domingo, 19 de março de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31, sobre Pinharanda Gomes...

 

ACERCA DA RELAÇÃO TEÓTICA DA SAUDADE: INTERROGAÇÃO A PINHARANDA GOMES

Manuel Cândido Pimentel

Tendo a coincidir com Pinharanda Gomes ao afirmar «quanto a saudade é problemática, enigmática, senão misteriosa»[1]. Situado numa cronologia de autores que desde D. Duarte têm vindo a refletir sobre este sentimento ímpar, também ele o tomou na problemática, interrogou na enigmática e veio a quedar-se na mais alta visão do mistério sem idade e sem tempo que é o próprio Deus.

O problema substancial que o ocupou diz respeito à questão de saber se a saudade é apenas privilégio do homem; propôs para o enigma uma resposta de tipo antropológico, gnosiológico e cosmológico; e deteve-se no grau superior, já ontológico, já teológico, interrogando-se se a saudade poderá lobrigar-se em Deus. À cifra deste mistério ultimante respondeu negativamente, por reconhecer que a saudade é sentimento humano, coerente com a incompletude do ser criado.

A análise metacognitiva[2] a que submete a saudade a partir do arcaísmo filológico da suidade leva-o a entender que o sui reenvia para a solitate, no sentido radical da solidão do eu, um fenomenológico solus ipse que propõe a natural posição do ser suidoso enquanto singularidade que está aí no isolamento de um cosmo que, no entanto, tem de característico tocar, por paredes meias, o infinito de uma transcendência amante e amável.



[1] Pinharanda Gomes, «Saudade e Ser», in Pensamento e Movimento, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1974, p. 17. O adjetivo «teótico», do antigo grego théosis, que significa divinização ou deificação, subsiste, por exemplo, em apoteose (apothéōsis), o ato de deificar, de elevar ao nível dos deuses. Por teótico se deve entender o que tem relação com o divino e que diz respeito ao divino, adjetivando-se teótica a relação dos saudosos com Deus e da saudade em Deus, sendo esta a relação dita por excelência, última e primeira na ordem das essências às existências.

[2] Ela é antropológica em primeira instância, mas com consequências a um nível gnosiológico, o que permite dizer que da reflexão filosófica de Pinharanda é suscetível desentranhar-se uma fenomenologia da saudade, num certo sentido complementar à de Joaquim de Carvalho, mas que, no autor de «Saudade ou do mesmo e do outro», remete para uma antropologia, que lhe serve de antecâmara. Ela transita do radical sui para um eu que promove e quer a companhia de outros eus ou mónadas solidárias. A saudade seria assim o vínculo de um à alteridade de outros.

(excerto)