A Águia, órgão do Movimento da Renascença Portuguesa, foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal. No século XXI, a Nova Águia, órgão do MIL: Movimento Internacional Lusófono, tem sido cada vez mais reconhecida como "a única revista portuguesa de qualidade que, sem se envergonhar nem pedir desculpa, continua a reflectir sobre o pensamento português". 
Sede Editorial: Zéfiro - Edições e Actividades Culturais, Apartado 21 (2711-953 Sintra). 
Sede Institucional: MIL - Movimento Internacional Lusófono, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, nº 11 (1150-320 Lisboa). 
Contactos: novaaguia@gmail.com ; 967044286. 

Donde vimos, para onde vamos...

Donde vimos, para onde vamos...
Ângelo Alves, in "A Corrente Idealistico-gnóstica do pensamento português contemporâneo".

Manuel Ferreira Patrício, in "A Vida como Projecto. Na senda de Ortega e Gasset".

Onde temos ido: Mapiáguio (locais de lançamentos da NOVA ÁGUIA)

Albufeira, Alcáçovas, Alcochete, Alcoutim, Alhos Vedros, Aljezur, Aljustrel, Allariz (Galiza), Almada, Almodôvar, Alverca, Amadora, Amarante, Angra do Heroísmo, Arraiolos, Assomada (Cabo Verde), Aveiro, Azeitão, Baía (Brasil), Bairro Português de Malaca (Malásia), Barcelos, Batalha, Beja, Belmonte, Belo Horizonte (Brasil), Bissau (Guiné), Bombarral, Braga, Bragança, Brasília (Brasil), Cacém, Caldas da Rainha, Caneças, Campinas (Brasil), Carnide, Cascais, Castro Marim, Castro Verde, Chaves, Cidade Velha (Cabo Verde), Coimbra, Coruche, Díli (Timor), Elvas, Ericeira, Ermesinde, Espinho, Estremoz, Évora, Faial, Famalicão, Faro, Felgueiras, Figueira da Foz, Freixo de Espada à Cinta, Fortaleza (Brasil), Guarda, Guimarães, Idanha-a-Nova, João Pessoa (Brasil), Juiz de Fora (Brasil), Lagoa, Lagos, Leiria, Lisboa, Loulé, Loures, Luanda (Angola), Mafra, Mangualde, Marco de Canavezes, Mem Martins, Messines, Mindelo (Cabo Verde), Mira, Mirandela, Montargil, Montijo, Murtosa, Nazaré, Nova Iorque (EUA), Odivelas, Oeiras, Olhão, Ourense (Galiza), Ovar, Pangim (Goa), Pinhel, Pisa (Itália), Ponte de Sor, Pontevedra (Galiza), Portalegre, Portimão, Porto, Praia (Cabo Verde), Queluz, Recife (Brasil), Redondo, Régua, Rio de Janeiro (Brasil), Rio Maior, Sabugal, Sacavém, Sagres, Santarém, Santiago de Compostela (Galiza), São Brás de Alportel, São João da Madeira, São João d’El Rei (Brasil), São Paulo (Brasil), Seixal, Sesimbra, Setúbal, Silves, Sintra, Tavira, Teresina (Brasil), Tomar, Torres Novas, Torres Vedras, Trofa, Turim (Itália), Viana do Castelo, Vigo (Galiza), Vila do Bispo, Vila Meã, Vila Nova de Cerveira, Vila Nova de Foz Côa, Vila Nova de São Bento, Vila Real, Vila Real de Santo António e Vila Viçosa.
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sábado, 21 de janeiro de 2012

Passam hoje 51 anos...

DA MEMÓRIA…JOSÉ LANÇA-COELHO
MORTE DE JOÃO VILLARET


Nascido, em Lisboa, a 10 de Maio de 1913, o actor e declamador português JOÃO VILLARET, morreu nesta mesma cidade, a 21 de Janeiro de 1961, vítima de cancro.
Em 1931, com apenas dezoito anos de idade, ingressou no elenco do Teatro Nacional de D. Maria II, logo que terminou o curso de teatro no Conservatório Nacional de Lisboa, estreando-se na peça Leonor Teles, da autoria do escritor Marcelino Mesquita.
Cinco anos mais tarde, fez a sua estreia no cinema, interpretando o papel do rei D. João VI, no filme Bocage, com realização de Leitão de Barros.
Após a 2ª Guerra Mundial, a partir de 1946, ingressou nos ‘Comediantes de Lisboa’, interpretou o papel da personagem principal em diversas peças, cujas mais importantes foram Miss Ba, O Rei, Cadáver Vivo, Bâton, e Esta Noite Choveu Prata.
Também no cinema português, e durante vinte anos, onde contracenou com os grandes vultos nacionais como Vasco Santana, António Silva, deixou uma marca inconfundível em filmes como, Pai Tirano, Camões, Três Espelhos, etc.
JOÃO VILLARET criou um estilo inconfundível de recitação poética que difundiu num programa televisivo entre 1958 e 1960, onde divulgou inúmeros poetas como, o grande Fernando Pessoa, quando a divulgação da obra deste ainda era um tabu e mal vista pelo regime salazarista, e a poesia A Procissão de António Lopes Ribeiro.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

1810 – 2010 : 2º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALEXANDRE HERCULANO





DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO


1810 – 2010 : 2º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALEXANDRE HERCULANO



“ Não tem título honorífico, condecoração ou distinção alguma e espera em Deus que nunca as terá.” – Alexandre Herculano, in jornal A Nação de 22 de Setembro de 1877.


“ [Um homem que] tinha o egoísmo da sua honestidade, da sua virtude.” – Ariosto da Silva.


“ (…) algumas leiras próprias, umas botas grosseiras e um chapéu de Braga [ é tudo o que preciso para ser feliz).” – Alexandre Herculano em confissão ao seu amigo Almeida Garrett.


Se quiséssemos definir Alexandre Herculano, cujo segundo centenário do nascimento se comemora no presente ano de 2010, as frases transcritas acima, cumpririam bem essa finalidade, pois nelas se encontra tudo o que o Homem, de quem iremos de seguida traçar o perfil, desejava para si.

O cidadão Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, nasceu em Lisboa, no Pátio do Gil, Rua de S. Bento, a 28 de Março de 1810, filho de Maria do Carmo de São Boaventura e de Teodoro Cândido de Araújo, recebedor da Junta dos Juros.

Estuda Humanidades nas aulas dos padres dos oratorianos dos Congregados de São Filipe Néri preparando-se para ingressar na Universidade, o que não sucede devido a cegueira contraída pelo pai, facto que empurra este último para a aposentação no ano de 1827.

Alexandre Herculano vê-se então forçado a seguir um curso prático de Comércio, onde estuda Diplomática (Paleografia) na Torre do Tombo e línguas, francês, inglês e alemão.

Entre 1827-1828 manifesta-se já a sua vocação literária, lendo autores românticos, nomeadamente, os alemães Schiller (1759-1805), Burger e Klopstock (1724-1803), e os franceses Lamennais (1782-1854), Casimir Delavigne (1793-1843), Chateaubriand (1768-1848), Lamartine (1790-1869) e Vigny (1797-1863), escrevendo poesia, travando conhecimento com poetas da estatura dum António Feliciano de Castilho (1800-1875) cuja tertúlia frequenta, bem como a Marquesa de Alorna (1750-1839), que homenageará, em 1844, num artigo publicado em O Panorama, onde a consagra como a «Madame de Stael (1766-1817) portuguesa».

As suas convicções liberais obrigam-no, no ano de 1831, a exilar-se, devido a ter participado na conspiração de 21 de Agosto, - revolta do regimento de Cavalaria 4, em Lisboa -, contra o regime absolutista de D. Miguel (1802-1866). O seu périplo começa por Inglaterra, primeiro em Plymouth, depois em cidades de província como, Stone House e Devonport, deslocando-se depois para França, Normandia (Granville), Bretanha (Rennes, cuja biblioteca Herculano frequenta de manhã à noite).

No ano seguinte, 1832, vamos encontrá-lo na ilha Terceira, Açores, onde se junta, como soldado raso, ao contingente liberal organizado por D. Pedro (1798-1834) que vem desembarcar no Mindelo, cercando o Porto, em cuja biblioteca pública trabalha, primeiro, sem descurar as suas obrigações militares, e, depois, em 1833, como segundo-bibliotecário, para além de colaborar no Repositório Literário (1834-1835).

1836 é o ano da Revolução de Setembro, que leva à abolição da «Carta Constitucional», jurada por Herculano, e a consequente reposição da «Constituição de 1822», o que determina que o escritor, fazendo alarde da dignidade que sempre caracterizou a sua existência, se demita do seu cargo e rume a Lisboa, onde publica com extremo êxito A Voz do Profeta (1ª série, 1836; 2ª série, 1837), onde se nota a influência de Lamennais (1782-1854), e que adquire o estatuto de um panfleto político contra a «Revolução Setembrista».

Actuando como jornalista, funda a revista literária O Panorama (1837), órgão de difusão do primeiro romantismo português e de divulgação dos diversos romantismos europeus, ao mesmo tempo que, dirige o Diário do Governo.

Dois anos depois, 1839, o segundo marido da rainha portuguesa D. Maria II (1819-1853), D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha (1816-1885), nomeia Herculano bibliotecário-mor das Bibliotecas Reais da Ajuda e das Necessidades. Influenciado por historiadores como Guizot (1787-1874) e Thierry dedica-se a uma exaustiva pesquisa documental que culminará, em 1842, na publicação das Cartas sobre a História de Portugal na Revista Universal Lisbonense. Este primeiro ensaio originará o volume inicial da sua História de Portugal 1846, que provocará uma violenta polémica com as autoridades clericais, ao negar o aparecimento de Jesus Cristo a D. Afonso Henriques (1109-1185), antes da batalha de Ourique, além da negação de outras lendas de cariz religioso, e que determinará a produção dos famosos opúsculos Eu e o Clero, e, Solemnia Verba, ambos de 1850.

A sua História de Portugal publicada entre 1846 e 1853, abrange o período compreendido entre a fundação da nacionalidade e a representação dos municípios nas Cortes, no reinado de D. Afonso III (1210-1279).

Não nos adiantemos, e voltemos a 1840, para registar a eleição de Herculano como deputado pelo Partido Cartista, cargo que apenas exercerá durante um ano, pois abandona o Parlamento desiludido com a não implementação do seu projecto sobre ensino popular.

Em 1846, Herculano é eleito sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa, instituição de que chegará a ser vice-presidente em 1855. O prestígio do historiador português não cessa de crescer e, assim, tornar-se-á membro da Academia de Turim (1850) e da Academia de História de Madrid (1851).

Em 1850, opondo-se à ditadura de Costa Cabral (1803-1889), Alexandre Herculano assina um documento em que denuncia a “lei da rolha” no respeitante à liberdade de imprensa. No ano seguinte, dá-se a queda de Cabral, com a consequente Regeneração do marechal Saldanha (1790-1876), e Herculano funda o jornal O País. Dois anos depois, é a vez do aparecimento de um outro órgão de comunicação, também fundado por Herculano, O Português, onde se opõe às ideias do governo de Fontes Pereira de Melo (1819-1887) e Rodrigo da Fonseca Magalhães (1787-1858).

Meia dúzia de anos depois, 1856, Herculano e outros apaniguados políticos fundam o Partido Progressista Histórico e, no ano seguinte, o historiador ataca com violência a Concordata com a Santa Sé. Entre 1860 e 1865 participa na redacção do 1º Código Civil Português, e propõe o casamento civil ao religioso, provocando nova acesa polémica com o clero, que se encontra coligida na obra de 1866, Estudos sobre o Casamento Civil.

Fatigado com estas polémicas e desiludido com a vida política, no ano seguinte, retira-se para uma quinta em Vale de Lobos, Azóia, concelho de Santarém, comprada com o dinheiro recebido com a venda dos seus livros. Após o casamento com o grande amor da sua vida, Maria Hermínia Meira, ambos vão viver para o meio da Natureza. Desde cedo, Herculano que, adorava fazer jardinagem, dedica-se então, com grande satisfação à agricultura, em especial à produção de azeite, o melhor do país de acordo com testemunho da época que, comercializa, com a marca «Herculano».

No seu amado retiro, Herculano não abandona a investigação histórica – continuando a trabalhar nos Portugalie Monumenta Histórica, publica o 1º volume dos Opúsculos (1872) –, nem as polémicas em que é ‘obrigado’ a intervir – a famigerada proibição das «Conferências do Casino» -, bem como a correspondência com os vultos literários e políticos seus contemporâneos.

Relativamente à obra literária de Alexandre Herculano, comecemos por analisar a sua poesia, género que foi também o primeiro a que se dedicou, limitada ao período da sua juventude, ao contrário do seu amigo Almeida Garrett (1799-1854), exprimindo um nacionalismo que fundamenta o seu conceito de realismo. Aliás, já que falámos em Garrett, este é o momento ideal para afirmar, sem qualquer dúvida, que, Herculano e Garrett são os introdutores do Romantismo em Portugal.

A narrativa dramática caracteriza quase toda a obra poética de Alexandre Herculano, o que o empurra para a grandiloquência a que são alheios o conteúdo conceptual bem como a originalidade de imagens.

Outra importante característica da poética de Herculano é a oposição entre o campo e a cidade, merecendo-lhe o primeiro, os maiores elogios e, o segundo, as críticas mais negativas. Esta dualidade de carácter moralista encontramo-la, também, na prosa, embora aqui, ela surja com uma notável originalidade no respeitante à adjectivação, como se pode constatar na obra, Eurico, o Presbítero, 1844, com a qual Herculano funda o romance histórico português, seguindo as pegadas do escocês Walter Scott (1771-1832), a que se seguirão dentro do mesmo género literário, O Monge de Cister, 1848; Lendas e Narrativas, 1851; o Bobo, 1843.

Para além da enorme e rigorosa pesquisa histórica, Herculano denota uma consciência romântica, que terá em Antero de Quental o seu expoente máximo.

São as seguintes, as obras principais de Alexandre Herculano:


POESIA:

A Voz do Profeta, 1836; A Harpa do Crente, 1838; Poesias, 1850.


FICÇÃO:

Eurico, o Presbítero, romance, 1844; O Monge de Cister, romance, 1848; Lendas e Narrativas, 1851; O Bobo, romance, 1878; O Pároco da Aldeia, O Galego, novelas, 1973.


HISTÓRIA:

História de Portugal, 1846-1853; História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, 1854-1859.


TEXTOS DIVERSOS:

Estudos sobre o Casamento Civil, 1866; Opúsculos, 1873-1876.


CORRESPONDÊNCIA:

Cartas, 1911-1914; Cartas Inéditas de Alexandre Herculano, 1944; Cartas de Vale de Lobos, 1980-1981.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

ALEXANDRE HERCULANO E O BRASIL

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA COELHO


No ano do 2º centenário do nascimento de Alexandre Herculano (1810-2010) abordemos as ideias que o introdutor do romance histórico em Portugal tinha acerca da grande nação irmã.

Servem-nos de referência dois artigos escritos pelo autor de O Monge de Cister nos dois primeiros números da Revista O Panorama, datados dos anos de 1837 e 1838.

Pioneiro do intercâmbio entre Portugal e o Brasil, Alexandre Herculano abordando esta problemática, escreve o seguinte no primeiro número da Revista Panorama, de 1837:

“Ainda que hoje vasto império, separado de Portugal, forme por si uma nação independente por todos os títulos, não deixam contudo os brasileiros de ser irmãos dos portugueses.”

Explicando a separação entre as duas nações, o autor das Lendas e Narrativas argumenta do seguinte modo:

“Porque uma grande família não pode viver reunida, segue-se, por ventura, daí, que os membros de que ela se componha, sejam entre si estranhos? Se um filho chegado à idade viril, saiu de sob a tutela materna, deverá sua mãe, amaldiçoá-lo por isso? Neste caso está o Brasil, a sua idade viril tinha chegado. Mais rico do que Portugal; com uma civilização sempre progressiva; produzindo génio, e homens extraordinários, era absurdo ou antes impossível que os seus habitantes deixassem de conhecer que Portugal não tinha jus a tratá-los como colonos. A consciência desta verdade, causou a Revolução do Brasil e a revolução era justa. Nós tentámos a sorte das armas porque o orgulho nacional fora ofendido; mas a sorte das armas nos foi contrária e a independência do Brasil foi reconhecida.”

Depois de explicada a separação entre os dois países, Alexandre Herculano não se coíbe de enunciar os caracteres que unem as duas nações irmãs:

“Esses acontecimentos pertencem já à história; os ódios recíprocos estão extintos e os dois povos ligados por laços de sangue, falando a mesma língua, seguindo a mesma fé; habituados a usos e costumes mui semelhantes, nada mais devem ser do que aliados fiéis e amigos sinceros. A razão, a política, e até a religião aconselham estes sentimentos a ambas as nações.”

De seguida, o autor de O Bobo denuncia algumas atitudes nocivas para Portugal:

“O nosso povo não conhece isto inteiramente [as vantagens da aproximação entre os dois países]; ainda não percebe até que ponto a fraternidade com os seus irmãos de além-mar lhe pode ser vantajosa. Afiguram muitas pessoas o Brasil como um país ainda inculto e bárbaro; crêem que a civilização, as artes e os cómodos da vida são apanágio só dos europeus. Erro miserável que cumpre derrubar pelo pé.”

E as atitudes a tomar para combater essas mesmas atitudes:

“Importa fazer saber ao povo a verdade e destruir preocupações vãs que só servem de transviar o espírito público do que lhe pode ser proveitoso. Nós, pela nossa parte trabalharemos nisto com ânimo sincero de ser úteis aos nossos compatriotas; e das pessoas ilustradas do império brasileiro receberemos quaisquer notas ou rectificações, que tiverem a bondade de nos comunicar, sobre o que escrevemos acerca do seu país.”

Alexandre Herculano enuncia então, os sectores de actividade (agricultura, comércio, navegação e indústria) em que a antiga colónia portuguesa se mostra de uma grande fortaleza:

“O Brasil é uma terra de esperanças. As produções quase espontâneas do seu extensíssimo solo, regado por tantos rios caudais que facilitam o trato do comércio, o tornam independente dos outros povos, ao passo que estes dele carecem para muitos objectos que se têm convertido em necessidades da vida. À sombra de boas leis, e se alcançar a tranquilidade interior, aquele império crescerá cada vez mais em navegação e em indústria; assim o horizonte do seu futuro brilhante não é fácil: (difícil) de compreender.”

Como afirmámos atrás, Alexandre Herculano dedicou um segundo artigo à nação irmã, publicado no nº 2 da Revista O Panorama, em 1838, intitulado “População carácter, usos e costumes dos habitantes, produtos”. Assim, começando por caracterizar o povo brasileiro, escreve:

“Se entre eles se considerarem individualmente os homens das raças diferentes e até opostas, de que a Nação é formada, dificultoso empenho será fazer uma ideia apurada do carácter nacional, cujos principais toques são a vivacidade e a agudeza juntas a certa leveza, que nem sempre a reflexão alcança moderar. Têm comummente os brasileiros notável aptidão para o estudo das ciências e das boas letras e é de esperar «que de futuro venham por esta parte a servir de modelo do Novo-Mundo»”.

É de realçar que, muito antes de Stefan Zweig e outros intelectuais que defenderam que o Brasil seria o líder do Novo-Mundo, já Alexandre Herculano entrevia que o país irmão era a nação do futuro, ao mesmo tempo que, chegava ao ponto de caracterizar os comportamentos de alguns habitantes de regiões significativas como, o paulista, o mineiro, o sergipano e o pernambucano.

Saliente-se que Herculano baseava os seus juízos no livro do bispo de Pernambuco, Azeredo Coutinho, intitulado Ensaio Económico sobre o Comércio de Portugal e suas Colónias, e onde se combate a tese de Montesquieu em que o filósofo francês defende a falta de habilidade e de carácter dos povos de países quentes.

Alexandre Herculano defende os brasileiros, salientando a não existência de racismo no Brasil, quando escreve:

“(…) em nenhuma região do Novo-Mundo são mais bem tratados os pretos; e cumpre notar que as distinções que nascem da cor da pele são no Brasil menos sensíveis do que em qualquer outra parte.”

O conhecimento do autor da História de Portugal acerca do Brasil é de tal modo específico que, termina o artigo que vimos referindo, enunciando as várias produções do subsolo brasileiro:

“ (…) pedreiras de granito nas vizinhanças do Rio de Janeiro; pedreiras de pedra calcárea, de pedra de afiar e de amolar, de lousa, de amianto; pedreiras de mármore no distrito de Sabará; pedras preciosas em Minas Gerais e outras partes do Brasil [mas] tem menos valor que as da Índia Oriental. Platina na Serra de Mendanha; chumbo no Rio de S. Francisco, zinco em Tocayos.”

Relativamente ao ferro, Herculano seguindo as informações do Barão de Eschwege, escreve:

“(…) o ferro é tanto em Minas que teria sido suficiente para abastecer todo o mundo, sem que nunca ali se esgotassem as minas dele.”

Antes de terminar o artigo, Herculano refere sumariamente as espécies vegetais com características medicinais e as que servem para construções:

“(…) é grande a abundância de madeiras para navios, transportes e construções de todo o género”

ao mesmo tempo que, cita a importância da pecuária,

“cria-se naquela região maravilhosa [Pernambuco] grande cópia de gado, sendo o vacum tanto que se matam centenas de bois só para lhes aproveitar o couro”

e da pesca:

“Pelos mares e rios do Brasil vivem cardumes de peixes e as pescarias da Nação podem chegar a grande apuro.”

A finalizar, diremos que, Alexandre Herculano ao escrever estes dois artigos sobre o Brasil, revela uma agudeza de espírito e uma capacidade de previsão, que apenas é exclusivo dos grandes génios. Pensamos assim, que esta é a melhor homenagem que podemos fazer ao Homem, ao Intelectual e ao Historiador, na passagem do segundo centenário do seu nascimento.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

APONTAMENTO DE AGOSTINHO DA SILVA

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA PEDAGOGIA PORTUGUESA

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

“ Em edição policopiada que foi distribuída a professores interessados pelo Centro de Formação Educacional Permanente (CEFEPE) saiu, em língua portuguesa, o artigo de Bonnie Barett Stretch sobre o desenvolvimento da chamada Escola Livre, também frequentemente designada pelos nomes de Escola Nova e Escola Comunitária, talvez menos próprios, visto poderem aplicar-se com mais propriedade a outros movimentos de carácter pedagógico.

Acentuando a sua natureza experimental, marca-lhes nitidamente como filosofia fundamental a de que a liberdade é o bem supremo da pessoa e que o homem, incluindo, naturalmente, a criança, tanto mais se realiza quanto mais livre é, e que só pode dar aborto de gente quem é dirigido, ordenado, manipulado. Por outro lado, e dentro do mesmo critério, não deixa de referir-se ao pensamento de Piaget, o célebre psicólogo de crianças há pouco galardoado com o Prémio Europeu de Cultura, de que brincar é o único assunto sério da infância; ideia que, quanto a nós, ainda deveria ir mais longe; se o trabalho no tempo contado tem sido a base das civilizações, tem sido o jogo, no lazer, o real alicerce das culturas.

O exame que faz da Escola de Santa Bárbara ou da de Santa Fé, uma na Califórnia outra no Novo México, ou da de Harlem, em Nova Iorque, é sempre objectivo, sem que o entusiasmo o arraste, mas também sem que deixe de mencionar os benefícios e sem que ponha em relevo as lições que dão e o muito proveito que tiram de seu estudo e acompanhamento as Fundações e os serviços oficiais de educação. E conclui, nas palavras de Peter Matin: “Alguém deve dar um passo para além das crianças, deve mover-se para além da sua própria alma; ou dar dois passos para além de seus próprios limites para dentro da paisagem de medo e possibilidades que as crianças habitam.” (Agostinho da Silva, Revista “Vida Mundial”, de 19/V/1972, p. 41)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

COMO CONHECI ANTÓNIO TELMO

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

No ano lectivo de 1978/79 fiz o Estágio Pedagógico, numa escola de Setúbal, para me tornar Professor Efectivo.

A orientadora de estágio era uma colega embirrante, com poucos escrúpulos, que não fazia o que apregoava, e que pegava por tudo e por nada, com os seis estagiários.

Um dos meus colegas, havia concorrido para várias cidades do país, onde funcionavam os estágios pedagógicos, e conhecia muito bem dois dos estagiários que, naquele ano, tinham sido colocados em Estremoz, encontrando-se com eles ao domingo.

Assim, à segunda-feira, ouvíamo-lo a contar o que os colegas de Estremoz diziam da benevolência do seu orientador de estágio, e todos lamentávamos não ter concorrido para aquele cidade, quando, inevitavelmente, o comparávamos com as extravagâncias das exigências da nossa orientadora.

Entretanto o ano de Estágio Pedagógico terminou, cada um dos seis professores seguiu o seu nobre caminho e, pessoalmente, a única coisa que retive na memória, foi que o tal colega de Estremoz, que era uma pessoa extremamente humana para com os seus estagiários, se chamava António Telmo.

Alguns anos depois, por aqueles inexplicáveis acasos da vida, conheci dois membros do denominado grupo da Filosofia Portuguesa que, se reuniam em duas pastelarias de Lisboa, à 5º feira à tarde numa da Rua Alexandre Herculano, e ao domingo de manhã, numa outra na Avenida João XXI, a “Munique” se não me falta a memória.

Álvaro Ribeiro e José Marinho já tinham falecido. Dos nomes mais sonantes que conheci então, faziam parte, António Quadros, Afonso Botelho, Brás Teixeira, e outros, a que a memória já não consegue chegar.

De entre eles, havia apenas um que não vivia em Lisboa, mas que, por amor à Filosofia ou ao Filosofar, fazia cerca de quatrocentos quilómetros ao domingo, para vir trocar impressões com os seus amigos. É verdade, vinha expressamente de Estremoz e, chamava-se António Telmo.

Lembra-me que, no dia que me estreei a emitir uma opinião perante tão douta plateia, formulei um juízo acerca da natureza material de Jesus Cristo, considerando-o do ponto de vista material, uma pessoa igual a todos nós, porém, sem negar a divindade da sua natureza espiritual.

O grupo ouviu-me e, em seguida, alguns dos presentes, sem me contradizer ou/e afrontar, deram a sua opinião. Porém, à saída da pastelaria, o António Telmo aproximou-se de mim e disse:

“ – Você hoje, já deu um ar da sua graça, ahn!

Sorri, e cada um foi à sua vida. Encontrámo-nos, posteriormente, algumas vezes naquela pastelaria acerca de tudo e de nada.

Anos depois, comprei e li com agrado o seu livro História Secreta de Portugal.

domingo, 22 de agosto de 2010

A IMPORTÂNCIA DE FERNANDO PESSOA NA CULTURA PORTUGUESA


DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Na biblioteca que tenho aqui no monte alentejano, vim encontrar, escrito numa agenda, o seguinte texto que, por nunca ter sido publicado, faço-o agora, tendo em vista a importância de Pessoa na Cultura Portuguesa.

A pequena entrevista dada por José Blanco ao J.L. nº 980, onde o investigador pessoano anunciava o seu livro sobre os artigos retirados dos media (jornais e revistas) e, posteriormente, a compra e o manuseamento da sua Pessoana, levou-me a fazer uma investigação sobre as referências a Fernando Pessoa e seus heterónimos no nº 983 do J.L., de que passo a apresentar os resultados.

Na p. 2, existem duas referências ao poeta da Mensagem , intitulando-se a primeira, ‘120 anos de Pessoa’, relativa às diversas comemorações a realizar na data, 13 de Junho de 2008, em que se comemoram os cento e vinte anos do nascimento do escritor, e a segunda, ‘Cleonice Berardinelli homenageada’, uma investigadora que tem dedicado a sua vida ao poeta dos heterónimos e cujo cinquentenário do seu doutoramento, se comemora a 17 e 18 de Junho, na Universidade estadual do Rio de Janeiro. Atente-se, então, no nome do colóquio, Meio Século em Pessoa, que comportará quatro mesas-redondas, cujos nomes evocam algumas facetas do poeta: Sou um espalhamento de Cacos; Lisboa e Tejo e Tudo; Deus quer, o homem sonha, a obra nasce; Escrevo meu livro à beira-mágoa.

Na rubrica ‘Destaque’, pp.8-9, dedicada a Bartolomeu Cid Santos (1931-2008), fazem-se duas alusões a Pessoa na introdução ao artigo, a primeira, quando se focam as suas paixões, “a omnipresença de Fernando Pessoa e a poesia”(p.8), e a segunda quando se refere o gosto pela literatura de Cid Santos, “com especial admiração por Álvaro de Campos/Fernando Pessoa”.(p.8). O artigo chama-se ‘Bartolomeu Marinheiro’ e é da autoria de Hélder Macedo. Este, em determinado momento, escreve acerca de Barto, “E fez um retrato de Fernando Pessoa - «Fernando Pessoa Antes de Ser Grande» - como um menino (de nove anos?) com camisa de marujo (emprestada pelo Bartolomeu?)”(p.8), retrato esse que encima a primeira coluna da p.9, onde podemos ver o poeta dos heterónimos pedalando num triciclo.

Das pp. 16 à 23 desenvolve-se o ‘Tema’ deste nº 983 do J.L. que é dedicado a Vieira da Silva. No artigo «Bicho, entre azul e silêncio» da autoria de Maria Leonor Nunes, há a seguinte referência ao autor d’ O Livro do Desassossego, “Gostava particularmente de poesia. Tinha uma enorme admiração por René Char (…) e também por Pessoa e Sophia, (…)”. (p. 17) O ‘Tema’, além de artigos de diversa índole, reproduz inúmeras cartas inéditas. Numa delas, escrita pelo crítico literário João Gaspar Simões e, endereçada a Vieira e ao seu marido Arpad, surge nova referência ao Poeta, “Vou publicar dentro de alguns meses um volumoso livro – Fernando Pessoa – o homem, a época e a obra – estudo biográfico e crítico sobre o grande poeta e o movimento «modernista» em Portugal.” (p. 20)

Na p. 24, inicia-se a rubrica ‘Letras’ e, também nela, vamos encontrar referências a Pessoa. A primeira é da autoria de António Carlos Cortez que, em artigo sobre Bénédicte Houart, intitulado «Desacertar palavras», escreve: “Drummond, mas também Pessoa, que a autora também glosa, promovem um discurso sobre a existência, partindo-se da observação de certos aspectos triviais do quotidiano para reinterpretar, à luz duma metafísica pessoana e duma ironia drummondiana, o mundo que irrompe, misterioso” (p. 24) A segunda pertence a Miguel Real que, em «Três tipos de romance histórico», ao analisar o romance Escola de Validos de Maria João Martins, escreve que esta autora, “polvilha a sua narrativa de «à partes» anacrónicos (citações de ou menções a Haendel, Alexandre O’Neill, Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís …)”.(p. 26)

Na rubrica “Estante”, a propósito do seu livro Já Não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal, quando lhe perguntam a razão do título do livro, responde:” Quando se escreviam cartas de amor (…) havia um certo romantismo que desapareceu. (…) A certa altura o narrador diz que (…) hoje podemos conhecer a letra de Eça ou de Pessoa, o que nos dá mais um dado sobre eles.” (p. 29)

Na rubrica “Ideias”, Guilherme D’Oliveira Martins no seu artigo “A sombra de Montaigne” (pp.38-9), onde analisa a obra de Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (1949-1997), depois de uma referência à revista Orpheu (p. 38), em que Pessoa e os seus Outros colaboraram, cita explicitamente o poeta dos heterónimos, quando afirma que Real situa o pensamento de Lourenço entre nove balizas do universo cultural e filosófico português, uma das quais leva, “ ao modernismo do Orpheu e à decisiva marca de Sá-Carneiro e de Pessoa”. (p. 39)

A última referência a Pessoa, no nº 983 do J.L., surge no artigo “Acordo Ortográfico e ambiguidades” da autoria de Fernando Cristóvão, quando este membro da Comissão Negociadora do Acordo afirma que, “( nem Gil Vicente, nem Camões, nem Vieira, nem Camilo, nem Eça, nem Pessoa…) escreveu nesta «intangível» ortografia que, aliás, sucedeu a outras, e teve uma guerrilha semelhante à de 1990.” (p. 40)

A acompanhar este número do J.L., encontramos o suplemento nº 126, de 4 – 17 de Junho de 2008, do Instituto Camões, onde no artigo “Exposição no Centro Cultural Português do Luxemburgo – Pomar Gráfico”, surge nova referência a Pessoa, quando se escreve que Pomar, “Pintou ainda painéis de azulejo com desenhos de grandes poetas portugueses, como Camões, Bocage, Fernando Pessoa e Almada Negreiros.” (p. 2) Finalmente, no artigo “Parfums de Lisbonne vão ao cinema”, Pessoa é implicitamente tratado quando é referida a revista Orpheu que, como já referimos, foi uma das em que Pessoa colaborou activamente. Assim, pode ler-se: “O cinema continuará a marcar o evento na sessão La poésie fait son cinema: rimes et sons (Dos poetas de Orpheu à nova poesia portuguesa) (…)”. (p. 2)

sábado, 21 de agosto de 2010

ANTERO E JUNQUEIRO FALAM DE HERCULANO





DA MEMÓRIA... JOSÉ LANÇA-COELHO


No ano do 2º centenário do nascimento (1810-2010) de Alexandre Herculano (Lisboa, 28 de Março de 1810-Vale de Lobos, Santarém, 13 de Setembro de 1877), ouçamos o testemunho de dois intelectuais seus contemporâneos.

Comecemos pelo “Santo Antero”, termo com que Eça de Queirós (Póvoa do Varzim, 25 de Novembro de 1845-Paris, 16 de Agosto de 1900) designava o autor das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, e vejamos o que Antero de Quental (Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842- id., 11 de Setembro de 1891) diz sobre a morte do introdutor do romance histórico em Portugal –“é mais do que um luto para a literatura, é um verdadeiro luto nacional” – servindo-nos de um artigo que Antero escreveu no nº2 da revista “Os Dois Mundos”, de 30-9-1877, publicada em Paris, entre 1877 e 1881, por Salomão Sáragga, que esteve ligado às célebres “Conferências do Casino”

Mais adiante, Antero afirma que Herculano é o último representante duma ilustre geração em quem “o forte génio português reverdeceu ainda neste século com uma seiva tardia”, sendo o autor da História de Portugal, “um grande homem (…) representante do génio da sua nação.”

Quanto à estatura ética do autor de Lendas e Narrativas, Antero de Quental escreve: “Na fisionomia moral de Alexandre Herculano, há certas linhas que fazem lembrar o perfil enérgico e simples dos heróis típicos da nacionalidade portuguesa. Pertencia a essa grande linhagem, que acabou com ele – e o seu século, admirando-o, considerava-o todavia com um certo espanto ininteligente, como se sentisse vagamente que aquele homem pertencia a um mundo extinto, um mundo cujo altivo sentir já ninguém compreendia.”

O chefe espiritual da “Geração Nova” continua a traçar-nos o retrato de Herculano, relacionando-o com o período histórico em que ambos viveram: “Não nos cabe a nós ser juízes entre um grande homem e uma época, que tantos aclamam gloriosa, enquanto outros persistem em tê-la por mesquinha. A história (…) dará talvez razão, ao mesmo tempo, à época, que não podia ser maior nem melhor do que as circunstâncias a fizeram, e ao homem nobre e sincero, cuja altiva integridade repugnava invencivelmente a que pactuasse com o abaixamento moral dos contemporâneos, embora tal abaixamento lhe parecesse providencial, preferindo a atitude isolada e austera do protesto e as más vontades que ela provoca nos caracteres vulgares, à influência e dominação alcançada pela conivência com as paixões, os desvarios e os vícios da época.” (sublinhado nosso)

Antero termina a apreciação a Herculano com esta frase que podemos considerar sublime: “Há glórias mais brilhantes e ruidosas: nenhuma pode haver mais pura.”

Notemos de seguida, como o anti-clerical Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, 15 de Setembro de 1850-Lisboa, 7 de Julho de 1923) no popular Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro para 1883, define o carácter de Herculano e, como essa mesma maneira de encarar a vida o conduz ao estado que Camões (Lisboa?, c. 1531-id. 10 de Junho de 1580) contempla na frase, “aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando”:

“Alexandre Herculano é uma dessas figuras esculturais que, antes de desaparecerem em pó, reaparecem em bronze. Ainda vivo, nos últimos anos, adquirira na penumbra heróica do seu isolamento, como que a imobilidade sagrada de uma estátua. Desde o dia em que, velho leão ensanguentado, se retirou de uma luta sem tréguas que durara quarenta anos, para se ir esconder na benigna e pacificante tranquilidade da natureza, desde esse dia em que para quase todos começa o esquecimento, começou para Alexandre Herculano a projecção gloriosa do seu génio – a imortalidade.”

O TRABALHO SEGUNDO AGOSTINHO DA SILVA (II)



DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Na perspectiva do filósofo português Agostinho da Silva, dentro do tema «Trabalho», há que considerar os «Amadores de Coisas», elemento essencial e, assim definido:

AMADORES DE COISAS

“ «O senhor o que é que gostaria de ser?», talvez ele dissesse «Ai, eu gosto muito de guiar carros.» Muito bem. Pronto, gosta de guiar carros, estupendo. Então, entra numa classe que temos de aproveitar no mundo futuro, que é a classe dos amadores de coisas. Há uma quantidade de gente que é amadora de fazer aquilo que a nós, por exemplo, custaria. Mas eles gostam… (…) Há sujeitos que não gostam de fazer coisa nenhuma senão de estar a olhar para ma nuvem. Eu considero esses tipos utilíssimos, porque ninguém sabe o que sairá dali. Não se conta aquela história de que a lei da gravitação apareceu por ter caído uma maçã na cabeça de Newton? Não era obrigatório que o Newton estivesse a estudar Matemática na altura em que lhe caiu a maçã na cabeça… podia estar a dormir debaixo da árvore, ou ter acordado naquele momento, ou qualquer coisa assim, eu sei lá! Quem me diz que a um homem, cujo ideal é estar de papo para o ar olhando para as nuvens, de repente, não se lhe atravessa na cabeça uma ideia? Por que é preciso intuir isso, hem? É que há pessoas que julgam que fabricam as ideias com a cabeça. (…) O facto da ideia ser secreta, ele conhece-a, eu não, dá-me a ideia de que ele é que está, realmente, a pensar com a cabeça dele. (…) qualquer sujeito que já fez versos, ou fez Matemática, ou qualquer coisa assim, sabe perfeitamente que de vez em quando a cabeça é atravessada por um verso.” (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, pp. 16-17.)

Agostinho da Silva afirma aqui, que, não é pelo facto de se estar deitado e olhando o firmamento que, de um momento para o outro, não se possa ter uma ideia genial, facto que pode ser comprovado, por qualquer pessoa que tenha já feito qualquer tentativa de concreto no campo das Letras ou das Ciências.

Um pouco mais adiante Agostinho da Silva disserta sobre a importância das máquinas para a Humanidade, afirmando que para além delas e da já citada, classe dos amadores, existem as pessoas que estão prontas a sacrificar-se pelos outros, e, o serviço civil.

Este último item leva-o a falar da reforma. Assim, depois de se questionar sobre o que é um homem reformado, responde do seguinte modo:

REFORMADO

“ Quer dizer que esse homem cumpriu um certo número de anos de serviço, civil ou militar. A partir daí é dispensado. Acha-se que já contribuiu o bastante para toda a gente comer – e ele próprio -, de maneira que pode ir para casa e terá de comer. É evidente que se aproveitássemos ao máximo todos os recursos que há hoje, ninguém teria de se reformar aos sessenta ou setenta anos, toda a gente se poderia reformar aos trinta, por exemplo, ou aos quarenta…E muita gente já se reforma. Gente que, por acaso, entrou muito cedo num determinado serviço, ou, noutros casos, lhe contaram em dobro o tempo.” (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, pp. 20-21)

É curioso o modo como Agostinho da Silva termina o presente escrito, intitulado «Elogio do Ócio» (pp. 15-21), referindo como a anterior situação se aplica a ele próprio. Assim, revela que, quando ainda era professor de liceu, concorreu para Moçambique, sabendo que o tempo de magistério exercido naquela antiga colónia, lhe contaria a dobrar para efeito de reforma:

“ De maneira que ia-me reformar muito cedo, e como havia muita coisa em que pensava e que queria fazer… uma delícia! Porque me libertavam daquela coisa toda de ensinar latim aos meninos, aí aos cinquenta anos, e eu, de acordo!” (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, p. 21).


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O TRABALHO SEGUNDO AGOSTINHO DA SILVA (I)

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO


Na perspectiva do filósofo português Agostinho da Silva (Porto, 1906-Lisboa, 1994), Portugal deveria passar de país marítimo a país naval, o que, parecendo o mesmo, é significativamente diferente, como se pode inferir da citação seguinte:

PAÍS MARÍTIMO/PAÍS NAVAL:

“Portugal deve passar de país marítimo a país naval. Não é a mesma coisa. País marítimo, pode ser, por exemplo, estar na praia não fazendo coisa alguma. País naval, ter alguma coisa que fazer, inclusive ter como objectivo não fazer nada. Mas é preciso querer nitidamente não fazer nada, não é abandonar-se ao não fazer nada, é não querer fazer nada mesmo! Ter a profissão de não querer fazer nada. Eu só conheci um homem que tinha essa força, (…)”. (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, p. 14)

Já imaginaram o que é «ter a profissão de não querer fazer nada»? Pessoalmente nunca conheci ninguém que a exercesse, pelo contrário, Agostinho da Silva afirma ter conhecido uma pessoa assim, que era reformada desde que nasceu, acrescentando que deveríamos criar uma sociedade que permitisse atribuir esse estatuto a qualquer cidadão, o que em plena época de crise económica a nível mundial me faz esboçar um sorriso.

Por outro lado, é ainda significativo o alerta lançado pelo filósofo, para o perigo de morte que representa a inacção, daí que as duas regras de ouro para a existência, passem por, não trabalhar nunca, mas, pelo contrário, ter sempre uma ocupação. Vejamos, então, o que diz o filósofo a este respeito:

TRABALHO:

“A alegria, a alegria do sujeito… Tinha-se reformado desde que tinha nascido, que era o que nós todos devíamos fazer, estar sempre reformados à nascença… Temos que pensar numa economia, numa sociedade, em que qualquer tipo seja reformado à nascença. E saiba imediatamente, se puder entender, que quem não faz nada morre depressa. E que, portanto, procure naquilo que é, naquilo que sente do mundo, o que é que gostaria de fazer. As duas leis devem ser: «Não trabalhe nunca; por favor esteja sempre ocupado.» (Agostinho da Silva, Ir à Índia sem Abandonar Portugal, p. 15)

(continua)



TESTEMUNHOS DE EÇA E GARRETT SOBRE ALEXANDRE HERCULANO





DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Tendo como pano de fundo o 2º Centenário do nascimento de Alexandre Herculano (1810-2010), julgamos importante divulgar as opiniões dos seus contemporâneos a seu respeito.

Comecemos, então, por Eça de Queirós (Póvoa do Varzim, 25 de Novembro de 1845-Paris, 16 de Agosto de 1900). Para além de duas passagens, uma em As Farpas, que escreveu de início em parceria com Ramalho Ortigão (Porto, 24 de Outubro de 1836-Lisboa, 27 de Setembro de 1915), e outra na novela Alves & Cª, o nosso cônsul em Paris, dedica-lhe um trecho no seu livro Os Maias.

João da Ega, alter-ego de Eça, explicando a Afonso da Maia, o motivo pelo qual não deseja publicar livros, diz: «Não vale a pena sr. Afonso da Maia. Neste país, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano…».

O velho Afonso, também ele um ‘Herculano’, que se desterrou na Beira, abandonando a vida política activa, depois dum exílio em Inglaterra, responde ironicamente que, nem isso, Ega fazia.

Por seu turno, o neto de Afonso, e colega de Ega, Carlos da Maia reforça a ideia ‘vegetariana’ defendida pelo amigo, afirmando: «A única coisa a fazer em Portugal é plantar legumes, enquanto não há uma revolução que faça subir à superfície alguns dos elementos originais, fortes, vivos, que isto ainda encerra lá no fundo.» E se não encerrar absolutamente nada, Carlos, alvitra que nos demitamos do país e «passemos a ser uma fértil e estúpida província espanhola, e plantemos mais legumes».

O irónico diálogo transcrito, encerra os desejos e as frustrações da geração do próprio Eça, equiparando-a aos revolucionários de 1820, aos vencedores de 1834 e ainda aos intelectuais de 1851, diante da tarefa fundamental de «regenerar» um país tiranizado nas suas mais diversas vertentes.

Alexandre Herculano diante desta hérculea tarefa, ensaiara uma reforma cultural, partindo da investigação das fontes historiográficas, combatendo os mitos, - como o exemplo paradigmático do aparecimento de Jesus Cristo a D. Afonso Henriques (Guimarães ou Viseu, 1109?-Coimbra, 6 de Dezembro de 1185) antes da batalha de Ourique, o que lhe valeu graves e profundas diatribes com a igreja Católica -, porém, sem o sucesso esperado, refugiara-se em Vale de Lobos, escrevendo e produzindo azeite.

E a geração de Eça, a de 70, a dos conferencistas do Casino amordaçados pelo marquês de Ávila (8 de Março de 1806-3 de Maio de 1881), que tinham feito? «Os Vencidos da Vida», como os próprios se autointitulavam, tinham simplesmente desistido! Jantavam no hotel Bragança, falavam, fumavam charutos, alguns formavam governo ou emprestavam os seus nomes aos ministérios do rei D. Carlos (Lisboa, 28 de Setembro de 1863-id., 1 de Fevereiro de 1908) e, nem sequer, plantavam legumes!

E já que continuamos na flora vegetal, ouçamos o que diz o companheiro de exílio em França e Inglaterra de Herculano, Almeida Garrett (Porto, 4 de Fevereiro de 1799-Lisboa, 9 de Dezembro de 1854), que desenganado da vida política, não da Regeneração, mas do Cabralismo, escreve nas suas Viagens na Minha Terra (1846): «Plantai batatas, ó geração do vapor e do pó de pedra; macadamizai estradas; fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro (…). Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras (…), comprai, vendei, agiotai.»

Por seu turno, Alexandre Herculano garante em 29 de Outubro de 1851, portanto já durante a Regeneração, em artigo não assinado saído em «O País», jornal fundado pelo historiador, que a nossa «história política é uma série de desconchavos, de torpezas, de inépcias, de incoerências indesculpáveis, ligadas contudo por um pensamento constante, o de se enriquecerem os chefes de partido! (…). Hoje achá-los-eis progressistas, amanhã reaccionários; hoje conservadores, amanhã reformadores; olhai porém com atenção e encontrá-los-eis sempre nulos”.

Curioso é o facto, de ter sido em casa de Alexandre Herculano que se preparou a revolução que, encabeçada por Saldanha (1790-1876), daria início ao período da História de Portugal conhecido por «Regeneração» (1851 em diante).

Por outro lado, Herculano recusou a pasta do Reino que lhe foi então proposta, vindo algum tempo depois a situar-se mesmo na oposição à sua nova situação política, ao contrário do seu amigo Almeida Garrett que, aceitou a pasta dos Negócios Estrangeiros (1852).

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

LIVROS & BANHOS

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DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO


Aqui estou no meu monte alentejano, rodeado de sobreiros e oliveiras, passando o Verão. Já não posso dizer as férias, porque, felizmente, reformei-me do ensino há dois anos. Assim, vou consumindo os dias com leitura (muita), escrita (alguma) e banhos de piscina. Ao fim da tarde, quando as temperaturas de quarenta e tal graus se começam a dissipar, ajudo, apressadamente, a minha mulher na rega do jardim e do pomar, pois é a hora dos mosquitos dos arrozais começarem a picar.

O monte é a minha torre de marfim, retiro espiritual trazido para o universo das Letras pelo filósofo francês Montaigne. Inauguro anualmente a época balnear nos feriados do 25 de Abril ou no 1º de Maio e, depois, sempre que posso, faço duzentos quilómetros para me exilar voluntariamente, entremeando as leituras e a escrita com os banhos semi-quentes, pois a água da piscina é raro o dia que não atinge os 30ºC.

Desde que me aposentei que, entre outras coisas, comecei a numerar os livros que leio, para, no final do ano, ter a noção exacta da quantidade de livros que li. Assim, sei que, em 2008, li 59 livros e em finais de Agosto, tinha lido 39; em 2009, estes dois números, respectivamente, eram 60 e 41; e, neste Verão de 2010, vou com 35 livros lidos. Claro que, o número de livros lidos depende, entre muitas coisas, da quantidade de páginas de cada um. E depois, há sempre os livros eleitos, aqueles que se demarcam subjectivamente dos outros, de acordo com o gosto e sensibilidade do leitor. Isto para além da releitura de clássicos que são do meu total agrado como, Pessoa, Eça e Torga, entre outros.

Em 2008, os livros que mais me disseram foram:

“Boa Noite Senhor Soares” de Mário Cláudio; “Os Pilares da Terra” de Ken Follett; “O Jogo do Anjo” de Carlos Ruis Zafon;

em 2009, os eleitos foram “A Ministra” de Miguel Real; “Nove Mil Passos” de Pedro Almeida Vieira, e, “Mão Direita do Diabo” de Denis Mcshade.

Em 2010, quando estão decorridos oito meses do ano, tenho já como eleitas as seguintes obras:

“Gráfico de Vendas com Orquídea” de Dinis Machado; “Fúria Divina” de José Rodrigues dos Santos; “Carta de Sócrates ao seu vergonhoso amante Alcibíades” de Miguel Real, e, ”Ir à Índia sem Abandonar Portugal” de Agostinho da Silva.

Permitam-me algumas palavras sobre a razão da minha escolha para o actual ano:

embora o livro de Dinis Machado tenha saído há algum tempo só agora tive oportunidade de o ler, Machado revela-se cada vez mais uma voz sui generis na nossa literatura, quem leu “O que diz Molero” sabe bem a que me refiro;

José Rodrigues dos Santos dá neste seu livro uma dimensão do perigo que a Al-Qaeda e Bin Laden representam para o Ocidente;

a obra de Miguel Real é uma reedição, nele o autor dá-nos um Sócrates com uma dimensão a que não estamos habituados e por isso, surpreendente, privilegiando o físico em troco do racional;

finalmente, Agostinho da Silva é uma revelação com as suas teorias sobre a idade da reforma, para além de outras problemáticas relacionadas com a História e a Literatura portuguesas, onde pontificam Pessoa, Camões, Vieira, Camilo, Sérgio, Magalhães Lima, Sampaio Bruno, Teixeira Rego, Leonardo, Junqueiro, Espinosa, D. Dinis, Infante D. Henrique, D. João II e outros.

sábado, 10 de julho de 2010

MATILDE ROSA ARAÚJO

DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO


Conheci pessoalmente Matilde Rosa Araújo em 1979, quando fazia o estágio pedagógico na Escola Luísa Todi, em Setúbal.

A escritora foi então convidada para ir falar aos alunos, e quem a levou lá, foi o meu colega Eduardo, cuja mãe, licenciada em Românicas, era também metodóloga, e amiga pessoal da escritora.

Lembra-me que Matilde Rosa Araújo falou sobre a sua actividade de professora com uma extrema simplicidade, e do seu amor às crianças, que, como Fernando Pessoa dizia, são a melhor coisa do mundo.

Falou, também, e em especial, de um rapaz que conhecera nas suas aulas, e que seguira com toda a sua ternura, ao longo dos anos, até ele se ter tornado um homem.

Lembra-me, perfeitamente, de me ter impressionado, a bondade expressa pela professora/escritora do modo como falou daquele adolescente, que não lhe era nada familiarmente, mas cuja vida ela seguia como se fosse seu filho.

Foi uma verdadeira aula de Pedagogia, a palestra que Matilde Rosa Araújo fez naquele dia para seis professores que, naquele ano lectivo de 1978/79, estavam a fazer o estágio pedagógico para se tornarem professores profissionalizados, e não andarem todos os anos com a casa às costas, e isso quando eram colocados, porque muitas vezes, por falta de vaga, isso não acontecia, e ficavam irremediavelmente desempregados.

Desde esse dia nunca mais vi a escritora, embora continuasse a acompanhar a sua obra literária, uma vez que, poemas e textos da sua autoria, da cerca de vintena de livros que publicou durante a sua vida, continuavam a ser publicados nos diversos manuais que saíam todos os anos.

Por aquelas ironias da vida, em 1989, realizei um dos grandes sonhos da minha vida – publiquei um livro. Chamava-se O Enigma da Gruta, e contava a história do concelho de Oeiras, com particular enfoque no tempo do Marquês de Pombal, que foi o primeiro conde de Oeiras e também o primeiro-ministro do rei D. José I. Curioso foi o facto da concretização desse sonho, derivar da obtenção do primeiro lugar num concurso literário da Associação Portuguesa de Escritores, cujo júri era formado por Maria Alberta Meneres, José Jorge Letria e, Matilde Rosa Araújo.

É verdade, dez anos depois, os nossos caminhos voltavam a cruzar- -se, embora Matilde Rosa Araújo não me identificasse com aquele jovem professor que, uma dezena de anos atrás, a ouvira embevecido falar das crianças.

Anos depois, ouvi Matilde Rosa Araújo na televisão, falar sobre a honra que era terem dado o seu nome a uma Escola.

Mais anos se passaram até ao dia seis de Julho de 2010, quando soube do seu falecimento, numa reunião de leitores da Biblioteca de Carnaxide.

Os livros, sempre os livros! Eles marcaram a minha vida, bem como os escritores que os escreveram como, a inesquecível Matilde Rosa Araújo!

Na NET visite o meu blog de Poesia e Prosa http://cempalavras.blogs.sapo.pt

sábado, 3 de julho de 2010

COUTO VIANA, “A TÁVOLA REDONDA” E MANUEL ANTUNES


DA MEMÓRIA… JOSÉ LANÇA-COELHO

Agora que António Manuel Couto Viana faleceu (Lisboa, 8 de Junho de 2010) – era o único sobrevivente da revista de poesia Távola Redonda – forçoso se torna falar do poeta e da revista de que foi co-director, pois um e outro se confundem na História da Literatura Portuguesa.

Nascido a 24 de Janeiro de 1923, em Viana do Castelo, começou por se dedicar ao teatro, influência da sua família que era proprietária do Teatro Sá da Bandeira, situado nesta cidade minhota, onde representou pela primeira vez e estreou a sua peça Rosa Verde, dedicada à infância.

No teatro, além de autor – O Caminho É por aqui (1949) - e intérprete, foi também encenador – adaptou O Fidalgo Aprendiz, de D. Francisco Manuel de Melo -, e tradutor, nomeadamente, de Sófocles, Moliére e Calderón de la Barca. Além de a Távola Redonda (1950-1954), dirigiu também a Graal (1956-1957), pertenceu ao conselho redactorial de Tempo Presente (1959). Na poesia estreou-se com O Avestruz Lírico (1948). Nos anos 70, a sua poesia passou de um certo neoparnasianismo para um confessionalismo retórico e historicamente datado, como em Ponto de não Regresso (1982), com poemas sebastianistas ou messiânicos que preconizam o regresso à monarquia e lamentam o pós-Revolução do 25 de Abril de 74. Recebeu o Prémio Antero de Quental por duas vezes, em 1949 com O Sossego da Hora e em 1959 com Mancha Solar; o Prémio Nacional de Poesia, em 1965, com Poesia(1948-1963); e, o Prémio da Academia das Ciências de Lisboa, em 1971, com Pátria Exausta.

Em 1988, Couto Viana fez uma antologia de As folhas de poesia da Távola Redonda para o Boletim Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, onde assinala o início da publicação da revista – 17 de Janeiro de 1950 – e o seu corpo redactorial constituído por três directores, o próprio Couto Viana, David Mourão-Ferreira e Luiz de Macedo, o director artístico António Vaz Pereira e, o secretário Alberto de Lacerda.

A revista foi distribuída por “o Chiado lisboeta, a começar pela Brasileira, café de altas tradições culturais, onde ainda se podia dialogar, frente à bica e ao copo d’água, com os quase lendários sobreviventes do Orpheu e da Presença.”, e pelas livrarias da praxe que ele não indica, mas a que não devem ser alheias a Bertrand e a Sá da Costa. No que respeita ao preço e à distribuição, Couto Viana escreve: “Vinha datada de 15 de Janeiro, dispunha-se a sair quinzenalmente e custava 2$50. Distribuíam- -na em Lisboa, pessoalmente (dezenas de exemplares sob os braços corajosos!) os seus mais próximos responsáveis. Na Província, sempre o altruísmo de algum poeta assumia o cargo de seu representante, como em Azeitão e Setúbal, breve em Estremoz, a dedicação e o entusiasmo de Sebastião da Gama.”

Quanto ao aspecto, Viana define-o assim:”Eram oito páginas de papel pardo e grosseiro, vulgarmente chamado «de embrulho», impressas ora a preto, ora a sépia, ora a azul, ora a verde… E ricamente, e profusamente ilustradas (…)”. No respeitante aos colaboradores: “Nenhum nome consagrado assinava a colaboração em verso ou prosa do primeiro número. Todavia, alguns dos poetas presentes haviam já publicado as suas primícias em volume (...)”. Relativamente ao aparecimento da revista, Couto Viana explica: “(…) pelos finais de 1949, um grupo de jovens poetas, ligados por um convívio estreito de amizade e comunhão de ideais estéticos, tomava consciência de que podia oferecer algo de novo e sério à poesia portuguesa. (…) Não lhe eram propícios os recursos financeiros, quase todos os componentes estudantes universitários, sem qualquer independência económica.” Porém, o facto de Couto Viana ter crédito numa pequena tipografia e, o de Vaz Pereira ser capaz de desenhar directamente numa chapa litográfica, determinaram o aparecimento de “Távola Redonda”, que, só não se chamou “Arame Farpado”, porque Afonso Lopes Vieira chamou a atenção de todo o grupo das implicações políticas que tal designação lhes poderia trazer.

Que novidades traziam estas folhas de poesia, numeradas em fascículos, o que lhes permitia escapar a avultada caução e à vexante censura prévia? A revalorização do Lirismo, preconizada por Mourão-Ferreira; as exigências de autenticidade, a criação em liberdade, a capacidade de admirar, criticamente, os nossos grandes poetas anteriores a 1950, sem reservas ideológicas e estéticas.

A “Távola Redonda” durou quatro anos, a que correspondem 20 fascículos que, de quinzenais passaram a mensais e a bimensais, atingindo o preço de 10 escudos, conhecendo três secretários-tesoureiros, editando 63 poetas portugueses, 6 poetas brasileiros, e, em tradução ou no original, poetas belgas, espanhóis, italianos e ingleses, e ainda, um enorme número de ensaios e recensões críticas sobre Poesia.

Em finais de 1950, a “Távola Redonda”editou uma colecção de poesia, cuja primeira série foi dirigida por Daniel Filipe e teve direcção artística de António Vaz Pereira, e publicou autores como, David Mourão-Ferreira, Luiz de Macedo, Fernanda Botelho, Couto Viana, a brasileira Terezinha Éboli e Fernando de Paços. A segunda série, caracterizada por uma “orientação mais larga e composição mais heterogénea” publicou, Carlos Lemonde de Macedo, Henrique Segurado, Luiz de Macedo, Couto Viana e José António Ribeiro.

Ao editar os fascículos 19 e 20, a 15 de Julho de 1954, a “Távola Redonda” cessou a sua publicação, considerando que atingira os seus objectivos “cifrados quase todos numa revalorização do Lirismo como primeiro estádio da criação poética” uma vez que, “os seus mais chegados orientadores não podiam totalmente realizar-se numas restritivas folhas de poesia, já que outras ambições culturais se lhe impunham, lhes ocupavam o espírito criador.”

Aqui fica um poema de António Manuel Couto Viana, datado de 28 de Setembro de 1949:

“Moimento”

Puseram a bandeira a meia-haste

E decretaram luto na cidade,

Responsos, coroas, círios – quanto baste

Para iludir a eternidade.

Teve o nome nas ruas, em moimentos:

«Nasceu – morreu – tantos de tal – Poeta».

Houve discursos graves, longos, lentos.

- Venham todos os ventos

Do planeta!

Rasguem bandeiras, sequem flores; no céu

Se percam orações, paters e glórias

- Tudo isto é dor que não lhe pertenceu –

Destruam as estátuas e as memórias;

Que os discursos inúteis vão dispersos…

- A homenagem a um Poeta que morreu

É decorar-lhe os versos!

Como dissemos acima, são inúmeras as recensões criticas que podemos encontrar nas páginas da Távola Redonda. Uma das que Couto Viana transcreve na Antologia que vimos seguindo é da autoria do meu Mestre na Faculdade de Letras, o Professor Manuel Antunes S. J., um vulto da Cultura e um Pedagogo inigualável, daí que, como homenagem ao Homem e ao Intelectual, se transcreva um excerto retirado do fascículo 8, relativo ao poeta Jorge de Lima:

“(…) O explorador de pálpebras inquietas embarcado sempre na grande aventura da descoberta do ser em totalidade. Aquém e além do imediatamente perceptível o destino do Poeta é navegar. E quanto mais avança menos se satisfaz. Por isso quando outros poetas, com a idade, se detêm, J. de Lima, cada vez mais ousado, cria novas palavras, violenta a sintaxe, refugia-se no símbolo para lograr exprimir uma realidade infinitamente rica que ele pressente mas não chega, de todo, a alcançar.

J. de Lima é assim o Poeta que, a um tempo, rasga e continua a tradição. Como harmonizar esta vontade de ruptura com esta fidelidade fundamental? Pelo seu temperamento, ávido de concreto e ambicioso de soluções totais. A avidez de concreto arraiga no lado sensual da sua natureza; a ambição de totalidade no lado místico. (…)”