António Telmo…255
DO QUE POSSA SER A FILOSOFIA Delfim Santos…257
BIBLIÁGUIO
PORTUGAL, UM PERFIL HISTÓRICO Renato Epifânio…270
TRAÇOS FUNDAMENTAIS DA CULTURA PORTUGUESA Renato Epifânio e Joaquim Domingues…272
A LITERATURA DE AGOSTINHO DA SILVA António Cândido Franco…276
POEMÁGUIO
PARA AS TINTAS DO JOSÉ RODRIGUES Albano Martins…6
A “ANJA” DE JOSÉ RODRIGUES José Acácio Castro…6
DA ESCULTURA: A JOSE RODRIGUES - IN MEMORIAM António José Queiroz…6
PESSOAS COMO O JOSÉ RODRIGUES Renato Epifânio…6
O ROSTO QUE SONHA: PARA JOSÉ RODRIGUES J. Alberto de Oliveira…7
TU NÃO VIESTE ONTEM Emerenciano…22
CANTANDO-TE Ruben Marks…54
O TEU NOME INSCRITO Rosa Alice Branco…60
PERMITE-TE O IMPOSSÍVEL Isabel Alves de Sousa…60
PROCELA / VIDA E POESIA António José Borges…61
HUMANIDADE Fernando Esteves Pinto…83
ALEKSANDR SOLZHENITSYN Jesus Carlos…135
CARTA AO ALBERTO CORRÊA DE BARROS NA HORA DA PARTIDA José Valle de Figueiredo…151
SONETO – OBIRALOVKA/ INCONSTÂNCIA Jaime Otelo…198
AMADOR, COMO DISSE CAMÕES Manoel Tavares Rodrigues-Leal…250
MORTE EM AZUL Filipa Vera Jardim…251
FLUVIALMENTE Maria Luísa Francisco…279
ESCURIDÃO Delmar Maia Gonçalves…279
MEMORIÁGUIO…280
MAPIÁGUIO…281
ASSINATURAS…281
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284




Apresentação da NOVA ÁGUIA 20

Apresentação da NOVA ÁGUIA 20
18 de Outubro: Palácio da Independência (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas






O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Homenagem ao professor Conceição Silva

(foto recente, na Feira do Livro de Brasília)

Um velho homem novo de cultura

Lúcia Helena Alves de Sá


Ao perto e ao longe, ocorreu-me enunciar a personalidade singular, a extraordinária inteligência acostumada ao pensamento matemático, à agudez mental e à argumentação racional de José Luís Poças Leitão Conceição Silva para que não viva na névoa da memória de um passado histórico que ainda se faz recente tanto para Portugal como para o Brasil.

Conhecer o professor Conceição Silva, como é mais comumente chamado, tem sido um encanto e uma educação para alguns jovens estudantes da Universidade de Brasília que nele redescobriram certa suprema elegância da Vida ávida de saberes genuínos. Envolvente sempre — porque não perdera, apesar de seus 93 anos, a candidez de menino — e livre de qualquer dogmatismo ou orgulho de casta filosófica mantém-se todo ouvido para as indagações sobre a História de Portugal e de seu multifacetado painel cultural que fora aberto para toda Humanidade.

Qual o saber especial, qual a riqueza de ideias que tem ajudado nossos pensamentos a surgir dos embaraços, tornando-nos mais reflexivos e, inesperadamente, mais inventivos e sedentos pelas histórias e livros que guardam nossas origens ancestrais da grei portuguesa. Isto porque Conceição Silva é aquela espécie rara de educador que extrai de uma pessoa algo que a torne renovada, libertando-lhe potencialidades criadoras. E, para inseri-lo na precisão do termo que lhe é mais adequado, ele exerce a “[...] anagogia, o caminho para cima, [...].”.

Detentor de conhecimentos vários, como Historiografia Portuguesa, Arquitetura Popular Portuguesa, Tecnologia de Alimentos, Questão e Ordenamento Agrário e Reforma do Setor Primário da Economia do Brasil; professor de física e matemática, agricultor e economista agrário, engenheiro geógrafo, astrônomo, historiador, escritor, orador, entendedor de teatro e perito em música, violinista... Enfim, um velho homem novo de cultura que “[...] é ledor dos livros, mas é também ledor das coisas, dos fatos e dos homens. Tudo relaciona; integra tudo; não desperdiça uma via ou um momento sequer de conhecimento: [...], e, sobretudo, quando atento a um quadro ou a um poema, o que medita, imagina, intui, detecta.”. Culto de cultura (façamos valer as redundâncias) imensa e vária, Conceição Silva “[...] vê como se movem os homens, e enxerga, como poucos, as forças diabólicas, infernais, que endeusam o Mercado e movimentam a Sociedade Global.”.

Não obstante outros adjetivos, o professor Conceição é o estudioso que interpretou de modo único o enigma dos Painéis que continuam a manifestar-se nas Festas do (Divino) Espírito Santo no Brasil e na Ilha da Madeira, redescobrindo e ressignificando a perspectiva do Império ou do Reino da fraternidade ecumênica pictoricamente inscrito em uma das [...] maiores obras (se não a maior) do acervo [do Museu de Arte Antiga de Lisboa]: o famoso Políptico de São Vicente, também conhecido por Políptico de Nuno Gonçalves, Políptico do Infante Santo, Políptico das Janelas Verdes, ou mais recentemente Políptico da Veneração de São Vicente. As seis tábuas, datadas do século XV, que constituem a magnífica obra-prima, e na qual estão primorosamente pintadas 60 figuras de ar majestoso e hierático, transformaram-se, com o correr dos anos, em verdadeiro ícone artístico-cultural, ideológico e até mesmo político da história portuguesa.

Conceição Silva, também, foi um homem de ação política. Em Portugal, desde os idos anos de 1932, já integrava o Partido Comunista que iria, tempos depois, lutar contra a Ditadura Fascista de Salazar. Foi preso duas vezes: uma prisão ocorreu em 1947, devido a sua participação no Movimento de Unidade Democrática Juvenil, permanecendo por dois meses no Forte de Caxias junto com Mário Soares; a outra, em 1949, sendo, inclusive, proibido de se manifestar verbalmente pela Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE). Após um interregno nas atividades políticas, entre 1959 até o início de 1962, juntou-se ao ataque ao Quartel de Beja, intento fracassado o que o levou a ser preso em 2 de janeiro de 1962 por mais dois meses, no Aljube, em Lisboa, como implicado na tentativa de Golpe. Um papel encontrado no bolso de um dos revolucionários mortos no ataque ao quartel tinha uma lista dos políticos da Oposição de Beja que seriam convocados para a formação de um Governo Provisório presidido por Humberto Delgado. O nome de Conceição Silva era o primeiro da lista.

A partir de 1962 teve a vida complicada por ações da PIDE e por ordem da polícia, em 1964, foi demitido do cargo de professor do Ensino Técnico de Évora. Torna-se, então, de 1964 até os primeiros meses de 1967, Tarefeiro do Centro de Estudos de Economia Agrária da Fundação Calouste Gulbenkian. Mantendo-se ainda em dificuldades devido a ações políticas, Conceição Silva deixa Portugal e emigra para o Brasil e, por intermédio de Agostinho da Silva, chega a Brasília, em 26 de maio de 1967, para trabalhar no Centro Brasileiro de Estudos Portugueses. Permaneceu nesse Centro como Diretor Executivo e Coordenador Substituto até 17 de abril de 1972 quando foi fechado definitivamente pelo governo militar que se instalou no Brasil em 1964.
Depois de ter estado naquele Centro desempenhou atividades várias, todas elas sempre relacionadas a assuntos de agricultura e produção agropecuária no Brasil. Em 17 de abril de 1991, Conceição Silva foi demitido do Ministério da Agricultura pelo Presidente Fernando Collor de Mello e obteve apenas em 1992 a aposentadoria do cargo de professor da Universidade de Brasília, conforme o amparo da anistia concedida pela Constituição Federal do Brasil de 1988 àqueles que foram perseguidos pela Ditadura Militar.

Daquela trajetória militante para o fim da opressão em Portugal e o estabelecimento de uma Reforma Agrária que se conjugasse a novidade tecnológica com a forma de trabalho coletivo comunitário, recorda-se Conceição Silva, em uma de suas conversas livres9, que — em 1975, depois do golpe revolucionário de 25 de abril de 1974 (a Revolução dos Cravos) que derrubou o regime pró-fascista de Marcelo Caetano, herdeiro de Salazar — realizou-se no Alentejo a verdadeira Reforma Agrária que ficou conhecida internacionalmente como um dos acontecimentos políticos mais importantes do século XX. Os trabalhadores rurais ocuparam todos os latifúndios, muito de acordo com a propaganda e esclarecimento político a que se dedicara desde 1945 até 1967.

A ação político-social do professor Conceição Silva só foi reconhecida em 1999 quando, no dia 25 de abril, foi dado o seu nome a uma rua da cidade de Beja, relembrando aos mais velhos e deixando registrado para a geração jovem o seu trabalho como político antifascista que durou 35 anos (de 1932 a 1967) e as suas propostas de alteração do sistema tecnológico da agropecuária no Alentejo. Hoje, pode-se afirmar que a luta pela Reforma Agrária foi um sucesso, porém, só se podendo confirmar que ela não mais existia em Portugal a partir de 1991.

O modelo adotado na prática — organização de cooperativas de trabalhadores rurais ocupando as terras e trabalhando coletiva e comunitariamente por conta e risco próprios — foi aquele que o professor propusera durante anos e que, no Brasil, foi apresentado por ele, sucessivamente, aos Ministros da Reforma Agrária e Desenvolvimento durante toda a sua estadia no Ministério responsável pela reforma e desenvolvimento agrários. Além dessas intervenções, de modo constante, apresentou sugestões e propostas a políticos influentes dos Governos de Fernando Collor de Mello a Fernando Henrique Cardoso, senadores, deputados e outros na liderança política brasileira, sobretudo, da oposição.

Desse modo, Conceição Silva foi uma força formativa atuante que — mesmo sob a incompreensão de pessoas desprovidas de qualquer preparado para a diversificação de culturas e manutenção e geração da biomassa natural— deixou evidente seu esforço modelar de socialização, comunitarismo e cooperativismo dos bens agrários e, para usar o termo político, isento de populismo. Embutida nele, como um projeto utópico, melhor dizendo, tópico porque é de todo realizável, está a conversão — a reforma — do que até hoje se tem elaborado de melhor em relação à exploração agropecuária na qual os inconvenientes característicos na prática da agricultura moderna generalizada nos países de sistema capitalista são evitados.

Cabe a nós, agora, trazer a lume a máxima do pensamento de Conceição Silva que reaviva esperanças e nos põe de imediato com a futura-Idade do Brasil, esta feita para se “[...] festejar o advento da Nova Era de Fraternidade Universal.”, estreitamente vinculado à efetiva reforma agrária que deve se processar para todos indistinta e igualitariamente. Anunciou o professor que

O espírito da “não violência” para qualquer ser vivo no conjunto do meio ambiente natural do qual o Homem faz parte, orientou a elaboração [de sua] proposta de uma nova metodologia para exploração do campo pela atividade agropecuária. [Acredita] sinceramente ser o Povo Brasileiro o “eleito” para começar o processo de transformação cujo primeiro passo consiste na adoção da metodologia proposta. Tudo o resto, tão desejado por todos, virá por acréscimo, de forma natural e pacífica.

Será assim cumprida a “Profecia” expressa na representação da Cena dos Painéis, do Rei D. Afonso V de Portugal, cuja execução artística terminou [a mais de] 515 anos.

Assim, Conceição Silva conseguiu cumprir sua missão de político de opiniões “[...] pouco ortodoxas sobre reforma agrária que tem defendido mas não tem podido executar [...]” por incompetência e ingerência de Governos. Conforme ele próprio,

[...] estava fadado a permanecer no Brasil e continuar, de qualquer maneira cumprindo um destino que poderia ter importância quanto ao estudo e tentativa de resolução dos problemas sociais do povo brasileiro, indubitavelmente relacionados com a reforma do Setor Primário da Economia a qual deveria começar por uma verdadeira Reforma Agrária. [...] agora pouco mais haveria a fazer do que levar à prática tanto quanto possível, experiências e demonstrações da viabilidade e garantia de acesso do sistema proposto. Como norma básica apenas deveríamos lembrar o seguinte:

Com trabalho assalariado, na exploração dos recursos naturais de produção, não há condições de êxito real,portanto: organizar os trabalhadores e criar as condições de se poder trabalhar em regime coletivo-comunitário por conta e risco próprios sem patrões nem assalariados, isto sem preocupações de caráter político partidário.

Esse velho homem novo de cultura, então, permance no Brasil há 42 anos e continua sendo, sobretudo, um educador eivado de espírito de fraternidade ecumênica e espiritual que bem ilumina o pensamento de nossas ideias e nos leva a perceber um mundo outro e novo do qual não fazíamos ideia alguma.