EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão e António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte).

Para o 20º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.


Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas




O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Homenagem ao professor Conceição Silva

(foto recente, na Feira do Livro de Brasília)

Um velho homem novo de cultura

Lúcia Helena Alves de Sá


Ao perto e ao longe, ocorreu-me enunciar a personalidade singular, a extraordinária inteligência acostumada ao pensamento matemático, à agudez mental e à argumentação racional de José Luís Poças Leitão Conceição Silva para que não viva na névoa da memória de um passado histórico que ainda se faz recente tanto para Portugal como para o Brasil.

Conhecer o professor Conceição Silva, como é mais comumente chamado, tem sido um encanto e uma educação para alguns jovens estudantes da Universidade de Brasília que nele redescobriram certa suprema elegância da Vida ávida de saberes genuínos. Envolvente sempre — porque não perdera, apesar de seus 93 anos, a candidez de menino — e livre de qualquer dogmatismo ou orgulho de casta filosófica mantém-se todo ouvido para as indagações sobre a História de Portugal e de seu multifacetado painel cultural que fora aberto para toda Humanidade.

Qual o saber especial, qual a riqueza de ideias que tem ajudado nossos pensamentos a surgir dos embaraços, tornando-nos mais reflexivos e, inesperadamente, mais inventivos e sedentos pelas histórias e livros que guardam nossas origens ancestrais da grei portuguesa. Isto porque Conceição Silva é aquela espécie rara de educador que extrai de uma pessoa algo que a torne renovada, libertando-lhe potencialidades criadoras. E, para inseri-lo na precisão do termo que lhe é mais adequado, ele exerce a “[...] anagogia, o caminho para cima, [...].”.

Detentor de conhecimentos vários, como Historiografia Portuguesa, Arquitetura Popular Portuguesa, Tecnologia de Alimentos, Questão e Ordenamento Agrário e Reforma do Setor Primário da Economia do Brasil; professor de física e matemática, agricultor e economista agrário, engenheiro geógrafo, astrônomo, historiador, escritor, orador, entendedor de teatro e perito em música, violinista... Enfim, um velho homem novo de cultura que “[...] é ledor dos livros, mas é também ledor das coisas, dos fatos e dos homens. Tudo relaciona; integra tudo; não desperdiça uma via ou um momento sequer de conhecimento: [...], e, sobretudo, quando atento a um quadro ou a um poema, o que medita, imagina, intui, detecta.”. Culto de cultura (façamos valer as redundâncias) imensa e vária, Conceição Silva “[...] vê como se movem os homens, e enxerga, como poucos, as forças diabólicas, infernais, que endeusam o Mercado e movimentam a Sociedade Global.”.

Não obstante outros adjetivos, o professor Conceição é o estudioso que interpretou de modo único o enigma dos Painéis que continuam a manifestar-se nas Festas do (Divino) Espírito Santo no Brasil e na Ilha da Madeira, redescobrindo e ressignificando a perspectiva do Império ou do Reino da fraternidade ecumênica pictoricamente inscrito em uma das [...] maiores obras (se não a maior) do acervo [do Museu de Arte Antiga de Lisboa]: o famoso Políptico de São Vicente, também conhecido por Políptico de Nuno Gonçalves, Políptico do Infante Santo, Políptico das Janelas Verdes, ou mais recentemente Políptico da Veneração de São Vicente. As seis tábuas, datadas do século XV, que constituem a magnífica obra-prima, e na qual estão primorosamente pintadas 60 figuras de ar majestoso e hierático, transformaram-se, com o correr dos anos, em verdadeiro ícone artístico-cultural, ideológico e até mesmo político da história portuguesa.

Conceição Silva, também, foi um homem de ação política. Em Portugal, desde os idos anos de 1932, já integrava o Partido Comunista que iria, tempos depois, lutar contra a Ditadura Fascista de Salazar. Foi preso duas vezes: uma prisão ocorreu em 1947, devido a sua participação no Movimento de Unidade Democrática Juvenil, permanecendo por dois meses no Forte de Caxias junto com Mário Soares; a outra, em 1949, sendo, inclusive, proibido de se manifestar verbalmente pela Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE). Após um interregno nas atividades políticas, entre 1959 até o início de 1962, juntou-se ao ataque ao Quartel de Beja, intento fracassado o que o levou a ser preso em 2 de janeiro de 1962 por mais dois meses, no Aljube, em Lisboa, como implicado na tentativa de Golpe. Um papel encontrado no bolso de um dos revolucionários mortos no ataque ao quartel tinha uma lista dos políticos da Oposição de Beja que seriam convocados para a formação de um Governo Provisório presidido por Humberto Delgado. O nome de Conceição Silva era o primeiro da lista.

A partir de 1962 teve a vida complicada por ações da PIDE e por ordem da polícia, em 1964, foi demitido do cargo de professor do Ensino Técnico de Évora. Torna-se, então, de 1964 até os primeiros meses de 1967, Tarefeiro do Centro de Estudos de Economia Agrária da Fundação Calouste Gulbenkian. Mantendo-se ainda em dificuldades devido a ações políticas, Conceição Silva deixa Portugal e emigra para o Brasil e, por intermédio de Agostinho da Silva, chega a Brasília, em 26 de maio de 1967, para trabalhar no Centro Brasileiro de Estudos Portugueses. Permaneceu nesse Centro como Diretor Executivo e Coordenador Substituto até 17 de abril de 1972 quando foi fechado definitivamente pelo governo militar que se instalou no Brasil em 1964.
Depois de ter estado naquele Centro desempenhou atividades várias, todas elas sempre relacionadas a assuntos de agricultura e produção agropecuária no Brasil. Em 17 de abril de 1991, Conceição Silva foi demitido do Ministério da Agricultura pelo Presidente Fernando Collor de Mello e obteve apenas em 1992 a aposentadoria do cargo de professor da Universidade de Brasília, conforme o amparo da anistia concedida pela Constituição Federal do Brasil de 1988 àqueles que foram perseguidos pela Ditadura Militar.

Daquela trajetória militante para o fim da opressão em Portugal e o estabelecimento de uma Reforma Agrária que se conjugasse a novidade tecnológica com a forma de trabalho coletivo comunitário, recorda-se Conceição Silva, em uma de suas conversas livres9, que — em 1975, depois do golpe revolucionário de 25 de abril de 1974 (a Revolução dos Cravos) que derrubou o regime pró-fascista de Marcelo Caetano, herdeiro de Salazar — realizou-se no Alentejo a verdadeira Reforma Agrária que ficou conhecida internacionalmente como um dos acontecimentos políticos mais importantes do século XX. Os trabalhadores rurais ocuparam todos os latifúndios, muito de acordo com a propaganda e esclarecimento político a que se dedicara desde 1945 até 1967.

A ação político-social do professor Conceição Silva só foi reconhecida em 1999 quando, no dia 25 de abril, foi dado o seu nome a uma rua da cidade de Beja, relembrando aos mais velhos e deixando registrado para a geração jovem o seu trabalho como político antifascista que durou 35 anos (de 1932 a 1967) e as suas propostas de alteração do sistema tecnológico da agropecuária no Alentejo. Hoje, pode-se afirmar que a luta pela Reforma Agrária foi um sucesso, porém, só se podendo confirmar que ela não mais existia em Portugal a partir de 1991.

O modelo adotado na prática — organização de cooperativas de trabalhadores rurais ocupando as terras e trabalhando coletiva e comunitariamente por conta e risco próprios — foi aquele que o professor propusera durante anos e que, no Brasil, foi apresentado por ele, sucessivamente, aos Ministros da Reforma Agrária e Desenvolvimento durante toda a sua estadia no Ministério responsável pela reforma e desenvolvimento agrários. Além dessas intervenções, de modo constante, apresentou sugestões e propostas a políticos influentes dos Governos de Fernando Collor de Mello a Fernando Henrique Cardoso, senadores, deputados e outros na liderança política brasileira, sobretudo, da oposição.

Desse modo, Conceição Silva foi uma força formativa atuante que — mesmo sob a incompreensão de pessoas desprovidas de qualquer preparado para a diversificação de culturas e manutenção e geração da biomassa natural— deixou evidente seu esforço modelar de socialização, comunitarismo e cooperativismo dos bens agrários e, para usar o termo político, isento de populismo. Embutida nele, como um projeto utópico, melhor dizendo, tópico porque é de todo realizável, está a conversão — a reforma — do que até hoje se tem elaborado de melhor em relação à exploração agropecuária na qual os inconvenientes característicos na prática da agricultura moderna generalizada nos países de sistema capitalista são evitados.

Cabe a nós, agora, trazer a lume a máxima do pensamento de Conceição Silva que reaviva esperanças e nos põe de imediato com a futura-Idade do Brasil, esta feita para se “[...] festejar o advento da Nova Era de Fraternidade Universal.”, estreitamente vinculado à efetiva reforma agrária que deve se processar para todos indistinta e igualitariamente. Anunciou o professor que

O espírito da “não violência” para qualquer ser vivo no conjunto do meio ambiente natural do qual o Homem faz parte, orientou a elaboração [de sua] proposta de uma nova metodologia para exploração do campo pela atividade agropecuária. [Acredita] sinceramente ser o Povo Brasileiro o “eleito” para começar o processo de transformação cujo primeiro passo consiste na adoção da metodologia proposta. Tudo o resto, tão desejado por todos, virá por acréscimo, de forma natural e pacífica.

Será assim cumprida a “Profecia” expressa na representação da Cena dos Painéis, do Rei D. Afonso V de Portugal, cuja execução artística terminou [a mais de] 515 anos.

Assim, Conceição Silva conseguiu cumprir sua missão de político de opiniões “[...] pouco ortodoxas sobre reforma agrária que tem defendido mas não tem podido executar [...]” por incompetência e ingerência de Governos. Conforme ele próprio,

[...] estava fadado a permanecer no Brasil e continuar, de qualquer maneira cumprindo um destino que poderia ter importância quanto ao estudo e tentativa de resolução dos problemas sociais do povo brasileiro, indubitavelmente relacionados com a reforma do Setor Primário da Economia a qual deveria começar por uma verdadeira Reforma Agrária. [...] agora pouco mais haveria a fazer do que levar à prática tanto quanto possível, experiências e demonstrações da viabilidade e garantia de acesso do sistema proposto. Como norma básica apenas deveríamos lembrar o seguinte:

Com trabalho assalariado, na exploração dos recursos naturais de produção, não há condições de êxito real,portanto: organizar os trabalhadores e criar as condições de se poder trabalhar em regime coletivo-comunitário por conta e risco próprios sem patrões nem assalariados, isto sem preocupações de caráter político partidário.

Esse velho homem novo de cultura, então, permance no Brasil há 42 anos e continua sendo, sobretudo, um educador eivado de espírito de fraternidade ecumênica e espiritual que bem ilumina o pensamento de nossas ideias e nos leva a perceber um mundo outro e novo do qual não fazíamos ideia alguma.