quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

In NOVA ÁGUIA 37: sobre António Ferro...

 

APONTAMENTO SOBRE O VALOR E SIGNIFICADO DA ACÇÃO CULTURAL DE ANTÓNIO FERRO

António Braz Teixeira

Afigura-se culturalmente incompreensível que, decorridos mais de oitenta anos sobre a morte prematura e trágica de Duarte Pacheco (1899-1943) e setenta sobre o desaparecimento de António Ferro (1895-1956), não haja ainda sido reconhecido o papel decisivo que, como Ministro das Obras Públicas (1932-1943), o primeiro teve na introdução da arquitectura moderna entre nós e não tenha sido possível, até hoje, proceder a uma avaliação serena, séria, objectiva e justa da importância da acção cultural que o segundo desenvolveu, de 1933 a 1949, à frente do Secretariado de Propaganda Nacional/ Secretariado Nacional de Informação e, de 1941 a 1949, como presidente da Emissora Nacional (cargo que acumulou com aquele) e o que essa acção teve de inovador e de antecipador ou precursor de iniciativas e realizações que, com meios incomparavelmente superiores, a Fundação Calouste Gulbenkian e outras instituições vieram a levar a cabo décadas mais tarde.

Com efeito, quando, no início da década de 30 do século passado, Duarte Pacheco iniciou a sua dinâmica política de obras públicas, em vez de, como pareceria natural, recorrer aos arquitectos ainda activos, que tinham dominado o panorama arquitectónico português desde o final de Oitocentos (José Luís Monteiro, Adães Bermudes, Marques da Silva, Norte Júnior, Álvaro Machado, Raul Lino, Tertuliano Marques), preferiu entregar os projectos das novas obras a jovens arquitectos modernos da sua geração, como Pardal Monteiro, Jorge Segurado, Carlos Ramos, Cassiano Branco, Cristino da Silva, Cottinelli Telmo ou F. Keil do Amaral, inaugurando, deste modo, o ciclo moderno na história da nossa arquitectura.

Por sua vez, durante os dezassete anos em que esteve à frente do SPN/SNI e dos oito em que presidiu à Emissora Nacional, António Ferro promoveu um amplo, diversificado e coerente conjunto de realizações culturais, no domínio da literatura e da promoção da leitura, das artes plásticas, do teatro, da música, do bailado e do cinema, visando apoiar, tornar conhecida e divulgar a arte moderna portuguesa e a nossa arte popular e a permitir o acesso à leitura, ao teatro e ao cinema do maior número de pessoas, com especial atenção às que viviam fora ou distantes dos grandes centros culturais de Lisboa e do Porto, fazendo dele, embora sem esse título, o maior e mais activo ministro da cultura que Portugal algum dia conheceu, levando a cabo uma ampla, inovadora e diversificada acção de verdadeira “democratização cultural” sem paralelo antes e depois de 1974.

(excerto)