O CONCEITO
DE FILOSOFIA DE GILBERTO DE MELLO KUJAWSKI (1929-2025)[1]
António Braz Teixeira
I. Se bem que, como Adolpho Crippa, haja dedicado
também alguma atenção reflexiva ao sagrado e ao mito, Gilberto de Mello
Kujawski não só não fez deles o centro da sua inquirição especulativa como,
tendo no raciovitalismo de Ortega e Gasset e Julián Marías a principal
referência do seu pensar, não acompanhou os autores de Dialéctica das consciências e Mito
e cultura na crítica ao humanismo, havendo feito, como aqueles dois
especulativos espanhóis, da perspectiva antropológica o ponto de partida da sua
meditação filosófica, numa obra que, como a destes, tem privilegiado a
expressão ensaística, sem prejuízo do seu intrínseco carácter sistemático.
Em 1946, no final do ensino secundário, o futuro
ensaísta foi aluno de Heraldo Barbuy, personalidade humana e intelectual que
sempre muito admirou e de cujo círculo intelectual veio a fazer parte[1],
tendo, depois, concluído a licenciatura em Direito e em Filosofia (1955) na
Universidade Católica paulista, em que imperava, então, uma “rigorosa, embora
não inflexível disciplina escolástica” e na qual se destacavam dois mestres de
grande craveira, o paulista Alexandre Correia (1890-1984) e o belga Leonardo
van Acker (1896-1986), de cujo saber conservou admirativa lembrança[2].
Ainda durante o curso, passou a fazer parte do
Instituto Brasileiro de Filosofia (1954), tendo sido um dos fundadores da
revista Diálogo, dirigida por Dora e
Vicente Ferreira da Silva, em cujo círculo participou e a cuja obra e
pensamento dedicou alguns notáveis estudos hermenêuticos, que revelam a
extraordinária admiração intelectual que sempre nutriu por aquele que
considerava “a personalidade filosófica brasileira mais soberba, criativa e
original” do século XX[3] e que
profundamente o marcou.
[1] Discurso sobre a
violência e outros temas, São Paulo, Soma, 1985, pp. 160-169. Do círculo
intelectual de Barbuy, em larga medida coincidente com o de Vicente Ferreira da
Silva, faziam ainda parte, além do mesmo e sua mulher, Belkiss, Vicente e sua
mulher Dora, Eudoro de Sousa, Renato Cirell Czerna, Adolpho Crippa, Milton
Vargas, Diva de Toledo Piza, José Pedro Galvão de Sousa e Jessy Santos, entre
outros.
[2] Perspectivas
filosóficas, Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1983, p. 14, e Discurso sobre a violência, p. 14.
[3] Discurso, pp. 142-153.
