A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Feira do Livro Esotérico - 11, 12 e 13 Dez em Sintra

FEIRA DO LIVRO ESOTÉRICO
11, 12 E 13 DEZEMBRO - SINTRA

Associação Cultural Art of Living
Largo Ferreira de Castro, nº 3 r/c (No centro da Vila de Sintra, junto do bar Fonte da Pipa)

HORÁRIO
Sexta-feira, 11 - 18h-23h
Sábado, 12 - 11h-20h
Domingo, 13 - 11h-20h

PALESTRAS
Sexta-feira, 21h30
"MAÇONARIA E CRISTIANISMO"
por Luís de Matos

Sábado, 17h
"O ENCONTRO DE FERNANDO PESSOA E ALEISTER CROWLEY"
por André Falcão

Domingo, 17h
"O SIMBOLISMO NA FLAUTA MÁGICA DE MOZART"
por Paulo Brandão

Entrada Livre

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

DIÁRIO DE MOEMA, VI


Diógenes, Jean-Léon Gérôme, 1860

2006, 2 de Abril.
«(…)Sou o silêncio incompreensível
Sou o proferir do meu nome.»
In Trovão, Mente Perfeita.

Deitei-me na noite, silenciei o mundo em meu redor, calei todas as vozes e esqueci-me de mim. Elevei-me até às estrelas. Escolhi uma, ao acaso, e fundi-me na sua energia.
Um dia, o silêncio dirá o meu nome.

~Ü£w^’€>




Entre os moinhos, a escuridão era cortada por uma fogueira, a alguns metros da autocaravana de Moema. A luz, não se vislumbrava senão da ponte, que, por aquelas horas, era pouco concorrida. As gentes da aldeia estavam à roda da televisão ou entretidas em conversas de café.
O Homem-com-um-tique-na-perna passeava-se pelas ruas, de olhos postos no chão, a imaginar as vidas para lá da luz das janelas. Procurava um canto que lhe deixasse olhar o casario. Ia partir no dia seguinte. Queria levar um pouco da tranquilidade que por ali se escondia e dela fazer segredo, para não a perturbar.
Sentou-se na outra margem e deixou a noite tomá-lo.
Lá em baixo, o brilho da fogueira atraiu a sua atenção. Desejou a presença daquele calor. Sentia-se frio na alma e estranho no mundo.
Levantou-se, saudou as estrelas e partiu.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Dia em que a Terra Parou


Conversa Cósmica entre Saturno e Júpiter (Sons capturados pela NASA)

Para o alto, ó deus, para o alto! Removam do céu todos esses espectros, figuras, imagens, pinturas – histórias da nossa avareza, das nossas luxúrias, roubos, ódios, desprezos e vergonhas. Que essa tenebrosa e escura noite dos nossos erros se desvaneça; já nos convida a alvorada de um novo dia de justiça. Coloquemo-nos de maneira que o sol nascente não nos descubra a imundície. É necessário purificar-nos e fazer-nos belos... Coloquemo-nos, dizia eu, primeiro no céu intelectual que temos em nosso interior, e depois nesse céu sensível e corpóreo, que se nos apresenta aos olhos. Retiremos do céu da inteligência o URSO da Deformidade, a FLECHA da Difamação, o CAVALO da Leviandade, o CÃO da Murmuração, e o CÃOZINHO da Adulação. Desterremos o HÉRCULES da Violência, a LIRA da Conspiração, o TRIÂNGULO da Impiedade, o BOIEIRO da Inconstância, o CEFEU da Crueldade. Longe de nós o DRAGÃO da Inveja e o CISNE da Imprudência, a CASSIOPÉIA da Vaidade, a ANDRÓMEDA da Preguiça, o PERSEU da Vã Ansiedade. Escorracemos o OFIÚCO do Maldizer, a ÁGUIA da Arrogância, o DELFIM da Lascívia, o CAVALO da Impaciência, a HIDRA da Concupiscência. Apartemo-nos da BALEIA da Gula, do ÓRION da Ferocidade, do RIO das Superfluidades, da GÓRGONA da Ignorância, do COELHO da Timidez. Deixemos de trazer no peito o ARGO da Avareza, a TAÇA da Insobriedade, a BALANÇA da Inquiedade, o CÂNCER da Lentidão, o CAPRICÓRNIO da Simulação. Que não se aproxime de nós o ESCORPIÃO da Fraude, nem o CENTAURO da Afeição Animal, o ALTAR da Superstição, a COROA do Orgulho, o PEIXE do Silêncio Indigno. Possam os GÉMEOS da Indecente Familiaridade cair com eles, e o BOI da preocupação com as Coisas Mesquinhas, o CARNEIRO da Desconsideração, o LEÃO da Tirania, o AQUÁRIO da Devassidão, a VIRGEM da Conversação Infrutífera e o SAGITÁRIO da Maledicência.
Se assim purgarmos as nossas habitações, ó deuses, se assim renovarmos o nosso céu, as constelações e influências serão novas, as impressões e as sortes serão novas, pois todas as coisas dependem desse mundo superior...

Spacio della Bestia Trionfante, Giordano Bruno, 1584

terça-feira, 15 de setembro de 2009

DIÁRIO DE MOEMA, V

Christian Coigny, Alekan, s/d


2006, 30 de Março.

Entrei no rio com o vagar do Sol que nasce.
As águas gélidas foram tomando cada centímetro do meu corpo, como quem saúda um amigo esperado.
Deitei-me ao colo do rio e o peso tornou-se leve, e as vozes líquidas. Na eternidade daquele instante senti-me um elo da grande corrente.
Pousada no peito, a minha concha contava-me histórias de errantes que encontraram o caminho de casa. Uns ficaram, outros voltaram a partir. Em todos se acendeu a chama da pertença e a certeza de uma candeia que nunca se apaga.

~Ü£w^’€>



O final da tarde solarenga encheu as ruas e a esplanada. O empregado de tez morena vagueava entre copos e pires de caracóis. Na mesa do canto, Moema escrevinhava num pequeno caderno de capa preta.
Sem aviso, explodiu o sorriso desdentado do Poeta a salpicar versos por quem não o ouvia. O vizinho de mesa de Moema, o Homem-com-um-tique-na-perna, convidou-o a juntar-se-lhe. Num encontro de loucos, ficaram frente a frente, a partilhar uma linguagem desconhecida.
Traga uma cerveja aqui para este amigo.
Por entre tragos de cerveja soltavam-se grandes nomes da literatura. O Poeta, declamando Baudelaire, como o maior de entre os maiores. O Homem-com-um-tique-na-perna sorria e soltava a voz noutro poema.
Um dos copos continuava cheio.
Os olhos azul-água, do velho Poeta, estavam turvos, da embriaguês de um único trago.
Vá bebendo, amigo, se quiser eu peço outra, que essa já está morta.
O Poeta semicerrou o olhar e, num doce rosnar, desabafou.
Como é que eu posso beber mais um gole, se eu já sou um gole, no copo vazio que é a minha vida?!
Olharam-se e deixaram o silêncio tomar conta do tempo.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

UMA MEDITAÇÃO DE FERNANDO PESSOA


Foto minha, Fernando Pessoa, Parque dos Poetas, Oeiras, 2007



Iniciação

Há muitas cabalas, e é difícil acreditar que não possamos atingir a união com Deus, seja o que for que se entenda por isso, a não ser que estejamos familiarizados com o alfabeto hebraico.

Há Erros do Caminho, Erros da Estalagem e Erros da Caverna. São Erros do Caminho aqueles em que o próprio caminho é tomado pela sua finalidade. Erros da Estalagem são aqueles em que metade do caminho é tomado pelo todo. São Erros da Caverna aqueles em que a caverna, que é a base do Castelo, é tomada pelo próprio Castelo. (é tomada pela entrada do Castelo).

Estes erros são comuns a todos os caminhos e o da Gnose não está mais isento deles do que os caminhos místicos e mágicos.

Posso passar sem o ascetismo, mas não sem a verdade, nem creio que Deus se me não manifeste a não ser que eu fique sentado, imóvel, durante cinco horas, ou que seja capaz de respirar naturalmente por qualquer das narinas à escolha.

O facto, porém, é que, qualquer que seja o caminho que tomemos, não o devemos fazer antes de termos percorrido os graus preparatórios, os graus de neófito. O Misticismo procura transcender o intelecto (pela intuição), a Magia aspira a transcender o intelecto pelo poder; a Gnose, a transcender o intelecto por um intelecto superior. Mas para transcender uma coisa devidamente, é preciso primeiro passar por essa coisa. A vantagem do caminho gnóstico é que há menos tentação de alcançar o intelecto superior sem passar pelo inferior – uma vez que ambos são intelecto e há uma diferença de quantidade entre um e outro – do que nas vias mística e mágica, onde há uma diferença de qualidade, não de quantidade, entre emoção e intelecto, entre a vontade e o intelecto.


(Esp. 54A-51)



Initiation (original em Inglês), tradução de Maria Helena Rodrigues de Carvalho, in Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética, Fragmentos do espólio, Y. K. Centeno, Editorial Presença, Lisboa, 1985, pp. 59, 60.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

DIÁRIO DE MOEMA, IV

Marduque, Buçaco, 2003


2006, 25 de Março.

Hoje estive a tomar um café na esplanada da aldeia.
Uma réstia de sol ajudou a afastar o terror que me assombra de noite. Continuo sem conseguir ler as palavras que de vermelho se escrevem e apagam perante o meu olhar.
O verde viscoso que escorre pelas paredes enche-me de pânico. São verdes os montes que me rodeiam, plenos de promessas de vida, mas são também verdes esses outros pântanos de águas podres, estagnadas. A cor do broto que desponta é a do lodo de que fujo.
A verdura que luta com o verde!
O vermelho que joga comigo!

~Ü£w^’€>




Sentada na esplanada, resguardada do vento que soprava, Moema segurava na mão um livro esquecido. Os seus olhos, fixos na mesma página, vagueavam por outras paragens, indiferentes ao movimento do mercado.
As mulheres entravam e saiam carregadas de sacos de fruta, verduras e peixe. O muge era muito procurado, frito ou no forno, era um verdadeiro petisco que poucos dispensavam.
Os homens, amontoados em pequenos grupos, enchiam o largo de conversas cantadas. Davam uma vista de olhos pelo jornal desportivo, faziam-se prognósticos para os jogos de futebol…olhavam Moema pelo canto do olho.
Bonita moça!
A mais não se atreviam, pelas mulheres que podiam estar alerta, pelo ar sério e meio ausente com que ela se recostava na cadeira desconfortável.
O empregado, de tez morena, trouxe o café da manhã. Entre o tom educado, com que indica o melhor pão caseiro, dá um relance pela capa do livro, marcado com o indicador.
É de poucas falas. E pelo que lê também não chego lá!
Entre um encolher de ombros e um ligeiro aceno de cabeça, pegou na bandeja, sem novidades para contar.
Lá dentro, o vinho tinto servia-se a copo, entre nódoas marcadas no balcão de mármore gasto pelo tempo.

domingo, 31 de agosto de 2008

DIÁRIO DE MOEMA, III

Salamonde, Vieira do Minho, 2008


2006, 22 de Março.

Encontrei um pequeno lugar guardado entre montes.
Sei-me observada pelos penedos, mas sinto a sua indiferença. Para eles, o tempo tem outra contagem. Não passo de um pestanejar da eternidade.
Parei junto ao rio. Fiquei a ver a viagem da corrente que passa sem saber para onde vai. Tive vontade de lhe gritar o seu destino. Ouvi os penedos e fiquei em silêncio.
Tenho a resposta, mas as águas não fizeram a pergunta.

~Ü£w^’€>



O rio corria na verdura do vale, ao lado do casario antigo. Era pequena a aldeia, feita de gente simples e de claras verdades – o dia segue a noite e não há mal que sempre dure. As reflexões profundas eram deixadas para o Poeta, o louco, que falava de coisas que eles não entendiam, mas que davam um certo colorido às conversas de rua. Já estavam habituados a frases sem nexo e longos ditos, a que ele chamava poesia. Sorriam e acenavam a cabeça, pois se nem sequer rimava…
Novidade, foi a chegada de Moema, uma mulher sozinha, a viver numa casa andante.
Não é coisa normal por estas paragens.
Entre o aviar do bacalhau e o contar das notas - que nem parecem nossas - comentava-se à boca cheia.
Anda fugida pela certa. Não há-de ter feito coisa boa.
No café, espreitavam a porta, não fosse ela aparecer. Tinham dado pela sua chegada ao amanhecer, à hora da bica, estava a sala cheia. Tempo era coisa que por ali não faltava. O destino já tinha marcado a hora para o jardim das tabuletas, e o serviço não fugia.
À beira-rio, Moema estava sentada, a abraçar as pernas, de olhar perdido na paisagem. Tinha ido ali parar sem saber bem como. Deixava-se levar pelo rumo do vento ou pelo cheiro da água. Estava cansada de conduzir. Queria descansar os olhos do alcatrão sempre igual, do barulho dos carros, do torpor do volante.
Os chocalhos do rebanho que se aproximava, trouxeram um sorriso ao seu olhar.
Ia ficar ali, por uns dias.

sábado, 30 de agosto de 2008

Fragmento (II)



Se Portugal é caminho e antevisão de Império, então a mais alta escolha dos portugueses é permitir à alma ser lugar da realização de Portugal, serviço nocturno do seu Rei Encoberto; mas, desses, nos que se saibam chamados pelo Rei à Gesta e ao Gesto, naqueles a quem não bastem a contemplação do labirinto ou os melancólicos cantos da derrota, o mais alto serviço é o que clandestinamente vise o cumprimento da Estratégia Imperial.

Mistério da Espada, que só é força bruta se não souber elevar-se a Nau.

Em tudo, deixa-te guiar pela Noite: ela sabe que as luzes são a última protecção da Treva. E a tua espada fará o Sol.

[fotografia: "Condestável", de Lima de Freitas]

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

DIÁRIO DE MOEMA,II

Pedro Tildes, Serra da Estrela, 2007


2006, 17 de Março.


Hoje encontrei o lugar ideal, um campo verde pincelado de vermelho. Tinha a certeza que o reconheceria assim que o visse, sempre esteve lá à minha espera.
Tirei uma foto. Um destes dias tenho que organizar o álbum da minha viagem.
Andei, até onde a estrada não me via, e finalmente mudei de nome. Recuso ser nomeada como aquela que já não existe. Reinventei-me, num abraço ao universo, e conquistei a minha identidade.
Moema é o meu nome.
Moema… Moema… Moema…
Gritei, aos quatro ventos para que não se esqueçam de mim, ao Sol para que me dê força, à terra para que me guie, à água para que me dê vida.
Moema é o meu nome, Moema.
Sei que ganhei uma nova alma e que as forças da natureza me apadrinharam.
No caminho de volta, aconteceu uma coisa estranha. Encontrei uma concha na berma da estrada. Estava ali tão deslocada e perdida como uma oliveira à beira-mar. Tive a certeza de que era um sinal. Desatei a tira de couro que trazia ao pescoço e pendurei-a. Este é o colar de Moema, nunca mais o vou tirar.

~Ü£w^’€>



Sentada no banco do condutor, Moema escrevinhava no diário, um pequeno caderno, de capa preta, protegido por um elástico. Era a segunda página que enchia com a sua letra redonda, tudo o resto, em branco, ainda. Não o folheava, queria-as imaculadas, como um futuro que ninguém conhece.
Por duas vezes levou a mão à concha, que lhe adivinhava o decote. Parecia ter encontrado um verdadeiro amuleto, oculto na forma de adereço. Foi o acaso que lho trouxe às mãos, os verdadeiros achados procuram-nos, quando deles precisamos. É preciso ter o coração aberto, os olhos são, quase sempre, cegos.
O sorriso, límpido, denunciava uma esfoliação da alma.
Demorou-se a admirar cada letra do seu novo nome, a inebriar-se com a pronúncia de um som, o desafio de uma musicalidade antiga.
Abriu o porta-luvas e retirou um livro que, de tanto uso, se abriu na página desejada. Recostou-se, compondo os cabelos em desalinho, e leu em voz alta:
«É como uma barca que te vai conduzir pela vida porque você sabe quem é.»
Sentia um verdadeiro fascínio pelos rituais indígenas, as culturas ancestrais, a certeza ingénua do lugar de cada indivíduo, a ligação à comunidade. Seriam, talvez, mais felizes, mais próximos da natureza e seguros dos valores por que se conduziam.
Perdida nas tradições dos Guarani, retomou o diário. Acrescentou uma última linha, siglas ilegíveis de uma só palavra. Justificou o último cadeado, com uma voz rouca e grave:
Tenho que ter um nome que só eu conheça. O que me revela e desnuda não pode ser pronunciado, ou ganharão o poder de me dominar.
Agora podia prosseguir viagem. Sem mapa nem bússola, fez-se à estrada à procura de lugar nenhum.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

DIÁRIO DE MOEMA, I

Maria Rego, Figueira de Castelo Rodrigo, 2007


2006, 16 de Março.

Este é o momento zero. Sufoco com a primeira golfada de ar, como um veneno a que preciso de me habituar. A capa uterina, do mundo onde cresci, nada mais tem para me oferecer. Não me perguntaram se queria nascer. Revoltaram-se quando decidi renascer. Da primeira vez, fui amparada, por mãos que me embalaram; agora, aconchego-me na minha jangada de quatro rodas e faço dela o meu berço de mulher.


~Ü£w^’€>


Sentia um verdadeiro prazer em conduzir. Percorrer estradas e caminhos, sem outro rumo que o chamamento da paisagem. Gostava das rectas ladeadas de árvores, dos campos cobertos de flores silvestres, da cor da terra lavrada, das casas perdidas em nenhures. Dos casebres abandonados, das esculturas dos penedos, das árvores que não morrem de pé.
Tinha sido uma boa compra aquela autocaravana, mesmo em segunda mão estava em óptimo estado. Ainda tinha regateado o preço, mas a verdade é que não conseguiria nenhuma mais em conta. Já andava cansada de procurar uma casa rolante, tinha pressa de partir e não estava interessada em luxos. Desde que não deixasse entrar água e o motor estivesse em bom estado, era quanto bastava. O espaço não era problema, precisava de pouco, umas mudas de roupa prática, objectos de higiene, a máquina fotográfica, o velho macaco de peluche, uns livros e – o mais importante – o seu diário. Claro, não podia dispensar a sua caneta preferida. Não prescindia dela, detestava esferográficas, eram impessoais, sem história, não conheciam o seu traço próprio.
Da berma da estrada sorria-lhe uma papoila. Acreditava, desde que se lembrava de si própria, na linguagem da natureza, na forma como estas frágeis flores anunciam algo de mágico. A Primavera chegou, as papoilas sabem esperar o momento certo e só o anunciam a pessoas especiais.
Encostou à berma e espreguiçou-se. A altura chegara. Sabia o que tinha de fazer.

Fragmento


Essencial é entender a imensa diferença (a abissal diferença) entre buscar a resposta às questões suscitadas por Portugal – ou, como agora se diz, pela portugalidade – e buscar a Pergunta a que Portugal é a resposta.

Podia também falar da diferença que há entre a espada e a barca, ou da que há entre a Armadura e a Carne; chamar a atenção para a diferença entre o Nada de que tudo brota e o Nada em que tudo se engolfa. Mas antes quero que medites na inimizade que há entre a Noite e a Treva.

Em todas as coisas, mistério da Elevação. A todo o tempo, o Pórtico.


[fotografia: O Encoberto, de Lima de Freitas]

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

UMA TARDE NA LUSITÂNIA, II


Mulher da Água, Henrique Pousão, 1883


As paredes brancas das casas campestres, com as suas saias amarelo sol e os chapéus de telhas, terra e sangue são corpos habitados por criaturas alheias às leis do mundo.
Este espectáculo de verde, amarelo campestre, mãos velhas, fluxos e refluxos de auto-estradas, caminhos percorridos, sangue coagulado de sentir e calos transpirados em lágrimas, imprimem na minha pele a dialéctica do Homem de Barro, o desconforto de se ir sendo, na simplicidade das horas calejadas.
Ao fim do dia, quando o sol morre para o cálice da geada, gargalhadas infantis rebentam do ventre destas casas meninas, cujos olhos quadrangulares, dançam labaredas impermeáveis à humidade de histórias milenares, que vão sobrevivendo pelo quente, doce toque da palavra destilada.
Com um maternal sopro, que é um beijo ensolarado na intempestiva impertinência do breu, de nuvens que são mundos inimagináveis pelas imaginações de quem não sonha, vêm os sonhos com a agitada calmaria do campestre anoitecer.
Adormecem os meninos de galhos entrançados nos cabelos, mãos sujas de terra e terraços por preencher eternamente.
Do outro lado do trigo, a emergência urbana e política de acompanhamento supersónico, as vestes deliberadas de um desejo mórbido de conquista da liberdade multifacetada, da livre liberdade espontânea por trás da persona entusiástica, de um outro caminho para a pureza – num embalo futurista demasiado acelerado em comparação com a aceleração do último modelo cerebral lançado no mercado humano – ainda guarda em si as crianças das bicicletas pelas ruas afuniladas, dos prédios altos enfeitados de lençóis e peúgas.
Estas mesmas crianças correm já com o vento do Norte, num grito que é um explodir de incontáveis repressões, recalcadas no medo de séculos de calçada esmagada em passos apressados.
Amanhã poderão ser guerreiros intemporais, os das infâncias urbanas, prédios altos, juntar-se-ão aos meninos de galhos no cabelo e mãos sujas de terra, mútuos, irmãos, marionetas dançantes no mesmo compasso de vida e morte, vítimas do nojo humano, com o peito transbordante de amor pela terra de onde emergiram, pelos vales que embalaram as correrias utópicas das infâncias eternas, ou pela silenciosa paisagem citadina de estrelas artesanais, com um inquietante desejo de paz, que não cala no cano de uma espingarda, nem na trovoada de mil canhões, nem no horror de um quadro escarlate de corpos carbonizados, porque o que importa é conquistar o palpitante cântico das árvores, do vento, o cheiro da terra molhada, a interminável Lusitânia com os seus incontáveis cheiros e sabores – pórticos de Pedra e Sal –, o eléctrico que passa sempre à mesma hora, as eternas meninas a saltar à corda e os rapazes que lhes levantam as saias, entre o riso quente das gentes.

sábado, 12 de julho de 2008

O CAVALEIRO SEM CORAÇÃO

.
Dedicado ao Paulo Borges



Entre valas negras, enterrou fundo
O seu pobre coração de chumbo e
Vai, para onde vai o vento. Os lábios,
Secos, a pedir a paga mais simples,
A sombra, o pão, a água e o caminho.

Devolvam ao cavaleiro perdido
A sua rosa de sangue, a que é pura,
A que canta alto na noite e,
Quando mãos a tocam, se desfaz
Em pássaros roxos. Escuras, tristes,
As águas choram, choram
Porque ele passa, passa e não fica.

Cavaleiro sem coração, «Adeus!»,
«Voltas quando voltar o vento?»,
O vulto que passa, passa e não fica,
Os pássaros roxos por companhia.

Ó devolvam-lhe, águas chorem, ó
Devolvam-lhe a sua rosa de sangue.


Lord of Erewhon

quarta-feira, 2 de julho de 2008

CRISTO GNÓSTICO

.
Dedicado ao Casimiro Ceivães

.Ecce Homo, autor oculto, c. 1490


Aqui os ombros, a cintura,
O torso de luz que vitrais martirizam.
Ele é o denunciador, o caldeiro,
A lança que fere as águas,
A carne. A leve curvatura do colo.
O mármore rubro do sexo.
As mãos abertas, as claves da fala,
Os joelhos sangrentos.
Ele é a mãe. Com a concha do corpo
Abraça o mundo. Cheio de vida,
Dá a vida. Por onde dá a vida,
Recebe a morte. Aos pés lívidos reúne
As serpentes, os puros, os amantes,
Profusos ícones cegos,
Ternura de rosas,
Cordas e pregos,
Amor e sangue.


Lord of Erewhon

A MERENDA NA RELVA

.
Dedicado à Bia

.Portrait of Sille, Emil Schildt, 2002


O pão é mais que uma metáfora cósmica.
Porque o que sustenta o corpo, alimenta
Também o espírito. Como poderíamos negar
A frescura da água, ou a bondade da sombra,
Ou o calor do chão. O feiticeiro sentado
Compreende os troncos simples da alegria,
Os regatos vivos, folhas, agitados e verdes
Que enchem o coração do júbilo e do canto
Das crianças que cantam sem porquê.


Lord of Erewhon

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Anjo d'aguarda



A pedra intacta e a nascente: coubera-lhes o mistério da fundação do mundo, no primeiro dia os anjos. E ao seu gesto se ordenaram os ventos, pelo fogo invisível e o bastão rasgaram os caminhos dos condutores de povos e dos reis, preparação amorosa das sombras. No poder da pedra e da nascente os círculos sagrados e as árvores e os lugares terríveis das batalhas. A Terra aguardava, Inverno e solidão do Sol.

- Sou o anjo Apache, murmurou um, e disse: seremos os caminhos vermelhos. E estendeu a vara para a terra virgem: esta será a planície do fim, um homem chamado Jerónimo.

- Sou o anjo da Borgonha, gritou outro, e disse: seremos o voo breve do falcão. E estendeu a vara para a terra fértil: aqui a catedral, o rosto; aqui a neve, que apaga o sonho do Temerário.

- Sou o anjo Cigano, proclamou um terceiro, e disse: seremos a puríssima maldição do fogo. E a vara traçou o sinal da encruzilhada: por aqui a linguagem dos pássaros, secreta coroação do rei.

- Sou o anjo Maori, avançou um quarto, e logo um outro: sou o anjo de Jerusalém.


Ela, porém, pairava sobre o mar, elevação do mundo: na primeira noite o anjo, e devolvia aos ventos o mistério maior.

- Sou o anjo de Luz, disse, e apenas hesitou: seremos o porto do Graal. E o seu gesto redimiu as águas: aqui a impossível viagem, na pedra dos corvos a sagração das naus. Pairava sobre o mar, e disse: águas de navegar, antepalavra do Espírito.

A pedra intacta e a nascente: a terra aguardava, Inverno e ocultação do Sol. E estendeu a vara para os seus irmãos: por fim libertar-vos-ei.


"E vi muitas vezes Melchisedech, quando, muito antes dos tempos de Semiramis e de Abraão, apareceu na Palestina, que era ainda deserta; como se organizasse o território, como se escolhesse e endireitasse determinados e precisos lugares. Vi-o sempre sozinho, e pensei: que quer este homem daqui, onde ainda não há ninguém? Foi assim que o vi abrir uma nascente na montanha, e foi a nascente do Jordão. (...) Foi assim que o vi abrir a terra em muitos lugares (...) e cada lugar onde trabalhava e construía parecia ser o lugar de uma graça futura, como se atraísse a atenção para esse lugar, como se empreendesse alguma coisa que haveria depois de se realizar.

Melchisedech pertencia àquele coro dos anjos que guardam os países e os povos, que (...) estão logo depois dos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael".

[do relato das visões de Anna Catherina Emmerich (1774-1824)]

quinta-feira, 26 de junho de 2008

ARIANO SUASSUNA





Escreve com pena de pato, Mestre,
Toma o teu tempo, à luz da vela,
Solitário para deus, besta e fêmea,
Porque o que é sagrado demanda
A sombra e pequena é a luz
Que lhe basta. Rasguem-se as paredes
Caiadas, sudário de pedra de um dia
Ter estado em alma lusitana, lânguida
E muda, no teu Nordeste de fome e lume –
Rasguem-se e afundemo-nos na planície
Árida, no espelho do longe contínuo.

Toda a minha juventude, Mestre,
Ao teu serviço darei, sangue e carne,
Alma e olhos – porque eu também demando
A sombra, a luz exígua, última, única
E nem deus, nem besta, nem fêmea
Matam a minha fome – porque faminto
Eu sou também, da Pedra do Reino
E do rubro puro e alto do Sangral!


Lord of Erewhon,
9 de Setembro de 2007



quarta-feira, 25 de junho de 2008

LOBA


"Loba" - Janeiro de 2008, colagem de aestranha.

Em tempos há muito idos, ela tinha sido uma menina bonita como muitas. Quis a má sorte e a falta de saber que um porco lhe tivesse comido a mão com que estendia algo para o bicho comer...

Cresceu sem ter o privilégio de casar, ajudou a criar os filhos dos outros, ouviu os amores e desamores das outras, cresceu amarga e depressa a sua cara de menina sorridente se transformou na face engelhada com que havia de morrer...

Nunca ninguém se perguntou se ela desejava algo, para todos era evidente que ela trazia o sinal do mal e que quanto a isso só o sinal da cruz faz algum efeito. Chamaram-lhe preguiçosa e ladra, uma mulher daquelas não podia ser nada de bom...

Com o tempo e com a maldade ganhou o nome de Ti Loba, tão predadora as pessoas a achavam... Deve de ter sido num dia cinzento em que apenas o peso do céu se reflectia na água. Atirou-se para a ribeira quando esta estava cheia das chuvas no sítio do Pé de Negro e foi lá que a encontraram a boiar já sem vida.

O Padre foi piedoso, disse que fora um acidente, foi enterrada em terreno abençoado mas o medo que sentiam dela em vida só veio a intensificar-se com a sua morte...

Contam-se histórias da possessão de uma bela jovem, contam-se histórias de exorcismos e de Padres e familiares em pânico, dizem que ela voltou em forma de cão, espera-se que ainda volte para se vingar das boas pessoas suas vítimas e seus descendentes...

A última vez que estive no Poço do Pé de Negro, no meio das silvas que mal deixam vislumbrar o grande espelho de água não consegui sentir o mal. Senti a tristeza do abandono e a culpa dos que fazem o sinal da cruz quando por ali passam...

Acho que a Ti Loba nunca vai voltar, por mais que isso fosse confortável para os vivos. É que há oportunidades que só se têm uma vez...




aestranha

sábado, 14 de junho de 2008

A FILHA DA LUA

Emil Schildt, Waiting, 2002


Movia-se sem qualquer ruído, una com a floresta que em torno dela se erguia e na qual se embrenhava cada vez mais. Sob a luz da lua, coada pelas copas das árvores, era não mais que um vulto, um manto longo, arrastando-se sobre a folhagem que cobria a terra. Havia nela algo de grandioso e nobre como um andar altivo e forte capaz de prender o olhar de qualquer um. Debaixo dos seus pés nus nem os galhos que forravam o chão se quebravam... Sabia que, desse modo, a natureza lhe prestava a sua homenagem e se despedia. Em silêncio. Porque é assim que a terra faz o seu luto.
As palavras dele ecoavam-lhe na mente:
–
Ver-te-ei arder na fogueira e hei-de estar lá...a aplaudir!
Sabia que ele tinha razão. Por muito menos, quantas mulheres tinham já sido queimadas. Sem nada saberem. Nada fazerem. E, para ela, que tudo sabia e tudo fazia, a fogueira era o destino mais certo.
No entanto, tudo poderia ser mais simples. Muito mais simples. Ele, poderoso e soberano, queria um herdeiro. E ela, bela e sábia, era naturalmente a escolhida para lho dar. Mas atrevera-se a recusar-lho, a ele, que nunca ouvia um “não”.
Aquela palavra, impronunciável, fora dita e o seu destino automaticamente traçado. Mas não se arrependia. Não. Nunca. Ela nunca se arrependia de nada.
Tinha ainda tempo para se despedir e isso bastava.
Abeirou-se do lago, no centro da floresta e despiu as longas vestes carmesim, não tão aveludadas como a pele que cobriam.
Era, toda ela, um hino. De cabelos cor de fogo, refulgentes e longos, uma cascata de labaredas desfiada ao longo da curva das costas e a deslizar nuns olhos de cor indefinida, líquidos da água daquele lago que contemplava. Olhos espelhados, capazes de tudo reflectir – e, por isso mesmo, de todos envergonhar. A pele era leitosa, da cor da lua num corpo de seios macios e curvas definidas, um hino à fecundidade, não tivesse ela querido transformar-se em terra árida e intocada.
Ali se aninhou, à beira-água, um feto no útero materno, de volta à terra que a havia gerado, àquela carne escura e pulsante que lhe dera a vida e a quem ela daria a sua.
Havia de sonhar com fogueiras... Com aquela imensa labareda que, sabia, duraria sete dias e sete noites, a crepitar incessantemente enegrecendo os céus e enlouquecendo os homens. Fogueira que ela haveria de contemplar de cima... uns bons metros acima, porque o espírito, esse, era uma ave e havia de guardar aquela floresta para sempre...