segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Na NOVA ÁGUIA 31: sobre Gustavo de Fraga...

 

GUSTAVO DE FRAGA E JOSÉ ORTEGA Y GASSET[1]

José Esteves Pereira

1. Gustavo de Fraga (1922-2003) construiu uma obra fundamental sobre o pensamento europeu contemporâneo com particular incidência no campo da fenomenologia tendo na sua demanda especulativa prestada atenção reflexiva ao pensamento de José Ortega y Gasset (1883-1955) desde logo na sua obra De Husserl a Heidegger. Elementos para uma problemática da fenomenologia, de 1966,até á meditação sobre inúmeros problemas, nomeadamente sobre o destino da Universidade que atravessa as páginas de Fidelidade e Alienação publicado em 1977.

A obra De Husserl a Heidegger, dissertação de doutoramento de Gustavo de Fraga, constitui para o seu colega na Universidade de Coimbra Alexandre Morujão “ um denso estudo em que se põe em evidência a abertura da fenomenologia a uma direção metafísica pela via da interioridade e onde, pelo confronto entre Husserl e Heidegger, se mostra o prolongamento da fenomenologia para além de Fichte e Hegel, na linha influenciada pelo pensamento de Dilthey” (Morujão, 1990, col. 701). A menção que o pensador açoriano virá a fazer a Ortega y Gasset na sua argumentação doutoral incide, precisamente, no liame especulativo do filósofo madrileno a Wilhelm Dilthey (1833-1911) citando para tal efeito Kant, Dilthey, Husserl dada a lume em Madrid em 1958.

Quanto ao aproveitamento crítico que Gustavo de Fraga realizou da obra de José Ortega y Gasset importa, a meu ver, não perder de vista o que um e outro pensador dedicaram às múltiplas questões que envolvem a crise do pensamento ocidental particularmente no campo da fenomenologia. Embora bastante separados geracionalmente não se pode esquecer a importância orteguiana no investimento da fenomenologia em Espanha e no espaço cultural sul-americano. Em todo o caso, o encontro mais demorado de Gustavo de Fraga com o pensamento de Ortega y Gasset teria lugar, sobretudo, no âmbito do tema do homem em sociedade no domínio da antropologia filosófica.



[1] O presente texto foi apresentado no Colóquio Gustavo de Fraga: Pensamento e Legado, realizado em Ponta Delgada pelo Centro de Estudos Humanísticos da Universidade dos Açores, a 3 de Novembro de 2022.

(excerto)