Pelo alcácer se multiplicam os jardins e as mulheres; nuas como pedras mergulham nas piscinas e nos lagos, deitam-se ao sol em tapetes de flores, ou na relva, alimentadas por brônzeos djinns, à hora a que a água da conduta derrama sobre a lentidão das coisas a sua canção da meia-tarde, e as torna mais lentas e felizes.
O calor floresce e desnuda as mulheres e faz os homens andar de um lado para o outro, com um brilho demente no olhar. Pelo múrmur dos mananciais e os perfumes do Estio espargem-se os óleos e os amores. Não há mais paraíso, senão abandonar a alma nos jardins e deixar que o pensamento se dilacere entre raparigas-tâmara e raparigas-flor – assim esquece o sábio as pestes da terra.
Beijo-as na pantalha líquida e envolvem-me as dulcilucentes águas do prazer, jorradas por amenos leões de granito, polido, branco do sol ibérico e também as flores, as árvores largas, a coragem dos homens, as dançarinas e as tâmaras e tudo o que corre pela minha casa do amor.
É melhor amar entre rosas, acima da esterilidade das páginas e das letras. Quem percorreu este Reino sem cometer um crime? Digam-me, que hora de glória que valesse uma hora de amor, ou conversar com amigos no crepúsculo a meio do vinho e do sono?
Ao entardecer todos os azulejos são belos como sentenças do Profeta e fecho as portas florais à fome do mundo – e aos viandantes, imãs vociferantes, filósofos, mercadores, capitães que partem para a batalha; a todos esses infelizes oferto, fora das muralhas vegetais e da frescura florida, a água e o simples pão e um aguado néctar, para que não invadam a minha casa com a sua cobiça, o seu ódio, o seu corpo malsão e a sua miséria escura.
Para distribuir estas parcas refeições escolho sempre, de entre os meus súbditos, um jovem néscio e ignorante, pastor ou madeireiro, a quem a vida nos espaços livres dotou de uma grandeza natural da alma. Ó guardião dourado, vivesse eu dez mil vidas, e não seriam suficientes para te mostrar a minha funda gratidão, pelas fontes imaculadas e por tudo o que corre pela minha casa do amor.
O meu coração é uma tenda aberta aos pobres corações. A minha vida, ânfora plena, verte para outras ânforas, vazias – e quando o lençol nocturno das correntes derrama a sua rede por entre as ervas, as raízes e os seixos, deito-me entre seios, entre cabelos negro-azuis e desnudos corpos brancos, cachos de ouro e lustrosos pomos, a vigilância toldada pelo prazer e pelo odor agridoce de laranjas maduras, a que se mistura a romã e o cheiro do amor. Assim, de uma noite o mundo, e do mundo um dia só, eterno.
Glória a Ti, nas alturas, ó Altíssimo. Louvores e palmares por este jardim impoluto, a felicidade.
Como não poderia eu, ó Deus, ser feliz, se Tu abençoas a minha casa com as raparigas e os cântaros, com a voz dos poetas e o alaúde soluçante, com as manhãs, as tardes e as noites, com a mesa farta, o amor, o silêncio e o cintilar das estrelas?
Que Sevilha me poderiam os porcos roubar agora, que jardins incendiar? Agora que Al’Mutamid* o poeta ergueu a sua capital do amor em um lugar secreto e alto, entre as terras e as águas do sonho, e se todas as noites mil trovadores, mil mulheres ardentes e mil mínimos pássaros levantam o alcácer e mudam o seu lugar nos mapas dos navegantes e nas rotas das caravanas…
Allãhu Akbar. Deus é Grande.
Lord of Erewhon
* Muhammad Ibn Abbad Al’Mutamid, Príncipe perfeito e o maior poeta de língua árabe, nasceu em Beja em 1040, foi Príncipe de Silves com 23 anos (onde passou a puberdade e pela qual se apaixonou) e último Rei taifa de Sevilha (1069-1090), que transformou na mais poderosa e culta cidade da Espanha islâmica. Traído pelos berberes almorávidas a quem pediu auxílio contra os cristãos, veio a morrer no sofrido cativeiro em Aghmat em 1095, onde jaz ao lado da esposa e de uma filha, ainda criança.Em 1967 a Casa Real de Marrocos mandou erigir um mausoléu sobre o túmulo do Poeta-Rei, uma vez que este é considerado um marbût (santo) e o túmulo lugar sagrado e de peregrinação. O Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, em viagem oficial, visitou o mausoléu em 1998.

