EM TODO O PAÍS & MUNDO LUSÓFONO: LANÇAMENTOS NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI

Desde 2008, "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português".

A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no nosso
Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas:

- 1º número (1º semestre de 2008): A ideia de Pátria: sua actualidade.

- 2º número (2º semestre de 2008): António Vieira e o futuro da Lusofonia.

- 3º número (1º semestre de 2009): O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

- 4º número (2º semestre de 2009): Pascoaes, Portugal e a Europa: 20 anos após a queda do Muro de Berlim.

- 5º número (1º semestre de 2010): Os 100 anos d' A Águia e a situação cultural de hoje.

- 6º número (2º semestre de 2010): A República, 100 anos depois.

- 7º número (1º semestre de 2011): Fernando Pessoa: "Minha pátria é a língua portuguesa" (nos 15 anos da CPLP).

- 8º número (2º semestre de 2011): O Pensamento da Cultura de Língua Portuguesa: nos 30 anos da morte de Álvaro Ribeiro.

- 9º número (1º semestre de 2012): Nos 100 anos da Renascença Portuguesa: como será Portugal daqui a 100 anos?

- 10º número (2º semestre de 2012): Leonardo Coimbra, Dalila Pereira da Costa, Manuel Laranjeira e João de Deus: Razão e Espiritualidade.

- 11º número (1º semestre de 2013): "Da minha língua vê-se o mar": o Mar e a Lusofonia.

- 12º número (2º semestre de 2013): O pensamento de António Quadros - nos 20 anos do seu falecimento.

- 13º número (1º semestre de 2014): O balanço de Abril, 40 anos depois - nos 20 anos do falecimento de Agostinho da Silva.

- 14º número (2º semestre de 2014): 80 Anos da "Mensagem" – 8 Séculos da Língua Portuguesa.

- 15º número (1º semestre de 2015): Nos 100 Anos do “Orpheu” e da "Arte de Ser Português"

- 16º número (2º semestre de 2015): Quem tem medo da Filosofia Lusófona? Nos 100 anos do falecimento de Sampaio Bruno.

- 17º número (1º semestre de 2016): A importância das Diásporas para a Lusofonia.

- 18º número (2º semestre de 2016): Autores em destaque - Ariano Suassuna, Delfim Santos e Vergílio Ferreira.

- 19º número (1º semestre de 2017): O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa ; Afonso de Albuquerque: 500 anos depois.

- 20º número (2º semestre de 2017): autores em destaque – José Rodrigues (no ano da sua morte); Raul Brandão (nos 150 anos do seu nascimento); Francisco Manuel de Melo (nos 350 anos da sua morte).

- 21º número (1º semestre de 2018): autores em destaque – Dalila Pereira da Costa (nos 100 anos do seu nascimento); Fidelino de Figueiredo (nos 50 anos da sua morte); António Nobre (nos 150 anos do seu nascimento).

Para o 21º número, os textos devem ser enviados até ao final de Dezembro.

Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra).
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa).

Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286.

Capa da NOVA ÁGUIA 20

Capa da NOVA ÁGUIA 20

EDITORIAL NOVA ÁGUIA 20

Decerto, uma das melhores formas de aferir o valor de uma vida é ter em conta a quantidade e a qualidade dos amigos que deixou. Sob esse prisma, José Rodrigues, que nos deixou recentemente, teve uma grande vida, como se pode verificar neste número da NOVA ÁGUIA: entre textos, testemunhos, poemas e ilustrações, foram cerca de meia centena de contributos que nos chegaram para prestar tributo a uma figura que esteve também na génese desta Revista – não tivesse sido ele o autor da capa do primeiro número da NOVA ÁGUIA.
Em 2017, assinalam-se os 150 anos do nascimento de Raul Brandão e António Nobre. O MIL: Movimento Internacional Lusófono e a NOVA ÁGUIA têm assinalado essa efeméride com um Ciclo a decorrer no Porto (no Ateneu e na Casa Museu-Guerra Junqueiro). Neste número, publicamos igualmente alguns textos sobre Raul Brandão. No próximo número, publicaremos uma série de textos sobre António Nobre.
Em 2016, assinalaram-se os 350 anos do falecimento de D. Francisco Manuel de Melo, essa figura maior da nossa cultura que teve o “azar” de ter nascido no mesmo ano (1608) do Padre António Vieira, “Imperador da Língua Portuguesa”. O Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em parceria com uma série de outras entidades (entre as quais o MIL: Movimento Internacional Lusófono e a NOVA ÁGUIA), promoveu um Colóquio, em Outubro do passado ano, na Biblioteca Nacional de Portugal. Os textos apresentados nesse Colóquio são também aqui publicados.

Tendo chegado ao vigésimo número, a NOVA ÁGUIA poderia ter optado por um número auto-celebratório, o que seria mais do que justificado, mas, como sempre, preferimos celebrar as figuras maiores da nossa cultura. Assim, para além da três figuras já referidas, celebramos uma série de outras figuras, em “Outras Evo(o)cações”, e, como sempre, em “Outros voos”, abordamos uma série de outras temáticas. Em “Extravoo”, como também tem acontecido, publicamos alguns inéditos – nomeadamente, de Agostinho da Silva, António Telmo e Delfim Santos.
Em “Bibliáguio”, publicamos uma série de recensões de algumas obras publicadas recentemente: “Portugal, um Perfil Histórico”, de Pedro Calafate, “Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa”, de Miguel Real, e “A Literatura de Agostinho da Silva”, de Risoleta Pinto Pedro. Sem esquecer o “Poemáguio” e o “Memoriáguio”, duas outras secções também já clássicas, antecipamos os autores em destaque no próximo número – para além do já aqui referido António Nobre, iremos celebrar Dalila Pereira da Costa, no centenário do seu nascimento, e Fidelino de Figueiredo, no cinquentenário da sua morte. É tão-só por isso que a NOVA ÁGUIA irá persistir no seu voo, pelo menos por mais vinte números: se soçobrássemos, quem ficaria para falar sobre quem e o que mais importa?

Post Sciptum: Dedicamos este número a João Ferreira e a Antônio Paim, duas das figuras maiores da Filosofia Luso-Brasileira e (por isso) colaboradores da NOVA ÁGUIA, que entretanto chegaram aos noventa anos de vida.



NOVA ÁGUIA Nº 20: ÍNDICE

Editorial…5
A JOSÉ RODRIGUES, AQUELE ABRAÇO
Textos e Testemunhos de Ramalho Eanes (p. 8), A. Andrade (p. 9), Alberto A. Abreu (p. 9), Alberto Tapada (p. 10), António Oliveira (p. 11), Castro Guedes (p. 12), Diogo Alcoforado (p. 13), Diva Barrias (p. 20), Emerenciano (p. 22), Francisco Laranjo (p. 23), Gaspar Martins Pereira (p. 24), Guilherme d’Oliveira Martins (p. 25), Henrique Silva (p. 26), Isabel Pereira Leite (p. 27), Isabel Pires de Lima (p. 29), Isabel Ponce de Leão (p. 34), Isabel Saraiva (p. 36), Jorge Teixeira da Cunha (p. 37), José Adriano Fernandes (p. 38), José Gomes Fernandes (p. 38), José Manuel Cordeiro (p. 39), Júlio Cardoso (p. 41), Júlio Roldão (p. 42), Luandino Vieira (p. 42), Luís Braga da Cruz (p. 43), Maria Celeste Natário (p. 44), Maria Luísa Malato (p. 46), Mónica Baldaque (p. 48), Nassalete Miranda (p. 48), Nuno Higino (p. 49), Roberto Merino Mercado (p. 50), Ruben Marks (p. 52) e Salvato Trigo (p. 55).
Ilustrações de Artur Moreira (p. 9), Avelino Leite (p. 12), Emerenciano (p. 23), Francisco Laranjo (p. 23), Filomena Vasconcelos (p. 28), Isabel Saraiva (p. 36), Mário Bismarck (p. 39), Luandino Vieira (pp. 42-43), Paulo Gaspar (p. 48) e Sousa Pereira (p. 60).
NOS 150 ANOS DO NASCIMENTO DE RAUL BRANDÃO
EM TORNO DO TEATRO DE RAUL BRANDÃO António Braz Teixeira…62
APONTAMENTOS SOBRE HÚMUS DE RAUL BRANDÃO Luís de Barreiros Tavares…66
A COISA NA OBRA DE RAUL BRANDÃO Rodrigo Sobral Cunha…72
NOS 350 ANOS DO FALECIMENTO DE FRANCISCO MANUEL DE MELO
FRANCISCO MANUEL DE MELO: O HOMEM E A OBRA NO CONTEXTO DO BARROCO Maria Luísa de Castro Soares...84
FRANCISCO MANUEL DE MELO E ANTÓNIO VIEIRA Ana Paula Banza…91
FRANCISCO MANUEL DE MELO, MORALISTA António Braz Teixeira…99
FRANCISCO MANUEL DE MELO: CONHECER, SENTIR E «ESCREVIVER» Deana Barroqueiro…103
A METAFÍSICA DA SAUDADE DE FRANCISCO MANUEL DE MELO Manuel Cândido Pimentel…108
AS EXPLORAÇÕES CABALÍSTICAS DE FRANCISCO MANUEL DE MELO Manuel Curado…112
A PINTURA DO PENSAMENTO: ALEGORIA DA HISTÓRIA EM FRANCISCO MANUEL DE MELO Maria Teresa Amado…127
OUTRAS EVO(O)CAÇÕES
ÂNGELO ALVES J. Pinharanda Gomes…136
ANTÔNIO PAIM José Maurício de Carvalho…143
AZEREDO PERDIGÃO Adriano Moreira…144
CORRÊA DE BARROS José Almeida…150
EÇA DE QUEIRÓS José Lança-Coelho…151
EDUARDO PONDAL Maria Dovigo…153
EUGÉNIO TAVARES Elter Manuel Carlos…158

GUERRA JUNQUEIRO Delmar Domingos de Carvalho…165
JOÃO FERREIRA Renato Epifânio e Luís Lóia…167
MANUEL ANTÓNIO PINA José Acácio Castro…169
MANUEL FERREIRA PATRÍCIO Fernanda Enes e J. Pinharanda Gomes…174
MATEUS DE ANDRADE José Luís Brandão da Luz…181
PINHARANDA GOMES Elísio Gala…190
TORGA E RUBEN A. Paula Oleiro…192
VIEIRA Eduardo Lourenço…196
OUTROS VOOS
A LUSOFONIA COMO UTOPIA CRIADORA Adriano Moreira…200
UTOPIA E MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO: NOS 10 ANOS DA NOVA ÁGUIA António José Borges…204
BREVE CRÓNICA DO CENTRO PORTUGUÊS DE VIGO Bernardino Crego…207
A ITÁLIA NA “GERAÇÃO DE 70”: A “GERAÇÃO DE 70” EM ITÁLIA Brunello Natale De Cusatis…210
LITERATURA E DIPLOMACIA: ALGUMAS REFLEXÕES Cláudio Guimarães dos Santos…218
PROLEGÓMENOS E INTERMITÊNCIAS DIALÓGICAS Joaquim Pinto…222
LUSOFONIA INTERIOR Luís G. Soto…230
A NOVA ÁGUIA E A CULTURA LUSÓFONA Nuno Sotto Mayor Ferrão…235
AUTOBIOGRAFIA 3 Samuel Dimas…241
EXTRAVOO
VIDA CONVERSÁVEL - SEGUNDA PARTE (CONTINUAÇÃO) Agostinho da Silva…252
APRESENTAÇÃO A ORIENTE DE ESTREMOZ DE UMA REVISTA LITERÁRIA António Telmo…255
DO QUE POSSA SER A FILOSOFIA Delfim Santos…257
BIBLIÁGUIO
PORTUGAL, UM PERFIL HISTÓRICO Renato Epifânio…270
TRAÇOS FUNDAMENTAIS DA CULTURA PORTUGUESA Renato Epifânio e Joaquim Domingues…272
A LITERATURA DE AGOSTINHO DA SILVA António Cândido Franco…276
POEMÁGUIO
PARA AS TINTAS DO JOSÉ RODRIGUES Albano Martins…6
A “ANJA” DE JOSÉ RODRIGUES José Acácio Castro…6
DA ESCULTURA: A JOSE RODRIGUES - IN MEMORIAM António José Queiroz…6
PESSOAS COMO O JOSÉ RODRIGUES Renato Epifânio…6
O ROSTO QUE SONHA: PARA JOSÉ RODRIGUES J. Alberto de Oliveira…7
TU NÃO VIESTE ONTEM Emerenciano…22
CANTANDO-TE Ruben Marks…54
O TEU NOME INSCRITO Rosa Alice Branco…60
PERMITE-TE O IMPOSSÍVEL Isabel Alves de Sousa…60
PROCELA / VIDA E POESIA António José Borges…61
HUMANIDADE Fernando Esteves Pinto…83
ALEKSANDR SOLZHENITSYN Jesus Carlos…135
CARTA AO ALBERTO CORRÊA DE BARROS NA HORA DA PARTIDA José Valle de Figueiredo…151
SONETO – OBIRALOVKA/ INCONSTÂNCIA Jaime Otelo…198
AMADOR, COMO DISSE CAMÕES Manoel Tavares Rodrigues-Leal…250
MORTE EM AZUL Filipa Vera Jardim…251
FLUVIALMENTE Maria Luísa Francisco…279
ESCURIDÃO Delmar Maia Gonçalves…279
MEMORIÁGUIO…280
MAPIÁGUIO…281
ASSINATURAS…281
COLECÇÃO NOVA ÁGUIA…284




Apresentação da NOVA ÁGUIA 20

Apresentação da NOVA ÁGUIA 20
18 de Outubro: Palácio da Independência (para ver, clicar sobre a imagem)

Para agendar um lançamento: novaaguia@gmail.com; 967044286.

MAPIÁGUIO (mapa de locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA): Albufeira, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guimarães, João Pessoa (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Montargil, Montijo, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.

Nota: Muitos destes lançamentos, não só no país como por todo o espaço lusófono, só têm sido possíveis pelo apoio que a este projecto tem sido dado, desde a primeira hora, pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono. O nosso público reconhecimento por isso. Desta forma, a NOVA ÁGUIA tem tido uma projecção não apenas estritamente nacional mas lusófona.

PARA ASSINAR A NOVA ÁGUIA: www.zefiro.pt/assinaturas






O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural

O "3º momento alto" da nossa tradição filosófico-cultural
Ângelo Alves, "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo"

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA

Manuel Ferreira Patrício, sobre o MIL e a NOVA ÁGUIA
In AA.VV. "A Vida como Projecto. na senda de Ortega e Gasset", Universidade de Évora Edições, 2014, p. 13.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

"O pecado em mim diz «eu»". Criação e decriação em Simone Weil



Publicamos parte da comunicação que apresentaremos amanhã, 11 de Dezembro, pelas 14.30, em "Marginalidade e Alternativa. Jornada comemorativa do centenário de Simone Weil" (Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). O Colóquio abre às 10.00 com a comunicação de Sylvie Courtine-Denamy, "Enracinement et déracinement chez Simone Weil". É a oportunidade de conhecer uma das mais prodigiosas pensadoras, místicas e mulheres de acção do século XX.
Os números entre parênteses dizem respeito às páginas de La pesanteur et la grâce (Paris, Presses Pocket, 1993).


“O pecado em mim diz «eu»”: criação e decriação em Simone Weil


É tarefa eminentemente difícil escrever sobre Simone Weil e, sobretudo, sobre o centro da sua vida, a sua experiência espiritual, cuja profundidade a arrebata e torna dificilmente acessível às regiões superficiais onde se transacciona a vida comum ou convencional dos homens. Sem abrangermos toda a sua obra, queremos comentar um trecho que nos parece condensar muito do que há de mais fundo na sua visão e vivência, socorrendo-nos para tal de outras passagens dessa obra magistral que é La pesanteur et la grâce.

“O pecado em mim diz “eu”.
Eu sou tudo. Mas esse “eu” é Deus. E não é um eu.
O mal faz a distinção, impede que Deus seja equivalente a tudo.
É a minha miséria que faz que eu seja eu. É a miséria do universo que faz que, num sentido, Deus seja eu (isto é, uma pessoa)” (40).

Para compreendermos este fragmento, temos de o situar no contexto da visão que a autora tem da íntima articulação entre a criação divina e a humana decriação do seu ser criado. Com efeito, Simone Weil vê a criação como um perpétuo acto de amor de Deus a si mesmo “através de nós”, no qual esse mesmo amor que nos dá o ser nos permite a e convoca à voluntária e amorosa devolução disso que nos dá. O Deus criador perpetuamente mendiga junto do homem essa mesma existência que não lhe oferece senão para a mendigar, não amando em nós o sermos, mas antes “o consentimento a não ser”. É isso que faz da existência humana uma “espera” de Deus, no duplo sentido de um humano esperar Deus e de um divino esperar o homem, ou seja, o seu “consentimento a não existir” (42).

A criação, manifestação de “uma força «deífuga»”, sem a qual “tudo seria Deus”, implica, “num sentido”, a divina renúncia “a ser tudo”, para que possa haver quem seja “alguma coisa” e assim possa renunciar a isso, como “imitação” da divina renúncia criadora e seu “único bem” (43). Aplicando também à criação o que São Paulo diz, na Carta aos Filipenses, da kenôsis redentora, o divino esvaziamento da própria divindade – ou o auto-ocultamento divino, sem o qual Deus não poderia criar (49) - apela o humano esvaziamento “da falsa divindade com a qual nascemos” (44). Como diz Weil: “Foi dada ao homem uma divindade imaginária para que ele se possa dela despojar como o Cristo da sua divindade real” (43).

Deus renuncia à própria totalidade e o divino amor criador retira-se da criatura humana para que ela possa existir e amá-lo: é assim que surge a “necessidade”, espaço, tempo e matéria, como o “ecrã colocado entre nós e Deus para que possamos ser” e sem cuja protecção, expostos à “irradiação directa” do amor divino, nos evaporaríamos “como água ao sol”. Sem essa separação protectora do imediato evanescimento na divindade, “não haveria suficiente eu em nós” para o abandonarmos “por amor”. É esse amor que nos cabe, “trespassar o ecrã para cessar de ser” (42-43).

O homem participa na divina criação do mundo, não propriamente colaborando na constituição de si e da realidade não-humana - como nas leituras comuns da questão, que evocam a nomeação adâmica dos animais por Deus criados, no Génesis (2, 19-20) - , mas antes decriando-se a si mesmo e devolvendo-se à divindade, sendo nisso que é cocriador: “Nós participamos na criação do mundo decriando-nos a nós mesmos” (44). Isto mostra que a criação do mundo apenas se cumpre na decriação do homem, que consiste em “fazer passar o criado no incriado”, distinta da “destruição”, seu “ersatz culpável”, que faz “passar o criado no nada [néant]” (42). Se, enquanto “Criador”, Deus é necessária e inerentemente presente em tudo o que existe, desde que vem a ser, o que é a “presença de criação”, já para ser presente enquanto “Espírito”, ou seja, para a “presença de decriação”, Deus carece da “cooperação da criatura”, nessa des-entificação de si que é a própria salvação. A pensadora cita Santo Agostinho - “Aquele que nos criou sem nós não nos salvará sem nós” - (48-49), embora este colaborar do homem na sua salvação não seja em Weil, ao contrário do santo de Hipona, senão a deconstrução do seu ser criado.

Na verdade, algo mais fundo se oculta na constatação de que “Deus me deu o ser para que eu lho restitua”. A criação divina é como as provas e armadilhas dos contos iniciáticos: se a criatura cede e aceita o dom do próprio ser, isso é “mau e fatal”, e só a sua “recusa” manifesta a “virtude” salvífica. Se a criação consiste na divina permissão de “existir fora” da divindade, compete à criatura “recusar esta autorização”, sendo nisso que consiste a “humildade”, “rainha das virtudes” (51). Recusar existir fora de Deus é na verdade recusar um ser fictício, a “falsa divindade” atrás referida, a determinação inerente ao nascimento (44), pois na existência humana não há “ser”, apenas “ter”. Enquanto o homem pode somente conhecer de si o que é exterior e circunstancial, o seu verdadeiro ser “está situado por detrás da cortina” da “miséria humana”, “do lado do sobrenatural”. Aí reside o “eu”, “oculto para mim (e para outrem)”, o qual, por isso mesmo, não é propriamente humano: “ele está do lado de Deus, ele é em Deus, ele é Deus”. Por isso, do mesmo modo que ser humilde é recusar existir fora de Deus, “ser orgulhoso é esquecer que se é Deus…” (49). Enquanto o orgulho consiste em enaltecer-se pelo que se não é, a humildade reside em nada se supor, desejar ou acrescentar para além desse divino húmus a que se é íntimo.

Podemos agora comentar o trecho inicial. A razão pela qual “o pecado em mim diz «eu»” é que toda a auto-identificação e auto-afirmação consiste em aceitar o divino dom de ser, em vez de iniciaticamente o recusar, aceitando apenas dele a possibilidade de o negar. Dizendo “eu” exerço a liberdade, aberta pelo divino esvaziamento ou ocultamento, para a negar determinando-a numa id-entificação, em vez de a preservar recusando exercê-la. Dizendo “eu” assumo a possibilidade de me autoposicionar na existência e nisso caio no orgulho de me esquecer Deus, na ausência de humildade de aceitar construir uma fictícia entidade autónoma. Na verdade, não faz sequer sentido dizer “eu”, pois “eu sou tudo” enquanto não humano e não criado, enquanto Deus. Somente esse “eu” que é “tudo” “é Deus” e por isso “não é um eu”, não é um ente determinado. Sendo Deus o não haver eu, o acto de dizer “eu” peca, ou melhor, é pecado, consistindo no próprio “mal” que “faz a distinção”, ao conferir uma fictícia id-entidade à criatura e ao criador, impedindo “que Deus seja equivalente a tudo” (40) (em rigor, impedindo o reconhecimento disso). A possibilidade do mal é a própria possibilidade da criação, o risco, dir-se-ia, que Deus corre ao renunciar-se e ocultar-se, permitindo haver quem, para seu “único bem” (43), negue o ser criado e a própria criação, mas também, simultaneamente, quem não recuse o dom de ser e o guarde para si, aferrando-se nessa “raiva de persistir” (* Heidegger em comentário a Anaximandro) ou nesse espinosiano “esforço” de “perseverar no seu ser” que aqui obstaculiza e frustra o divino moto criador. A divina criação fracassa no haver quem a aceite, tombando na “miséria” que o converte num “eu” (40), sem trespassar em Deus o “ecrã” do universo e de si (43), que é afinal o mesmo véu da personalidade divina, pois a “miséria” que gera o “eu” é a mesma “miséria do universo” que, “num sentido”, faz que “Deus seja eu (isto é, uma pessoa)” (40). É o fracasso na prova iniciática da criação que gera a ficção idolátrica da personalidade e da id-entidade humana e divina. Simone Weil mostra aqui, pesem notáveis singularidades e divergências, a sua funda filiação na corrente de espiritualidade e mística cristã que, com pontos salientes em Marguerite Porete e Mestre Eckhart, vê no processo de autoconstituição do sujeito na existência a demissão do incriado divino que simultaneamente o entifica e personaliza à semelhança da própria entificação e personalização, instaurando uma aparente clivagem entre o humano e o divino que exige ser abolida numa conjunta libertação de si e desse “Deus” antropomorficamente pensado, mediante o que Marguerite designa como “désencombrement” (desobstrução, desimpedimento) e Eckhart como “Durchbrechen” (trespassar).

Nascidos “revirados”, invertidos, negadores do divino impessoal enquanto afirmadores de nós e de um Deus-pessoa, há que inverter essa inversão, negar essa negação, “restabelecer a ordem”, o que implica “desfazer em nós a criatura” (45). Compreendendo-se que na verdade “nada se é, o objectivo de todos os esforços é tornar-se nada”, sendo para esse fim que se aceita sofrer, se age e se ora: “Meu Deus, concedei-me tornar-me nada [rien]”. É na medida desse auto-apagamento do sujeito que “Deus se ama através de mim” (44), cumprindo o amor a si que é o sentido único da criação (42), entendida para além do antropocentrismo habitual. “Ser nada” é o que instala cada sujeito no seu “verdadeiro lugar no todo” (46), essa ausência de si, esse não-eu que é o próprio Deus.

O apagamento do sujeito nada mais é, nesta perspectiva, do que a evanescência da “sombra projectada pelo pecado e pelo erro que detêm a luz de Deus”, “sombra” que a si mesma se toma por um “ser”. É por isso que esse apagamento não é, em rigor, uma divinização do sujeito, o que seria a impossível equiparação da sombra à luz: “Mesmo se se pudesse ser como Deus, valeria mais ser lama que obedece a Deus” (51). Incompossível com a divindade, o sujeito há-de encontrar “a plenitude da alegria” num mesmo e único pensamento, o de que “Deus é”, ou seja, o de que ele mesmo, o suposto sujeito, “não é” (48). A “alegria perfeita e infinita” que há em Deus em nada se aumenta ou diminui pelo facto do sujeito nela participar ou não, o que retira a isso toda a importância, denunciando o autocentramento do desejo de salvação e da crença na imortalidade (48).

Decriar-se é apagar-se e isso é, num sentido, fazer desaparecer o véu ou sombra ficticiamente interposto pelo eu entre Deus e o mundo, permitindo que Deus, através de nós, sem nós, “percepcione a sua própria criação”: “o que o lápis é para mim quando, de olhos fechados, eu palpo a mesa com a ponta – ser isso para o Cristo”; “bastaria que eu tivesse sabido retirar-me da minha própria alma para que esta mesa que tenho diante de mim tivesse a incomparável fortuna de ser vista por Deus” (52). Gandhi escreve, nas Cartas ao Ashram: “Sentir que somos alguma coisa, é erguer uma barreira entre nós e Deus”. Em Simone Weil, todavia, isso que em nós diz “eu” instaura antes uma separação e um véu entre Deus e o mundo, constituindo um desnecessário e prejudicial observador que impede o seu pleno contacto e transparência, pela remissão a si de tudo o que percepciona e experimenta. O sujeito deve assim retirar-se para respeitar a intimidade entre Deus, os seres e as coisas, como o “terceiro importuno” e indiscreto que urge desaparecer para que dois “amantes”, “amigos” ou “noivos” “estejam verdadeiramente juntos” (52-53, citar). Não se trata de desejar o fim da experiência do mundo, mas antes o fim da nossa experiência do mundo, da experiência do mundo por um eu-sujeito, a fim de que ela seja plena, divina, tal qual, sem nenhuma relativização a qualquer finitude, por múltiplas e singulares que sejam as perspectivas em que se dê:

“Não posso conceber a necessidade de que Deus me ame […]. Mas represento-me sem dificuldade que ele ama essa perspectiva da criação que não se pode ter senão do ponto onde estou. Constituo todavia um ecrã. Devo retirar-me para que ele possa vê-la” (52).

“Não desejo de modo algum que este mundo criado não mais me seja sensível, mas que não seja mais a mim que ele seja sensível. A mim, ele não pode dizer o seu segredo que é demasiado alto. Que eu parta, e o criador e a criatura trocarão os seus segredos.
Ver uma paisagem tal qual ela é quando aí não estou…
Quando estou nalgum lado, maculo o silêncio do céu e da terra pela minha respiração e pelo bater do meu coração” (53).

[...]

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