EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão e António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte).

Para o 20º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.


Capa da NOVA ÁGUIA 19

Capa da NOVA ÁGUIA 19

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 19

No décimo nono número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque a dois eventos promovidos pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.
Assim, na secção de abertura, sobre “O Balanço da CPLP”, começamos com uma reflexão de Miguel Real sobre o futuro da Lusofonia, dando depois voz aos representantes dos vários países e regiões do espaço de língua portuguesa que participaram no IV Congresso da Cidadania Lusófona – finalmente, fechamos com um Balanço do próprio Congresso e com o Discurso de justificação da entrega do Prémio MIL Personalidade Lusófona a D. Duarte de Bragança, proferido, na ocasião, por Mendo Castro Henriques. Na secção seguinte, sobre Afonso de Albuquerque, seleccionámos alguns dos textos apresentados no referido Colóquio, que decorreu em Dezembro de 2015, na Biblioteca Nacional de Portugal.
Depois, evocamos mais de uma dezena e meia de autores, começando por Afonso Botelho – falecido há já vinte anos e a quem foi dedicado o mais recente Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, que decorreu no passado ano – e terminando em Vergílio Ferreira, na NOVA ÁGUIA já celebrado no número anterior, por ocasião dos cem anos do seu nascimento. Na secção seguinte, outras temáticas são abordadas – desde logo: “A Universalidade da Igreja e a vivência do multiculturalismo”, por Adriano Moreira, e a “Confederação luso-brasileira: uma utopia nos inícios do século XX (1902-1923)”, por Ernesto Castro Leal.
A seguir, em “Extravoo”, publicamos inéditos de Agostinho da Silva e de António Telmo e republicamos um conto de Fidelino de Figueiredo, “No Harém”, precedido de um ensaio de Fabrizio Boscaglia. Por fim, em “Bibliáguio”, damos destaque a algumas obras promovidas recentemente pelo MIL – nomeadamente: A “Escola de São Paulo”, de António Braz Teixeira, Olhares luso-brasileiros, de Constança Marcondes César, Política Brasílica, de Joaquim Feliciano de Sousa Nunes, e José Enes: Pensamento e Obra, resultante de um Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Universidade dos Açores, a Universidade Católica Portuguesa e a Casa dos Açores em Lisboa, decorrido em Outubro de 2015.
Ainda sobre Ariano Suassuna, autor em destaque no número anterior, publicamos, a abrir este número, uma ilustração do próprio Ariano oferecida a António Quadros, com uma nota explicativa que nos foi enviada por Mafalda Ferro, Presidente da Fundação António Quadros, a quem agradecemos mais este gesto de apoio à NOVA ÁGUIA. De igual modo, agradecemos também aqui – na pessoa do seu Presidente, Abel de Lacerda Botelho – todo o apoio que tem sido dado à NOVA ÁGUIA e ao MIL pela Fundação Lusíada, uma das instituições culturais mais prestigiadas em Portugal, que comemorou, no dia 12 de Março do passado ano, no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, os seus trinta anos de existência. Os nossos parabéns à Fundação Lusíada.

A Direcção da NOVA ÁGUIA

Post Scriptum: Falecido no dia 4 de Março do corrente ano, dedicamos este número a Ângelo Alves, Doutorado em Filosofia em 1962, com a tese “O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista", que, na sua última obra, “A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo” (2010), escreveu que a NOVA ÁGUIA e o MIL: Movimento Internacional Lusófono representam o "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural, após o Movimento da Renascença Portuguesa e o Movimento da Filosofia Portuguesa.

NOVA ÁGUIA Nº 19: ÍNDICE

Editorial…5

O BALANÇO DA CPLP: COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O FUTURO DA LUSOFONIA Miguel Real…8

PORTUGAL Maria Luísa de Castro Soares…10

ANGOLA Carlos Mariano Manuel…18

MOÇAMBIQUE Delmar Maia Gonçalves…21

CABO VERDE Elter Manuel Carlos…23

TIMOR Ivónia Nahak Borges…24

MACAU Jorge A.H. Rangel…26

MALACA Luísa Timóteo…31

GUINÉ Manuel Pechirra…32

GALIZA Maria Dovigo…34

BRASIL Paulo Pereira…37

GOA Virgínia Brás Gomes…41

BALANÇO DO IV CONGRESSO DA CIDADANIA LUSÓFONA Renato Epifânio…44

D. DUARTE DE BRAGANÇA, PRÉMIO MIL PERSONALIDADE LUSÓFONA Mendo Castro Henriques…45

SOBRE AFONSO DE ALBUQUERQUE

PORQUÊ RECORDAR AFONSO DE ALBUQUERQUE? Renato Epifânio…48

AFONSO DE ALBUQUERQUE, PROFETA ARMADO, E A SOMBRA DE MAQUIAVEL Mendo Castro Henriques…49

AFONSO DE ALBUQUERQUE, DA REALIDADE À FICÇÃO: A MATÉRIA DE QUE SÃO FEITOS OS MITOS Deana Barroqueiro…58

A ARQUITECTURA MILITAR PORTUGUESA DE VANGUARDA NO GOLFO PÉRSICO João Campos…60

ASPECTOS MILITARES DA PRESENÇA PORTUGUESA NO ÍNDICO NO SÉCULO XVI Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque...74

BRÁS DE ALBUQUERQUE E OS COMMENTARIOS DE AFONSO DALBOQUERQUE (LISBOA, 1557) Rui Manuel Loureiro…79

AFONSO DE ALBUQUERQUE: CORTE, CRUZADA E IMPÉRIO José Almeida…89

OUTRAS EVO(O)CAÇÕES

AFONSO BOTELHO Pinharanda Gomes…92

AGOSTINHO DA SILVA Pedro Martins…97

ANTÓNIO VIEIRA Nuno Sotto Mayor Ferrão…103

AURÉLIA DE SOUSA Joaquim Domingues…111

CAMÕES Abel de Lacerda Botelho…113

FARIA DE VASCONCELOS Manuel Ferreira Patrício…119

FIALHO DE ALMEIDA José Lança-Coelho…125

FIDELINO DE FIGUEIREDO Mário Carneiro…127

LEONARDO COIMBRA João Ferreira…133

MÁRIO SOARES Renato Epifânio…139

PESSOA E RODRIGO EMÍLIO José Almeida…140

PIER PAOLO PASOLINI Brunello Natale De Cusatis…146

PINHARANDA GOMES Carlos Aurélio….151

SAMUEL SCHWARZ Sandra Fontinha…157

SANTA-RITA PINTOR José-Augusto França…168

VERGÍLIO FERREIRA António Braz Teixeira…177

OUTROS VOOS

A UNIVERSALIDADE DA IGREJA E A VIVÊNCIA DO MULTICULTURALISMO Adriano Moreira…184

CONFEDERAÇÃO LUSO-BRASILEIRA: UMA UTOPIA NOS INÍCIOS DO SÉCULO XX (1902-1923) Ernesto Castro Leal…187

CAMINHOS PARA UMA PEDAGOGIA SOCIAL OU PARA UMA TRANSDISCIPLINARIDADE DIALÓGICA Joaquim Pinto…196

O QUE SÃO AS FILOSOFIAS NACIONAIS? Luís de Barreiros Tavares…206

A HETERONÍMIA COMO ETOPEIA Mariella Augusta Pereira…214

ESCOTÓPICA VISÃO – DA ESSÊNCIA DA POESIA Pedro Vistas…223

AUTOBIOGRAFIA 2 Samuel Dimas…232

O PENSAMENTO E A MÚSICA DE MARIANO DEIDDA António José Borges…241

EXTRAVOO

VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…246

NOVE APONTAMENTOS INÉDITOS António Telmo…251

NO HARÉM Fidelino de Figueiredo (com um ensaio de Fabrizio Boscaglia)…254

BIBLIÁGUIO

A « ESCOLA DE SÃO PAULO» Constança Marcondes César…266

JOSÉ ENES: PENSAMENTO E OBRA Manuel Ferreira Patrício…268

OLHARES LUSO-BRASILEIROS & POLÍTICA BRASÍLICA José Almeida…270

O COLAR DE SINTRA Luísa Barahona Possollo…272

OBRAS PUBLICADAS EM 2016 Renato Epifânio…277

POEMÁGUIO

FAL A DE AFONSO DE ALBUQUERQUE AO SAIR DE MALACA José Valle de Figueiredo…90

O QUE NÃO FIZ NA VIDA André Sophia…90

MANIFESTO LUSÓFONO 1 Cristina Ohana…91

LER O AR António José Borges…205

O FRESCOR DA MANHÃ Manoel Tavares Rodrigues-Leal…240

VER, DE VERGÍLIO FERREIRA Renato Epifânio…240

INSCRIÇÃO Jesus Carlos…245

LUSO–ASCENDENTE Maurícia Teles da Silva…264

O FUMADOR Jaime Otelo…265

TINTA PERMANENTE Maria Luísa Francisco…265

ABANDONO Maria Leonor Xavier...279

DE MECA A JERUSALÉM Daniel Miranda…279

MEMORIÁGUIO…280

MAPIÁGUIO…281

ASSINATURAS…281

COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284


Apresentação da NOVA ÁGUIA 19

Apresentação da NOVA ÁGUIA 19
18 de Abril: Sociedade de Geografia de Lisboa (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Amadora, Amarante, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas




O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

SOBRE A CERTEZA FINAL DE QUE OS CAVALEIROS DO ESPÍRITO HÃO-DE PREVALECER SOBRE OS LLOYD GEORGES DA BABILÓNIA

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Manuel Ferreira Patrício
Universidade de Évora/Academia das Ciências

1
A verdade histórica impõe que se relacione objectivamente A Águia com a República. A República foi implantada em Portugal em 5 de Outubro de 1910. Foi implantada revolucionariamente. Os monárquicos portugueses ainda hoje lembram esse facto, falando por vezes na realização de um referendo nacional, para que o povo finalmente se pronuncie sobre a opção entre a instituição monárquica e o regime republicano. Foi meu colega na Universidade de Évora o Professor António Fialho Pinto, alentejano de Moura e monárquico consciente e fiel. Quando um dia falávamos do 5 de Outubro, chamou-me ele subtilmente a atenção para o facto de a oposição não ser entre o regime monárquico e o regime republicano, mas entre a instituição monárquica e o regime republicano. A monarquia – asseverou-me peremptoriamente – não foi um regime, mas uma instituição. O que então foi derrubado em 5 de Outubro de 1910 não foi o regime monárquico, mas a instituição monárquica. A seu ver, foi esta que o acto revolucionário liquidou, ocupando o seu lugar com o regime republicano. Os revolucionários do 31 de Janeiro fariam a distinção? Aceitá-la-iam? Entre eles esteve Sampaio Bruno, que era um sábio, e outros de alta valia intelectual e cívica. Mas tem persistido a interrogação: que argumentos podem os republicanos apresentar para legitimar a República através do acto revolucionário, aliás precedido do regicídio, na pessoa de Dom Carlos I? Não sei responder com segurança e conhecimento de causa. Mas vejo alguma incompatibilidade entre o princípio democrático republicano e a implantação da República por via revolucionária, com a esmagadora maioria do povo português alheado do processo político em curso.

2
A Águia apareceu no dia 1º de Dezembro de 1910. Não é uma data qualquer. Foi, evidentemente, escolhida a dedo. Se o 1º de Dezembro de 1640 representa a restauração da independência, o 1º de Dezembro de 1910 era um outro 1º de Dezembro restaurador. Como a criação da “Renascença Portuguesa”, em 1912, veio a tornar claro, o que estava agora em causa era a renascença de Portugal. A Águia aparece iniludivelmente alinhada com a República. Ao lado, ou logo atrás, estão republicanos como Junqueiro, Bruno, Basílio Teles, entre outros. Como depressa se compreenderá, o problema que se coloca a estes homens não é o da implantação revolucionária da República, mas o da natureza da República, o da alma da República. A interrogação decisiva, para estes homens, é: que República? De profunda importância simbólica foi, desde logo, o problema da escolha da bandeira. Junqueiro bateu-se pela continuidade do azul e branco da bandeira da monarquia portuguesa. Ficou a bandeira híbrida do vermelho/verde. Parece-me que Portugal ficou híbrido desde então. Somos sempre uma coisa e o seu contrário. A esta hibridez damos hoje o nome de consenso. Nunca mais tivemos a coragem de ser, de ser o que somos, de ser quem somos. Falei de Junqueiro, a propósito da bandeira. Falarei agora de Sampaio Bruno, a propósito da República. Voz de um amplo coro qualificado de ilustres republicanos, ele escreverá, ele dirá: “Esta não é a República que nós sonhámos.” “Nós.” “Nós”, quem? - perguntamos. Uma coisa tenho por certa: A Águia surgiu para defender e promover uma República que, até hoje, não existiu um dia sequer. A República sonhada pel'A Águia, sonhada pelas figuras fundamentais d'A Águia, está totalmente por cumprir, sequer por iniciar. A chamada “dissidência” de António Sérgio e Raul Proença, relativamente ao manifesto constituinte da “Renascença Portuguesa”, tinha subjacente esta questão: Pascoaes visionava uma República, Sérgio e Proença outra. O desenrolar dos acontecimentos e a evolução ideológica dos protagonistas acabaram por evidenciar que Sérgio e Proença não sonhavam com a mesma República. Soam deste modo a proféticas as palavras solenes de Sampaio Bruno.

3
N'A Águia marcou presença Fernando Pessoa. Saiu cedo. Não curarei aqui dos motivos e razões. O seu projecto vai ser Orpheu. Ora Orpheu não surgiu com o intuito, ou programa, cívico e político que lubrificava as asas d'A Águia, mas com um intuito, ou programa, estético. Apesar da sua curta vida, cerce pelo próprio cortada na raiz, Mário de Sá-Carneiro viveu o suficiente para deixar claro que abominava o Portugal dos lepidópteros, que era o Portugal que para ele havia. Pessoa, esteticamente irmão gémeo de Sá-Carneiro, revelou-se na vida que continuou bem diferente nos planos sociológico e político, como o conjunto da sua imensa e impressionantemente multímoda obra veio a mostrar. Mensagem é talvez a expressão irrefutável disso, que é um facto. Quem imaginaria Mário de Sá-Carneiro a conceber qualquer ideia que fizesse pensar no Quinto Império, de Vieira? Quem imaginaria Mário de Sá-Carneiro a escrever a ode “À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”? Ou a falar da Pátria como Pessoa falou, identificando-a com a língua portuguesa? Ou escrevendo aquela extraordinária “Elegia na sombra”, já no seu troço final, espécie de requiem pelo Portugal que amava? Ou, coisa ainda mais impensável, escrevendo aquele texto de qualquer modo extraordinário Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal?
Em Orpheu há ainda aquela figura imensa que foi José de Almada Negreiros, patriota como Pessoa o foi. Pelos vistos não republicano, como Pessoa o não foi também. A revista Sudoeste é ainda hoje um manancial de textos profundos, riquíssimos, sobre a essência, a existência e eventualmente o projecto de um Portugal que o fosse, ou o seja, ou o venha a ser.

4
Pessoa identificou-se com A Águia que voava. Entendeu que, a certa altura e por qualquer motivo, A Águia deixou de voar. Águia que o seja nasceu para voar. Que terá acontecido a A Águia? Ficou presa ao chão? Caiu por debilitação interna? Algum caçador lhe deu um tiro certeiro? Perdeu, na psique, o sonho que alimentava o seu voo? Caçadores inimigos teve muitos, ao longo da I República e daquele equívoco republicano que foi o Estado Novo. Amigos também os teve e lutadores estrénuos vieram a revelar-se eles. Na primeira linha do combate os discípulos de Leonardo Coimbra: Álvaro Ribeiro, Delfim Santos, José Marinho – da primeira geração; Orlando Vitorino, António Quadros, António Telmo, Afonso Botelho, António Braz Teixeira, Pinharanda Gomes, Paulo Borges, Renato Epifânio – das gerações seguintes -, entre outros. Até hoje. Se Fernando Pessoa alguma vez teve razão ao sugerir que A Águia deixou de voar, aí vemos hoje a Nova Águia a voar com beleza e energia por sobre Portugal inteiro, e não apenas sobre Portugal mas por sobre todo “o mundo que o português criou” - como nos ensinou Gilberto Freire – e hoje sonhamos ver a fortalecer-se e afirmar-se no planeta como é vocação e oxalá destino da CPLP.
Se há ainda um sentido para A Águia e, portanto, um destino para a Nova Águia, é na língua portuguesa que lateja o mais fundo dos nossos anseios, potencialidades e possibilidades. A comunidade dos que a falam e escrevem é o ovo mágico dos que aspiram ainda a viver no seio da sua Comunidade Pátria. Por mim, ou damos a esse ovo todo o nosso calor genesíaco, ou já deixámos de merecer existir.

5
Extraordinário poema esse que se intitula “Elegia na sombra” (1). Parece não haver nele, no seu todo, a mais ténue luzinha de esperança. Também parece não haver propriamente desespero. Há a serenidade gélida de quem, já morto, olha e só encontra para onde olha a treva expessa da morte e do nada.
A elegia é à Pátria, a Portugal, a nós. O poeta olha precisamente para nós. E que vê? Ele o diz: “Lenta, a raça esmorece, e a alegria/ É como uma memória de outrem.” A morte já ali está: “Passa / Um vento frio na nossa nostalgia / E a nostalgia touca a desgraça!” Este poema foi escrito em 2 de Junho de 1935. Restavam de vida terrena a Fernando Pessoa seis meses menos um dia. O poeta veio a falecer no dia 30 de Novembro desse ano, um dia antes do 1º de Dezembro, um 1º de Dezembro que ele já não quis viver. Para cumprir essa sua trágica vontade bebeu a gota de vinho-veneno que já não podia beber, e ele o sabia. Mas bebeu-a. E morreu. Já não fazia sentido viver o 1º de Dezembro. A agonia da desesperança, quiçá do desespero, do sentimento vívido e vivido do nada, tomara por completo conta de si.
Atravessa-me o espírito a suspeita de que aquele dia 2 de Junho de 1935 é hoje, 2 de Fevereiro de 2010. Ouçamos o poeta, ouçamos o poeta neste dia. Ele escreveu o poema hoje: “Pesa em nós o passado e o futuro. / Dorme em nós o presente. E a sonhar / A alma encontra sempre o mesmo muro, / E encontra o mesmo muro ao despertar.” É a angústia trágica que pergunta: “Quem nos matou a alma? Que bruxedo / De que magia incógnita e suprema / nos enche as almas de dolência e medo / Nesta hora inútil, apagada e extrema?” Essa hora, 2 de Junho de 1935, é esta hora, 2 de Fevereiro de 2010.
A tristeza de Pessoa que passa na “Elegia” faz-nos estremecer a alma toda . É ainda o vivo que já se vê morto estendido no areal, que já se chora porque expropriado de futuro, ele que foi um passado brilhante: “Oh, que há-de ser de nós? Raça que foi / Como que um novo sol ocidental / que houve por tipo o aventureiro e o herói / E outrora teve nome Portugal...”. Outrora!... Raça que foi, que já não é. Que só é ainda para carpir a sua própria morte, que só existe ainda para entoar a canção fúnebre da sua inexistência. Mais do que morremos, já não temos nome. Tivemo-lo outrora.
Mas no mais fundo da alma do poeta-vate o vago verde da esperança ainda assoma à tona dessa inexistência, a esperança messiânica ganha voz: “Ó incerta manhã de nevoeiro / Em que o Rei morto vivo tornará / Ao povo ignóbil e o fará inteiro”. A alma do poeta balança. Ele crê, ele descrê. Ele espera, ele desespera. O desespero tem a última palavra. O Desejado, o que há-de vir, não virá: “Dorme, mãe Pátria, nula e postergada, / E, se um sonho de esperança te surgir, / Não creias nele, porque tudo é nada, / E nunca vem aquilo que há-de vir”. A nossa hora passou. À Pátria, diz o poeta: “Dorme, que a tarde é finda e a noite vem.” Esta é “a tarde de nós mesmos, baça e fria”, “tarde monótona e serena” como aquela “em que ao morrer o imperador romano / Disse: Fui tudo, nada vale a pena.” Longe vão os dias em que o poeta escreveu, com letras todas de luz e certeza de si e da Pátria: “Tudo vale a pena, / Se a alma não é pequena”. O Mar Portuguez afundou-se em niilismo. A alma foi pequena. Nem sequer somos nada: “Povo sem nexo, raça sem suporte / Que, agitada, indecisa, nem repare / Em que é raça, e que aguarda a própria morte / Como a um comboio expresso que aqui pare.” Não somos nada, já não temos nada: “Nada. Nem fé nem lei, nem mar nem porto. / Só a prolixa estagnação das mágoas, / Como nas tardes baças, no mar morto, / A dolorosa solidão das águas.”
Por muito que nos custe, este é o testamento patriótico de Fernando Pessoa. Em tudo me parece semelhante ao brado final de Luís de Camões: “Ao menos morro co'a Pátria”. E morreu. Na véspera do primeiro de Dezembro.

6
Pode parecer que o futurismo de José de Almada Negreiros é absolutamente incompatível com o saudosismo de Teixeira de Pascoaes. Nós, os que desde a juventude lemos os dois, que desde essa idade áurea da vida bebemos nos dois, e mais em Pessoa e outros, que desde o meio do séc.XX amamos os dois, não vemos nem sentimos qualquer incompatibilidade. Entre o malmequer branco e o malmequer amarelo não existe incompatibilidade, mas apenas diferença na cor do malmequer.
Almada Negreiros também não viu incompatibilidade. Ele amou Pascoaes ao ponto de ser um dos romeiros a Amarante. Já vi dele fotografias com a saudosa Zezinha Teixeira de Vasconcelos, sobrinha, afilhada e secretária do vate amarantino instalado em Gatão. Romagem do futurismo ao saudosismo. Gostam de se visitar um ao outro. O futurismo ao saudosismo, o saudosismo ao futurismo. O pensamento-sentimento de Pascoaes, Pessoa e Almada é pendular. Oscila entre a saudade de ontem e a saudade de amanhã. Já escrevi para a Nova Águia que esse pensamento vive saudosamente o próprio hoje. Temos saudades de tudo: do passado longínquo, do futuro que nem sequer sabemos se haverá, do instante presente que está a chegar e afinal já partiu, já passou. Assim, vejo no saudosismo e no futurismo as duas metades gémeas de uma mesma e única face. Somos assim, nós os portugueses. Foram assim Pascoaes, Pessoa e Almada. E é por isso que a esperança renasce sempre, interminavelmente, infindavelmente. Síntese desta candente tensão, desta no fim de contas superabundante contradição, é a figura exemplar de Agostinho da Silva, que mais do que todos foi tudo. Ele percebeu que na própria Seara Nova tinha o seu ninho a saudade. Aqui mais do futuro, mas acolhendo no seu aconchego um Jaime Cortesão, misterioso dissidente d'A Águia, da amizade matinal com Leonardo Coimbra, etc. Se é verdade que somos um povo messiânico, porque não haveria de ser assim, porque não teria que ser assim?!...
É precisamente em Amarante que nasce aquele homem que Almada considerou ser a primeira descoberta de Portugal na Europa do século XX: Amadeo de Sousa Cardoso. Está escrito no Manifesto da Exposição de Amadeo de Sousa Cardoso e tem data de 13 de Dezembro de 1916.(2)
Como uma trompete a jorrar a água dos seus sons numa manhã luminosa de Abril, no cume do Marão, Almada fala assim: “[...]Amadeo de Sousa Cardoso pertence à Guarda Avançada na maior das lutas que é o Pensamento Universal.” Em 1937, vinte e um anos depois, escreveu e publicou Pascoaes a sua notabilíssima obra O Homem Universal (3). Pessoa falou, entretanto, na Mensagem, do que nos resta: “o mar universal e a saudade”. Que é muito, vendo bem. É tudo muito. A mão que escreve as letras do texto do manifesto da exposição de Amadeo de Sousa Cardoso é a do futurista José de Almada Negreiros. Lá podemos ler: “Nós, os futuristas, não sabemos história, só conhecemos da Vida que passa por Nós. Eles têm a Cultura. Nós temos a experiência – e não trocamos!” Este discurso, como já vamos ver, está do lado do pêndulo oposto ao saudosismo do passado ou ao niilismo trágico de Pessoa, que procurámos mostrar; está do lado do pêndulo onde palpita a saudade do futuro, que é a morada do futurismo de Almada e de todo o messianismo português. Almada pode então escrever: “Amadeo de Sousa Cardoso é a primeira descoberta de Portugal na Europa no século XX.“ Com o fulgor verbal que caracterizava o poder criador do seu espírito, Almada fala ainda mais claro: “[...] a Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia é menos importante que a Exposição de Amadeo de Sousa Cardoso na Liga Naval de Lisboa.“
Outros Amadeus havia em Portugal, e outros veio a haver ao longo do século XX: Pascoes, Pessoa, Leonardo Coimbra, José Régio, Mário Cesariny de Vasconcelos, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Delfim Santos, Herberto Helder, Helena Vieira da Silva, Fernando Lopes Graça, Maria João Pires... E outros... Não é preciso nomeá-los. O que é preciso é fazer o que eles fizeram: criar espiritualmente. No ponto mais crítico do seu niilismo, do seu desespero e pessimismo, como procurámos pôr à vista na passagem que fizemos pela “Elegia na sombra”, precisamente aí, Fernando Pessoa criava beleza fulgurante. Fazia o oposto do que a pena punha no papel.

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Deste ponto de vista, Portugal não está morto nem se anuncia o seu falecimento. Deste ponto de vista, os últimos 100 anos foram de enriquecimento para a Pátria que conta. A outra, a das contas, continuará a ser o desastre que sempre foi. Mas lá vem Pessoa em nosso socorro: “Dos Lloyd Georges da Babilónia / Não reza a história nada”. Não rezará. Mas rezará dos Criadores do Espírito, dos Cavaleiros do Espírito. E esses até costumam medrar nas horas de crise dos outros. Esta hora é sua. Esta hora é nossa. E aqui, no Reino que é o nosso, tudo vale a pena.


NOTAS
(1) Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa, Introduções, organização biobibliográfica e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa, Volume I, Poesia, Porto, Lello & Irmão-Editores, 1986, pp.1187-1192.
(2) Almada Negreiros, Obra Completa em um volume, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S.A., 1997, pp.646-647.
(3) Teixeira de Pascoaes, O Homem Universal, Lisboa, Edições Europa, 1937.
(4) Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa, ed.cit., “Gazetilha”, pp.977-978.