Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".
Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".
Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)
domingo, 3 de julho de 2011
terça-feira, 8 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
O regresso em nós de D. Sebastião ou o fim do sebastianismo

D. Sebastião
Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal, a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
O segundo poema que tem como título “D. Sebastião” é o primeiro dos cinco “Símbolos” que abrem a terceira parte, “O Encoberto”, da Mensagem. Nele o poeta volta a dar voz a um rei que – falando sempre como esse ser “que há” e não “que houve”, ou seja, como imortal dotado da “grandeza” de ser livre da “Sorte” - exorta a que esperem pelo seu regresso aqueles que ainda permanecem escravos da comum condição mortal e humana, reproduzindo a sua submissão ao Destino enquanto cadáveres adiados que procriam. D. Sebastião continua a ser aqui, numa coerência rigorosa, a figura de um rei-Outro, de uma consciência desperta que exorta os que esperam o seu regresso ao mundo dos homens a que não esperem que regresse o mesmo que partiu. Efectivamente, tendo-se convertido No que se sonhou, tendo-se tornado Naquele que se desejou, um ser emancipado do Destino, e sendo isso “eterno”, não pode senão ser “Esse” que regressará. Não faz sentido assim que o esperem com uma expectativa adequada ao que foi e já não é nem poderá nunca mais ser, não faz sentido que o esperem com a predominante esperança sebastianista que sobrevive à possibilidade do regresso físico do rei desaparecido em Alcácer-Quibir e se converte num paradigma da mentalidade portuguesa em épocas de crise e profunda insatisfação, fruto da laicização da expectativa messiânica: a expectativa de que surja um mero líder político, redentor da pátria oprimida e decadente, restaurador da ordem ameaçada e condutor da nação em períodos de crise da identidade e sentido da sua vida histórica. O D. Sebastião de Pessoa exorta a que o esperem, mas não como o Mesmo, antes como Outro, não como mortal, antes como imortal.
D. Sebastião exorta ao fim do sebastianismo comum, recordando que o seu fracasso humano, pessoal e histórico não foi senão o reverso do divino dom de uma oportunidade superior a todo o triunfo bélico e a todo o poder e glória temporais. Caindo “no areal e na hora adversa”, segundo a percepção mundana e exterior, D. Sebastião na verdade acedeu ao “intervalo” da imersão da “alma” “em sonhos que são Deus”, concedido pelo divino aos “seus”, ou seja, aos que o buscam acima de tudo, aos seus “amigos”.
O que são este “intervalo”, esta imersão e estes “sonhos que são Deus”? “Intervalo”, do latim intervallum, é o espaço ou distância entre dois pontos ou lugares, que etimologicamente são duas paliçadas ou trincheiras (vallum), também com o sentido de baluartes, defesas, protecções. O “intervalo”, ainda segundo um dos sentidos da palavra latina, sugere-se como o repouso ou descanso da “alma” em algo que não a pré-ocupa com a construção de limites e muros autoprotectores, o repouso ou descanso da “alma” relativamente a toda a pré-ocupação, mental, emocional ou física, com a separação entre uma coisa e outra, a divisão entre si e o outro, a defesa e o ataque, a dualidade, o medo e a (in)segurança. Livre de tudo isso, é no intervalo disso tudo, na “pausa” (outro sentido do intervallum latino) de toda essa agitação, que se pode abrir e absorver plenamente “em sonhos que são Deus”. Ou seja, no contexto da Mensagem, viver a “loucura” daquela ânsia de “grandeza” trans-mundana e transcensão de toda a “Sorte”/condição mortal que se converte nisso e é já isso mesmo a que ardentemente aspira. O desejo veemente dessa “grandeza” insuperável é já a vibrante e imanente epifania do divino. Como escreve Pessoa no poema “D. Fernando. Infante de Portugal”: “E esta febre de Além, que me consome, / E este querer grandeza são seu nome / Dentro em mim a vibrar”. É isso que torna o sujeito “cheio de Deus” e é isso, e apenas isso, que o pode ressuscitar, já em vida, de ser a “besta sadia” e “cadáver adiado que procria”, vergado pelas indomadas “forças cegas” ao triste contentamento com a vida doméstica e vegetativa. É isso, e apenas isso, que o pode ressuscitar do tempo dos quatro impérios e operar a sua superação no Quinto, a “verdade” pela qual “morreu D. Sebastião” (cf. o poema “O Quinto Império”), que evidentemente nada tem a ver com qualquer domínio mundano, temporal e político. Do mesmo modo que em D. Sebastião o ser “que há” transcende o “que houve”, assim também o Quinto Império transcende o plano onde decorrem e se dissipam os quatro, não podendo propriamente dizer-se que venha temporalmente após eles, enquanto símbolo de uma possibilidade que transcende o tempo e o espaço e que é a própria possibilidade do homem ou da consciência se imortalizar.
A alma de D. Sebastião está pois “imersa / Em sonhos que são Deus”. O que é, todavia, “Deus”? A palavra procede da raiz indo-europeia dei, que significa “tudo o que brilha”, donde vem o sânscrito deva (deus), o iraniano daeva (demónio) e o português dia [1]. Deus indica não um ser ou um ente, algo que exista e possa ser objecto, algo que possa ser visto por alguém, mas antes a própria luz invisível que torna todas as coisas visíveis, em termos inteligíveis ou sensíveis, o ilimitado espaço luminoso que é matriz de todas as possibilidades de manifestação e consciência, o nada inerente ao aparecimento de tudo [2](* cf . também o "nada que é de tudo" em Agostinho da Silva). É aí que verdadeiramente cai, imerge e reside o D. Sebastião transfigurado, que realiza a suma potencialidade de todo o homem. É nisso que se guarda, baluarte sem defesas e assim inexpugnável pela derrota no “areal”, “a morte e a desventura”. É Isso, afinal, que se sonhou e tornou, num sonho/desejo/imaginação criadora (ou desveladora) que converte o amante na coisa amada (cf. Luís de Camões), que realiza isso que imagina, em tudo distinto daquele sonho ilusório e irreal que preside à história do mundo e dos homens e à sucessão dos quatro impérios mundanos. “O” que se sonhou, esse “Deus”/matriz intemporal de toda a manifestação, transcende a consciência temporal e a sua ilusão intrínseca, sendo da ordem do eterno. É só “Esse” que D. Sebastião pode regressar, não o rei humano morto ou desaparecido no areal, ou um seu substituto, mitificado pelo sebastianismo e esperado pelos sebastianistas de todos os tempos, mas o sujeito transfigurado em Deus, dei-ficado, ou seja, iluminado. Desperto e livre, em nada se distingue desse espaço primordial, anterior a todas as coisas e de todas envolvente como a matriz que as possibilita, mas que, na experiência mundana e condicionada, apenas se abre nos inter-valos entre uma coisa e outra, entes, pensamentos, palavras e acções.
Cabe a este respeito recordar um fundamental poema inglês de Pessoa, “The King of Gaps”, “O Rei das fendas/brechas,/aberturas/hiatos/lacunas/vazios/intervalos/abismos”, que muito ajuda a compreender o “intervalo” em que está imerso o D. Sebastião pessoano. Este “rei desconhecido”, senhor de um “estranho Reino dos Vazios” com o qual coincide, figura isso que há “entre” uma “coisa” e outra “coisa”, o intervalar e não entificado espaço vazio que se desvela entre as entidades, o fundo informe onde as formas se recortam e definem, bem designado como “entre-seres”. Se num sentido parece assumir a função de um Mesmo indiferenciado, perante o qual tudo o que nele se delimita surge como as múltiplas formas da sua alteridade, ou se noutro sentido podemos pensá-lo como o Outro enquanto transcende e envolve todas as formas do mesmo, num outro sentido podemos reconhecer-lhe uma transcensão mais radical, tanto do mesmo como do outro, tanto do idêntico como do diferente, na medida em que estes se constituam no âmbito de uma relação mútua entre formas e entidades que só se torna possível por haver esse espaço não-entitativo do “estranho Reino dos Vazios” que permite a constituição e o reconhecimento da relação e do relacionado.
Seja como for, é Nisso que imerge D. Sebastião e é Isso/Esse que anuncia regressar. Este segundo poema dedicado a D. Sebastião confirma a transfiguração do herói épico e trágico, malogrado protagonista histórico, num intemporal avatar espiritual, qual Bodhisattva ou Redentor gnóstico que, desperto e iluminado, se dirige aos homens, pela voz de Pessoa, seu poeta-profeta, ensinando-lhes já a necessidade de transformação da sua esperança quanto ao seu futuro regresso para junto deles, que tudo indica nada ter a ver com uma redenção política e temporal, mas antes com o exercício de um magistério espiritual que não visa senão conduzi-los ao mesmo estado livre e desperto, à mesma libertação da “Sorte”, à mesma ressurreição, dei-ficação ou iluminação.
Esta é uma possibilidade de leitura, que não contradiz outra, mais funda e acalentada pelo próprio Pessoa, em que o regresso de D. Sebastião, como é aliás mais adequado a uma potência espiritual, não é tanto exterior quanto interior, podendo dar-se a qualquer momento em todo o homem que evoque em si o mesmo que D. Sebastião evocou. D. Sebastião, ou seja, uma potência espiritual desperta e livre do espaço e do tempo, regressa efectivamente em todo aquele que deseje a mesma libertação da “Sorte” e se afunde no mesmo “intervalo” divino, na mesma luminosa matriz primordial de todas as coisas [3]. Que isto seja susceptível de uma expressão colectiva, adverte-o também Pessoa, ao dizer do “mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa”: “Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da Nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião” [4].
Regressará, em nós, D. Sebastião, mas, fundamental não o esquecer, Outro, jamais o mesmo. O que implica que, em nós, o mesmo morra e deixe aparecer o Outro.
Assim se desencobre o Encoberto. O que reside entre cada coisa, pensamento, palavra e acção
[1] Cf. Odon Vallet, Petit lexique des mots essentiels, Paris, Albin Michel, 2007, pp.63-64.[2] Cf. Jean-Yves Leloup, “Notre Père”, Paris, Albin Michel, 2007, pp.173-174.[3] É isso que salientamos neste texto decisivo: “A metempsicose. A alma é imortal e, se desaparece, torna a aparecer onde é evocada através da sua forma. Assim, morto D. Sebastião, o corpo, se conseguirmos evocar qualquer cousa em nós que se assemelha à forma do esforço de D. Sebastião, ipso facto o teremos evocado e a alma dela entrará para a forma que evocámos. Por isso quando houverdes criado uma cousa cuja forma seja idêntica à do pensamento de D. Sebastião, D. Sebastião terá regressado, mas não só regressado modo dizendo, mas na sua realidade e presença concreta, posto que não fisicamente pessoal. Um acontecimento é um homem, ou um espírito sob forma impessoal” – Fernando Pessoa, Sobre Portugal. Introdução ao problema nacional, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução e organização de Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1979, p.196.[4] Cf. Ibid., p.255.
domingo, 10 de maio de 2009
Unamuno
Del atlantico mar en las orillas,
desgreñada y descalza una matrona
se sienta al pie de sierra a que corona
triste pinar. Apoya en las rodillas
los codos y en las manos las mejillas;
e clava anciosos ojos de leona
en la puesta del sol. El mar entona
su tragico cantar de maravillas.
Dice de luengas tierras y de azares,
mientras ella sus pies en las espumas
bañando sueña en el fatal imperio
que se le hundió en los tenebrosos mares;
y mira como entre agoreras brumas
se alza don Sebastian, rey del misterio.
O grande estatuário do verso abriu, em castelhano mármore sonoro, o alto relevo mais perfeito e fiel da Pátria portuguesa: a sua paisagem de montes coroados de pinhais, a sua alma saudosa cravando ansiosos olhos de leoa no pôr do sol, e ao longe, entre agoureiras brumas, o corpo sebastianista do seu Sonho.
(...) o autor (...) é o mais profundo e comovido intérprete da Ibéria. (...) Na alma de Unamuno, todas as almas da Península se casaram.»
Teixeira de Pascoaes, Os Poetas Lusíadas
«(...) o espírito, que é palavra, que é verbo, que é tradição oral, vivifica; mas a letra, que é o livro, mata. (...) a alma respira com palavras.
(...) Só aquele que vive na história é que quer viver também na carne, é que quer enraizar a imortalidade da alma na ressurreição da carne.
Miguel de Unamuno, A Agonia do Cristianismo
sexta-feira, 24 de abril de 2009
A Seiva de Pascoaes, de Portugal
(Google - Rio Douro)A Água é a Seiva da Serra
Tomai, e bebei! Este é o sangue de Portugal, o sangue da eterna nova Lusitânia! A Nossa Seiva de Sempre.
«Mas o Verbo divino, ao condensar-se
Em pobre corpo humano,
Não encarnou de todo, e nele vive.
Por mais que eu fale de outras pessoas, de viagens, das árvores (...) em última análise, o assunto da minha conversa sou eu próprio.
(...) o seu [do Homem] destino é interpretar e definir o Indefinido, talhar o informe, concluir, em outro plano, o mundo esboçado neste:
Concluir a imperfeita Criação
Que Deus iniciou.
A poesia espontânea só obedece ao ritmo da sua expansão natural. É instintiva. Despreza os modelos consagrados, porque ela contém a virtude de criar as leis que a regulam. É como as seivas das árvores, que trazem, no seio, quando afloram nas ramagens, o desenho futuro das folhas e das flores.
(...) a Dor, síntese do Amor e da Morte, é a própria essência da Poesia lusitana. As lágrimas duma Pátria caem sempre no coração dos seus poetas, para que eles as redimam nos seus cantos. Todo o canto é redentor. (...)
Eram tudo memórias... Sim... tudo é lembrança para o amor que deseja oculta a incerteza do futuro na certeza do que passou (...).
Há palavras que são estrelas. (...)
In principio erat verbum... e o Verbo é a Saudade. (...)
As cousas e os seres vivem mais na nossa memória que diante dos nossos olhos. Existir não é pensar: é ser lembrado. E para ser lembrado, é preciso amar. Só o amor cria a substância imperecível em que a nossa imagem se desenha.
D. Sebastião é o Desejado e o Encoberto ou antes o desejo encoberto da alma pátria, essa nuvem indecisa (...) o autor de D. Sebastião é o Povo, o poeta do Cancioneiro. O autor do D. Quixote é um homem. (...)
D. Sebastião é uma vaga existência divinizada e absorta no seu remoto encantamento. A sua acção pessoal não é presente, como no D. Quixote, mas futura, porque ele há-de vir numa incerta manhã de nevoeiro, e a esperança é o áureo fulgor da sua coroa...
D. Quixote é. D. Sebastião há-de ser. (...)
O português é indeciso e inquieto, como as nuvens em que as suas montanhas se continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam... É uma tendência do Passado para o Futuro, uma ansiedade sobre o Além, uma ave sentimental nas garras da Tentação, descrevendo um voo incerto e doloroso. (...) Alma que foge de ser corpo, insatisfeita e perdida numa existência vaga, sem limites. Tem um fundo de feminina ternura. A sua sombra é de mulher no pressentimento de um filho esperado em vão. É uma lembrança que chora, grávida de misteriosas esperanças: a eterna promessa de uma dádiva, um eterno crepúsculo amanhecente...
O Verbo, feito homem, espera a hora do seu regresso a Portugal...
Não regressou ainda, mas já sabemos o que ele sente, pensa e quer.
A alma portuguesa tinha de encarnar num ser individual e transcendente, a fim de encontrar o instrumento da sua actividade patriótica e religiosa.
Foi por isso que D. Sebastião, aplaudido por Camões, caminhou, aureolado de sonho, para a morte. E foi por isso também que se criou a Lenda, que é mãe de personagens vivos e não de simples e isolados sentimentos.
- A serpente que outrora se enroscou
Na árvore do Paraíso, seduzindo
Nossos Primeiros Pais.
Nem Hércules, nem o Anjo Gabriel,
Nem S. Jorge puderam destruí-la.
Foi ela que traçou, na escuridão,
Com a ponta da cauda traiçoeira,
As órbitas dos mundos.
Era a cobra o sinal do seu Império
A cobra e o riso eterno dos seus lábios:
Riso que anima as plantas e as estrelas
E que percorre o corpo humano - e é sangue!
Aqui, no Inferno, neste sítio lúgubre,
As almas das criaturas são imagens
Vivas de corpos mortos e desfeitos,
(...)
A criatura expia o velho crime
De se ter entregado às mãos da Morte,
Havendo sido dada à luz da Vida.
Eis o crime sem fim, primordial...
Aqui, no País do Drama, nossos Pais
Desde a noite dos tempos têm vivido
A vida demoníaca e nocturna...
Quem de nada se lembra nada espera.
Aqui, no País da Sombra,
Da Saudade da Vida, as criaturas
Sofrem a dor da sua imperfeição...
... e até parece
Haver turvado a misteriosa fonte
da Luz originária...
Mas a alma ressuscitará sem prejuízo do corpo. Há entre ele e ela um mal-entendido, que necessita de findar.
Cada alma tem seu medo...
O seu segredo
Que Deus lhe disse, ao nascer,
Para ela o não dizer...
É a Palavra misteriosa
Que faria eterna luz,
Na escuridão da Natura.
Mas nem a disse Jesus,
Nem Sibila fabulosa...
E só baixinho murmura,
Ou na lágrima primeira
Ou derradeira...
Di-la o primeiro vagido
E o derradeiro gemido...
Emana um fumo d'alma o crepitar do lume...
O incêndio duma flor dá a cinza do perfume...
A luz envolve a chama e a chama envolve a lenha...
Sensível musgo cobre uma insensível penha,
E sobre o musgo paira o aroma espiritual...
Mistério... Num aroma a pedra é imaterial!
E todavia são a mesma vida pura
O claro aroma, o verde musgo, a penha dura!...
A terra é a mãe da Alma, a terra deu à luz
O perfume da flor e a alma de Jesus!...
No Poeta comovido há a loucura do vento;
A nuvem é um delírio, a água um sentimento...
A fonte que através dum areal se perde,
As suas margens vai vestindo de cor verde,
Lançando nessa terra estéril, ressequida,
Num beijo sempiterno, a semente da Vida...
Todos os robles dão, ardendo, a mesma luz...
Um tronco sobre um lar é um Cristo numa cruz!
E é calor que agasalha e facho que alumia
O que é em Cristo amor, piedade, harmonia...
E tudo o que é no poeta emoção e delírio
É luz no sol, canto nas aves, cor no lírio!...
E tudo o que é em nós Bondade é num rochedo
Viçoso musgo e santa sombra no arvoredo!...
E, enquanto dou a um pobre um bocado de pão,
O sol enche a luz o saco da amplidão!
E, qual Samaritana, a nuvem religiosa
Dá de beber a toda a terra sequiosa...
E enquanto eu sou a morte, ó velho e frio inverno,
Perante o sol - Jesus, és um Lázaro eterno...
E as verdes ervas são versículos sagrados
Que os ribeiros e o sol escrevem sobre os prados...
E uma pedra contém a história verdadeira
Do Génesis, da Luz e da Mulher primeira!...
E a mais estéril terra ainda recorda e chora
O tempo em que beijou teus lábios d'oiro, aurora.
Pela primeira vez, ardente de paixão!...
E nos olhos da terra ainda fulgura a imagem
Através da penumbra infinda do Mistério,
Até desabrochar num coração etéreo!
Há nos olhos da terra a imagem desse olhar
Que a saudade transforma, às vezes, em luar...
Deus disse à luz do sol o segredo da Vida.
Desvendemos a Luz amada e preferida!...
Vejamos a razão suprema da existência
E o que ela tem d'amor, de espírito e de essência,
O que nela é real, eterno e inconfundível...
Que o nosso olhar penetre o mundo do invisível,
Os páramos do Sonho, a amplidão da Quimera,
Onde já se descobre a etérea Primavera, (...)
A nova Criação que está para surgir
Do caos do Amanhã, do beijo do Porvir!...
E a nova Vida, numa onda a resplende,
Aflora à superfície ideal do novo ser.
Um novo Apolo vai tocar a nova Lira...
E na água que se bebe e no ar que se respira,
Nas nuvens onde dorme a clara luz dos céus,
Palpita um novo amor, murmura um novo Deus...
Vemos Deus pelos olhos da Saudade
Quero viver a Vida na Morte; beijá-las num só beijo...
E vejo erguer-se o rio cristalino,
Transfigurado em sonho, em nevoeiro,
E faz-se eterno espírito divino
Aquele corpo de água prisioneiro.
Ó láctea emanação! Ó névoa densa!
Ó água aberta em asa! Ó água escura!
Água dos fundos pégos no ar suspensa.
Vestida como um Anjo, de brancura.»
Teixeira de Pascoaes, Cânticos, O Homem Universal, Os Poetas Lusíadas, Regresso ao Paraíso, Terra Proibida, Para a Luz, Verbo Escuro, A Arte de Ser Português
sábado, 30 de agosto de 2008
Fragmento (II)

Se Portugal é caminho e antevisão de Império, então a mais alta escolha dos portugueses é permitir à alma ser lugar da realização de Portugal, serviço nocturno do seu Rei Encoberto; mas, desses, nos que se saibam chamados pelo Rei à Gesta e ao Gesto, naqueles a quem não bastem a contemplação do labirinto ou os melancólicos cantos da derrota, o mais alto serviço é o que clandestinamente vise o cumprimento da Estratégia Imperial.
Mistério da Espada, que só é força bruta se não souber elevar-se a Nau.
Em tudo, deixa-te guiar pela Noite: ela sabe que as luzes são a última protecção da Treva. E a tua espada fará o Sol.
[fotografia: "Condestável", de Lima de Freitas]
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Fragmento

Essencial é entender a imensa diferença (a abissal diferença) entre buscar a resposta às questões suscitadas por Portugal – ou, como agora se diz, pela portugalidade – e buscar a Pergunta a que Portugal é a resposta.
Podia também falar da diferença que há entre a espada e a barca, ou da que há entre a Armadura e a Carne; chamar a atenção para a diferença entre o Nada de que tudo brota e o Nada em que tudo se engolfa. Mas antes quero que medites na inimizade que há entre a Noite e a Treva.
Em todas as coisas, mistério da Elevação. A todo o tempo, o Pórtico.
[fotografia: O Encoberto, de Lima de Freitas]
quinta-feira, 26 de junho de 2008
ARIANO SUASSUNA


Escreve com pena de pato, Mestre,
Toma o teu tempo, à luz da vela,
Solitário para deus, besta e fêmea,
Porque o que é sagrado demanda
A sombra e pequena é a luz
Que lhe basta. Rasguem-se as paredes
Caiadas, sudário de pedra de um dia
Ter estado em alma lusitana, lânguida
E muda, no teu Nordeste de fome e lume –
Rasguem-se e afundemo-nos na planície
Árida, no espelho do longe contínuo.
Toda a minha juventude, Mestre,
Ao teu serviço darei, sangue e carne,
Alma e olhos – porque eu também demando
A sombra, a luz exígua, última, única
E nem deus, nem besta, nem fêmea
Matam a minha fome – porque faminto
Eu sou também, da Pedra do Reino
E do rubro puro e alto do Sangral!
Lord of Erewhon,
9 de Setembro de 2007
terça-feira, 17 de junho de 2008
A SÍNDROMA DE ALCÁCER-QUIBIR
O malfadado costume dos Portugueses se deixarem derrotar por vencidos… só pode ser uma predisposição emocional à tragédia. Deste a fundação da nossa Pátria que recusamos a mansidão – e optamos por uma realidade que nos sangre!
Somos Portugueses, um Povo de povos, em excelência nobre e altivo. As épocas de inércia, o quase, o previsível, sempre nos roubaram o ânimo; no mais fundo de nós nos recolhemos, no que nos resta de puro, de sagrado, de espírito e força, para nos erguermos – como o velame fustigado e valente de uma caravela! – e inventarmos um Novo Mundo. Assim temos fintado as leis da História e construímos a singularidade do nosso carácter colectivo e esta nação atípica.
O que a ânsia do neófito sonha que regresse em carne, nunca nos abandonou em Presença, companhia do Amigo, Mar de Levante para o audaz, Luz dentro de todos os nevoeiros, do mundo, dos homens e do tempo.
Bem hajam, todos os que são o meu sustento, que o meu coração ofertado ao Sacrifício entendem e sabem que a minha alma Serve e em nada a devora a soberba. Somente a Civilização Portuguesa é o meu Fogo íntimo – a Fraternidade de todos os lusófonos e uma Casa de Alegria para todos os que imploram a justiça, o respeito, a igualdade e o pão.
Um nome nada importa – se os lábios dizem: «Portugal».
Klatuu Niktos
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Pessoa, o filósofo do “outro” de nós mesmos
Se há poema onde nos é revelado esse destino, esse poema é a Mensagem. Neste poema, neste conjunto de poemas, triádica, perfeitamente estruturado, começa o poeta por nos dizer: "A Europa jaz,(...)/ De Oriente a Occidente jaz, fitando,/ (...)/ Olhos gregos, lembrando.// Fita, com olhar sphyngico e fatal,/ O Occidente, futuro do passado.// O rosto com que fita é Portugal.”[1]. A voz que assim se faz ouvir, se é que nós na verdade a ouvimos, é, muito mais do que a voz do poeta, a voz do próprio tempo. Diz-nos ela que a Europa jaz, reduzida que está ao que resta das ruínas gregas, à nostalgia de um “paraíso perdido”, como que ancorada no impasse de um “regresso eternamente impossível”. Para a libertar desse impasse, há um rosto, um rosto que fita, um rosto, um espelho no qual ela se fita: Portugal. Eis, com efeito, nas palavras de Pessoa, o destino de Portugal, desde logo, da “arte portuguesa”: “Arte portuguesa será aquela em que a Europa – entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro – se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações – a Grécia passada e o Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras.”[2]. Ainda nas palavras do próprio Pessoa, é esse, efectivamente, o destino da nossa nação – ser não só ela “mas também todas as outras” –, o nosso próprio destino – “sermos tudo”: “Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundido-os portuguesmente no Paganismo Superior. Não queiramos que fora de nós fique um único Deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa!”[3].
Toda a nossa história foi pois assim, nessa medida, uma demorada preparação para a concretização desse destino. Desde Viriato, aquele cujo ser “é como aquella fria Luz que precede a madrugada”[4], que todos os seus personagens foram os intérpretes dessa obra que, desde sempre, beneficiou da “assistência divina” – eis, pelo menos, o que Pessoa expressamente nos assegura, logo a abrir a segunda parte da sua Mensagem: “Deus quere, o homem sonha, a obra nasce./ Deus quiz que a terra fosse toda uma,/ Que o mar unisse, já não separasse./ Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,// E a orla branca foi de ilha em continente,/ Clareou, correndo, até ao fim do mundo,/ E viu-se a terra inteira, de repente,/ Surgir, redonda, do azul profundo (…).”[5]. Essa obra assim descrita não foi, contudo, como muitos pensam, nem a nossa “idade de ouro” nem, muito menos, o nosso “último passo”. Neste equívoco, neste recorrente equívoco, cada vez mais enraizado, reside, aliás, o maior entrave à concretização desse nosso destino. Paradoxalmente, as “Descobertas” significaram o nosso próprio “Encobrimento”. E por isso esperamos ainda pelo regresso do “Encoberto”, aquele que, ainda nas palavras do poeta, partiu na “última nau”: “Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,/ (...)/ Foi-se a última nau (...)// Não voltou mais. A que ilha indescoberta/ Aportou? Voltará da sorte incerta/ Que teve? (...)// Ah, quanto mais ao povo a alma falta,/ Mais a minha alma atlantica se exalta/ E entorna,/ E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,/ Vejo entre a cerração teu vulto baço/ Que torna.// Não sei a hora, mas sei que ha a hora (...).”[6]. O regresso de “D. Sebastião” não significa, contudo, senão o regresso de nós mesmos a nós próprios. Somos nós – é o Homem – o verdadeiro “Encoberto”. Recordemos aqui, a este respeito, as já célebres palavras de Sampaio Bruno, escritas em jeito de conclusão do seu O Encoberto: “Dissipe-se a nuvem que encobre o herói. O herói não é um príncipe predestinado. Não é mesmo um povo. É o Homem.”.
A viagem, a verdadeira viagem, está pois ainda por se iniciar. Ela só agora realmente se inicia – como nos diz o poema, já na sua terceira parte: “Grécia, Roma, Cristandade,/ Europa – os quatro se vão (...).”[7]. Falta, pois, cumprir Portugal, falta, assim, realizar o “Quinto Império” – o Império Outro, Outro porque realmente espiritual. E por isso ele não será apenas mais um Império, apenas mais um “Cadáver adiado”, um “Cadáver mandando”, como o são todos os Impérios não espirituais – nas palavras de Pessoa: “Todo o Império que não é baseado no Império Espiritual é uma Morte de Pé, um Cadáver mandando.”[8]. Para isso, contudo – para que o “Quinto Império” não seja apenas mais um Império, mas sim o Império Outro –, importa que Portugal se negue enquanto tal. Só assim ele se cumprirá. Só, com efeito, negando-se enquanto tal, só, efectivamente, outrando-se, poderá Portugal ser esse outro, esse “rosto” em que todos “se mirem e se reconheçam sem se lembrarem do espelho”. Persistindo em ser, Portugal nada será. Importa pois assim que ele deixe de ser – nas igualmente já célebres palavras de Agostinho da Silva: “Só então Portugal, por já não ser, será.”. Eis, em suma, o destino que Pessoa nos traça, destino esse em tudo idêntico ao seu próprio destino enquanto pessoa. Como aqui vimos, também Pessoa, com efeito, enquanto pessoa, se procurou cumprir precisamente desse modo: na negação, na outração de si mesmo, assim procurado “ser todos”, assim procurando “ser tudo de todas as maneiras”. Dirão alguns que, por isso, o “Quinto Império” não passa de um “sonho”, de mais uma das muitas “projecções pessoanas”. Pessoa, ele próprio, reconhece-o, porém. Daí, aliás, o seu repto: “Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.”[9]. Por isso mesmo que “irreal”, eis a “verdade” deste nosso “sonho”, deste nosso destino.
[1] Obras, vol. I, p. 1145.
[2] Obras, vol. III, p. 702.
[3] Ibid., pp. 703-704.
[4] Cf. Obras, vol. I, p. 1147.
[5] Ibid., p. 1154.
[6] Ibid., p. 1160.
[7] Ibid., p. 1162.
[8] Obras, vol. III, p. 682.
[9] Ibid., p. 710.
P.S.: Excerto de «Fernando Pessoa, o filósofo do “outro”: do pensar, de todo o ser, de si próprio, de nós mesmos», ensaio, da minha autoria, publicado na História do Pensamento Filosófico Português, direcção de Pedro Calafate, Lisboa, Caminho/ Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2000, vol. V, tomo 1, pp. 153-166


