domingo, 5 de março de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31: sobre Manuel António Pina...

 



A CASA DO SI PRÓPRIO: UMA LEITURA DA OBRA POÉTICA DE MANUEL ANTÓNIO PINA

António de Carvalho Pais

O eu surge com a consciência que se descobre a si mesma e, assim voltada sobre si, na posse da expressão da linguagem, naturalmente se interroga “Quem sou eu?” ou, com uma inquietação não tanto existencial quanto metafísica, “O que sou eu?”. Uma interrogação só devida ao pensamento que nela se desenrola incessantemente no seu modo essencial de reflexividade. São as palavras que dizem o eu através da sua diferenciação que o singulariza face ao outro, dado pelos inúmeros objectos intencionados pela consciência. Fundamentalmente, está-se perante um problema prático de constituição de sentido pela aplicação de conceitos. O eu terá o sentido dado simbolicamente no arranjo semântico que melhor lhe corresponde. Quer-se dizer, sendo o pensamento e a sua expressão partes integrantes da consciência, que ela mesma dirige, o questionamento do eu é um solilóquio em que esse que é (com toda a certeza que resulta da evidência cartesiana de que alguma coisa pensa) diz para si mesmo quem é. Mas quem melhor do que o próprio para se identificar? Quem melhor do que ele para dizer quem ele mesmo é? Uma consciência certa de si é sem mistérios; logo que se dirija a si, que traga à sua presença a própria consciência, tem acesso imediato ao que é em si mesma e ao que a distingue de outros objectos da consciência. Por isso, nada mais óbvio do que o eu, dado por esse que sem reservas se pensa a si próprio, ser transparente e mostrar o seu verdadeiro sentido.

(excerto)