O nosso Presidente anda a alimentar-vos algumas ilusões (não te chateies, que ele faz o mesmo connosco; faz parte da função), mas eu quero desiludir-te de vez: nunca (repito: nunca) a Turquia entrará na União Europeia.Sabes porquê? Nem é tanto por a Turquia ser muçulmana e a União Europeia ser um “clube de cristãos”, como por aí se gosta de dizer (para meu escândalo, devo confessar-te, aqui entre nós). Nem, muito menos, pela questão dos direitos humanos, ou pela questão do Curdistão, ou por qualquer outra.
Ou melhor: tudo isso torna-se relevante mas só por causa do grande argumento. É que a Turquia é demasiado grande (em extensão e em número de habitantes). Se vocês fossem poucos, entrariam sem qualquer problema. Seriam uma espécie de pena exótica que nós poríamos no chapéu da União Europeia para mostrarmos ao resto do mundo quão tolerantes somos…
Agora, com a vossa dimensão, se entrassem, tornar-se-iam no maior país da União Europeia. E isso é óbvio que a França e a Alemanha jamais aceitarão. Já se sabe, é uma lei da física: ninguém abdica do poder que tem…
A Inglaterra é outra conversa: dado o alinhamento com os EUA, querem-vos cá dentro para enfraquecer ainda mais a União. Se alguma vez me vires a defender a vossa entrada, será também por isso - para enfraquecer a União, não para agradar aos EUA...
Quantos aos outros, os “pequenos”, como nós – se já nos custa ouvir falar do “eixo” franco-alemão como “locomotiva” da União Europeia (para não usar outras imagens), imagina o que seria termos de engolir o eixo germano-turco. Atirar-nos-íamos todos para a frente do próximo comboio, no mínimo. Ou então sairíamos outra vez todos em caravelas: o problema seria saber para onde…
A grande questão é que tu já sabes tudo isso. Mas, assim sendo, porque alinhas na encenação? Ah, esqueci-me por um instante: também és presidente. Alimentar ilusões faz também parte da tua função…
Seja!