sábado, 11 de março de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31, sobre NÉLIDA PIÑON...

 

LEMBRANÇA DE NÉLIDA PIÑON

António Braz Teixeira

Como foi noticiado pela imprensa portuguesa, nem sempre com o devido relevo, faleceu em Lisboa, em meados de Dezembro de 2022, a escritora Nélida Piñon (1937-2022), que constituiu, com Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), Rachel de Queiroz (1910-2003), Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), Clarice Lispector (1920-1977), Lygia Fagundes Telles (1923-2022) e Adélia Prado (1935) o grupo das mais significativas vozes narrativas femininas da literatura brasileira.

Figura cimeira da geração surgida para as letras na década de 60 do século XX, em que, no plano da ficção, avultam autores como Raduan Nassar (1935), Adélia Prado, Ignácio Loyola Brandão (1936), Moacyr Scliar (1937-2011), António Torres (1940), João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), Sérgio Sant'Anna (1941-2020) ou Chico Buarque (1944), Nélida Piñon iniciou a sua obra narrativa em 1961, com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, dando à estampa, nos seis decénios seguintes, uma dezena de romances, cinco livros de contos e diversos livros de carácter memorialístico, ensaístico e reflexivo.

Largamente reconhecida e premiada no Brasil, em Espanha e em diversos países da América Latina, mas esquecida pelo Prémio Camões (como o foram também Gerardo Mello Mourão, Mário Palmério, Josué Montello, Dora Ferreira da Silva, Lêdo Ivo, Ariano Suassuna, Hilda Hilst ou Ivan Junqueira), a escritora brasileira recém desaparecida, não renegando nunca a sua origem galega, muito presente nos seus romances, especialmente em A república dos sonhos, o seu opus magnum e um dos maiores romances brasileiros do século XX, sempre se reconheceu "filha da língua portuguesa", que, afirmou, "nunca trocaria por nenhuma outra". Não admira, por isso, que a sua pátria brasileira, como a Galiza arcaica, mágica e mítica, e Portugal tenham marcado decisiva e profundamente a sua criação literária e que, simbolicamente, a sua obra romanesca se haja concluído com Um dia chegarei a Sagres (2020), cuja acção decorre em Portugal, durante o século XIX, e cujo protagonista é um camponês nascido perto do rio Minho, que, simultaneamente, separa e une Portugal e a terra irmã da Galiza.

(excerto)