A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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sexta-feira, 17 de julho de 2015

De Miguel Real, sobre Sampaio Bruno, na NOVA ÁGUIA 16

SAMPAIO BRUNO: UMA SÍNTESE DO SEU PENSAMENTO NOS 100 ANOS DA SUA MORTE

 
Sampaio Bruno, sendo um dos autores mais esquecidos da cultura portuguesa, é, simultaneamente um dos autores de maior culto entre um reduzido grupo de intelectuais numa linha que vai de Leonardo Coimbra a Joaquim Domingos, passando por Álvaro Ribeiro, António Telmo, José Marinho e António Quadros, isto é, de autores que privilegiam as teses da “Filosofia Portuguesa”. Para além destes autores, excessivamente encomiásticos, possuímos um bom estudo de Joel Serrão,[1] exterior ao ideário do biografado, desenvolvido numa vertente cultural racionalista, de pendor sergiano, o clássico Amorim de Carvalho, O Positivismo Metafísico de Sampaio Bruno. As Influências de Comte e Hartmann. Crítica e Reflexões Filosóficas (1960),[2] útil e investigativo livro, que não deve ser lido sem as correcções explicitadas por António Telmo em “Prefácio” a O Brasil Mental. Esboço Crítico,[3] e, principalmente, as advertências muito lúcidas feitas por Joaquim Domingues nos artigos “A Ética Cósmica de Bruno” e “Bruno e Euclides da Cunha no contexto do positivismo finissecular”, insertos em De Ourique ao Quinto Império. Para uma Filosofia da Cultura Portuguesa,[4] bem como o livrinho do mesmo autor, muito justo na apreciação da evolução e da filosofia de Sampaio Bruno, O Essencial sobre Sampaio (Bruno).[5]. Descuidada na apreciação crítica da filosofia de Sampaio Bruno é a de José Barata-Moura, no seu livro Estudos de Filosofia Portuguesa, no capítulo “Tópicos para um panorama da filosofia em Portugal no século XX”.[6] Porém, a verdade é que Barata-Moura restringe a filosofia de Sampaio Bruno à análise do livro A Ideia de Deus (1902), olvidando tanto as anteriores ideias filosóficas de Sampaio Bruno quanto, principalmente, a sua marcante superação do positivismo, ficando a supor o leitor, pelos extractos apresentados, ser a teoria de Sampaio Bruno uma espécie de nefalibatismo espiritual pairando no céu da filosofia mística sobre um térreo vendaval político entre republicanos e monárquicos.

(excerto)



[1] Joel Serrão, Sampaio Bruno, O Homem e o Pensamento, Lisboa, Livros Horizonte, 19862. De aconselhável a leitura de Manuel Gama, O Pensamento de Sampaio Bruno. Contribuição para a História da Filosofia em Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994, bem como AA. VV., Colóquio Antero de Quental dedicado a Sampaio Bruno, Aracaju, Secretaria de Estado da Cultura, 1995, com um conjunto de importantíssimas comunicações, cujo leque teórico fornece uma das melhores introdução ao todo do pensamento de Sampaio Bruno.
[2] Amorim de Carvalho, O Positivismo Metafísico de Sampaio Bruno. As Influências de Comte e Hartmann. Crítica e Reflexões Filosóficas; Lisboa, Sociedade de Expansão Cultural, 1960.
[3] António Telmo, “Prefácio” a Sampaio Bruno, Brasil Mental. Esboço Crítico, [1898], Porto, Lello & Irmãos, 1997.
[4] Cf. Joaquim Domingues, De Ourique ao Quinto Império. Para uma Filosofia da Cultura Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2002, respectivamente, pp 85 ss e 97 ss.,
[5] Joaquim Domingues, O Essencial sobre Sampaio (Bruno), Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2002.
[6] Cf. José Barata-Moura, Estudos de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Ed. Caminho, 1998, pp. 249 – 281.

sábado, 11 de julho de 2015

BIOBIBLIOGRAFIA DE SAMPAIO (BRUNO), PARA A NOVA ÁGUIA 16...

por JOSÉ LANÇA-COELHO



1857 – A 30 de Novembro, pelas 17h, na cidade do Porto, na rua de Santa Catarina, nº 429, nasceu José Pereira de Sampaio (Bruno), filho de José Pais de Sampaio e Ana Albina Pereira Barroso.

1860 – Sampaio (Bruno) muda-se para a rua do Bonjardim, nº 410, também no Porto.

1867 – Na biblioteca do pai, Sampaio (Bruno) lê tudo o que apanha à mão. Na sua obra Carta Íntima destaca três livros que preencheram a sua adolescência, Mário, de Silva Gaio, a versão portuense de Santos Silva de Os Miseráveis de Victor Hugo e, Mistérios do Povo de Eugène Sue.

1872 – A 8 de Abril, com apenas catorze anos, publica o seu primeiro artigo no Diário da Tarde, influenciado pelos artigos de Guilherme Braga, e assina-o com o pseudónimo de Sampaio (Bruno), condoído com o suplício infligido pela Inquisição a Giordano Bruno. «Anchi io son pittore» (Também eu sou pintor), exclamou Corrégio ao ver a primeira vez um quadro de Rafael, o que levou Sampaio a pensar, «Também eu hei-de redigir artigos». Ainda neste ano, de colaboração com Júlio A. Barbosa e Silva, Henrique Barbosa e A. Cardoso, funda o jornal académico O Laço Branco, de que se publicaram três números. Também publicou o romance Os Três Frades.

1873 – De colaboração com Gervásio Ferreira de Araújo e António Pereira de Sampaio (Aubin), fundou outro jornal, O Vampiro, também de curta existência, seis números. Ainda neste ano, surgiu a revista Harpa, dirigida por Joaquim de Araújo. Desta revista saíram vinte números e nela participaram, além de Sampaio (Bruno), Magalhães Lima, Bettencourt Rodrigues, Cesário Verde, etc.

1874 – Tinha Sampaio (Bruno) dezasseis anos e frequentava o 5º ano do Liceu, quando começou a escrever a Tribuna, revista onde participaram Latino Coelho, Pinheiro Chagas e outros. Fundou um cenáculo literário onde se discutiam problemas de toda a índole. Dessa tertúlia faziam parte Manuel Teixeira-Gomes, Basílio Teles e Gomes Leal.

Neste ano, Sampaio (Bruno) publicou Análise da Crença Cristã, Porto.

1875 – Adoeceu gravemente, não pôde matricular-se na Escola Politécnica do Porto.

1876/77 – Realizou os exames de física, química, e história natural com aprovação. Desde então trocou a carreira das ciências pelas letras.

1879 – Surgiu a Gazeta do Realismo de que só saiu um número e foi apreendida pela polícia devido ao seu sucesso. Sampaio (Bruno) participou nela com o pseudónimo de Alphonse Daudet, escrevendo o artigo de fundo, Enquanto o pano não sobe.

1881 – Fundou os semanários O Democrático e O Norte Republicano, e deu colaboração ao jornal Folha Nova, dirigido por Emídio de Oliveira (Spada). Prefacia o livro de Alexandre Braga, Discurso Anti-Jesuítico, Porto.

1883 – Organizou o diário A Discussão.

1884 – Prefacia o livro de Joaquim de Araújo, Lira Íntima, Braga.

1886 – Publicou A Geração Nova, Porto. Prefacia o livro de Pacheco de Amorim, Aerólitos, Braga.

1889 – Prefacia o livro de Simão José da Luz Soriano, História do Cerco do Porto, Porto.

1890 – Surgiu o jornal A República Portuguesa, onde também participaram João Chagas, Júlio de Matos, Guerra Junqueiro, entre outros.

1891 – Bruno foi para o exílio, de onde só regressou após a amnistia, sendo acolhido por Guerra Junqueiro.

Publicou Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro de 1891, Paris.

1893 – Regressou a Portugal, depois de viver na Galiza e em Paris. Publicou Notas do Exílio, Porto.

1895 – Prefaciou o livro de Guilherme Braga, O Bispo, Porto.

1896 – Prefaciou o livro de Moreira Lopes, Lágrimas de Amor, Porto.

1897/1908 – Escreveu no diário A Voz Pública.

1898 – Publicou O Brasil Mental, Porto.

1901 – Prefaciou o livro de D. João de Castro, Paráfrase e Concordância, Porto.

1902 – Sampaio (Bruno) é vítima de uma agressão praticada por Afonso Costa. Publicou A Ideia de Deus, Porto; e, prefaciou os livros de H. Schaefer, História de Portugal, Porto; e de António Nobre, Despedidas, Porto.

1903 – Publicou um folheto escrito em francês intitulado Theorie Exacte et notation finale de la musique, Porto, no qual demonstrou a solução do problema sobre as divisões musicais. A essas divisões, rigorosamente exactas, chamou-lhes Escala Tessaradecatónica. Resolveu mandar construir um pequeno harmónio para demonstrar a sua solução. Prefaciou o livro de Maximiano Rica, Líricas, Porto.

1904 – Publicou O Encoberto, Porto.

1905 – Prefaciou a tradução portuguesa da obra de Vítor Hugo, Os Génios, Porto.

1906 – Publicou Os Modernos Publicistas Portugueses, Porto; e, Portugal e a Guerra das Nações, Porto.

1907 – Publicou A Questão Religiosa, Porto. Prefaciou o livro de Augusto Luso, Últimos Versos, Porto; e o de Euclides da Cunha, Contrastes e Confrontos, Porto.

1908 – É nomeado 2º oficial conservador da Biblioteca Municipal do Porto. Publicou Portugueses Ilustres, 3 vols., Porto.

1909 – Surgiu o jornal A Pátria, cujo director era Duarte Leite, onde Bruno escreveu três artigos por semana até 1910. Por morte de Rocha Peixoto, é nomeado primeiro bibliotecário da Real Biblioteca Municipal do Porto. Publicou A Ditadura, Porto; e prefaciou a obra de Joaquim Costa, A Alma Portuguesa, Porto.

1910 - Prefacia os livros de Afonso Vasques Calvo, O Livro da Corte Imperial, e do Infante D. Pedro, O Livro Virtuosa Benfeitoria, manuscritos dados à estampa pela Biblioteca Pública Municipal do Porto.

1911 – No Porto, publicou no jornal Diário da Tarde, uma declaração ao povo e ao Governo expondo razões porque resolvia suspender esta publicação. Enviou também a vários jornais a seguinte declaração: «Rogo-lhes o obséquio de darem publicidade no seu jornal a esta declaração que entendo dever fazer, e é de que, desta data em diante, me retiro, completa e absolutamente enojado, da vida política portuguesa.». Prefacia o livro de Tomé Pinheiro da Veiga, O Livro Fastigímia, manuscrito dado à estampa pela Biblioteca Pública Municipal do Porto.

1912 – Publicou O Porto Culto, Porto; e, prefacia a obra de Manuel Pereira de Novais, Anacrisis Historial, manuscrito dado à estampa pela Biblioteca Pública Municipal do Porto.

1912/13 – Durante este biénio trabalhou na preparação do livro Teoria Nova da Antiguidade.

1914/15 – Colaborou na revista A Águia e no jornal O Primeiro de Janeiro com artigos sobre Filosofia e História. Publicou Do Livro da Arte de Furtar e de seu Verdadeiro Autor, Porto; e prefacia o livro de Artur Botelho, Alma Lusitana, Porto. Antes de falecer, prefaciou ainda o livro de Borges Carneiro, Esboços Pálidos, Porto; e o de António Joaquim, Rapsódia Camiliana, Porto.

1915 – 6 de Novembro, faleceu vítima de hidrocele que nos últimos anos o impossibilitara de caminhar.
 
1931 – A 30 de Novembro deste ano, realizou-se a primeira homenagem póstuma a Sampaio (Bruno) no Salão Nobre da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, tendo discursado Leonardo Coimbra e Teixeira Rego.
 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Tema do 16º número (2º semestre de 2015)


 Sampaio Bruno, “fundador da filosofia portuguesa”: nos 100 anos do seu falecimento.

Para o 16º número, os textos devem ser enviados até ao final de Junho.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

SAMPAIO BRUNO, TEIXEIRA REGO E CAMILO CASTELO BRANCO POR AGOSTINHO DA SILVA

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Agostinho da Silva no seu livro Ir à Índia sem Abandonar Portugal, mais especificamente no capítulo intitulado ‘A Cidade do Porto’ (p. 29), tece interessantes considerações que têm como intervenientes Sampaio Bruno (1857-1915), Teixeira Rego (1880-1934) e Camilo Castelo Branco (1825-1890).

Agostinho da Silva diz que Teixeira Rego foi o professor que mais seguiu e admirou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, cujas habilitações literárias eram a 3ª classe da Instrução Primária ou o 3º ano do liceu, pois isso, nunca ninguém o averiguou.

Porém, as suas habilitações literárias oficiais nada tinham que ver com as privadas, uma vez que, desde menino, Teixeira Rego, ia muito cedo para a Biblioteca Municipal do Porto ler tudo o que apanhava à mão.

Ainda de acordo com o testemunho de Agostinho da Silva, Sampaio Bruno, que era o director da Biblioteca Municipal, um dia, ao entrar nesta instituição, viu aquele menino a ler. Aproximou-se dele e ficou surpreendido com a matéria que ocupava a sua atenção. Porém, Agostinho da Silva não nos sabe informar, qual a matéria que Teixeira Rego indagava.

A partir deste momento, Sampaio Bruno interessou-se a fundo com a educação daquela criança precocemente inteligente, e de tal modo o guiou que, quando fundaram no Porto, simultaneamente, a Faculdade de Letras e o Instituto Superior de Comércio, houve a dúvida de pôr Teixeira Rego, na primeira instituição a dar aulas de Gramática Comparativa das Línguas Românicas, ou na segunda, a ministrar Matemáticas Gerais.

Agostinho da Silva confessa então, que, para sua sorte, Teixeira Rego foi colocado como professor de Gramática Comparativa das Línguas Românicas na Faculdade de Letras do Porto, facto que levou Agostinho da Silva a ser seu aluno e a conhecer o homem extraordinário que ele era.

O autor de Ir à Índia sem Abandonar Portugal afirma que, no Porto que conheceu, haviam duas tradições. A referida até este momento, a que chama a de Sampaio Bruno, e uma outra que envolve o nome do homem de S. Miguel de Seide.

Na verdade, Agostinho da Silva afirma ter conhecido lojistas estabelecidos “em frente à estação de S. Bento que ainda tinham uma raiva danada do Camilo, porque o Camilo dizia mal deles (…)”.

Para além destas tradições do seu tempo, Agostinho da Silva refere ainda que havia o hábito de conversar em redor da estátua do rei D. Pedro IV (1798-1834), local que afirma ser “uma verdadeira universidade”, em que se encontrava gente muito interessante, não só portuguesa, mas também espanhola, porque o Porto ficava no caminho para Espinho, havendo muitos espanhóis, principalmente de Salamanca, que quando queriam ir à praia, lhes dava mais jeito deslocarem-se a Espinho do que à distante costa espanhola, como eram os casos de Unamuno (1864-1936) e Carracid.

terça-feira, 16 de março de 2010

Palestra: "A Gnose de Sampaio Bruno" amanhã (dia 17) em Lisboa por Abdul Cadre & Renato Epifânio

Palestra
A Gnose de Sampaio Bruno
por Abdul Cadre & Renato Epifânio
17 Março - 4ªf - 19h30 Loja Rosacruz de Lisboa R. Dom Dinis, 24 (junto da estação de metro do Rato)
Entrada livre

domingo, 31 de janeiro de 2010

"A Pátria é um princípio de solidariedade colectiva"



“Noite de esperança, noite de angústia, menos caliginosa e turva do que o claro dia subsequente, ensolelhado, em demoníaco sarcasmo.
Noite entenebrecida e cruel, onde o clangor amarelo do rebate, afeiçoando-as, pôs nas almas em sobressalto a nota romanesca das catástrofes. Noite densa, noite escura, ai de nós, a noite luminosa e viva.
Noite de sonho, noite de anelo, em que pelo ar perpassou a cândida imagem da liberdade e fulgurou, crepitante, o clarão sagrado do futuro. Noite de pesadelo, noite de agonia, em que rangeram os ferrolhos das prisões, ávidas da pitança, e o anjo-da-guarda da pátria, soluçando, escondeu o rosto, na dor, desesperada e alucinante, da derrota.
O anjo-da-guarda da pátria! Da pátria? Sem ela não podemos subsistir, na verdade. Mas será esta bem a nossa?
Assim como se não pode viver sem pão, diz o poeta que também se não pode viver sem pátria.
Porém entendamo-nos: – a Pátria não é uma zona qualquer onde acidentalmente nascêssemos, povoada por gente que connosco não participe ideias e sentimentos, que ria da nossa aflição e rejubile com a nossa desdita! Um homem não está preso pelo pé ao húmus como uma hortaliça, e a terra donde proveio é-lhe bem indiferente, se essa leira, dura e ingrata, nem sequer se deixa infiltrar de suas corrosivas lágrimas.
A Pátria é um princípio de solidariedade colectiva. A Pátria é uma religião. Ora, se no templo não temos ingresso, consoante no campo não sofrem que construamos a tenda, somos, evidentemente, de mais. A hostilidade moral expulsa os que escapem à intimação económica de pronto despejo. Para outros é que luz o Sol; escorraçados como leprosos infectos, mendigos morais, teremos de deitar a sacola aos ombros, volver as costas, partir.
Nós, republicanos, estamos hoje, na sociedade portuguesa legal, proximamente como nela se achavam os cristãos-novos no século XVII. Curiosa contradição, que a nossa pusilanimidade explica. Constituímos, de secção consciente, a maioria, e não temos direitos; somos provisoriamente permitidos, por tolerância e como que por caridade. Mas não falaremos, não escreveremos, não nos associaremos, sob pena de purgarmos na cadeia o delito de possuir sangue na cabeça para conceber ideias, sangue no coração para as propagandear.”

Sampaio Bruno, in O Brasil Mental, Lello & Irmão, 1898

Publicado em:

http://filosofia-extravagante.blogspot.com/2010/01/ao-redor-do-31-de-janeiro-6.html

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"Portugal, porque reaparecesse um vínculo colectivo, voltaria a ser uma Pátria"



“É que decididamente, havia então, há hoje só uma palavra: – República!Hesita ainda, apesar de tudo, uma parte da nossa população letrada. E, inquieta, pergunta a si-mesmo o que seria, se em Portugal se implantasse a República.Há pouco mo perguntaram, para que em público à pergunta respondesse.Respondi começando por advertir que o pedido que me era feito me recordara certo incidente da história anedótica, literária e política, nossa contemporânea.Com efeito, quando aqui há anos exerceu o seu efeito sobre a poesia portuguesa o simbolismo francês, uma das composições que apareceram e mais impressão causaram tinha o título fúnebre Quando a morte vier, e dizia os filosóficos desenganos das vaidades mundanais que no pó das sepulturas liquidam.Logo nas colunas literárias duma folha política lisbonense se leu uma paródia a essa peça de versos, e esta paródia por título tinha: Quando a República vier, e dizia o descalabro dos egoísmos devoristas, que na igualdade democrática finalizam e concluem. Havia um ritornello típico. Era este:

Quando a República vier,
Ireis cavar pés de burro;
Ireis cavar pés de burro,
Quando a República vier.

E não teriam direito de queixumes aqueles que fossem dispensados por haverem gozado até ali do favoritismo que vive, parasitariamente, do trabalho nacional. Pois que só esses é que receio possam nutrir de que de os prejudique o advento da República. Visto como a República não é o governo dum partido nem o monopólio de tal ou tal casta de gente. A República é, pelo contrário, o governo de todos, por todos e para todos. A causa da República compreende todo o país e, no fim e ao cabo, a República é a Nação.Se, pois, a República se implantasse em Portugal, o povo português adquiriria a consciência da soberania e ganharia as virtudes políticas que fundamentam a dignidade cívica. Ele tomar-se-ia a sério. Respeitar-se-ia, e o verdadeiro patriotismo faria pulsar os corações. Se a República se implantasse em Portugal, o progresso da civilização portuguesa seria ininterrupto e logo de início se assinalaria pelo timbre de grandíssimos avances efectuados. Se a República se implantasse em Portugal, o povo português viria novamente a contar na história do mundo, onde hoje, quando não é desprezado, passa despercebido.Se a República se implantasse em Portugal, Portugal deixaria de ser aquele «sítio onde cinco milhões de egoísmos se exploram reciprocamente e se aborrecem em comum», consoante da definição pretérita de Eça de Queiroz. Portugal, porque reaparecesse um vínculo colectivo, voltaria a ser uma Pátria. E essa Pátria novamente se integraria na Civilização.Consequentemente, ontem como hoje, hoje como ontem, ainda e sempre uma só palavra havia, uma só palavra há: - República!
FIM”


Sampaio Bruno, in A Dictadura, Lello & Irmão, 1909

Publicado em:
http://filosofia-extravagante.blogspot.com/2010/01/ao-redor-do-31-de-janeiro-5.html

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A Pátria "é onde não seja crime vulgarizar opiniões, onde uma atmosfera de simpatia inteligente vivifique o espírito individual".

Sampaio Bruno, Brasil Mental, 1898, pag. 56.

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres

"Porque o desfecho e remate do homem não é gozar, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem o saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. Este erro antropocêntrico é a imoralíssima moral dos filósofos evolucionistas [...].

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.[...]

A moral religiosa é falsa, porque é a moral do indivíduo. A moral filosófica, à maneira materialista, positivista, evolucionista, livre-pensante, é falsa, porque exclui os animais. A moral ascética é falsa, porque exclui as coisas.
O ascetismo e o abandono são falsos, porque importariam ou a salvação pessoal ou, tão só, a sectarista. A não resistência ao mal é falsa, porque, precisamente, eliminar o mal é o fim do homem, único e supremo.
Não foi Tolstoi. Quem encontrou a palavra do enigma foi o poeta alemão Novalis. Novalis escreveu que: - o fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza. Esta palavra vai até o fundo do fundo do abismo. Nunca nenhuma assim sublime brotou de lábios inspirados. O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza.
Como? Trabalhando, para saber, a fim de poder. E, podendo, cumpre-lhe esquecer-se, não acreditando, como até aqui, que a decifração dos mistérios é para que sua curiosidade se satisfaça; para que, redundantemente, seus prazeres aumentem. O homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a grande libertação universal"

- Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Porto, Lello & Irmão, 1902, pp.468-470.