Sua Santidade o Papa Bento XVI publicou hoje um importantíssimo documento, Caritas in Veritate (o Amor na Verdade): a redefinição do pensamento social da Igreja Católica, em tempo de crise financeira global e de estilhaçamento globalizante do mundo. Em tempo de vazio e de esvaziamento do Amor, rosto e palavra da Verdade.
Deixo aqui a versão integral em língua portuguesa, quanto mais não seja para comparar com as "notícias" do tipo "Papa defende Governo Mundial" que para gáudio dos néscios já vão aparecendo nos jornais e na internet...
E -. embora não seja, de todo, dos mais importantes - deixo aqui este parágrafo, à meditação dos que buscam um sentido no projecto da lusofonia. Sejam ou não cristãos católicos, e principalmente - claro - se o não forem.
"[no tempo de Paulo VI] as culturas apresentavam-se bastante bem definidas e tinham maiores possibilidades para se defender das tentativas de homogeneização cultural. Hoje, cresceram notavelmente as possibilidades de interacção das culturas, dando espaço a novas perspectivas de diálogo intercultural; um diálogo que, para ser eficaz, deve ter como ponto de partida uma profunda noção da específica identidade dos vários interlocutores. No entanto, não se deve descurar o facto de que esta aumentada transacção de intercâmbios culturais traz consigo, actualmente, um duplo perigo. Em primeiro lugar, nota-se um ecletismo cultural assumido muitas vezes sem discernimento: as culturas são simplesmente postas lado a lado e vistas como substancialmente equivalentes e intercambiáveis umas com as outras. Isto favorece a cedência a um relativismo que não ajuda ao verdadeiro diálogo intercultural; no plano social, o relativismo cultural faz com que os grupos culturais se juntem ou convivam, mas separados, sem autêntico diálogo e, consequentemente, sem verdadeira integração. Depois, temos o perigo oposto que é constituído pelo nivelamento cultural e a homogeneização dos comportamentos e estilos de vida. Assim perde-se o significado profundo da cultura das diversas nações, das tradições dos vários povos, no âmbito das quais a pessoa se confronta com as questões fundamentais da existência. Ecletismo e nivelamento cultural convergem no facto de separar a cultura da natureza humana. Assim, as culturas deixam de saber encontrar a sua medida numa natureza que as transcende, acabando por reduzir o homem a simples dado cultural. Quando isto acontece, a humanidade corre novos perigos de servidão e manipulação."
